Josué Firmo

Posted on 11/07/2008

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Em seu depoimento, Josué Firmo dos Santos nos conta a saga dos moradores de Jaguaripe II. Desabrigados pelas chuvas de 1989, receberam do governo pequenos casinhas numa área distante, sem luz, asfalto ou água encanada. Para enfrentar tantas dificuldades, o pedreiro Josué acabou se tornando também um importante líder comunitário, presidente do Conselho de Moradores de Jaguaripe II (Comorja II).

 

 

Jaguaripe II nasceu dos ex-desabrigados das chuvas de 1989. Na época, nós fomos vítimas das enchentes, dos desabamentos que vitimaram centenas de pessoas aqui em Salvador, e milhares ficaram desabrigadas. Mais de 2 mil pessoas ficaram desabrigadas.  Eu morava na Calçada, ao lado do plano inclinado. Lá foi uma das áreas atingidas, onde teve famílias que morreram quase todos e muita gente ficou desabrigada. Só lá na nossa comunidade foram aproximadamente 80 famílias desabrigadas.

Na época as pessoas ficaram abrigadas em colégios, creches, centros sociais urbanos, enfim, todo lugar que poderia abrigar essas pessoas. Naquele momento, o pessoal foi ficando através de associações de bairros daquela localidade, negociava com as escolas, enfim… E a gente foi abrigado nesse local até a prefeitura resolver o nosso problema. Nós ficamos numa associação que funciona na área mesmo ali da Calçada, entre a Liberdade e Calçada, associação dos moradores da área do Queiroz.

Na época, quando aconteceu o acidente, eu tinha uma filha e Ana estava grávida. E por pouco não aconteceu uma tragédia com ela e as meninas. Porque a nossa casa foi atingida pela força das terras, barrancos que caíram e ela teve que se jogar também de um local muito alto. Por pouco a gente não teve também uma perda muito grande na nossa família. Na hora eu estava trabalhando.

Nós ficamos aproximadamente seis meses nessa associação. Foi muito difícil, muito difícil, porque não tinha nenhuma estrutura no local onde a gente ficou. A gente dividia o espaço com insetos, com sujeiras, com pingueiras. Uma parte da nossa localidade ficou no Centro Social Urbano da Liberdade, mas devido a ser um local público, logo eles tiraram esse pessoal. E a gente, que estava nesse local que não envergonhava e não mostrava o contrastes dessa situação, eles deixaram a gente um bom tempo lá, aguardando aprontar as casas para vir para aqui.

Para você ter uma idéia, naquele mesmo ano foi disputado aqui a Copa América, aqui na Bahia. E existia também centenas de famílias que estavam abrigadas na Fonte Nova. Quando se aproximou a Copa América, eles tiraram essas pessoas da Fonte Nova, porque seria um local mesmo, como se diz na gíria, a “vitrine”, onde repórteres de todos os países daqui da América e até de outros países de fora estavam lá cobrindo a Copa. Eles tiraram essas pessoas, trouxeram para aqui sem nenhuma infra-estrutura. Como aconteceu com todos, mas aqueles foram pior, porque foi uma época de chuva, muita lama, as casas inacabadas e eles trouxeram praticamente à força e botaram aqui na comunidade para tirar de lá da Fonte Nova.

E com a gente foi o seguinte: eles pegaram aquelas pessoas que estavam no Centro Social Urbano, porque era na Liberdade, na rua principal, tinha outros trabalhos no Centro Social Urbano, retiraram de lá e trouxeram. E a gente, que estava num local pouco visitado, pouco freqüentado, eles deixaram a gente por um bom tempo. A gente sofrendo naquela situação todo tipo de humilhação. (Silêncio)

PRIMEIRA INICIATIVA
Na época, a secretária de Ação Social, que hoje é presidente da Conder, foi a pessoa que conduziu toda essa questão desses desabrigados. Depois de um tempo fomos informados – foi uma assistente social até o local para nos informar – que nós estávamos vindo para nossa casa. Quando recebemos essa notícia, a gente pensava que o problema se acabaria ali, mas, na verdade, estava começando o problema a partir daquele momento. Primeiro, porque além de toda humilhação que a gente já passava, a falta de respeito muito grande para conosco veio no momento que eles foram lá no local para nos deslocar para aqui.

O primeiro passo foi eles levarem uma caçamba, pedir para a gente botar todas as nossas coisas em cima dessa caçamba, onde tinha mães de família, crianças, idosos e queriam que viesse todo mundo junto com esses móveis, enfim, uma tremenda falta de respeito. Como coisas. Como aquele verdadeiro balaio de lixo, era como se a gente estivesse sendo também um verdadeiro lixo humano. A gente já não tinha quase nada, tudo o que a gente tinha era o que sobrou. E aí eles queriam que a gente fosse transportado assim também. Era aproximadamente umas 35 famílias.

Naquele momento eu assumi a postura – até mesmo sem ter muita idéia de liderar, aquela coisa toda – assumi uma postura que a gente não sairia dali enquanto a gente não fosse tratado como ser humano. O que a gente queria era que viesse carro suficiente para trazer todas as coisas e não dar três, quatro viagens, fazendo aos poucos. E um ônibus para trazer as pessoas, as crianças, mães de família, as pessoas, os seres humanos. Aí travamos uma luta a tarde toda junto com as assistentes sociais que achavam que aquilo estava certo. Moradores da Liberdade também ficaram ao nosso lado, devido aquela falta de sensibilidade dos poderes públicos. As assistentes sociais achavam que a gente estava errado, que a gente não poderia agir assim, que a gente tinha que vir. A caçamba já estava acima do normal mais de um metro, de coisa mesmo. E eles queriam ainda que essas pessoas viessem transportadas em cima dessa caçamba de qualquer maneira. Ou mesmo que a gente pegasse um ônibus e viesse, um local que a gente nem conhecia… E aí a gente não aceitou.

Aquele dia, a maioria – eu contei muito também com a sorte, porque geralmente as pessoas, na euforia, na ansiedade, muitos já queriam vir de qualquer maneira – a maioria ficou ao meu lado e a gente conseguiu negociar e isso foi adiado mais um dia. No outro dia foi que eles levaram carro suficiente, levaram ônibus e trouxeram a gente para aqui, pelo menos, um pouquinho com dignidade.

No dia seguinte veio mais caçamba para trazer nossas coisas, para vir tudo de vez. Tinha uma que ficou carregada e vieram mais duas. Vieram também pessoas da Limpurb para carregar nossas coisas porque a gente mesmo que tinha que estar jogando em cima de qualquer maneira, arrumar nos carros, e veio um ônibus que nos transportou até aqui.

Eu acho que foi assim a primeira iniciativa de peitar mesmo, de começar, e até mesmo descobrir como uma liderança. Pela necessidade da gente ter alguém que dissesse “não” e “precisamos negociar”. Acho que foi aquele momento que a gente começou a sentir na pele que precisava de alguém para poder assumir de verdade o controle.



ME SENTI NO PARAÍSO

Na verdade, eu não conhecia aqui a região. Conhecia até a Toca do Leão, mais ou menos, aproximadamente. O Barradão. No caminho, a gente vinha na expectativa de chegar a uma moradia nova, uma comunidade organizada, com ruas abertas, enfim, uma estrutura. Pelo menos isso seria até uma reparação pelas perdas, pela dor, a humilhação toda que a gente passou durante aquela época do desabamento, enfim… Mas, vindo de lá para cá, a gente vinha refletindo muito, e aí a gente entrou na Estrada Velha. Quando a  gente chegou na Estrada Velha, eu, na verdade, eu me senti no paraíso. Primeiro, porque eu me identifico muito com áreas como a Estrada Velha, com muito verde, sou uma pessoa que nasci no interior, vivi lá, muito verde, muitos rios.

A Estrada Velha era um verdadeiro paraíso. Quando a gente chegou aqui, o Vila Mar estava começando, loteamento que hoje é uma comunidade muito grande. No Vila Mar tinham pouquíssimas casas, tinha malmente a rua principal, muito verde. Esses condomínios não existia nenhum, nenhum desses prédios existia. Era uma coisa assim bonita de se ver, era um verdadeiro paraíso mesmo.

Você encontrava aqui, na época, como ainda existe, uma diversidade muito grande de frutas. Antes existiam muitos pássaros, até pássaros em extinção a gente via aqui pela Estrada Velha. Eu lembro muito. Frutas, se a gente for contar assim… Como se diz na gíria: “Pense em fruta”, que aqui a gente tem. Todo tipo de fruta. Temos manga, cacau, jaca, graviola, banana, coco, sapoti, abiu, que é uma fruta muito gostosa. Há muitos anos que eu não vejo essa fruta. Temos por aqui cupuaçu, pitanga, siriguela. O que você pensar de fruta, aqui na Estrada Velha você encontra. É uma reserva de Mata Atlântica.

Aí vem aquela outra parte, que são os animais. Quando a gente chegou aqui, tinha muitos animais aqui. O pessoal matava, caçava, o teiú, a própria raposa e ainda existe por aqui o teiú, raposa. Tinha muita cotia, tatu bola. Onça, o pessoal diz que no passado tinha muito, não sei se existe. Agora, acho que todo tipo de cobra existe aqui na nossa região. A gente vê muito por aqui. Insetos de toda variedade.

Pássaros, você via aqui uma variedade muito grande. Eu tinha um pé de manga, que eu plantei lá do lado da minha casa e quando essas mangas começaram a dar, a gente via até pássaro acho que em extinção, como a pega, que quase a gente não vê falar. Aquele sangue de boi, vermelhão, bonitão, bem-te-vi, todos os tipos de pássaros. Até um pássaro que hoje quase não se vê mais falar, que é o curió, existe aqui na região ainda. É uma coisa fantástica a Estrada Velha.

E vem também a questão da água. Muita água. Aqui, em cada esquina que você procura, você encontra uma nascente. Toda cercada de rios e nascentes a Estrada Velha. Tem cachoeiras em alguns pontos aqui ainda. O Rio Trobogy fica aqui próximo à Faculdade Jorge Amado. Tem o Rio Jaguaripe, esse que passa aqui e deságua lá em Patamares. Temos  “n” nascentes aqui. Córregos menores tem vários. Tem um outro rio, agora me falha a memória o nome desses rios. A gente estava até discutindo sobre a bacia do Jaguaripe e até rios que conheço por aqui, mas não sabia o nome. Agora eu não me lembro.

Temos pequenos lagos e muitas lagoas aqui na região. Assim por nome mesmo eu não sei. Eu lembro de uma lagoa que tem no início da Estrada Velha que eu acho uma coisa linda e essa semana eu fiquei triste porque passei lá e vi ela praticamente morta, ali perto da Brasilgás. Me falaram que ali chama-se Lagoa do Urubu. Porquê, não me pergunte. Mas é uma coisa bonita, uma lagoa bem centralizada, quem sai ali da Estação Pirajá, aquela pista quem sai da Estação Pirajá e se encontra ali na pista da Brasilgás, quem sai da Estrada Velha. Então aquela lagoa é uma área tão bonita e ela está maltratada. Muitas empresas que ficam próximas aterraram muito ela e agora mesmo a gente vê que ela está morrendo. Ela está com uma capacidade assim.. Uma época dessa, que o verão ainda não está mesmo no… e ela já está naquelas condições. Imagine se não chover agora, vai ficar bem pior.

E aqui mesmo atrás do Cemitério Jardim Bosque da Paz tem uma queda d’água muito bonita. Quer dizer, até a última vez que eu estive lá, há uns dois anos atrás, ela existia. Na verdade, aí antigamente funcionava uma pedreira, de onde o pessoal retirava pedra bruta para alvenaria. E ela ficou tipo uma área com as paredes muito altas, de pedra, e só tem um lado, que é a saída, que é aberta, onde as caçambas entravam para pegar as pedras. No fundo ela tem uma queda d’água muito bonita. Aproximadamente seis, oito metros e ela cai. Uma nascente muito interessante, uma coisa bonita mesmo, aqui no fundo do cemitério. O acesso é só pelo cemitério. Pertence à área do cemitério.



PROBLEMAÇO

Quando fomos chegando aqui na Estrada Velha, achei as mil maravilhas, mas ao chegar mesmo aqui em Jaguaripe II, aí que a gente viu que o problema começaria a partir daquele momento, que não era nada daquilo. Quando a gente chegou aqui, na verdade já existiam algumas pessoas que vieram de outros abrigos: Fonte Nova, Centro Social Urbano e outras que vieram de outras localidades. Chegamos aqui e foram sorteados. Eram os embriões, de aproximadamente 24 metros quadrados construídos, com um banheirinho. Enfim, na verdade, como se diz na gíria da construção civil: cru. Um cômodo só, de alvenaria, com telhado de cerâmica. Mas também era só o que tinha. Nós tínhamos área para a gente ampliar. O total de área era 6 por 14, mas construído só tinha isso aí: 5 por 4,5, mais ou menos. Não tínhamos piso, a maioria não era rebocada. O piso era cimento rústico.

Aí vem aquela questão… A gente, na verdade, na ansiedade, a gente acha que o problema sanou em você receber esse espaço, aquele embrião, e vir para dentro com a sua família. Mas, além de só ter aquele pequeno espaço, nós não tínhamos rede de esgoto, não tinha água e nem energia. Aqui não tinha asfalto. O asfalto era era até aqui a pista da Estrada Velha, aqui dentro da comunidade não tinha. A Estrada Velha é antiga, uns 60, 40 anos mais ou menos.

Era como se fosse um assentamento de sem-terra. As ruas não eram urbanizadas. Era uma época dessa, final de outubro que eu cheguei aqui e estava um verdadeiro sol. A poeira aqui, quando passava um carro, era horrível. Então foi aí que a gente passou a ver que a gente estava dentro de uma casa, de um barraco, mas lá fora tinha um problemaço para a gente ainda começar a lutar.

TRANSPORTE
O transporte aqui era horrível. A comunidade, na época, era pouco habitada, então tinha poucos ônibus, pouca oferta de ônibus, de linhas de ônibus. Já pensou? Uma pessoa que já está empregado, recebendo o seu salário, já é difícil você está se deslocando para um local distante. Imagina uma pessoa desempregada ainda ir em busca de um trabalho. Então foi um transtorno muito grande, uma situação muito desconfortável para a gente. Para ir para o centro da cidade hoje é quase o mesmo trajeto. A gente tem que pegar o carro aqui, descer na Estação Pirajá e  lá você vê o destino que você vai e pega um transbordo.

Não existia Estação Pirajá. Era Estação Nova Esperança “Estação N”, no mesmo local. Esperava muito tempo, porque a única opção aqui mesmo era a Estação Nova Esperança. Depois foi que, com muita luta, muito abaixo-assinado, a gente conseguiu alguns carros: Pituba, depois veio Barra, veio Baixa dos Sapateiros, enfim, veio aqueles carros – Comércio, Narandiba – aqueles carros diretos. Mas a logística mesmo era você pegar Estação Nova Esperança.

Tinha vezes que a gente esperava muito mais de 1h. Para você ter idéia, agora, em pleno século XXI, tem dias que a gente espera isso. Hoje, depois de tanto tempo, a gente mora aqui, para a gente ir à Faculdade Jorge Amado, que é aqui ao lado, a gente vai andando… Se a gente for de ônibus, ou você anda – um quilômetro, mais ou menos – para pegar um carro lá na Rua Mocambo, ou você tem que fazer um arrodeio fora de série. É muito mais prático você ir andando para a faculdade do que você ir de ônibus. Esse ônibus Trobogy vem perto porque construíram um condomínio, porque se não tivessem construído esse condomínio, não teria esse carro até aí. Os carros retornam nesse condomínio e a gente, geralmente, quando está no Centro, pega, porque é muito mais rápido para chegar aqui. Se a gente estiver na Pituba, você pegar o Nova Brasília e eu pegar o Dois de Julho, eu chego em casa, tomo banho, janto, assisto a novela  e você ainda está para chegar aqui. No mínimo, economizo 40, 45 minutos.

SALADA DE FRUTAS
Na verdade, em Jaguaripe II foram 704 unidades construídas para os desabrigados. Parceria Urbis e prefeitura. (A Urbis ainda existe, mas não lida mais com essa questão de construção, essas coisas. O menor engoliu o maior. A Conder, que era uma empresa bem menor, até em questões políticas, assumiu o papel da Urbis. A Urbis ficou lá e quase ninguém procura, fica lá na Carlos Gomes,  acho que no Edifício Brasilgás. São questões mesmo burocráticas).

No meu caso existiam poucas pessoas que eram conhecidas. Foram aquelas pessoas que se dividiram lá, no Centro Social Urbano e outros na Associação. Mas o restante eram de comunidades completamente estranhas, por isso que a gente diz que quando  chegamos aqui, era aquela verdadeira salada de frutas. Pessoas de todas as partes de Salvador: Calçada, Fazenda Grande, São Caetano, Baixa do Cacau, IAPI, Santa Mônica, Subúrbio ferroviário – vários bairros como Coutos, Lobato, Escada – Nova Brasília aqui ao lado também, Ogunjá – aquela comunidade Iolanda Pires. Então eu acredito que aqui tinha aproximadamente 13 a 15 bairros diferentes.

Eu me senti naquela história da Torre de Babel: todo mundo falando línguas diferentes. Porque todo mundo queria uma coisa, todo mundo queria ser liderança, queria assumir o papel de líder na comunidade. Toda pessoa que veio de um bairro queria fundar uma associação e cada um falava uma língua diferente. Uma comunidade não aceitava que fulano de outra comunidade fundasse a associação: “Vambora fundar a nossa”. E aí criou aquela verdadeira confusão dentro da comunidade. Foi todo mundo falando línguas diferentes e acabou não se formando nenhuma entidade que representasse a comunidade. Na influência dos líderes… Vamos supor, o líder de tal bairro chegava para mim e dizia:
– Você funda a associação, porque eu vou lhe ajudar e tal e tal.

Aquela pessoa achava que ele tinha condição de fundar a associação e vinha o foco lá que outro queria fundar a associação. E outro de lá… Aí começava aquela briga. Quando se falava em se unir, sentava todo mundo:
– Vamos unir, criar uma associação forte.
– Tudo bem.

Na hora que ia se falar:
– Mas fulano vai ser o presidente.

Aí começava a briga, porque tinha cinco, seis presidentes querendo assumir e era um verdadeiro… Era mesmo uma coisa estranha.

A gente se reunia geralmente nas casas de um, de outro, existia a igrejinha aqui também. A gente se reunia na igrejinha para gente tentar discutir as questões da nossa comunidade. O palco maior era a igreja. Todos os movimentos, as discussões da comunidade, a gente discutia na igrejinha.

Existia aqui Dona Marinalva, uma pessoa aqui que chegou a fundar uma associação. Essa foi praticamente imposta mesmo. A maioria não queria e fundaram essa associação. Acho que ela veio de Coutos, Subúrbio. Teve também Maltilde, que foi também da área de onde nós viemos, de Calçada. Chegou a fundar uma associação e não deu seguimento também. Judemar, que veio, eu acho, de Santa Mônica. Fundou também uma associação e não vingou. Depois apareceu um outro cidadão aqui, que era filiado ao PCdoB, uma pessoa super inteligente, muito dinâmico. Chegou aqui, começou se envolver também. Fundou uma associação. A gente conhecia ele como Beto, mas o nome dele era Idalberto. Chegou aqui, fundou a associação, com pouco tempo ele sumiu, não apareceu mais. E aí foi ficando só aquela saga, que ninguém assumia o papel de líder da comunidade.

E aí, o que ocorreu? Eu não gostaria de citar nomes, mas aproveitaram o momento, todas essas confusões, para implantar um cartel do prostituísmo político. Um cidadão aqui implantou esse projeto de prostituísmo político mesmo, de fazer da comunidade um trampolim. Políticos, rolava aí a todo instante. Chegava um de manhã, ele atendia. Saía aquele, a tarde já vinha outro. Enfim, a comunidade ficou respirando só a questão da politicagem, devido à necessidade da comunidade de melhoria. Eles chegavam prometendo, que um ia trazer água, outro ia asfaltar, outro ia trazer a energia. E nisso o tempo foi se passando e a gente cada vez mais numa situação precária.


ÁGUA

Logo no início, quem fornecia água aqui para a gente era uma empresa. A empresa que construiu aqui fez alguns reservatórios, em alguns pontos estratégicos dentro da comunidade, que era assim um tanque aproximadamente 5 por 3, mais ou menos 1,50 de altura. Então ele tinha o que? 7,5 metros cúbicos. Eles traziam o carro-pipa, chegavam naquele tanque e despejavam. Era como se fosse uma coisa lá do sertão, da roça mesmo.

Tinha briga. O pessoal não conseguia pegar, marcava a fila com pedra, com pedaço de pau, com lata. O dia amanhecia e já começava a botar umas marcazinhas, dizendo que era a marcas daquela pessoa para pegar água. Aí, quando começava a chegar era a maior confusão, tinha briga. Quando começava a água a cair pouco, os outros não davam tempo para pegar, entravam no tanque. E aquela água a gente não sabia qual era a procedência, de onde vinha. Ali para cozinhar, lavar, muita gente bebia. Quem tinha condição mandava pegar aqui na nascente que tinha na Rua da Bica. Alguns moradores ganhavam para pegar água da nascente, era muito boa, limpa.

O carro-pipa vinha todo dia. Ele vinha, abastecia de manhã esse tanque daqui. Durante a manhã, ele botava de lá até lá em cima, em cada ponto estratégico, a cada 30 metros, tinha um. Abastecia um de cada vez. As pessoas iam e pegavam. A tarde ele voltava fazendo o mesmo. Vinha duas vezes no dia. Tinha pessoas que pegavam duas vezes, duas viagens, cada vez que ele vinha. Outros não pegavam nada. Aí criou a briga.

Tinha uma nascente aqui na Rua da Bica, em Nova Brasília, uma nascente muito boa. Hoje está poluída. Os próprios moradores botaram esgoto próximo, ficaram contaminadas. A gente mandava pegar água para beber da água da bica, das fontes da Rua da Bica. Tinha também uma fonte aqui, bem em frente de onde nós estamos, abaixo desse campinho, que a maioria do pessoal daqui usava. Muita gente pegava água daí cristalina, limpinha. Hoje também ela não presta, porque tem muito esgoto se misturando com ela.

Aí a gente foi se organizando em grupos, ruas, duas, três ruas, e a gente começou a fazer a ligação clandestina, o popular gato de água. A gente foi comprar os tubos, unia assim 20 famílias, 30 famílias e comprava os tubos e aí vinha e fazia a ligação da rede geral. Para você ter uma idéia, toda a comunidade tinha a tubulação da rede geral ligada nas casas. As casas todas canalizadas, só faltava a Embasa vir colocar na rede geral e puxar os tubos nas ruas.

Nós tínhamos água praticamente dentro da comunidade e não era canalizada na comunidade. Aqui próximo, se você chegar aqui nesses coqueiros, até hoje tem resíduos de ligação clandestina que as pessoas fizeram e ficou aí até hoje. Lá na entrada, lá próximo onde eu moro, a água parava na chegada de Jaguaripe, que é a Rua São Benedito – que é uma transversal de Nova Brasília para Jaguaripe -, no finalzinho, na entrada de Jaguaripe, era que parava a rede geral, onde nós fizemos a nossa ligação lá para cima.

A gente chegou aqui em outubro. No início de ano a gente fez essa ligação e começou a cair água. Foi uma felicidade para a gente ter água em casa, que era uma verdadeira confusão. Ligamos essa água, teve uma briga muito grande com uns moradores. Um cidadão aqui que não aceitava que a gente fizesse aquela ação na comunidade, porque eles achavam que eles que deveriam fazer. Era aquele mesmo que eu citei que começou com o prostituísmo político e hoje ainda fazem. E aí não aceitava de maneira nenhuma. Quando a gente colocou essa água na rua, ele foi lá com um grupo de amigos dele e foi aquela briga generalizada. Foi mãe de família que apanhou, foi pai de família, foi uma confusão fora de série.

Não aceitavam, achavam que – como até hoje – achavam que tudo tinha que passar por ele. Eles acham o seguinte: tudo que entrar na comunidade, tem que pagar um pedágio a ele, que ele tem que se beneficiar, tem que ganhar alguma coisa em cima daquilo. É como ele diz sempre:
Se me ver metido em qualquer briga aqui na comunidade, é porque o meu está entrando – e ainda bate no bolso.

Então tudo isso aconteceu. É uma história em que ainda vamos chegar a muito mais coisa.

 

UNIÃO FORA DE SÉRIE
Não tinha luz. A luz era em volta, a mesma coisa da água. Era como morrer de sede na praia. Em volta, Nova Brasília e Estrada Velha tinham energia. Aqui dentro não tinha energia. Usamos o mesmo método. Ia conseguindo um pedaço de fio, fio de telefone,  fio normal e fomos puxando dos postes. Tinha poste que tinha cinco, seis ligações e a gente ia distribuindo. E o que acontecia? Quando você ligava várias casas numa rede fraca, quando chegava lá, parecia aqueles candeeiros numa roça, uma velinha. Era praticamente escuro, quase não dava para você ver uma televisão, não se podia usar uma geladeira. A maioria quase ninguém tinha. Só quem tinha uma condição melhor é que fazia o seguinte: comprava os seus fios, fios resistentes, e puxava uma linha só para ele, que era muito difícil ficar. E, às vezes, quando passava próximo às casas, ele não tinha tempo de está vigiando sempre, alguém ia lá e engatava no fio dele. E era uma briga também por causa da energia fora de série.

Vamos supor: você botava para 10 casas. Aí o vizinho fazia amizade com aquele lá do fundo, já puxava para aquele também e a rede ia ficando cada vez mais fraca. Mas, com toda confusão, a gente sente, pela necessidade, sente uma união das pessoas. Era uma união fora de série. “Vambora vê”. É a luz. A máquina veio ali pegar o lixo, quebrou o tubo. “Vambora arrumar”. Fazer aquela tradicional vaquinha, comprava o tubo.

A Coelba não vinha aqui. Para nos perseguir não vinha. Como diz o outro: a gente estava errado e ainda achava que era perseguição se alguém viesse. (risos) Mas a gente corria muito atrás. Fizemos uma caminhada, uma passeata daqui para o Centro Administrativo, porque por falta dessa água houve até mortes de crianças aqui. As mães mandavam ir lavar roupa lá no rio, lavar prato. As pessoas desciam uma ladeira muito grande e iam para o rio. Aí uma vez morreu uma criança afogada. Fizemos uma caminhada, fomos até o Centro Administrativo, na Embasa, para reivindicar que ligassem a água aqui.

Fizemos essa caminhada daqui, cansativo, o sol muito quente, chegamos lá. Aí, praticamente nos ganharam no cansaço. A pessoa que liderava, esse Idalberto que eu citei, era um cara que tinha esse poder de mobilização. Então a gente:
– Vambora fazer, vambora para lá.

E fomos lá. Quando chegamos lá, ele teve que se ausentar. Enquanto ele foi na Assembléia, o diretor da Embasa na época pegou um grupo e chamou. Chegou lá:
– Qual é o problema?
– O problema é água, tal.
– Qual é o problema?.
– Não, é que o carro-pipa não está botando – algumas pessoas usaram isso.
– Não, agora mesmo o carro-pipa vai botar água, pode ir para lá que tal.

Naquele tempo não tinha aquele poder ainda de negociação, aquela visão. Aí acabou ficando:
– Vamos mandar botar essa água lá e vamos fazer um estudo para instalar a água na comunidade.

Aí desmobilizou e levamos muito tempo sem água mais uma vez.

CONTAS EXUBERANTES
Aí veio uma certa campanha política de um candidato que conseguiu junto à Embasa colocar uma água aqui. Foi através da Embasa, feito em mutirão, mas também não foi uma coisa oficial. Porque digo que não foi oficial? Porque não atingiu a comunidade toda. Eles colocaram água no Setor A e colocaram água no Setor C. E nesse Setor B aqui eles não canalizaram, deixaram aqui sem água. O morador continuou usando os tradicionais gatos. E mesmo eles colocando no Setor A, quando chegou a conta, chegou uma conta exuberante. Era para pagar uma taxa mínima, não tinha nem contador e aí foi uma coisa política mesmo, que fizeram assim um final de semana, um corre-corre.

E aí o que aconteceu? Chegou umas contas exuberantes. Morador sem poder pagar, aí entra em cena esse mesmo cidadão dizendo que ia resolver, que a Embasa mandou recolher os recibos. As pessoas deram os recibos para ele resolver na Embasa. Eu sei que não apareceu recibo e todo mundo ficou endividado com a Embasa. Começou acumulando dívida e acabou não podendo pagar. Então ela não era nada oficializada. Muita gente ficou endividado e até hoje, na verdade, isso ainda reflete na comunidade. Muita gente não conseguiu regularizar essa questão. A Embasa geralmente não desliga. Geralmente fica acumulando. Ano após ano acumulando essas dívidas. E isso, quando a gente vai dá pé dessa situação, às vezes a dívida está mais alta que o valor do imóvel.

Na verdade, foi feito um trabalho através de mutirão, uma parceria com a comunidade, Ainda estava muito recente a chegada aqui. Estava todo mundo tentando se estruturar. Não estava ainda estruturado do baque daquela questão de perder suas coisas, seus imóveis. Muita gente perdeu ente da família, perdeu tudo, não estava estruturado. Não era conta tão alta, mas veio trazendo as taxas de ligação, taxa disso, daquilo e não foi acertado por aí. Era tanto que não tinha contador, ia pagar uma taxa mínima, era para ser taxa mínima, só que veio cobrando tudo. O morador aí se assustou, não pagaram aquelas contas, procurou a pessoa que era o mentor disso tudo e ele disse:
– Não, tudo bem, a gente vai resolver.

E começou a tomar os recibos das pessoas. Que já foi errado, né? Era para ter chamado aqui alguém da Embasa para orientar o que se fazer. Aí só foi se acumulando dívidas. Geralmente, a coisa, quando é eleitoreira, eles trazem pronta e de qualquer maneira, tudo pela metade. Por isso que hoje, aqui na nossa entidade, quando a gente passa a negociar, a gente procura buscar uma negociação para ver de fundo, do momento em que se começa o projeto, até o final, como vai ser finalizado. Isso é interessante. Antigamente as coisas era muito eleitoreiras mesmo. Agora, com essa fiscalização maior… mas, antigamente, era o toma lá dá cá mesmo.
– Eu vou botar uma máquina para abrir ali o campo e você tem que ter o compromisso comigo na comunidade, de está lá fazendo lavagem cerebral na comunidade para votar em mim.

Tem gente que não mora mais aqui, vendeu seus imóveis, e aí, quando vendia os imóveis, quando as pessoas iam lá ver o “Nada consta” na Embasa, na Coelba, estavam lá dívidas imensas. Muitas vezes se negociava:
– Minha casa você paga R$8 mil.

Quando chegava lá, estava R$1.500 de dívida. Aí o que que faz, o que que não faz? Aí faz o seguinte:
– Você me paga R$ 7 mil e assume a dívida.

Tinha aquelas barganhas. Quem comprava sempre assumia a dívida, ia na Embasa, negociava, outros deixavam rolar, enfim, ainda tem hoje essa saga, essa questão da água ainda.

Em 1997, quando entrou o Programa Viver Melhor, quando foi urbanizada toda a comunidade, aí foi retirada toda essa canalização que foi colocada na época das eleições. Tudo aquilo foi perdido. Você vê que é um custo, dinheiro público jogado fora, todos aqueles tubos, aquela tubulação foi toda arrancada. Aí foi colocada toda a rede novamente e aí foi que regularizou, em todos os imóveis colocaram água. Porque, na verdade, tinha irregularidade aquela colocação de água anterior. Lá constava, na Conder, que aqui não tinha água no loteamento. Então foi feita uma licitação para colocar água em toda a comunidade. Aí teve que arrancar tudo e se fazer tudo. O que quer dizer, dinheiro que poderia ter se gasto uma vez só, gastaram duas vezes.

A luz foi um pouquinho antes dessa questão de vir a urbanização, logo após, assim, meados dos anos 1990. Um ano mais ou menos depois que nós já estávamos aqui. Pelo menos a gente que chegou por último, porque já tinha gente há aproximadamente seis meses. Então um ano depois a luz chegou oficialmente, mas antes foi aquela verdadeira migração, aquela gataria infernal.

LIXO HUMANO
Porque, na verdade, em Jaguaripe foi construído um conjunto habitacional de embriões para os desabrigados, mas era tratado por todos como a favela de Jaguaripe II. Favela é um amontoado de barracos, de plástico. Aqui era tudo padronizado, tudo organizado. Construído pelo próprio governo, mas com aspecto de favela e todo mundo tratava assim. Quando acontecia um problema maior aqui:
Aconteceu na invasão de Jaguaripe II.

Era como se a gente fosse invasores. A gente aqui não tinha credibilidade, não tinha respeito, a gente não tinha nada. A gente ia no mercado na comunidade vizinha, Nova Brasília, comprar com nosso dinheiro e nós éramos destratados, nós éramos desrespeitados. Aí é que vinha a discriminação, a exclusão, vinha a falta de respeito e a violência.

A gente era visto como lixo humano aqui, com certeza. Dentro do coletivo, muita gente dizia:
– Tem que ter o transporte lá de Jaguaripe.

Para a gente não utilizar aquele transporte daqui da comunidade vizinha.
– Devia ter lá um posto de saúde para vocês usarem.
– Devia ter uma escola para vocês.

Então a gente era completamente discriminado. Foi muito difícil a adaptação, era tipo aquela guerra de gangues que a gente vê no dia-a-dia, porque não se unia as comunidades. Quando se tratava de Jaguaripe, as pessoas do lado só imaginavam assim: em Jaguaripe só tem criminosos, em Jaguaripe só tem ladrões, Jaguaripe só tem prostitutas, mas a verdade era essa. Então essa coisa acompanhou a gente por muito tempo, a gente se via mesmo refém dessa questão.

Eram pessoas normais. Tinha suas problemáticas, como todo lugar tem, principalmente quando vem tribos de várias comunidades, né? Então era uma comunicação meio difícil, mas no que se tratava da comunidade ao lado, tudo para eles era “um balaio de gatos” só. Não interessava para eles se tinham pessoas decentes, era uma verdadeira discriminação contra essa comunidade.

VAMOS LIMPAR DE NOVO
Tinha acessos, como a gente vê hoje, abertos, mas não existia urbanização, não existia asfalto, não existia nada. Tinha só as ruas abertas, que carro poderia entrar, tudo bem alinhada, no barro, na poeira mesmo.

Esses conjuntos geralmente são mais planejados. Não é como quando você começa uma comunidade na base do facão, que nego bota uma casa no meio, aí para você fazer a passagem tem que desviar. Chega lá na frente desvia, porque alguém construiu no meio. Não achou mais terreno e diz:
– Não, eu vou fazer aqui e acabou.

Tinha essa organização, só que era na lama mesmo. Nessa época que a gente chegou aqui, a gente não precisava nem se alimentar, porque a gente engolia muita poeira, né? (risos). Limpava as casas, mas a poeira não deixava a gente em paz. Você botava uma roupa no varal e quando ventava – aqui venta muito -, aí, quando você ia ver, estava cheio de poeira.
Vamos limpar de novo.

Era um transtorno. Quando chovia, você tinha que sair com o sapato na mão para calçar quando chegasse lá no asfalto.

ONDA DE VIOLÊNCIA
Logo no início a maioria não tinha televisão. Muitos que tinham até perderam, outros não tinham mesmo. Era até bom, porque se tivesse a energia caía. Geralmente ia um para a casa do outro para assistir a novela, se encontrava muito nessas horas, a hora da novela, para sair para a casa do outro. Praça mesmo não tinha.

Existe um pequeno espaço aqui que foi organizado para, pelo menos, parecer com uma praça. Não ficou pronto. É aqui no largo, era um local justamente para ser feito uma pracinha, organizada, uma pracinha bonitinha, mas foi transformado em um aterro de lixo. Chegou época de ter tanto lixo – o local é largo, imenso -, mas chegou época de você passar de manhã e ter que empurrar o lixo assim para o lado, empurrar com o pé para passar. Era tanto lixo, a prefeitura não recolhia o lixo e era um transtorno muito grande para a gente. Como se diz na gíria: “Pense, pense numa montanha de lixo”. Era essa praça.

Bem, quando foi urbanizado aqui a comunidade, que entrou o Viver Melhor, aí se criou esse espaçozinho, mesmo pequeno, mas nessa época assim, de muito calor, as pessoas se encontravam ali. Você via muita gente na pracinha, ficava ali batendo papo, mas ocorreu que começou aquela onda de violência. Aconteceu até assassinato. Eu cheguei a presenciar um assassinato nesse local de um jovem que estava sentado conversando com uma garota e um delinqüente daqui na época, chegou lá  e esfaqueou o garoto, a troco de nada. Deu várias facadas e matou o garoto naquele local, simplesmente porque ele achou que devia matar o garoto. Um garoto de uma índole decente, um garoto muito bom aqui na comunidade. Chegamos a fazer protesto, isso saiu até em rede nacional, eu tenho fotos desse protesto. Isso foi em 2000. Eu presenciei. Não foi que ninguém que me disse como aconteceu, eu estava passando na hora e vi quando ele chegou perto. Primeiro ele bateu no menino. O menino não reagiu, já estava saindo, estava a uns 10 metros. Ele voltou, puxou uma peixeira e esfaqueou o garoto. Isso foi trazendo medo na comunidade. E aí hoje a praça…

Depois veio a questão do tráfico de drogas, as pessoas usavam isso para está vendendo, comercializando drogas. Então os moradores, a gente presenciando isso… Ela foi ficando defasada. Até hoje a gente vem solicitando que seja restaurada, construída uma pracinha decente e isso não ocorreu, então as pessoas se afastaram desse espaço. Então,  na verdade, não é aquele ponto de encontro que poderia ser, para nós podermos está sentados ali batendo papo entre famílias, um ponto de encontro. Com essa onda também que as comunidades hoje, os bairros periféricos enfrentam da violência… As pessoas chegam atirando. Atiram e depois que vem saber quem era através de jornais. E geralmente até a imprensa tem aquela coisa de não querer saber também e bota logo “que tem envolvimento com o tráfico”. Tudo geralmente é assim, primeiro eles botam lá:
– Tudo indica que tem envolvimento com o tráfico de drogas.

Hoje é assim, as vítimas é quem estão sendo condenadas, mesmo embaixo da terra. Primeiro já está condenado porque já está morto. Geralmente a comunidade é vítima várias vezes.

EDUCAÇÃO
Quando a gente chegou aqui, Vila Mar estava começando. Jardim Real também era muito pequeno. Dois de Julho: muito pequeno, muito pouca coisa. Hoje eu acho que o bairro de Nova Brasília, que compõe todas essas comunidades, é três vezes maior, o fluxo bem maior da população. E, para você ter uma idéia, foram construídas, de lá para cá, seis salas de aula, que é esse colégio aqui. Então, você vê que triplicou a população dessa comunidade e foram construídas seis salas de aula, de escola de pequeno porte.

Só a 4ª série do primário. Então praticamente as escolas são as mesmas de lá para cá: o Vera Lux, já existia; o Adalto Pereira, que já existia; a Escola Irmã Elísia Maria, que é lá no lote, no Jardim Real, que já existia. Então, as escolas são insuficientes, desestruturadas para o ensino da nossa comunidade. Enfrentamos muita dificuldade nesse sentido, sem contar que muitos dos nossos filhos, nossos vizinhos, têm que sair para estudar no centro, que é outra tortura, é outra problemática. As escolas, quando nós encontramos, já eram precárias e continuam precárias.

O Adalto é também em Nova Brasília. Antigamente era do governo e hoje, com a municipalização, passou para o município. O Vera Lux é do governo. A Irmã Elísia foi municipalizada. O Padre Ugo, aqui, é a mais nova dessas todas, de 97. Foi junto com a urbanização que ela foi construída. Junto com essa sede social aqui do Conselho, toda a urbanização de Jaguaripe II, no Projeto Viver Melhor.

COMÉRCIO
Quando a gente chegou aqui, na verdade, praticamente não existia comércio. Era muito pequeno o comércio daqui de Nova Brasília, muito acanhado. A maioria era quitanda, mercearias pequenas, não tinha um grande mercado aqui.

O maior mercado que tinha aqui era o Mercado Santo Antonio. Era junto da praça do final de linha de Nova Brasília. E existia também uma casa – hoje é o super-mercado Portal – que era uma mercearia de um cidadão chamado Adílson. Ele morreu num acidente logo após a gente chegar aqui. Ele era uma pessoa muito boa, muito voltado para o social. Quando as pessoas precisavam de socorro, estava ali presente. E um dos que tinha maior porte era a Casa Néri, supermercado Néri, uma quitanda, que ainda tinha aquele balcão no meio.

Depois da nossa chegada aqui, o comércio começou a crescer. O mercado Néri foi o que mais desenvolveu, mas, em compensação, o Santo Antonio fechou. O Adílson também, depois do acidente que veio a óbito, fechou. Aí ficaram só aquelas pequenas casas. O Néri fechou. Acho que foram para o interior e existe um outro mercado nesse local. Então o comércio era muito pequeno.

Quando chegamos aqui já existiam duas padarias. Hoje, entre padarias de médio porte e pequeno porte existem várias. Dessas do começo só existe uma. Acho que o nome dele é Antonio. Era panificadora Boa Massa e hoje não me lembro bem, porque ele reformou, já é praticamente um mercadinho também, que vende tudo.

Tudo em Nova Brasília. Do lado de cá, nenhum. Quando as pessoas iam chegando, ficavam naquela expectativa:
– Vou botar um comércio.

Aí botava aquelas quitandinhas, em casa mesmo, para vender bebida alcoólica, outros vendiam cereais e, na verdade, o comércio em Jaguaripe nunca decolou. Acho que é uma área mesmo que não tem vocação para comércio. A gente tem até aquela brincadeira aqui que as pessoas, se você botar um comércio aqui, as pessoas passam em sua porta, passam pertinho do seu estabelecimento, vão em Nova Brasília, compram e voltam, mas não compram na comunidade. Aqui tem aquela história que santo de casa não faz milagre.

Jaguaripe é uma comunidade dentro do bairro de Nova Brasília. É como você tem a Liberdade e Curuzu, Pero Vaz, Bairro Guarani, que são bairros. Nova Brasília, além de Jaguaripe, tem o loteamento Vila Mar, loteamento Dois de Julho. Fazem parte de Nova Brasília, mas, por incrível que pareça, são comunidades desgarradas, não é comunidade que você, num movimento, está dentro. Você está na Rua Direta da Liberdade e quer ir para o Curuzu, não tem como dizer:
– Eu passei assim por um espaço ocioso, sem movimento.

E aqui, não. Dois de Julho está lá próximo à Paralela, lá embaixo. O Vila Mar já está lá na frente…

SAÚDE
A saúde, eu acho que é pior do que quando a gente chegou. Retroagiu. Quando chegamos aqui, já existia esse posto de saúde em Nova Brasília, que é um posto minúsculo. Acho que não tem nem 100m2. Era para atender uma demanda de Nova Brasília há 25 anos atrás, na época que ele foi construído. Depois que a gente chegou, triplicou essa demanda e o posto continua o mesmo. Agora, uma correção: antigamente pelo menos você ainda encontrava um clínico, um pediatra, um dentista, um remédio e, hoje, você não encontra nada disso. Foi prometido pelo prefeito atual na época de suas campanhas que acabaria com as filas em posto de saúde. E ele acabou, porque não tem médico, não tem nenhuma demanda, lógico, tem que acabar com as filas, não precisa fila. Eu vou lá para quê? Então a saúde é pior do que o que era no passado.

Então, o que acontece com isso? Acontece que só faz prevalecer as campanhas políticas, os políticos. A comunidade não tem médico, mas a Câmara de Vereadores tem mais médicos do que grandes hospitais.  A maioria dos vereadores são médicos. Ele então faz o seguinte, monta uma estratégia: o vereador tal vai atender em Jaguaripe II. Eles vêm aqui, pedem uma casa, uma associação ou uma igreja, para estar de 15 em 15 dias. Aí ele vem, a cada 15 dias e atende 10 pessoas. Atende entre aspas, porque faz o seguinte: entra, olha para a sua cara, mede a sua pressão e lhe dá um monte de guias para você fazer seus exames. E aí você vai para o SUS fazer todos os exames. Depois que você pega seus exames, com toda dificuldade, você volta para ele, ele lhe dá uma receita e você volta para o SUS para pegar o remédio. Quando, na verdade, ele não está fazendo nada demais

NEGOCIATA
Aqui mesmo tem uma história verídica. Nós temos até o Diário Oficial em que foi aprovada a construção de um posto médico aqui para a nossa comunidade. Acho que foi em 2004 que saiu no Diário Oficial que esse posto seria construído aqui, ainda na gestão de Imbassai. Um posto de saúde da família. E quando saiu essa licitação para comprar um espaço para construir esse posto, fizeram o quê? Tinha um cidadão que era coordenador da Regional 13, AR13, a administração regional da prefeitura, que seria o caminho mais curto da comunidade para os poderes públicos. Ma se torna mais difícil, porque esse cidadão era uma pessoa que pleiteava ser um representante, como é um vereador. Então esse cidadão fez o seguinte: veio a licitação e ele, como não é morador, não tinha nada a ver, ele tinha interesse de que fosse negociado um imóvel aqui na comunidade. Então, enquanto a secretaria abriu para a comunidade ver um local mais amplo, um local legal para se construir o posto, para que a prefeitura comprasse, ele começou a negociar junto com sua influência – como administrador da AR -, a negociar um espaço que não tinha mínima condição para se construir o posto.

Segundo a lenda, negociando esse espaço, ele ia ter uma boa porcentagem. O que aconteceu com isso? Para ele fazer isso, já que ele tinha pela frente lideranças com visão – como a nossa, como o pessoal do Vila Mar, outras lideranças que tinha por aqui -,  eles sentiram dificuldade, porque a gente estava procurando um espaço adequado que desse para se construir um posto de qualidade. O que acontece? Quando ele se viu que a gente não abria mão de um espaço decente, ele se associaram a aqueles mesmos do passado que negociaram a água, que negociaram tudo de ruim aqui para a comunidade, que vivem explorando a miséria da comunidade, pegaram essa gente e prometeram dar uma porcentagem para esse grupo. Na verdade, não foi um grupo, foi uma quadrilha.

Aí essa quadrilha se viu meio sem força para fazer isso, mas o que aconteceu? Um candidato, na época, a vereador – estava se aproximando uma  Semana Santa – prometeu 500 quilos de peixe para distribuir com a comunidade. Um político, candidato, não quero citar nomes, prometeu para um cabo eleitoral dele, que é aquele mesmo das histórias desde o início. Ele chegou na comunidade e disse:
– Pôxa, caiu a sopa no mel.

Ele fez o quê? Pegou esse peixe e usou assim: já que a comunidade precisava aprovar para se comprar esse espaço, ele botou uma mesinha na porta de uma casa aqui e chamou a comunidade para cadastrar para dar o peixe da Semana Santa. Essas pessoas, inocentemente, para ganhar o peixe… Ou gosta também muito de bolacha quebrada, como dizem, né? Foi lá, cadastrou todo mundo, botou CPF, endereço, RG, número de título, tudo direitinho. Isso são 500 famílias. Ele pegou tudo isso, botou debaixo do braço e entregou a esse cidadão, que essas famílias aprovavam a compra, que fez uma reunião com essas famílias e que essas famílias aprovavam a compra. Quer dizer, um crime perfeito. Aí pegaram, levaram à secretaria e compraram o imóvel. A secretaria foi lá e pagou. Esse imóvel, na época, provavelmente, por mais que ele valesse, ele valia aproximadamente uns R$40 mil, por mais que ele valesse. E – não tenho precisão, já tentei de todas as maneiras saber – já ouvi dizer que custou R$120 mil, outros dizem que R$ 170 mil. Outros:
– Ah, foi muito mais.

E, aí, foi uma verdadeira farra do boi. Compraram esse espaço e a secretaria pagou.

Nesse local funcionava uma padaria. Tinha uns maquinários velhos, sucateados… Porque a briga de quadrilha é assim: quando está todo mundo junto, enquanto não tem a quebra da divisão, eles estão todos unidos. Na hora que o chefe da quadrilha quebra alguém ou alguém quebra o chefe, aí se dividem e começa a cada um falar tudo o que sabe:
– Ah, mas infelizmente eu não provo. Aconteceu isso e ele não pagou meu dinheiro. Disse que ia me dar X e não me deu X. E eu fiz e aconteci.

Aí começou a briga, um a denunciar o outro. E o que aconteceu? Ganharam maquinários, que, dizem, era para se colocar uma padaria comunitária. A conversa era essa, para tapear a comunidade. E, segundo outras pessoas, dizem que teve mais R$ 5 mil para montar essa padaria comunitária. O que ocorreu?  Eles receberam, não pagaram, um não deu o dinheiro ao outro, houve uma quebrança.

SEM CONDIÇÕES
E, aí, o que aconteceu?  Quando isso veio à tona, moral da história: a comunidade pagou um preço altíssimo. Na época que estava se negociando isso, além das áreas que a gente tinha vistoriado, que seria perfeita para se construir o posto, tem uma área também aqui na nossa comunidade que dava para se construir o posto tranqüilo, que foi oferecida no 0800 para a secretaria. Eu tenho documento aqui onde eles disseram que o local era apto para se construir o posto, mas, infelizmente, a prefeitura já estava desapropriando… Que desapropriação é essa de mais de R$100 mil? Que estava desapropriando uma área para se construir o posto.

O local é em cima da pista. Você, saindo daqui, na primeira à direita você vai encontrar a entrada de Nova Brasília. Assim que tem a entrada de Nova Brasília, você vai ver uma casa com porta de aço, duas a três portas de aço, que está fechada até hoje. Se fosse um imóvel que se comprasse para implantar o posto, que tivesse condições de se implantar o posto, até tudo bem… Mas é comprar, demolir tudo, voltar ao pó, ao zero, para se construir o espaço. Se você fosse uma médica, chegasse lá, você ia botar seu carro aonde? No meio da rua, ou estacionava na borda da Estrada Velha, porque não tem local para se fazer estacionamento. Hoje mesmo, você vai ver, na frente dessas portas de ferro tem um ponto de moto-taxi, os meninos botaram um ponto de moto-taxi aí na frente, bem na frente mesmo. Então, segundo eles, vai demolir tudo e se fazer.

Então entramos com uma ação para que não fosse colocado o posto ali, uma ação na secretaria de saúde, que aquilo ali não tinha a mínima condição. E todos os especialistas que estiveram no local disseram que ali não tinha a mínima condição de se construir, inclusive o atual secretário de saúde hoje. Até ele chegou aí e disse:
– Não, para fazer um posto aqui, tem que mexer com pista, a pista está muito em cima, é muito perigoso. Tem que deslocar pista, tem que fazer, tem que acontecer.

E, poucos dias depois, esse mesmo grupo que fez todo esse problema, conseguiu reverter em cima desse próprio secretário, que na época era gerente de operação da secretaria, nessa mesma gestão. Ele esteve aqui, discutiu com a gente, olhou outros espaços em que poderia estar implantando o posto, porque ali era horrível, não tinha nenhuma condição. E, em poucos dias, ele veio com outra história: que tinha condição, que o local era bom. E o engenheiro da secretaria, com uma planta muito bem feita. Ninguém tem nada contra o projeto, ótimo, vários consultórios dentro de um padrão muito bom, mas, em compensação, esse cara, segundo informações, participou dessa mesma quadrilha. Para aprovar aquilo ali, um engenheiro tinha que  dizer  se o local era… E ele batia pé firme em todas as reuniões em que ele foi chamado que o local era bom, que ia fazer, acontecer, que ia desmanchar tudo e se construir tudo de novo. Então é uma história mirabolante essa questão da saúde em nossa comunidade. E a comunidade continua sem saúde.

Aí a gente retomou a negociação com o secretário (esse que foi exonerado). Trouxemos ele aqui, fizemos um seminário sobre saúde, convidamos todas as lideranças da abrangência e discutimos aqui com ele.
– Não, vambora vê. Agora precisamos ter um estudo para ver como vai fazer. Se a comunidade não quer que seja ali, vambora ver outro espaço.

Quem veio aqui e não foi a favor do local de construção é o que hoje é o secretário, mas o engenheiro, por sua vez, que estava mais enrolado do que outra coisa nessa compra, provou, conseguiu botar na cabeça. A coordenadora do distrito veio aqui e disse:
– Não tem a mínima condição de se fazer.

E depois ela já estava dizendo que tinha condição, porque foi chamada… Não sei se por isso ou por aquilo, perdeu até seu posto. Não sei se foi por isso, mas que a gente bateu pé firme que ela disse mesmo, que ela falou aqui conosco. E poucos dias depois eles já estavam até contra a nossa comissão que estava negociando isso e já estavam a favor da comissão que negociou tudo isso, de um grupo de moradores da comunidade que sobrevive da miséria da nossa comunidade.

90 DIAS
Aí, o que ocorreu? Ficou certo de ver o que se fazia, já que a gente já estava no fogo, a secretaria não poderia comprar outro espaço, para a gente ver como negociar aqui com a comunidade, para ver se a gente construía ali. E eu disse para ele:
– Vamos sentar com a comunidade e vamos tentar negociar.

Fizemos essa reunião no distrito de manhã com a coordenadora do distrito, o Sr. …, o engenheiro da prefeitura. No outro dia, eles marcaram outra reunião com essa mesma quadrilha e lá eles já trouxeram outra coisa. Os caras disseram:
– Nós vamos aprovar.

Quando foi 6h da tarde, passaram com um carro de som avisando que esse pessoal vinha para aqui e gostaria que os moradores estivessem lá para aprovar a construção do posto ali. Aí foram alguns moradores, juntamente com esses mentores intelectuais da saúde de Nova Brasília, chegaram lá e aprovaram. Segundo eles, estava aprovado. Para a comunidade, que não sabe da história, a necessidade… A gente simplesmente fez o seguinte, a gente recuou, para que acontecesse. Até mesmo porque, aquelas pessoas que lá estavam, se a gente fosse dizer:
– Não, a gente vai bater pé firme para não construir”.

Iam dizer:
– Não tem o posto porque eles não querem.

O que eles disseram?
– Se a comunidade aprovar, nós imediatamente construímos. O projeto está pronto, só é começar.

Teve uma reunião e o secretário chegou para nós, uma comissão que ali estava, de lideranças, fez todos os cálculos dele – de licitação, de Diário Oficial, de tudo – e disse:
– Me dê 90 dias para começar a construir o posto.

A gente disse para ele:
– Tudo bem.

A gente veio para casa super feliz e hoje está se completando quase um ano e meio e ele não começou nada ainda. Quando chega a eleição eles vão dizer o seguinte:
– Infelizmente ano de eleição nós não podemos fazer nada, vão dizer que foi coisa eleitoreira.

Essa semana eu vi até assinaram aí um protocolo que vão ser construídos e reformados 11 postos de saúde em vários pontos de Salvador e, por incrível que pareça, o que eu estou sabendo é que o posto Nova Brasília está fora desses 11. Chegaram até ali próximo, em Marotinho. Lá também tem mais de dois anos que tem uma placa bem grande dizendo que a prefeitura está trabalhando. E o nosso, desde a gestão passada já estava no Diário Oficial e não vai sair. É como se a secretaria estivesse querendo perseguir a nossa comunidade. Quando você luta em prol da melhor qualidade de vida das nossas comunidades, eles chegam lá e revertem:
– Não, isso aí é briga de comunidade, é briga de poderes na comunidade.

Tem aproximadamente uns quatro meses que tem um médico aí através de um candidato. Entra em cena aquele mesmo grupo daquela quadrilha. Alugaram uma casa, botaram um clínico, não sei se um dentista… Segundo eles, estão atendendo a comunidade. Aqui dentro tem um vereador que atende. Esse mesmo atende em Nova Brasília. Tem esse candidato que atende ali. Tem outro vereador que atende no lote Jardim Real. Então os vereadores ficam tentando fazer esse tipo de picuinha dentro da comunidade, invés de brigar assim:
– Não, nós queremos que faça o posto.

Se fizer o posto, eles vão poder estar dentro da comunidade com a faixa dele?
– Doutor Fulano de tal atende aqui. Vereador Fulano de tal atende aqui.

Não existe…

POSTO
Do início dessa gestão da prefeitura para cá, não teve mais médico no posto, pelo contrário. Minto. Teve um médico nessa gestão ainda, que se dizia que era médico. Esse cara era mais para estar lá no Juliano. Ele estava atendendo, aí chegava uma mãe de família e ia ser atendida por ele. Ele olhava para aquela criatura e dizia assim:
– Não, você não tem nada, você está ótima, você está precisando é fazer sexo e de preferência de tal posição assim. Isso que você está precisando.

Ele receitava muito esse tipo de coisa. Tanto que, quando soubemos disso, levamos ao conhecimento da gerente e a gerente afastou ele daqui. Depois eu soube que em outras comunidades ele procedia com a mesma conduta. E daí para cá saiu esse médico e não veio mais outro médico.

Quando eu estava questionando a construção do posto com o secretário, ele, no maior cinismo, naquela elegância dele, disse o seguinte:
– Não se faz saúde se construindo paredes.

Eu disse a ele que concordava, mas que entre as paredes que estavam construídas que tivesse profissionais, porque sem profissionais ele não conseguia. Aí eles se fingem de inocentes:
– E lá não tem médico?

E a gente falando o tempo todo, mandando documento o tempo todo. E nunca chegou profissional. Aí, quem atende a comunidade são enfermeiras formadas, que estão aí trabalhando, atendendo as pessoas no posto. Acho que tem dentista aí só para criança. Os aparelhos quebrados, não tem a mínima estrutura. É tipo revezamento. Se o dentista estiver atendendo, outro não pode atender, porque não tem espaço.

Aqui as pessoas migram muito, o posto de maior potencial aqui é o de Sete de Abril. Atendia melhor, na verdade, nenhum hoje atende nada. Os postos aqui, na gestão atual, não atendem ninguém. Então as pessoas vão muito para Sete de Abril. Esperam a coisa ficar feia mesma para correr para uma emergência. É atendido na emergência de São Marcos ou a gente leva aqui para Cajazeira, que é o local mais próximo. Lá tem um posto de emergência também. Está numa área bem mais populosa e atende mais rápido. Lá é do governo e aqui é do município. Lá o atendimento é muito melhor. É o local que o pessoal vai. Os postos de saúde não existem.

SAÚDE DA FAMÍLIA
Existia aqui na comunidade um agente de saúde que não está aqui mais. Ele deve estar em casa. É uma pessoa muito boa, tinha uma consciência muito grande. Então ele sempre conversava muito comigo, que não adiantava ele está nas casas das pessoas simplesmente para estar de conversa, porque ele chegava – tinha uma cota, acho que 150 famílias cada agente -, atendia a família, levava o problema para o posto e o posto não tinha nenhuma estrutura. E sem contar que os profissionais do posto acham que o agente não é credenciado da saúde e às vezes não dão a devida atenção. Quando são pessoas que têm uma amizade, uma consciência, tudo bem, mas geralmente eles não atendem.

Se você me dissesse aqui agora:
– É viável um posto de saúde da família aqui?

Eu não sei bem se eu dizia a você que eu acharia viável. Pelo que a gente vê, não deu certo. Não deu certo em lugar nenhum. Primeiro que você tem uma cota. Digamos que o posto de saúde vai atender 2 mil famílias. Se você tem 5 mil famílias, você fica com 3 mil famílias descobertas. Ela atende num raio em volta do posto. Nunca consegue atingir todos, de maneira nenhuma. E, vamos supor, eu fico de fora. Aí eu tenho um filho, meu filho dá um dor, dá uma convulsão, eu vou até aquele posto. Chego lá, eu não sou cadastrado, minha família não é cadastrada no posto, aí eu não vou ser atendido. Não vou ser atendido porque eu não sou cadastrado. Aí você acha que eu estou vendo meu filho morrendo, eu vou ficar calmo?

O que se reclama muito nos postos onde eu tenho conversado com as pessoas é que não atendem. Não atendem os que são cadastrados, as pessoas que estão dentro, imagina as outras pessoas. Você chega em Canabrava mesmo, tenho amigos que são agentes de saúde lá. Primeiro, que eles não pagam os agentes. Os agentes não são profissionais da saúde, são terceirizados. Eles não pagam os funcionários, as equipes são insuficientes para atender as pessoas todas. Eu acho que seria muito mais viável, como a gente vem discutindo aqui, que seja um posto de abrangência, um posto que atenda a todos. Não que seja 24h, a gente não quer que seja um posto de emergência, mas um posto que venha atender tudo, que tenha laboratório, que tenha tudo. E que atenda a gregos e troianos. A gente não quer um postinho aqui para ser atendido meia dúzia de pessoas.

Entrevista realizada nos dias 05 e 14 de novembro de 2007.

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