Zélia Rodrigues

Posted on 04/07/2008

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Essa é a história da professora Zélia Muniz Rodrigues, que há mais de 38 anos vem cuidando da formação dos moradores de Nova Brasília e Jaguaripe. Apesar do caos no ensino, da violência dentro das escolas e negligência dos pais, Zélia, que conseguiu vencer as dificuldades impostas pela sua deficiência física, garante que não desiste da educação.

O meu nome é Zélia. Tenho 55 anos. Moro aqui desde 1970. Sou professora, mas muito antes de ser professora eu ensinava, com a idade de 17 anos. Eu morava no Uruguai, tinha de 16 para 17 anos. Aí meu pai veio morar aqui. Eu não gostei no início, porque não tinha ônibus. Tive que parar meus estudos. Depois voltei a a estudar.

Do segundo casal, eu sou a primeira. Nasci assim, com deficiência. Meus outros irmãos nenhum tem problemas físicos, só eu mesmo. Freqüentei escola, estudei, incentivei minha irmã. Ela também se formou. Meus pais eram pioneiros no bairro, porque ele era muito voltado para a comunidade. Ele era agente policial e tinha o posto que minha cunhada era enfermeira e cuidava dos doentes.

Quem me ensinou a escrever foi meu pai. Eu sentava na mesa, me abaixava, escrevia com o lápis na boca. Ele me tirou isso. Começou a pegar minha mão, eu sentava na cadeira e fazia eu botar meus braços sobre a mesa. E uma coisa que eu admirei muito em meu pai (foi dito pelos médicos): ele não ficava mimando.
– Oh, coitadinha, nasceu assim…

Ele agia como agia com os outros. Na hora de reclamar comigo, reclamava igual. Não tinha diferença nenhuma. Então foi por isso – os médicos disseram para ele – que eu me desenvolvi, procurei minha defesa, por mim mesma, porque ele me deu esse espaço.

Quando eu fui para a escola, já fui na 3ª série, no primário. Já fui sabendo ler, escrever e as quatro operações. Comecei a ir para a escola pública. Lá na escola, minha professora me olhava com um olhar igual, não tinha aquela diferença. Só que ela não me deixava no meio da turma, para eu não cair, me deixava sentadinha. Eu, sentadinha, controlava a turma toda. Para brincar de roda, pega-pega, agora, não podia correr.

Comecei a andar com 8 anos. Eu passei a ser Testemunha de Jeová, com a idade de 8 anos, não era batizada. Eu não andava. Fiz uma promessa a meu Pai, que se um dia eu eu andasse, eu ia servir a Ele. Aí, pronto! Eu escolhi ser uma Testemunha de Jeová, onde eu descobri a verdade.

Eu entrei em 1979 e quando foi em 1981 eu me formei. Fiz magistério no Iceia (Instituto Central de Educação Isaías Alves). Eu também estagiei lá no Iceia. A primeira escola que eu trabalhei aqui foi o Adauto Pereira. Do Adauto, me transferi para o Vera Lux, porque era muito distante para mim, por causa da minha deficiência física.

Eu tive muito obstáculo quando fiz o magistério, à noite, inclusive: o transporte. Eu tinha que correr e falar com a professora que não podia assistir a última aula para pegar o ônibus. Tinha que alguém me ajudar a subir, descer. Uma prima minha que estudava em outra sala. A minha maior dificuldade foi, quando eu me formei, ingressar na prefeitura. Porque eles não queriam me aceitar por causa da minha deficiência. Aí eu disse para a junta médica que a minha deficiência estava na minha mão, não na minha cabeça. Não são as minhas mãos que vão educar, o que vai educar o ser humano é a minha inteligência. Mostrei a ele. Se eu não posso ir no quadro, preparo o aluno para ir no quadro. Tenho os meus recursos para educar, chamo um a um junto de mim. Então mostrei que podia.

Eu tenho duas filhas. Uma eu tive mesmo. E a outra é de criação, que eu tomei com 11 meses. E hoje já são moças. Cozinhar? Se facilitar eu cozinho. Agora é um pouco dificultoso. Eu não faço, mas oriento alguém. Uma boa feijoada, ensino a temperar uma galinha, mas agora não precisa, porque tem alguém lá em casa que faz. Eu não tomo banho sozinha. Se eu estiver em pé, se não tiver o apoio da mesa, eu não como sozinha, tem que alguém botar na minha boca. Se eu sentar numa mesa, numa cadeira, eu faço tudo sozinha. Se eu cair, não levanto. Alguém tem que me levantar. Mas, mesmo assim, eu venci.

COMUNIDADE MUITO MARAVILHOSA
Aqui não tinha energia, não tinha água. O povo pegava água na fonte e era de candeeiro a energia. A energia daqui era natural, através de velas. Era uma rua muito calma, tinha mais fazendas, pessoas antigas, pessoas que tinham muito respeito. O bairro era muito tranqüilo naquela época e todos nós, as mocinhas, brincavam de roda, de boneca. Eu dormia lá para 1h a 2h da manhã, assistindo televisão com o povo. Porque quando eu vim para aqui, não tinha televisão. A primeira foi de meu pai. Aí, meu pai, como era uma pessoa muito boa, deixava os filhos e todo mundo assistir televisão.

Isso foi em volta de 1971. Foi quando eu comecei a conhecer a minha comunidade, que era uma comunidade muito maravilhosa mesmo. Era uma tranqüilidade. Era como se fosse um paraíso. Não tinha assalto, dormia de porta aberta. Os vizinhos, quando observavam a porta, às vezes encostava. Então não tinha esse medo como hoje estamos tendo.

ESCOLAS
A primeira escola aqui foi em 1970, o Vera Lux. A minha vida sempre foi para a educação. Gostei sempre de educar e a maioria dos alunos daqui, uns 90% dos moradores aqui, já passaram nas minhas mãos. Aí, quando surgiu a Escola Vera Lux, pronto, melhorou um pouquinho, porque tinha muitas crianças paradas querendo estudar. Eu aproveitava a minha sala e dava minhas aulas (banca) de português e matemática aos alunos.

Depois, foi indo, pela Escola São José, que era uma igreja e agora está desativada, não existe mais. Em 78 ou 76 ou 77, construíram a Escola Adauto Pereira de Souza, que antes era uma fazenda, Rua Santo Antonio. Ali era uma fazenda, aí fizeram uma escola do estado e me contrataram para ser professora de lá. Daí, a história foi indo, fui passando para o Vera Lux e hoje estou aqui na Padre Ugo, a primeira escola do bairro de Jaguaripe. Fui a primeira diretora do bairro de Jaguaripe. Eu sou querida por todos. Inclusive pessoas também que andam fora da lei. Todos eles gostam de mim, porque eu trato todos bem, respeitam muito, me respeitam bastante. Podem usar o que for, as drogas deles, mas não me atingem, não fazem nada. Eu também não sou Cristo para agir com justiça com ninguém. Cada qual faz sua escolha e sofre por ela mesma. Embora foram meus alunos também alguns que escolheram essa triste missão, mas não tenho o que dizer. Todos eles me respeitam muito. No ônibus, me ajudam a subir me ajudam a descer.

MUDANÇAS
Houve algumas mudanças favoráveis, inclusive o transporte. Foi quando começou a ter muitas linhas, não tanto, uma só ou duas, foi quando eu comecei a terminar meu curso, magistério. Em 77 só tinha duas linhas e nessa época eu estava fazendo o 1º grau e o último horário era às 22h. Quem perdesse tinha que vir andando ou dormir na casa de algum parente. Daí, melhorando o transporte, começou a ter o posto médico.

De lá para cá, as coisas foram mudando. Hoje tem farmácia no bairro, tem lojas, tem muitas coisas. Antigamente nós comprávamos em outro bairro, naquele tempo se chamava “Paes Mendonça”. As coisas eram um pouco caras, o bairro era mais caro. Agora não, não adianta sair do bairro para comprar, porque no bairro tem os preços favoráveis, onde nós podemos comprar nossas cestas básicas.

Os hospitais ficaram mais próximos. Quando eram longe, as pessoas que tinham problemas de derrame cerebral, qualquer coisa, morriam no trajeto, porque não dava tempo. Meu pai mesmo eu perdi assim. Ele deu derrame. No trajeto, em Bom Juá, ele faleceu. Agora tem São Rafael, São Bernardo, tem todas as clínicas. Foi uma grande melhoria para a nossa comunidade.

Muitas coisas foram melhorando. Agora, o que eu sinto saudade mesmo, é daquele tempo que a gente andava de porta aberta, brincava com as meninas de roda. Hoje as crianças não têm esse tempo para brincar de roda, as coisas mudaram muito. Hoje, brincar de boneca é coisa natural, “o menino no braço”. A coisa mudou muito, não é como antigamente. As meninas não saíam muito, quando saíam, era sob a responsabilidade dos pais…

RESPEITADO POR TODO MUNDO
Minha família é formada pelo meu pai, que faleceu, meu irmão, que era agente policial que faleceu por problemas de coração. Tem outro irmão também, que é aposentado. Tem outro irmão que também faleceu que era comissário. Trabalhava na 10ª delegacia, de Pau da Lima. As pessoas respeitavam muito meu pai. Se acontecesse qualquer problema, de alguém espancar a esposa, e alguém dizia:
– Vou falar com Seu Cesário.

Pronto, a coisa tomava outro rumo. Tinha que chegar de junto dele, pedir desculpa, que não ia fazer mais isso e tal, porque ele chegava junto com essas coisas erradas. Ele era muito respeitado por todo mundo.

BATIAM NOS PROFESSORES
No Vera Lux, alguns professores desistiram até de ensinar, porque os alunos são revoltados, devido à criação, os pais não tiveram condição financeira e muitos foram parar nas drogas e estão estudando. A escola aberta é para isso mesmo, tem que aceitar a todos. Aí, quando eu dava aula lá à noite e faltava energia, eles jogavam carteiras, batiam em outros professores, jogavam até bomba dentro do sanitário. Mas comigo eles respeitavam. Fechavam a porta e diziam:
– Ó, pró, com a senhora não acontece nada. Pode ficar aqui, quietinha, que ninguém vai fazer nada.

Eles também não deixavam o professor dar aula. Mas, quando chegavam na minha sala, já me conheciam e perguntavam:
– É a professora Zélia?
– Sim, sou eu. Porque você não está em sua sala?
– Ah, porque não quero assistir a aula.

Aí eu explicava que ele estava sendo prejudicado fazendo isso. Qual o futuro que ele ia ter? Aí ele ficava assim pensando.
– Então você vai vir aqui, me ajudar e escrever no quadro.

Às vezes eles iam, escreviam no quadro, e às vezes ele iam embora. Respeitavam. Todos eles me respeitam, não tenho o que dizer de nenhum deles, graças ao bom Deus. Só tenho pena das escolhas que eles fizeram. Quer dizer, não são todos. Alguns hoje são pais de família, outros são formados. Mas aqueles que escolheram o mal caminho, muitos morreram, inclusive até meu sobrinho. Está paraplégico porque ele usa drogas, já roubou muito, é uma tristeza, uma escolha. Eu acho assim: cada um que faz sua escolha tem que ver quais são as conseqüências que virá depois sobre eles.

MISERICÓRDIA DE DEUS
Melhora? Eu vou ser franca: é tipo um paliativo. Pode ter algumas melhoras, mas uma melhora como eu desejo, só mesmo está registrado em Daniel 12:44. É o único que pode estabelecer o reino Dele aqui na Terra, acabar com a doença, com a morte, com o sofrimento da humanidade. Ele pode trazer a paz para todos os viventes. É quando Ele transformar a Terra num belo paraíso e acabar com todo o sofrimento e a violência. É o único que pode fazer isso, mas, fora disso…

Eu não vou desfazer do governo, mas, embora, coitados, eles lutem para conseguir algo, não vão alcançar esse objetivo de acabar com a doença, com a morte. A cada dia que passa aumenta a doença e a violência. Então, nós estamos vivendo aqui pelas misericórdia de Deus e também pela bondade dos governos que estão fazendo alguma coisa, embora não está nas mãos deles.

ENSINAR O POVO
O meu sonho é me aposentar. Hoje, por mais amor que eu tenha, é triste lhe dizer: a educação está um caos! Você ensina uma coisa, educa, mas, adiante, ele não vai levar aquilo que você ensinou com carinho. A própria família – não são todas – não vão ajudar. Então, se hoje eu fosse mais nova, eu sairia da educação, com muita pena, mas faria outra coisa. Porque nós não estamos tendo esse apoio hoje, como eu tive anteriormente, há anos atrás, em 1970, 1968, que os pais chegavam junto na educação dos filhos e hoje não tem mais isso.

Eu tenho 55. Com educação eu tenho 25 anos e 26 em outro, mas ensinando mesmo eu comecei com 17. Se eu contasse, teria 38 anos de ensino. Sempre na região, na minha comunidade querida. Sempre eu digo:
– Eu pretendo não mudar daqui. Prefiro morrer aqui.

Inclusive, comprei até um pedacinho de terra no Cemitério Bosque da Paz, porque eu amo meu bairro, amo meus vizinhos, meu povo. Eu gosto muito deles e por isso que eu, amanhã ou depois, quando me aposentar, vou me dedicar mais ensinar o povo o caminho de Deus. Eu ensino dia de domingo, mas vou mais me dedicar a Ele, para ver se salva alguns deles.

Eu educo o povo da comunidade, ensino, realizo estudo familiar e alguns deles, inclusive alguns usuários de drogas também realizam estudos. Eu explico o motivo dele está ali, que não é da vontade de Deus que as coisas acabam dessa maneira, mas é por escolhas que eles estão fazendo. Embora fico muito triste, por que eles foram meus alunos, mas o que eu posso fazer?

MUITO CARENTES
Hoje eu não vou desistir porque já estou aqui mesmo. Mas mesmo assim eu tenho muito amor, porque quando eu passo uma explicação que eu vejo que eles não entendem, basta eu dar uma olhada, aí eu digo:
– Você não entendeu. Venha no quadro agora escrever. Venha, você tem que aprender.

Eles dizem:
– Pôxa, pró, a senhora pega muito no nosso pé. Não é todo mundo que é assim não.

Estão querendo que eu acompanhe no ginásio, por causa da dedicação que eu tenho, a paciência, porque eu quero que eles aprendam mesmo e enquanto eles não aprenderem, eu não sossego. Eu não ligo em passar o conteúdo não, eu quero que ele aprenda. Para ter uma base na vida deles, um primário bom, para quando chegar no ginásio ele não ficar parado.

Eu ensino a 4ª série do ensino fundamental e só vou passar para 5ª série quem sabe ler e escrever mesmo, senão vai ficar um pouquinho comigo. Eles já estão sabendo disso, já conversei com eles. Eles mesmos fazem a análise deles, dizem:
– Eu não quero passar não, que ainda estou lendo com dificuldade. Eu quero ler bem com a senhora. Eu vou perder mais um ano só para ficar com a senhora.

Conscientizo eles bastante, quando eles não conseguem atingir a meta de passar, eles não ficam com ódio, eles querem continuar mais comigo.
– Eu quero ficar mais com a senhora. Não quero ir embora. Mais adiante não vou achar professora igual à senhora, que explica, tem aquela paciência de explicar. As coisas que eu nunca aprendi com outras professoras eu aprendi com a senhora, as operações todas. Agora mesmo eu pesquisei num livro preposição, não entendi nada, mas com a senhora já sei.

Eu me dedico muito aos meus alunos da noite. Eu amo bastante. Se eu hoje continuasse na educação eu ficaria mais a noite, porque são muito carentes. Tenho aluno com 60 anos, outros com 55, 45, 37, 38, 20 e tem adolescentes também, uns dois ou três adolescentes que estão acompanhando também. Mas não criam problemas na sala de aula não, eles me respeitam bastante. Porque minha aula é assim, quem entendeu o assuntos bem, eu digo assim:
– Agora você vai ensinar ao seu colega o que você aprendeu. Se você não explicar você não vai tirar uma boa nota.

Daí eles chamam os coleguinhas e explicam direitinho. Eu trabalho assim com eles.

SOLIDÁRIAS
Chegaram muitas pessoas aqui na comunidade. De respeito, pessoas direitas, chegaram muitas pessoas boas. Inclusive teve um delegado, que faleceu, que fazia uma festa. Todo mundo gostava da fogueira que ele fazia, a brincadeira agitava a comunidade, não tinha aquela violência que tem hoje. Mas depois, você sabe, foi entrando…

Jaguaripe era uma fazenda. Com aquela chuva de 78, mais ou menos, tiraram as pessoas, morreram. Então vieram muitas pessoas de índole boa e de índole má. Ficaram aqui na comunidade. Por causa disso criou um problema sério. Mesmo assim está dando para viver.

Hoje eu daria ao meu bairro a nota 9. Antigamente eu daria 10. Sem água, sem energia, mas não tinha tanto problema como a gente tem hoje. Eu sinto muita saudade, muita, muita, muita de brincar de roda. Já pensou você ficar até meia noite na rua brincando com as meninas e não ter medo de nada? Qualquer coisa que pegassem seu, traziam em sua porta.
– Olha, que a senhora perdeu.

Minhas vizinhas eram maravilhosas, eram solidárias. Qualquer coisa, se você estivesse doente, elas estavam lá, ajudando, cuidando, fazendo remédio, limpando a casa. Era assim. Hoje não fazem mais assim por causa do tempo, todo mundo tem que trabalhar fora e a vida das pessoas é muito corrida.

Eu mesma acordo 5h30. Chego aqui 8h, saio daqui 5h da tarde. Vou para casa e tomo banho. 7h estou descendo para dar aula. Chego em casa 9h30. O único dia que eu me conheço, sei que eu sou Zélia e sou um ser humano: sábado e o domingo. De segunda a sexta, dedico ao trabalho, com amor.

Entrevista realizada em novembro de 2007

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Posted in: Zélia Rodrigues