Inácio Galdino

Posted on 04/07/2008

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Sou pernambucano, de Recife. Vim para Salvador com 9 anos. Fui criado na San Martin, Largo do Tanque, Uruguai. Mas eu vinha e voltava, porque eu gostava muito de Recife. Eu tinha um irmão lá que chamava Alemão, jogava bola. Eu gostava muito dele. Aí chegou uma época, em 1975, que eu soube que ele morreu afogado. Fui lá, peguei os documentos dele, me desgostei e não fui mais.

Eu não conhecia Nova Brasília. Eu trabalhava até ali na área da Brasilgás, sempre em construção civil. Quando foi em 1976, meu irmão veio aqui para o lado de Nova Brasília. Comprou quatro a cinco lotes: um para ele, um para a sogra dele, um para a irmã da sogra, outro para a cunhada, outro para a outra cunhada. Chamou minha mãe, deu um pedacinho de terreno, fez um barraquinho e minha mãe ficou aqui até falecer. E eu fiquei também. Aqui me casei, construí família.

Fiquei trabalhando nessas obras todas. Fui fazendo obra, trabalhando, criando meus filhos. Um casou, mora aí. Outro casou, mora ali. Esse está dentro de casa aqui. Tem um bocado de cursos. Trabalha de noite lá na Barra, barman. Disse que vai trabalhar para pagar a faculdade dele. Vim aqui para Jaguaripe em 89. Não saio mais para lugar nenhum. Trabalho pela Paralela, por perto da faculdade, fazendo serviço naqueles condomínios.

PIONEIROS
Eu não sou tão velho aqui não. Tem gente mais velho. Esse mesmo que chama Seu Zé, do Conselho de Moradores de Nova Brasília. Ele chamava Zé da Água, vendeu muito água no jegue. Eu conheci um velho, um sergipano, que chegou aqui em 1930. Chegou aqui e viu Doutor Jorge se formar. O dono da chácara ali, da entrada do Sete, que é Dr. Jorge. Chegou menino, se formou e sempre morando aqui. Seu Pedro faleceu com 96 anos. Uma pessoa lúcida, conversava com todo mundo.

DONOS DO MUNDO
Aqui só era mato. Em Cajazeiras não existia nada. Cajazeiras evolui dos anos 80 para cá. Eu entrava daqui e ia comprar carne no matadouro de Águas Claras. Andava por esses matos todos. Eu e a turma aí. Aqui tudo era fazenda. Chamava Fazenda Sete de Abril. Quando Água de Meninos pegou fogo, trouxeram aquele povo de lá, para aqui e para Canabrava. Eu tenho um conhecido das antigas que veio para aqui do tempo que Água de Menino pegou fogo, em 65. Tem gente vivo aí da época. Dalva está viva ainda, mora ali na Rua Santo Antonio.

Aqui era assim: eu sou um pessoa que tomo conta de uma fazenda e tem aquelas pessoas que moram há muitos anos, são herdeiros daquela fazenda. Aí a gente divide, tiro uma parte e dou a cada um. Quando esse povo da Água de Meninos chegou aqui, que o Exército trouxe, levaram lá para baixo, para os buracos, para as ladeiras, foi lá para a beira do rio. Quem tinha terreno aqui em cima eram os posseiros. Era meio mundo de terreno e ninguém fazia casa. Era deles. Ali tinha Nelson Lacerda. Lá no fim de linha tinha Esmeraldo. Tinha o pai de Evandro. Eles são donos daquela área toda, já lotearam tudo ali. Cada um tinha meio mundo de terra. Tinha o finado João Deró aqui na frente, que tinha esses terrenos da entrada todos. Eles viram as coisas apertando, foram vendendo. Se eles não vendessem, trocassem por qualquer dinheiro, perdiam para o governo, porque tem que pagar imposto. Tem muita gente aí hoje dono de terreno que não comprou na mão de pessoa nenhuma.

Quando construíram o campo de Pituaçu, em 1977, mais ou menos, eu ia trabalhar todo dia às 6h, de pé, por dentro desses matos. Passava ali no Sete, o sítio, e você só via as placas com aquelas caveiras: “Não entre, perigo de vida”. Cheio de mato. Quem é dono disso? Eram os donos do mundo. Quem tocasse ali morria mesmo.



NÃO ME ESPERE

Só tinha um ônibus em Nova Brasília, que vinha de Portão. Eu não alcancei. Quando eu cheguei aqui, já tinha alguns carros rodando. E o ônibus de Portão ainda rodava, o “macaco”, um ônibus velho. Quando chovia, ele não passava, não vinha rodar. Aí, o povo de Nova Brasília até hoje tem essa história: “Se chover, não me espere”.

ESCOLAS
Eu ouvi dizer que o Colégio Vera Lux foi feito por uns italianos maçons, não sei… A primeira parte, porque depois teve a reforma do fundo, o segundo colégio. E tem o Adalto, do fim de linha, que é outro colégio. Só tem esses em Nova Brasília. Eu trabalhei na obra do Adalto, quando fez, perto de 1980, e nas três reformas.

JAGUARIPE
Em Nova Brasília, eu fiquei 13 anos. Quando foi em 1989, aconteceram muitos acidentes aqui em Salvador, morreu muita gente. Aí minha casa caiu e eu fui para o colégio em Nova Brasília mesmo. Eu conhecia um tenente e ele disse: “Inácio, sua casa caiu, vá lá para o colégio, que é ordem do governo”. Fui pro colégio e fiquei lá. Depois começou a chegar gente desabrigado e uma mulher ficou tomando conta de todo mundo. Aí precisou de uma reforma no colégio, em 1989 mesmo. Juntou eu, mais quatro pedreiros e fizemos a empreitada do colégio todo. Quando eu não esperei, de uma hora para outra, pegaram minha família, botaram dentro de um caminhão e largaram aqui em Jaguaripe.

Aqui era uma fazenda, tinha muito coco. Antes de fazerem essas casas aqui de Jaguaripe, em 1989, veio uma firma, acho que era Monsieur Fabril e comprou esse terreno para construir prédio. Botou os tratores, derrubou um bocado de coqueiro, mas, na hora de construir, parece que o imposto do terreno era muito alto e a firma desistiu. Poucos meses depois, ou anos, não sei, Fernando José construiu essas casas aqui. Dizem que foram três meses para construir. Aí botaram o povo do Lobato, da Liberdade, da Suburbana, de um bocado de lugar.



DIA-A-DIA

Eu não gostava de Nova Brasília. Não vou negar. Tinha luz em algumas casas. Na rua não tinha. Água encanada não tinha. O povo carregava água no jegue. Nova Brasília não tinha mercado, só uma venda, uma quitanda. Depois, teve o Mercado Santo Antonio, que acabou. Veio Osvaldo, que acabou. Foram botando os mercados. Veio o Mercado Néri, não deu certo. Aí o Portal chegou, tomou conta da área. Pronto, está aí o Portal. Quem tem mais dinheiro é quem manda, né? Pois é isso.

Em Jaguaripe, o bar que tem ali no fim de semana é o bar de Seu Aurino. Vende só cerveja, tem um sonzinho de CD que ele bota lá. E um barzinho pequeno, comércio quase nenhum. Comércio que vende alguma coisa, só os de lá da frente. Tem o rapaz que vende pão ali. Antes tinha uma padariazinha, já acabaram. A minha cunhada comprou uma casa ali, umas máquinas, botou meu filho para fazer pão. Minha família quase toda trabalha com salgado.

CELEBRAÇÕES
Aqui tem a Assembléia, tem a Igreja Católica. Quando fizeram a obra de Jaguaripe, deixaram logo a igreja feita. Nova Brasília tem igreja católica também. O padroeiro eu ouvi dizer que é São José. Todo ano sempre tem uma festa de São José.

CONVIVÊNCIA
Aqui é pequeno, todo mundo conhece todo mundo. Eu tenho 30 anos aqui, nunca tive inimizade com pessoa nenhuma, nem com polícia, nem com vagabundo, com ninguém. Cada um vivendo no seu lugar, tá bom demais. Quando eu não estou em casa, eu estou trabalhando. Quando eu saio, é caminho direto. Eu não gosto de ficar na rua. Só vou comprar o pão. Eu não gosto de sair, aliás eu nunca gostei. Em Nova Brasília eu andava só quando vinha do trabalho. Na época, eu bebia. Hoje não bebo mais. Eu parava no bar para tomar um negócio. Depois eu larguei esse negócio.



VIOLÊNCIA

O povo fala de violência, mas eu não acho tanta violência aqui não. Existe violência mais de gente que vem de fora. Aqui teve aquela chacina que mataram uns quatro aí. Foi gente que veio de fora, num carro. Pegaram os meninos ali no videogame. Morreu muita gente inocente. Chegaram fuzilando todo mundo. Eu conhecia até uns três. Um não era vagabundo nenhum, que eu sei. Um morava aqui na esquina dessa rua. Vendia queimado dentro do ônibus. Todo dia esse menino chegava, ficava ali no bar fazendo lanche. Nesse dia, que ele foi fazer lanche, foi o dia dele. A gente estava aqui, só ouviu os tiros. A família tem barraca na feira, comerciantes. Parece que foram quatro que morreram, mas isso tem em todo lugar. Nova Brasília e Jaguaripe eu não acho tão violento não.

ESPORTE
Em Nova Brasília não tinha campo de futebol. Jogava no fim de linha, onde o ônibus faz a volta. Ali era um areal. A gente botava as traves, dia de domingo, jogava e quando terminava o jogo tirava as traves e guardava. Os moradores não queriam. Tinha uma moradora que pegava a bola, cortava, porque a bola batia nas casas. Quando cheguei aqui, ainda joguei no Fluminense, no Palmeirinha. Veio o Primavera, Flamenguinho. Todos esses times eu alcancei. Depois o Vasco, o Ipiranga, São José.

Quando foi em 1978 ou 1979, não tenho bem lembrança, o estádio desapropriou um terreno ali na beira do rio e fez um estádio que hoje chama Beira Rio. Botou a máquina, cortou o barranco todo, igual ao de Jaguaripe, de frente ao Conselho. Não tinha casa, era um sítio de um velho, uma roça de aipim. Sítio que tomava conta, não pagava imposto nem nada. Eu estava até trabalhando na época. Quando cheguei, já estava tudo plano. Um campo pequeno, depois foi mudando. Hoje é um estádio.

Para jogar bola, a galera de Nova Brasília vinha aqui para a frente do Jaguaripe. Aqui era uma fazenda. Ali, onde faz aquele negócio de caixa de luz, era aberto, era uma fábrica de quiboa. Aí os adolescentes vinham jogar bola toda tarde. Mas tinha um delegado que morava ali dentro que era gente ruim. Ele tomava a bola, vinha com a viatura. E fim de semana a gente jogava bola na chácara de Dr. Francisco Bahia, o finado Francisco Bahia. Depois fizeram a praça, fizeram o campo.

Entrevista realizada em novembro de 2007

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