Neném Calabar

Posted on 20/08/2010

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Canabrava mudou muito. Canabrava era bem melhor. Quer dizer… A gente fala “bem melhor” na questão de você se divertir como criança, brincar como criança. Canabrava hoje cresceu na infraestrutura, não da prefeitura, mas das próprias pessoas e no número de gente. Na questão do ônibus, melhorou um pouco – deixa a desejar muitíssimo -, mas melhorou. Cresceu na questão do transporte, da iluminação cresceu. Deixa a desejar, mas cresceu! Na questão da água: temos água encanada. Antigamente não tinha nada disso, mas a gente se divertia muito mais do que hoje.

Tinha muita bola. Como o futebol é uma coisa de pobre… Na verdade, não é dizer que não seja uma coisa de rico, mas é por que todo mundo pode jogar, só precisa ter uma bola e um local. Aí tinha muita bola, muita gente jogando bola. Alguns até acessaram o Vitória, o Bahia e tal. Era muito futebol. Dia de domingo, todos os caminhos levavam ao campo ou ao rio. Essa era a questão. Depois, com o tempo, surgiram festas, eventos dentro da comunidade. Hoje é diferente. Temos espaços para eventos. Mas não teve nenhum marco histórico que podemos exaltar. Futebol era um marco. Não temos jogador famoso, mas tem gente que jogou no Bahia e no Vitória.

Músicos, temos muitos, vários. Everaldo Carneiro, que já tocou no mundo. Tem João Teoria, que é um grande músico, tocou com Ivete, tocou com um monte de gente. Na área de harmonia, outro na área de percussão. Tem muita gente que toca. Tem muito músico de percussão.

Bicho da Cana
A ideia do Bicho da Cana surgiu naturalmente. A gente teve a ideia de criar um grupo com o nome da comunidade. Que a comunidade escolhesse. Que a comunidade decidisse como seria feito. Esse nome foi criado por Carlinhos, que é conhecido como Bacurau. Ele deu a ideia do nome, nós colocamos em votação. Foram quatro nomes e o mais votado foi Bicho da Cana. Daí, do surgimento do grupo, que era um movimento especificamente de rua – hoje é centralizado aqui nesse espaço, mas antes era na rua -, a gente conseguiu som de uma pessoa, colocou na rua e aí foi crescendo, crescendo, crescendo. E já que tínhamos tempo e intenção de ensinar as crianças a aprender a tocar instrumentos, como não tínhamos dinheiro para comprar os instrumentos, usamos materiais recicláveis. Os meninos começaram a tocar e trouxemos mais músicos e daí fomos crescendo. Registramos o grupo, para ter poder de pedir. Alugamos o espaço. O cara colocou a gente para tocar aqui, por que tinha muita gente, e estava fechando a rua. Aí, o cara viu que a ideia era lucrativa para ele, cedeu o som e o espaço.

O ensaio era de porta aberta, mas como ficava muito cheio, com muita gente, resolvemos cobrar uma taxa mínima que viria manter o projeto, a aula de dança, a aula de percussão. Já que as pessoas trabalhavam para se sustentar, ainda ter que manter um projeto, ficava complicado. Então foi crescendo essa ideia do Bicho da Cana. Passamos a cobrar R$0,50 e mesmo assim continuava muito cheio. Passamos a cobrar R$1,00 e continua cheio. Estamos na ideia de cobrar mais de R$1,00, porque dá muita gente, muito carro. Não é a questão de excluir as pessoas da comunidade. Algumas pessoas não pagam para o Bicho da Cana. As pessoas que não têm condições não pagam. Uma boa parte das pessoas não pagam o ensaio, até porque a gente sabe que não tem condições.

A cultura foi crescendo e fomos revelando vários meninos, que hoje tocam em bandas grandes. Hoje, o Bicho da Cana é um marco na comunidade de Canabrava em todos os lados. O Bicho da Cana faz o movimento social, ajuda a comunidade. Todo mês dá três, quatro, cinco cestas básicas. Estamos sempre fazendo a nossa parte, que é pouca em relação à carência da comunidade, mas a gente sabe que fazemos a diferença dentro disso. Aí, cresceu. Muita gente veio: imprensa, Regina Casé, Central da Periferia, TVE, vários outros, da Argentina, Alemanha, França, tudo quanto é gente, de todas as raças já participaram do ensaio. Já veio aqui Martinália, além de alguns artistas da música brasileira, Márcio Vitor, entre outros.

Religião
Olha, eu acho que a maioria hoje é católica, ainda é católica não praticante. Mas tem uma boa parte que é cristão aqui na comunidade, uma boa parte. Cresceu muito a comunidade cristã na comunidade. E o candomblé acho que vem em segundo lugar. Em segundo, não, vamos dizer que o candomblé vem em terceiro. As pessoas que são católicas não participantes vão para o candomblé. Não que sejam do candomblé, mas vão assistir, quando tem festas, essas coisas batidas, eles vão. A maior parte aqui é católica. Depois da católica não praticante vem o pessoal cristão. Tem muita igreja aqui. Eu acho que um dos bairros periféricos que tem mais igrejas protestantes é esse daqui. A gente contou. Se não me engano, tem 16 ou é 17. Não sei, 18… Acho que 22, se não me engano. São seis terreiros. Terreiro mesmo, fixado, fechado, com aspecto de terreiro, com espaço para terreiro, são cinco. Aí entra mais um: é uma casa, mas bate. Aí são seis. Em relação ao número de igreja, não chega nem perto. Igreja católica só tem uma. Mas geralmente cada bairro só tem uma mesmo, não é? Protestante tem 20, se não me engano, ou são 22.

A questão da crítica com as igrejas existe de pessoa para pessoa. Às vezes a pessoa não era cristão e passou a ser e passa a ver algumas pessoas com diferença. Mas a gente do Bicho da Cana procura não entrar nessa vertência. A gente senta com o pessoal, chama o pessoal para uma conversa. O ensaio do Bicho da Cana só começa às 8h porque tem duas igrejas na frente e a gente senta com os pastores, conversa. O culto dele termina mais cedo, para que a gente possa começar o ensaio. Por exemplo, a gente começava mais cedo, tá começando mais tarde, e eles terminam mais cedo. Houve um acordo e respeito também, porque a gente sabe que, quando o som começa a tocar aqui, atrapalha lá. Então, para que não atrapalhasse, a gente sentou e resolveu essa questão.

Quando a igreja pede o som, a gente cede o som do Bicho da Cana, independentemente de que igreja for. Eles têm um evento e precisam de um palco, alguma coisa que nós temos estrutura, a gente cede para eles. Outras igrejas não falam nada, não pedem nada ou algumas não entram aqui. Outras até entram, os filhos entram, a gente não tem essa… Claro que existem algumas igrejas que acham que aqui, porque tem festa, porque tem dança, acham que, na versão deles, é lugar do Satanás, alguma coisa assim. Sei lá o que é que eles pensam. Mas muitos entram aqui. Fazer o que? Cada um tem a sua religião.

Acho que deveria ter um respeito religioso que falta. Essa intolerância religiosa  existe muito nas pessoas. Respeitar as religiões dos outros, independentemente que seja do candomblé, que seja do católico, ou que seja protestante. Mas existe, infelizmente, existem as críticas de religião para religião. A gente não sofre muita crítica em relação a isso não.

Som alto
A única coisa que é boa e é ruim é que tudo que tem em Cana Brava tem que ter o Bicho da Cana. Em alguns momentos é bom, em outros, não. Às vezes, quando o ensaio do Bicho da Cana acontece aqui, aos domingos, dá muita gente, muito carro de fora, muita gente de fora. Aí, depois do encerramento do ensaio, o pessoal abriu o som aí fora e a gente teve que… A comunidade chamou a gente, como se a gente fosse polícia para resolver. Porque isso era uma questão policial. Aí eu tive que ligar para a  Sucom e a Sucom mandou a polícia. Só que a Sucom veio ao Bicho da Cana e pediu que o Bicho da Cana fosse resolver a questão. Eu digo: “Não. A questão não é do Bicho da Cana. É uma questão policial e a fiscalização é da Sucom”. Se a zoada que tem aqui tem um limite, e esse limite não afeta a comunidade… O que foi que a comunidade disse? O que a comunidade falou? Como é que a gente tem que resolver o problema que é aí fora? “Ah, mas esse número de carros tá aqui aos domingos por causa do Bicho da Cana. Então quem tem que resolver é o Bicho da Cana”. Ele transferiu um problema que é dele para a gente resolver. Só que a gente fez o seguinte: tudo bem, claro que ele tem o poder de dizer que não vai ter mais ensaio e não ter mesmo. A gente fez várias placas “Proibido som de carro”, botamos ali. “Proibido som de carro – Sucom”, como se fosse a Sucom que falou. Na primeira semana, um bocado de carro. A gente foi lá. Contratamos um segurança, o segurança foi lá, numa boa, sem criar problema. A gente também conversou e os caras fechavam os carros, baixavam. Na segunda semana, baixavam. Quando os caras viram que aqui não podia ter o som alto, parou. Pelo menos disso a gente ficou livre. Mas era muito carro disputando som aí. Ficava até 2h da manhã.

Realmente atrapalhava a comunidade. Era um problema causado pelo Bicho da Cana, mas a culpa não era do Bicho da Cana. Em parte, sim, que a gente tem que entender que era, que é por causa do ensaio, e, em outra parte, o problema era policial. Tinha que colocar uma viatura aí quando acabasse o ensaio, que a multidão sai. A viatura ficava lá olhando os caras e mandava os caras baixarem o som deles e acabou. Mas a gente conseguiu. Até contando isso, a galera entendeu que, se continuasse, que a gente não ia poder mais ensaiar. Aí, aí graças a Deus, a gente não está com esse problema aqui.

Amor ao bairro
Eu não tenho nada contra Canabrava. Para mim, é ótimo morar aqui. Apesar de todas as dificuldades, eu ainda continuo dizendo que Canabrava é um bairro ótimo de morar, em relação ao que eu conheço das outras comunidades e que vejo falar. Sei que Canabrava tem um índice de tráfico grande, muitos jovens envolvidos, talvez por falta de políticas públicas para que possa está colocando entendimento dentro desses jovens né? Tem muitos problemas em relação a infraestrutura, mas eu não troco Canabrava pela Barra não. Sinceramente.


Infraestrutura
As ruas que têm asfalto aqui são poucas. Essa aqui, principal, a principal de lá do ônibus, e algumas ruas aqui. Mas as ruas que têm, foram os moradores que compraram o asfalto. É como eu digo: “A prefeitura ainda não entrou em Canabrava até hoje como deveria ter entrado”. Canabrava não tem rede de esgoto certo. A maioria das casas têm fossas e Canabrava não tem uma estrutura de iluminação. Os postes estão iluminados, mas seriam mais postes para ser uma iluminação de qualidade. Não é uma iluminação ótima, entendeu? Essa questão da prefeitura aqui em Canabrava deixa a desejar muitíssimo.

O ônibus… Tem transporte, mas não é… Tem os seus horários, mas as comunidades reclamam muito da questão do transporte. A educação de Canabrava é precária. Por isso que tem muitas bancas. Se não fosse as bancas, imagine o que aconteceria. E as escolas de Canabrava, estruturalmente, deixam a desejar.

Para tirar dinheiro, só na cidade ou em Porto Seco Pirajá. Para fazer pagamento de alguma coisa, só na cidade, por que aqui não tem nada! O que tem muito aqui é lan house. Tem umas quatro ou cinco. As pessoas acessam e buscam informação por aí. Virou mania agora. Uma boa parte tem computador em casa, quem já arrumou algum esquema tem! Muita gente tem acesso a internet aqui. Mas a maioria dos meninos tem por causa das lan houses aqui. Quase todo mundo sabe! Virou uma mania, esses meninos não sabem nem escrever direito, mas já sabem acessar a internet. Uma boa parte deles acessam.

A estrutura das casas vai do local onde moram, como moram e tal. Tem uma boa parte aqui, que as condições de moradia deixam a desejar. É muito precária! Muito, muitíssimo mesmo!!! Condições de moradia, condições de limpeza, condições de saúde… É precária, mas a maioria que mora aqui em cima não mora tão mal. Quem mora mais na baixada é que mora complicado. Algumas casas de madeira, pouquíssimas casas de barro, mas, uma boa parte, de madeirite e material reciclável. Na primeira, tem muita casa assim. Tem uma parte chamada Recanto Verde. Não sei se você já ouviu falar. A maioria das pessoas moram onde era o lixo. Não pode cavar para fazer de bloco, porque vai afundar, aí só tem casa de madeirite. Praticamente as pessoas moram onde jogava o lixo e aí todo mundo mora em casa de madeirite e material reciclável.


Convivência
Falam muito da vida dos outros. A verdade é essa. Agora, quando a gente fala… Seja eu ou uma outra pessoa da comunidade que conhece, que tenha algum respeito dentro da comunidade, um respeito até dos próprios traficantes, ele vem e conversa com você, se tiver alguma coisa e tal. Se tiver alguém de alto porte aqui, e vier muita gente de fora, a gente vai lá e conversa com a galera. “Na paz, não se preocupe, que se sabe que ali não tem problema”. E não tem problema aqui. Você pode vir para o ensaio aqui, você vai curtir aqui até não querer mais. Ninguém briga, não tem problema aqui dentro do espaço. Não existe problema de galera que faz e acontece. Eles vêm aí. Aliás, nem vêm os grandes, nem vêm. E quem vem, mais os outros, não bagunçam. Se bagunçar ou pensar em bagunçar, a gente chama um, conversa, e no outro dia acabou. Não tem problema, chama ele a atenção. Nem existe esse problema aqui. Até hoje não tem. Então, a gente não tem problema com eles, mas o que é preciso é ter as políticas públicas para está mudando essa questão da saúde, tem que melhorar e muito.

Educação e juventude
A educação… Ave Maria! Poderiam contratar as pessoas da comunidade para ensinar, porque há uma falta de vontade… Eu sempre comento, sempre enfatizo essa questão. Primeiro o governo, depois os professores – eu acho que são culpados, sim, em parte – e depois vêm os pais também, que não fiscalizam. Mas os pais não tiveram educação, não entendem o que é educar os filhos. Acho que deveria criar em cada escola uma sala, uma psicóloga, uma… Como é que fala? Além de uma psicóloga… Uma sala só para estar conversando com aqueles meninos mais problemáticos, mais complicados, para estar avaliando as crianças, para estar avaliando os meninos e dando uma informação para esses meninos. Para dizer assim: “Olha, rapaz, não é assim que faz na escola, não é assim que se cuida da escola”. Porque é complicado. Não é só em Canabrava não, na maioria das escolas.

Tem muito menino complicado! O índice de assalto, dentro da comunidade de Canabrava, é baixo. O índice de crimes dentro da comunidade é baixo em relação a outros bairros. Quando morre alguém aqui, geralmente, foi por causa de tráfico, entre traficantes. Mas o índice é baixo dentro da comunidade de Canabrava. O que é alto na comunidade de Canabrava é o número de usuários. No futuro, pode começar a crescer o índice de assalto, de roubo, por causa da necessidade das drogas. Aqui o que se usa mais é maconha e cocaína. Aqui, os meninos usam cocaína parecendo até que é farinha. Eu não sei como é que eles fazem para comprar, porque cocaína é uma droga cara, né? E o índice é alto. De meninos e meninas. Os meninos então! De 12 a 13 é altíssima. Eu não sei se as meninas se prostituem para usar drogas. Mas eu não vejo falar que elas se prostituem aqui na comunidade, não. Deve ter. Eu nunca ouvir falar. Mas deve ter!


Adolescência

O rio foi aterrado. Virou esgoto na verdade. O Rio do General, com a construção do condomínio, virou esgoto. Era o rio que distraía o nosso domingo. Em vez de ir para a praia, ia para o rio. Ôxe! Ver as meninas de biquíni lá no rio era só alegria. Tomar banho de rio o dia todo. Era melhor que ir para a praia, não é? Tinha o Rio Sepéu, que era lá na frente, e tinha outro lá atrás. O rio que você poderia tomar banho e pescar, hoje, não presta. Eu vim para aqui com 7 para 8 anos de idade. Eu vi o crescimento de Canabrava. Da primeira e da segunda. Da primeira, lá na Cesta do Povo, lá na frente. Eu morava lá. A segunda etapa é onde fica o posto. É essa parte de cá. E o fim de linha, que chama terceira etapa, lá no canto onde o ônibus pára. Aqui, onde a gente está, é o loteamento Três Mangueiras. Alguns chamam aqui de Boliviano ou Loteamento Três Mangueiras, mas é um loteamento só.

Conheço tudo. As meninas que cresceram, que namoraram, como eram, onde a gente passeava, onde namorava. Tudo isso aí foi aqui. Foi uma adolescência boa. Agora, claro, que é diferente de você estar no centro. O que tinha no centro para o que tinha aqui… Para você se divertir, tinha que ir, saindo tudo junto, para ir para os ensaios de bloco: Araketu. Ilê Aiyê. Tinha que ir para a cidade. Mas aqui é bom demais em relação ao resto da cidade. Foi boa a minha adolescência. Eu considero boa em relação a de muitos aí. Apesar da falta de estudo. Poderia ser até melhor. Porque não tive condições. Para eu estudar da 5ª a 8ª série, eu tive que ir para Sete de Abril. E para concluir o 2° grau, tive que ir para o Severino Vieira, que já era em Nazaré.

Na minha adolescência, só me arrependo de ter feito filho cedo. Meu filho mais velho tem 21. Então, na adolescência, a questão só de ter engravidado cedo, porque eu não sabia. Não tinha noção do que era isso. Eu tinha 18 ou 19 anos. Aí veio Elaine. Depois, Calabazinho, que tem 19 anos, e, por último, vem Luquinhas. Mas Luquinhas veio depois de 7 anos já. E, aí, é de uma mulher diferente. Tem esse problema todo. Só que eu casei e tal. Sou casado há 15 anos já. Fui casado e depois de alguns anos vêm os filhos. A gente já vai mudando a ideia, a maneira de agir. Vou fazer 41, tenho 40 anos. Sou de 66. Nasci em 30/12/66.


Neném por ele mesmo
O Neném Calabar é… Eu já treinei no Vitória. Joguei no Vitória como lateral direito. Treinei no Bahia também. Nove ou oito meses. Mas eu deixei de treinar no Bahia porque no time fica um pouco difícil para você passar. Os caras queriam bater, fazer e acontecer e eu ficava medo. Os caras tomavam chuteiras e tal aí deixei de treinar no Bahia. E no Vitória treinei um ano e pouco. Depois, eu desgostei dessa questão de futebol. Mas, aí, eu jogava em um time aqui no bairro e o nome do time era Jamaica. Pelo fato do nome do time ser Jamaica, cada um tinha um jogador, tinha um apelido jamaicano, ou vindo da África. O time era Jamaica e o nome dos jogadores tinha que ser vindo da África. Aí tinha Neo Gangazumba, Vavá da Nigéria, Coco Bambu, cada um tinha um nome. E eu fui “Neném Calabar”. Segundo eles, Calabar foi um dos… Dizem que foi traidor, foi na época de Zumbi, onde estava o quilombo e tal. Eu não me lembro muito bem essa história não! E aí ficou como Calabar. Tinha outro que era “não sei o que” Zumbi. Tinha nomes de marcos na história africana e no Brasil e dos próprios africanos.

Meu nome é Derivaldo Matos. Não tem nada a ver com Neném e nem Calabar. Totalmente diferente. Agora, só me conhecem como Neném Calabar. Poderia ser Neném Canabrava, né? Ficava até mais fácil, porque eu moro aqui em Canabrava. Sei onde é o Calabar, mas nunca fui assim exatamente dentro do Calabar. Porque Neném Calabar se nunca fui no Calabar? Poderia ter morado no Calabar, não é? Mas nem morar no Calabar eu morei e aí pegou e já era. Depois que pegou, para sair… Agora é muito difícil trocar de Neném Calabar para Neném Canabrava. Tem gente que nem me chama de Neném, chama de Calabar. Já era. Já foi. Virou marca. Eu não tenho nada contra o nome, não acho um nome complicado não. Até gosto quando me chamam. Outros me chamam de Derivaldo. Eu digo: “Não, pode chamar de Neném! De Calabar!” Não gosto muito do meu nome não, mas do apelido eu acho legal.

Samba-de-roda
Tem mais de 19 anos de nome. Essa questão da música serviu para fixar o nome Calabar. Participei do festival de música Ilê Aiyê e concurso de música. Já participei da escola de música do Olodum, da escola de percussão da Didá. Toco um pouquinho e canto também. Aqui no Bicho da Cana, só canto. Toco alguns instrumentos, porque conheço. Aqui, é só samba-de-roda. Faz alguma coisa de MPB, mas a linha mesmo é samba de roda. Porque, na verdade, eu vim de samba duro, samba junino. Sabe o que é samba junino? Eu vim de samba junino e depois a gente passou para o pagode, que estava num sucesso bom danado, com o grupo que tocou na Bahia e até em outros estados. Cantava o pagode que a galera canta hoje. Só que, depois, eu vi que esse negócio de música não vai muito. Não dá para sobreviver. Comecei a trabalhar em empresas e viver a vida, constituir a vida. E quem já constituiu a vida, a coisa vai mudando, né? E quando a gente vê que música dá e às vezes não dá, tem que trabalhar mais. Aí, o dinheiro acabou e depois de muito tempo a galera teve a ideia de criar o Bicho da Cana.

Primeiro formou um grupo e depois veio o nome Bicho da Cana. A maioria das pessoas já faziam outras coisas. Um já era músico em outras bandas. E com a ideia de tocar em outras bandas, houve a ideia de criar o Bicho da Cana, mas fazendo coisas diferentes do que a gente fazia. A gente tocava pagode, tocava axé. Daí, decidimos fazer uma coisa que a gente não faz. O que é que a gente não faz? O samba-de-roda e samba duro. Foi aí que veio a criação dos projetos e foi se aprofundando e fomos crescendo. O Bicho da Cana é o único samba-de-roda daqui dessa região. Tem vários grupos de pagode, vários grupos de partido, várias bandas de reggae, mas samba mesmo só tem Bicho da Cana. É diferente do que a gente está acostumado e diferente do que toca na mídia. Talvez seja mais forte por esse motivo.

O público de Canabrava, na verdade, é um público de pagode, porque é uma coisa que está mais na mídia, e samba chega mais para o gueto. Tem várias tribos aqui dentro. Tem uma galera que só gosta de rock, de pop, de axé, mas a maioria aqui é pagodeira. Mas a gente conseguiu o apoio da comunidade. Samba-de-roda e cantar algumas músicas de pop em estilo de samba e conseguiu fechar o público. Tem um público considerável. Quando a gente vai tocar fora, Canabrava desce atrás. Se for por aqui em Salvador, a comunidade desce atrás. A gente não fala “a galera”, a gente fala “a comunidade” porque é uma questão, assim, mais forte. A comunidade desce para curtir o som do Bicho da Cana. E, além disso, a gente não deixa de ensaiar: dia de domingo, 20h30.

Entrevista realizada em novembro de 2007

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