Agenor Alves da Silva

Posted on 04/07/2008

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O meu nome é Agenor Alves da Silva. Eu não sou filho de Salvador, meu documento é tirado como filho daqui, mas eu nasci mesmo em Serrinha. Cheguei aqui com a idade de 14 anos, em 1949, já para trabalhar. Eu sai de lá fugido, para morar aqui. Um amigo me trouxe, conseguiu um trabalho de balcão, em Pero Vaz. Minha mãe disse:
– Nem conte comigo. Para Salvador você não vai.

Aí falei com meus irmão e disseram que eu nem pensasse nisso. Naquela época era trem, nem ônibus de lá para cá existia, um trem que saía daqui para Bonfim, Juazeiro. A gente marcou encontro em Água Fria, depois de Irará. Eu arrumei meus paninho, botei num boca pio e me mandei. Quando pensavam que eu estava lá, já estava era chegando aqui em Salvador.

Eu trabalhei no Pero Vaz, na Calçada, e quando constituí família, vim me embora para Nova Brasília, porque achei o bairro melhor do que na cidade, mais calmo. É muito enxamoso a cidade. Cheguei aqui em 1964, quando era Fazenda São José. Só tinha quatro casas nessa linha direta. Modificou muito para o que é hoje. Aqui está uma cidade. Antes não tinha transporte, não tinha água encanada, não tinha luz, não tinha nada. Eu tenho 17 filhos, todos de lá de Sete de Abril até aqui. Todo mundo criado já, graças a Deus. Só tem uma que está em São Paulo. Agora eu estou com a terceira mulher. Minhas duas primeiras mulheres morreram.

Eu moro ali naquela casa sem pintar, há 15 anos e botei essa banquinha aqui para ter mais algum acesso de vida. Todo dia eu desço 4h30 para fazer minhas compras. Vendo aquela cocadazinha ali desde o início de minha vida, ainda empregado. Eu trabalhava na polícia administrativa, que é aquele rapa. No primeiro dia de folga, eu vendia aquilo para sobreviver. Quando passei a trabalhar no turno da noite, fui trabalhar de pedreiro. Graças a Deus hoje estou aposentado, 15 anos de aposentado já. Eu tenho quase 50 netos. Daqui eu não quero ir embora. Agora eu vou passar uns tempos lá em minha terra, lá no interior. Tenho muitas sobrinhas por lá. Mas mudando de bairro em bairro não gosto não.

Eu trabalhava na Ladeira da Praça. Saía daqui para apanhar transporte em Pau da Lima, dando essa paletada todos os dias. 4h era o meu horário de sair daqui de casa. Hoje temos transporte. Aqui nós podemos dizer que estamos no céu. Quem se desloca daqui para o centro, é 40, 50 minutos.
O transporte coletivo aqui, em 64, era um transporte saía ali da Calçada a Portão. Uma época aqui teve nove ônibus. Isso durou um ano e pouco. Depois saíram os nove ônibus, entrou uma tal empresa aí e jogaram no pára-brisa: “Se chover, não me espere”. Era difícil a gente apanhar esse carro, por que quando vinha de lá, já vinha cheio de estudante. A gente que morava por aqui tinha que paletar daqui para o Pau da Lima.

Em 1964, nem colégio por aqui existia. Para estudar, tinha que ir para o Novo Marotinho. As crianças daqui e meus filhos estudaram por lá e os outros aqui no Vera Lux. Meus filhos foram criados com liberdade, sem perigo de nada. Todos aprendeu, nenhum se formou, mas todo mundo aprendeu a assinar o nome, não tem nenhum analfabeto, graças a Deus. Analfabeto mesmo quem ficou foi o papai velho, assim mesmo, assino o meu nome, graças a Deus. Leio qualquer uma carta, não de letra de médico, que eu não conheço.

Aqui era a Fazenda São José e ali era outra, chamada Fazenda Café, hoje é o Jaguaripe II.

Quisesse fazer uma feira, tinha aqueles armazenzinho, mas era armazém muito zinho, aqui no km 7.

Festa de largo por aqui em Nova Brasília nunca teve. Tem em Pau da Lima, Castelo Branco, Sete de Abril, mas por aqui não.

Todo mundo me conhece aqui. Em Jaguaripe não, que eu não freqüento muito. O meu negócio é daqui para Nova Brasília. Para lá eu não vou, só se tiver uma necessidade, algum amigo me chamar. Do contrário não vou, não gosto.

Eu não tenho o que dizer. Eu moro aqui e nunca teve problema comigo, nem com meus filhos, nem com meus familiares. Tudo numa boa. Agora, dizer que aqui é um bairro violento, é. Tem o pessoal que procura problema e encontra.
Aqui precisa melhorar muita coisa: rede de água, porque essas águas entopem, o manilhamento aqui é precário; essas praça está mal acabada, precisando de recuperação; uma escola mesmo boa, que não tem. A gente está necessitando disso tudo.

Entrevista realizada em novembro de 2007

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