Jacira de Brito

Posted on 07/07/2008

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Eu sou Jacira de Brito, nasci em Conceição de Jacuípe, em 1953. Cheguei aqui com 22 anos, morei na Capelinha, depois em Campinas de Pirajá e depois fui para Nova Brasília. Em Nova Brasília tenho 16 anos. Minha filha quando foi para lá tinha 13 anos e meu filho tinha 9.

Encontrei muita coisa desorganizada. Recebi uma casa sem reboco, sem piso, sem luz, sem água, não tinha nada. Levamos 15 dias sem luz. Eu não fui logo quando recebi a casa. Levei um ano para poder morar lá, mas as outras pessoas que receberam foram todo mundo morar logo. Eu recebi a casa assim: só dois cômodos e um terreno do lado para construir os quartos.

A vizinhança é boa, apesar das fofocas, de muitos quererem se meter na vida dos outros, mas você não tem queixa dos vizinhos. Eu não devo nada a ninguém, vivo dos meus custos, do meu trabalho. E agora, com meu neto, estou uma avó babona. Eu acho que ali tem que melhorar cada vez mais. A população ali faz com que as coisas melhorem mais.

TIPO UMA TROCA
Bom, essa casa foi fornecida porque a de Capelinha teve um acidente. A terra desceu na frente da minha casa e algumas casas caíram na época, outras racharam o muro. A minha, por sinal, rachou o muro. Aí foi quando saiu essa Codesal. Aí foram lá em Capelinha, inutilizaram aquelas casas todas para ninguém morar e deram a casa a quem teve prejuízo, em Nova Brasília. Foi tipo uma troca.

Não tinha nada, só tinha mesmo dois cômodos cobertos, sem nada, sem piso, sem parede, rebocada, sem nada. Eu fui fazendo aos poucos, botei piso, reboquei, isso antes de eu ir morar lá. Porque um ano eu não fui morar lá. Fiquei na casa do meu sobrinho em Águas Claras. A gente largou a casa lá, ficou todo mundo com medo. Quando eu cheguei, com um ano, ainda peguei essa fase de não ter água. E aí foi continuando, depois era muita lama, não tinha asfalto, nada… Nova Brasília tinha, mas entrando para Jaguaripe não tinha nada.

ÁGUA
Carregamos muita água na cabeça. Comprei água para beber. Não tinha água, só tinha água de carro pipa. Um carro pipa é que levava água, para poder a gente fazer fila de balde para poder conseguir pegar água. Era muita briga na fila, até tapa saía. E aí, depois de um mês e pouco, conseguiram botar algumas torneiras no bairro para fornecer água naquelas torneiras. Aí continuava a fila novamente. Nas casas ainda não tinha, em algumas casas, no outro lado, que botaram umas torneiras. Do outro lado do Jaguaripe, no mesmo Jaguaripe, só que é Jaguaripe I e Jaguaripe II. Eu moro em Jaguaripe I. Também é Nova Brasília.

Depois de um mês e pouco jogaram água para as casas. Só que a água, quando chegava, era 4h da manhã, 3h. Passei muitas noites sem dormir, esperando a água chegar, para pegar de pingo em pingo, até encher os toneizinhos, o tanque, que era lá em cima. A gente tinha que subir de escada, com os baldes de água na cabeça para botar a água. Quando todo mundo abria as torneiras, em algumas casas faltava, porque quem vinha de frente pegava mais e como minha casa era mais reservada… O tanque ficava lá em cima. A água vinha e jogava por esse cano para dentro do tanque. Só que, quando não subia, porque estava fraca, a gente botava uma mangueira na torneira, ia enchendo os baldes e jogando para cima. Uma pessoa subindo na escada e enchendo o tanque, para no outro dia ter água em casa. Depois de uns dois meses já começaram a legalizar tudo. Aí já tinha água em todas as casas.

Quando chegou a água normal, todo mundo ficou com sua água. Mas para lavar roupa a gente tinha que ir lá embaixo no rio. No rio tinha água corrente, porque em casa não dava para lavar. Não tinha como você lavar a roupa porque era muito água. A gente economizava, para no outro dia, se o carro pipa não fosse, a gente ter água.

SERVIÇOS
E aí fomos levando a vida, o mercado foi crescendo. Quando veio uma campanha lá, que resolveram asfaltar a rua, botaram calçamento, deixaram a rua toda bonitinha. Aí foi por volta de uns dois anos. Eu me lembro que era um barro danado. A gente limpava a casa, quando chovia, as casas pareciam aquela lameira.

Tinha um posto policial no final de linha, mas nunca tinha policial. Sempre que você chegava no posto, não tinha policial. Acabaram tirando o posto. Hoje em dia não tem mais posto lá. De tanto ficar fechado sem policial, resolveram arrancar o posto. Quando acontecia alguma coisa lá embaixo, que a gente ia chamar o policial, se tivesse dois, ia lá embaixo. Se tivesse um, ninguém descia. Todo mundo tinha medo de ir lá. Quer dizer que a gente ficava praticamente sem cobertura nenhuma. Até hoje continua sem cobertura, porque só tem posto policial em Sete de Abril, o mais próximo. Sete de Abril e Jardim Esperança. Nova Brasília não tem nada.

O posto médico já tinha, mas para atendimento é naquela base ali: quando tem, você é atendido, quando não tem, tem que ir para fora. Se você quiser fazer um exame, tem que fazer para fora, porque lá não tem coleta para fazer o exame. Pega o conteúdo e leva para o São Rafael e aí depois é um mês, um mês e pouco para você receber o resultado do exame. Se você quiser fazer um curativo, tem vezes que não tem nem uma gaze. Você tem que levar tudo.

As mudanças que a gente foi percebendo é que o bairro realmente melhorou. Já tinha o Colégio Vera Lux, já tinha o Adauto. E aí botaram o mercado, agora já tem vários mercados para você escolher. Pista direta que o carro vai até a porta. Porque antigamente o táxi não descia. Você pegava um táxi, chegava ali na entrada e você tinha que saltar, a hora que fosse, porque o táxi não descia.

As mulheres, algumas trabalham, outras não. Os maridos também, alguns trabalham, outros não. Geralmente as mulheres trabalham mais que os homens. Os homens ficam mais tomando sua “pingazinha” e procurando fofoca.

Eu agora acho que Nova Brasília para mim é uma cidade. Só falta em Nova Brasília mesmo um shopping maior, porque loja de roupa tem bastante. Se você não quiser vir para a cidade, você compra tudo lá. Você sobe para o fim de linha ou até mesmo no bairro, você encontra três, quatro lojas de roupa, sapato. Quando eu cheguei não tinha nada disso. Aí as pessoas foram botando suas barraquinhas para vender algumas coisas, foram construindo alguns barzinhos e trabalhando fora.

VEREADORES
No posto médico sempre aconteceu alguma falha. Nesses últimos dias, dizem que já está tendo médico para criança. Já entrou outros candidatos que botaram assim tipo uma clinicazinha, atendendo também as pessoas. Candidato a vereador. Aí vai ajudando. Sempre aparece vereador. Quando aparece um, tem sempre as pessoas que ficam encarregadas, que o candidato bota para fazer campanha. Eles ajudam muito, só que às vezes as pessoas que fazem isso não distribuem para o povo. Quer dizer, recebe aquela mercadoria e recolhe. Então o povo fica sempre em falta. Fica pedindo voto… Eles pedem para votar neles.
– A gente está fazendo isso aqui, vocês também tem que ajudar a gente. Não estamos dando comida para vocês votarem por 1 kg de feijão, mas também ajudem a gente a crescer, que a gente vai melhorar o bairro, fazer alguma coisa.

E muitos fazem, consertam muitos lugares. XXX começou a dar consulta no meio da rua, debaixo de um pé de árvore que tem lá, um pé de amêndoa, ali naquela pracinha. O carro pára ali, vai com uma médica, uma assistente e o candidato. Eles dão assim uma palestra, que eles estão querendo que o bairro melhore, ajudar as pessoas. Aí eles fazem cirurgia de graça. Eu mesmo já me operei com ele há oito anos atrás. Foi a equipe dele. Nessa época ele não operava ainda. Agora ele já está operando, mas ele tinha uma equipe muito boa. Ele continua lá. Agora ele está ajudando o primo dele. Tem uma clínica ali no Campo Grande, junto ao Hotel da Bahia, que ele está dando assistência. A pessoa vai para o médico e não paga nada. Faz exame. Se for exame caro, aí faz particular. A clínica tem convênio. Se a pessoa tiver uma carteirinha, você paga menos. Faz a carteirinha da clínica. A clínica, eu acho que não é deles mesmo. Eles estão atendendo, fazendo consulta.

Na época da cirurgia, ele marca com a pessoa. E aí, digamos, você vai para tal lugar. Marca o lugar, a gente vai. Bota a gente no carro, dá uma palestra primeiro para todo mundo, explica como é. Aí leva você. Chega lá, ele interna, a pessoa tem toda a assistência, faz a cirurgia e no outro dia entrega a pessoa no mesmo lugar onde pegou, na casa da pessoa.

Se não fosse esse tipo de atendimento seria tudo mais difícil. A gente tem que pagar o INAMPS. Para a gente fazer uma cirurgia dá trabalho. Tem gente que para fazer uma cirurgia lá tem três, quatro anos esperando vaga e com ele não. Com ele, você faz os exames hoje, e se daqui a um mês seu exame já estiver todo pronto, ele já marca a cirurgia.

No ano passado, Dr. XXX recebeu muito voto. No primeiro ano ele não ganhou, mas continuou fazendo tudo o que ele fazia quando estava na espera de ganhar. Ele não parou. Com ele sempre tem, que tenha eleição, que não. Mas como ele já se candidatou e em todas ele se elegeu, ele está apoiando o primo dele, mas está dando toda a cobertura. Então ele fala:
– Minha gente, como vocês me ajudaram, espero que vocês também reconheçam e ajudem essa pessoa, porque essa pessoa também vai fazer a mesma coisa que eu.

E ele está continuando também. Por sinal, agora, a minha cirurgia que eu estava pronta para fazer, só vou fazer com ele. Não pago nada. Eles só pedem a minha identidade e o CPF. Aí eles passam a requisição. A gente vai para o médico, faz os exames e depois leva pra ele. Quando ele vê o resultado dos exames, aí ele fala. Se tem algum problema, ele passa remédio. Quando tem no posto, ele manda a gente pegar no posto. Quando não tem, tem que comprar. Eu continuo com ele. Gostei muito.

A PARTE PIOR
Hoje em dia falta um posto policial, porque está acontecendo muitas coisas em Nova Brasília. Esse ano aconteceu e está acontecendo.

Quando a gente chegou logo, sempre acontecia coisas pequenas, no outro Jaguaripe, que é do outro lado, faz parte do Jaguaripe, mas é do outro lado. Foi uma época que veio uma quadrilha da Liberdade, que aí fizeram extermínio lá mesmo. Na época que mataram acho que sete pessoas. Aí foi a parte pior.

Acho que tem uns 15 anos que aconteceu isso. Aí veio uma quadrilha que se escondia também no matagal, lá debaixo, no rio, que aí fazia medo. Todo mundo ficava com medo, porque eles ameaçavam as pessoas. A polícia estava atrás deles e eles chegavam para as pessoas que moravam e diziam:
Se você não me der cobertura eu venho aqui e lhe apago.

Quando chegavam na porta, pediam comida, pediam uma guarida, a pessoa tinha que… Mesmo sabendo que era arriscado, fazia, porque com eles seria pior. Então muitas pessoas deram cobertura a esses bandidos. Por sinal, teve uma vez que uma senhora lá deu cobertura a um, deu comida, deixou ele descansar na beira da casa. Aí foram e denunciaram ela. E aí um policial que tem lá foi lá, pegou ela e deu muito pau nela dentro de casa. E hoje em dia ela se sente prejudicada devido a esses pontapés que ela tomou do policial. E mesmo ela falando que deu porque era ameaçada, mas eles achavam que ela tinha que recuar, não tinha que dar. Depois disseram que mataram alguns. Aí os outros caíram fora, porque ficaram sem cobertura dos “grandões”, mas hoje em dia ainda está acontecendo muitas coisas lá.

De ruim, o que nunca esqueço foi essa matança que teve lá. Teve outro rapaz que morava na minha rua que mataram lá no outro Jaguaripe. A gente foi ver, estava lá embaixo na ribanceira, e até hoje ninguém sabe quem foi. Teve outro também que morreu na entrada da minha rua, porque vinha de lá de cima e tinha discutido com outro rapaz lá no campo, no baba. Uns oito dias depois teve uma festa lá no final de linha, ele estava lá na festa. Depois ele pegou o filho e veio embora. Aí o cara viu ele. Tinha jurado ele, porque ele foi defender um outro em que ele deu uma canelada na perna. Aí ele foi defender:
– Rapaz, não faça isso não, que a gente está brincando de baba.

Aí ele disse:
– Ah, você está defendendo ele? Então você me aguarde.

Aí ele não levou a sério. Uma brincadeira de campo, ele não levou a sério. Nesse dia da festa, ele foi lá para cima, bebeu, levou o filho de 5 anos, e ele desceu para casa umas 5h da tarde. Quando ele desceu, parou em frente de uma casa e ficou conversando com um rapaz. Aí o cara veio atrás dele, de moto, seguindo devagarzinho. Quando ele entrou na rua, que parou na frente da casa para conversar com o pessoal, ele desceu da moto, botou o capacete na mão, pegou o revólver, botou debaixo do capacete e veio andando normalmente. Como ninguém conhecia quem era… Quando chegou perto, chamou pelo nome dele. Na hora que ele olhou, correu, largou o menino e tomou três tiros. Quando foram pegar, já estava morto.

Um dia de domingo também, nessa casa de candomblé que botou lá agora, estava todo mundo lá fora no terreiro, sambando, fazendo seus negócios. Aí vem um cara com um revólver na mão, procurando não sei quem. Foi é gente correndo. Gente voltando da porta correndo:
– Fecha tudo, fecha tudo.

Quer dizer, o cara desceu pelo meio de todo mundo, procurando uma pessoa, e dando tiro. Ele não olha quem está: tem criança, tem muita gente na rua. Então eu acho que o que está pegando lá agora são essas coisas, porque se tivesse um posto policial ali essas coisas não aconteciam. Então ali eu só peço melhora. Eu não tenho vontade de sair dali, mas se as coisas continuarem assim, eu não sei até quando, porque a gente vai chegando, já fica com medo. 4h da manhã você já sobe com medo ali.

RIXA
Antigamente aquilo ali parecia mais uma favela. Era tanto que quando você pegava um táxi na rua, o táxi não descia, porque dizia que ali era a favela do Jaguaripe. Quando eu fui morar lá, esbarrava no caminho com um monte de gente com pedaço de pau de todo tamanho, porque o pessoal de Nova Brasília não podia descer para o Jaguaripe e nem o de Jaguaripe podia subir para Nova Brasília. Era uma rixa deles, como se achasse que depois que chegou Jaguaripe, ia tomar o lugar.
Nova Brasília é mais antigo. Então chegou muita gente para o Jaguaripe. Quando a pessoa descia, você tinha que avisar:
– Eu moro aqui, viu?

Porque se não você caía na madeira.

PARECE UM BAIRRO
O bairro hoje está crescendo para os dois lados, porque muita gente já construiu suas casas, fizeram casas melhores. Você conta poucas casas que ainda estão como recebeu. Todo mundo já fez um pouquinho, um já puxou um quarto para o lado… Porque quem recebeu a casa, recebeu com o terreno. Aí quem ainda não tinha construído, já construiu, a casa já aumentou. Aí é casa de frente, casa de fundo, só fica mesmo a pista para você passar. O carro vai na porta.

Hoje parece um bairro. Hoje em dia você não vê mais ninguém falar de Jaguaripe. Era tanto que se você chegasse num ônibus e você visse alguém comentando alguma coisa do Jaguaripe, você não dizia que morava lá. Porque nego só falava:
– Ali só mora favelado, é tudo ladrão, é a maior quadrilha.

Hoje eu não vejo ninguém falar isso. Eu já vi muitas pessoas falarem que Jaguaripe cresceu muito e modificou. Agora eu acho que o bairro de Jaguaripe I cresceu mais, em contagem de casas, do que o Jaguaripe II. Tem mais espaço e também o Jaguaripe I é muito falado. É onde acontece muita coisa: Jaguaripe I. Eu acho que Nova Brasília também cresceu com a vinda de Jaguaripe. Porque Nova Brasília era pequeno, era aquele bairrozinho ali só, tinha dois mercadinhos.

FESTAS
Uma vez que tentaram botar uma festinha lá no largo, deu confusão, deu briga, aí ninguém mais fez nada. Porque se você fizer uma brincadeira lá, com poucas horas aparece meio mundo de gente que não presta e aí começa a querer fazer bagunça, entendeu? Então as pessoas não se reúnem muito.
Por sinal, a gente estava até discutindo isso um dia desses, que os vizinhos tinham que se reunir mais. Assim, em tempo de Natal, em tempo de Ano Novo ou São João, aquele povo todo que está ali no caminho da minha casa, se reunissem todos os moradores e fizessem uma coisa bonita ali na entrada… Enfeitava de bandeira e fazia assim uma festa de São João. Porque todo mundo dentro de casa faz alguma coisa, então, reunia todo mundo, cada um fazia assim dois pratos, botava em uma mesa e, pronto, fazia aquela festa. Mas não, ninguém se reúne assim.

RELIGIÃO
Lá tem bastante gente cristã. Só na descida da minha casa tem cinco igrejas, fora da entrada da minha casa, logo da pista. Começaram a aparecer depois de um tempo que eu já estava lá. Essa casa que hoje em dia é uma igreja era de morador. Tinha duas famílias que moravam, uma em cima e outra em baixo. Depois que a de baixo vendeu, as pessoas que compraram fizeram a igreja. Aí o pessoal que morava em cima (era muita zoada), vendeu a parte deles e saiu de lá. Então hoje em dia tem essa igreja que é grande, é muito movimentada. No final de linha tem outra que fizeram agora também, enorme.

SE REALIZAR
Agora chegou meu netinho e eu gostaria de ter paz para quando meu bambino crescer um pouquinho ele poder brincar na rua, porque do jeito que está, a gente não vai poder deixar ele brincar na rua um pouco. Porque ficar na rua ali não presta, tem muito menino que não presta, mas a gente nunca deve prender as crianças, tem que deixar um pouco de vez em quando. A única coisa que eu peço ali mesmo é melhora do bairro, para a gente poder se realizar mesmo.

Entrevista realizada em dezembro de 2007

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