Anselmo José Santos

Posted on 03/07/2008

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O sacerdote Anselmo Santos mora desde 1988 nas proximidades da Avenida Paralela e Estrada Velha do Aeroporto. Em 18 de janeiro de 1996 inaugurou o Terreiro Mokambo, onde realiza trabalhos sociais voltados para a comunidade da Vila Dois de Julho e entorno.

Olha, meu nome é Anselmo José da Gama Santos. Eu sou sacerdote de religião de matriz africana, aqui do Terreiro Mokambo. Nasci dia 19 de fevereiro de 1955. Eu nasci em Realengo, no subúrbio. Na realidade, o nome era Real Engenho. E se escrevia Real Engo, com o “ozinho” pequenininho no final. E aí o povo, com muita astúcia: realengo, realengo, realengo e ficou. Realengo é onde ficou preso Caetano Veloso, Gilberto Gil, na época da repressão. É uma área militar no Rio de Janeiro. Se vocês quiserem alguma coisa a mais, tem o site da gente que é http://www.terreiromokambo.org.br. Aí tem o histórico daqui da casa.

Eu sou bacharel em secretariado executivo pela Universidade Católica do Salvador. Faço um curso de pós-graduação, a nível de mestrado, de educação e contemporaneidade na Uneb. Eu viajei pelo Brasil inteiro. Eu viajei pelo mundo inteiro. Eu sou bacharel em secretariado executivo, mas me tornei profissional de televisão. Hoje, se me perguntarem:
– Que profissão você tem?

Eu sou produtor executivo, produtor de jornalismo, produtor de programas de turismo, produtor de eventos.

Hoje eu não faço mais nada. E não foi a minha formação. Eu entrei na televisão para ser secretário do gerente de eventos da TV Bahia. A partir dali a minha vida mudou. Eu deixei as minhas tarefas, enquanto secretário executivo, para desenvolver tarefas de jornalismo. E comecei a aprender uma série de coisas. Veio campanha política e o QG da campanha era na minha sala. Eu aprendi a fazer lauda. Aprendi a fazer um monte de coisas! E dali eu me tornei um profissional de TV. Na minha profissão mesmo eu trabalhei um ano e o resto foi trabalhando em comunicação.

Mas a minha atividade é sacerdote de religião de matriz africana. O que não significa profissão. É um sacerdócio. Eu me dedico hoje a isso. Exclusivamente! Aqui é o Terreiro Mokambo. É uma história interessante, se vocês quiserem ouvir.

TEM QUE TER CHÃO
Eu morava num condomínio ali em baixo, condomínio Aldeia das Pedras, e eu vim morar aqui em 1988. A gente ouvia falar algumas coisas daqui de cima, mas ainda não tinha nada. Em 1988 essa Paralela era só mato. Depois, já no final da década de 80, é que eu vim comprar o lote aqui. Candomblé não é uma coisa pré-estabelecida como as pessoas pensam hoje. Ser sacerdote de candomblé é uma missão, porque candomblé não é uma religião de escolha, é uma religião de escolhidos. Você está na religião, mas você não sabe se vai ser escolhido pela ancestralidade da tradição étnica que você representa, para dar manutenção a essa tradição. Você se forma com 50 colegas. Nem todo mundo vai exercer a profissão, outros vão tomar outros caminhos. No candomblé acontece exatamente assim.

E aí a gente olhava, de baixo, olhava para cá e eu não sabia nem o que tinha, porque eu nunca tinha vindo aqui. E aí foi um negócio muito interessante o que aconteceu. Eu vim com uma amiga minha, e ela me disse:
– Ah, Anselmo, ali estão vendendo uns lotes, um loteamento, você não quer ir lá ver?.

Eu disse:
– Vamos, porque eu estou precisando.

É uma outra peculiaridade das religiões de matriz africana: elas necessariamente têm que ter terra, têm que ter chão. Elas não podem ter nada em cima, nem nada embaixo. Então quando você vê alguma coisa de religião de matriz africana com alguma coisa em cima ou embaixo, desconfie, porque tem alguma coisa de errada, porque são os elementos que a gente precisa. É a parte do céu, que é lá em cima, e a terra.

COINCIDÊNCIA
E o que acontece? Quando eu vim para cá, para comprar esse terreno, eu comprei de um rapaz. Eu morava antes na casa da minha mãe-de-santo. Sou filho de Mirinha do Portão, que era filha de Joãozinho da Goméia. Todos os dois foram lendários no candomblé, tanto ele como ela. Se eu tiver um pouquinho do brilho deles para mim, já vou me dar por satisfeito. Porque eles foram pessoas que revolucionaram dentro das religiões de matriz africana, com os recursos que eles tinham na época. Seu João foi de 1932 para cá, e minha mãe foi de 1945, 1950, para cá. Eles fizeram um trabalho muito bonito dentro da religião e é o que eu pretendo seguir.

Eu morava com ela, que já vivia em segundas núpcias com uma pessoa maravilhosa. Eu me dava com ele, sabia que ele tinha outros filhos de outro casamento, mas nunca conheci ninguém da família anterior dele. Bom, aí, vim e comprei esse terreno na mão de um rapaz chamado Rubens. Preparei a documentação toda e ficou faltando um documento. Eu fui para casa me questionando:
– Meu Deus, como é que eu comprei um negócio daquele?

Olha como é que é aqui: um declive… Na época, eu não tinha nenhum meio de acesso para chegar na parte mais plana do terreno. Mas, enfim, já tinha feito. Eu não sou uma pessoa de voltar atrás naquilo que eu faço. Falei:
– Bom, vou levar o documento que está faltando.

Eu vim trazer o CPF. Ele não estava, aí fui falar com a esposa dele. E ela:
– O senhor vai abrir uma casa de candomblé?.

Eu falei assim:
– Não, eu quero fazer uma casa, porque eu quero trazer meus santos para ficar aqui, mas eu não quero necessariamente abrir uma casa de candomblé.
– A minha sogra é de candomblé.
– Tudo bem.

Conversa vai, conversa vem, não sei o que eu falei de Portão e ela disse:
– Ah, você é de Portão?

Eu disse:
– Sou.
– Ah, porque minha sogra é de Portão.

Eu falei:
– Ai, meu Deus do céu, minha filha, me diga logo quem é a sua sogra.
– Mirinha do Portão.

Olha, se não é uma coisa predestinada. Eu comprei o terreno na mão do enteado da minha mãe-de-santo, sem saber, sem nunca ter conhecido. Aquilo, na hora, me arrepiou dos pés a cabeça. Eu sempre achei que eu não tinha que ser pai-de-santo. Eu tinha que ser qualquer outra coisa. Eu adoro a religião, sempre gostei, mas eu sempre fui muito cético em relação a certas coisas. E eu achava os pais-de-santo tão assim, sabe? Tão lúdicos. Ah, meu Deus, não é comigo isso! Eu não sou de chegar num lugar:
– Ah, isso aqui está carregado! Olha, minha filha, cuidado com isso.

Eu não sou assim, não é de mim! Eu, para sentir alguma coisa, leva um tempo. Eu falei:
– Meu Deus, isso não é comigo.

Mas acabou sendo. Esse foi o primeiro sinal que eu recebi de que realmente eu tinha que estar nesse caminho.

E aí, depois dessa coincidência toda, comprei o terreno, limpei tudo e fomos iniciar as coisas da casa. Aqui não tinha nada, só tinha mato, só mato. Tudo nós começamos aqui do zero, do chão mesmo. Tudo que você vê edificado hoje foi de 1991 para cá. Tudo. Aqui não tinha nada. E, aí, vamos ajeitar aqui, ajeita dali e a casa foi tomando forma. E o que que acontece? Precisou se chegar na documentação. O que é que eu tinha? Uma promessa de compra e venda. E o que que acontece? Nós temos uma entidade que representa o candomblé civilmente: é a Associação Beneficente Pena Dourada. Essa é a entidade que tem como objetivo principal ser a entidade mantenedora do terreiro e fazer com que através dela eu capte recursos para o desenvolvimento de projetos sociais que venham melhorar a qualidade de vida da comunidade da Vila Dois de Julho e do entorno. Porque tem Nova Brasília, tem Vila Mar, tem Jaguaripe, enfim… Quer dizer, o que não falta é afro-descendente pobre para eu ajudar aqui.

BEM E MAL
O candomblé tem essa característica, de ser acolhedor, sempre teve, mas do portão para dentro. Até por conta de muito preconceito, de muito estigma negativo. Falta realmente de conhecimento. Hoje, eu sou uma pessoa que tenho 32 anos de iniciado no candomblé e se você me chamar:
– Então, você pode fazer uma palestra aqui na faculdade sobre a Bíblia, sobre o Alcorão, sobre a Torah?

Eu declino do convite na hora:
– Você me desculpe, mas eu não domino esse assunto para ir para a frente de um monte de gente para falar sobre isso. Me chame para falar de candomblé e eu falo até amanhã de manhã, sem cansar.

É uma coisa que eu gosto, que eu domino e que eu estou me aprofundando cada vez mais, tentando desestigmatizar, melhorar a visibilidade que as pessoas têm da religião, “desdemonizar”, que é uma coisa fantástica que eu acho. Quando a gente não tem conhecimento, a gente briga, né? Eu estou no candomblé e não vejo nada desse negócio de mal que todo mundo fala! Como é que pode um negócio desse? Aí, depois, você vai estudar… Cristo é um gatinho, nasceu outro dia, tem 2007 anos. O candomblé tem mais de 5 mil anos! Se essa base religiosa existe há mais de 5 mil anos, como é que eu é que vou cultuar o diabo? O diabo é um elemento litúrgico criado nas religiões cristãs. O candomblé não tem nada a ver com essa história. O que passa é a coisa do sincretismo, que é outra história. Mas a essência do candomblé nem passa, porque no candomblé não tem bem e mal.

O candomblé tem certo e errado. Porque tem certo e errado? Porque, para nós, o bem e o mal estão dentro de você. Se você chegar e me procurar pedindo para quebrar a perna dela, não vai depender de você ou de mim. Vai depender de você chegar aqui e encontrar a resposta em mim. Se eu, como sacerdote de religião, usufruir desses conhecimentos que eu obtive durante esses anos todos para criar uma situação ruim para alguém, eu posso até conseguir. Eu acredito em tudo na face na Terra. Eu acho que Deus deixou tudo. Até se uma folha cair é com a permissão de Deus. Então eu acredito em tudo, mas eu acho que você tem que encontrar em mim outra resposta. Eu tenho que tentar demover de você a idéia de querer o mal das pessoas. Você pode conseguir o seu intuito de uma outra forma, sem que seja dessa maneira. Agora, tem gente inescrupulosa, tem gente de tudo quanto é marca no mundo. Então:
– Ah, minha filha, você me dá tanto e a gente quebra as duas pernas, os dois braços.

Mesmo que não aconteça nada, mas já meteu a mão no teu bolso, já tirou seu dinheiro, já lhe usou. O que eu acho bem feito, porque você paga pela sua fraqueza. Porque pior do que aquele que faz é você que acredita e que vai para lá com essa idéia. E que contribui para estigmatizar ainda mais a religião.




MOKAMBO

Bom, aí nessa parte de documento: vamos ver, vamos dar entrada na escritura. Até então meu endereço aqui era Rua C, quadra 8, lote 4, loteamento Vila Dois de Julho. Quando vou dar entrada, não entendi nada. Isso aqui é ligado ao subdistrito de Pirajá? Para você entender o porquê dessa outra coincidência, que não é coincidência: eu sou de manutenção da tradição banto, dos candomblés de Congo-Angola. Ou seja, é uma etnia africana de indivíduos que viveram abaixo da linha do Equador, na África Subsaariana. E se fala banto porque banto não é um povo, não é uma civilização, não é uma língua, não é cultura. Banto é uma designação que alguns estudiosos deram para um grupo de pessoas, de africanos que falam línguas que são provenientes do mesmo tronco lingüístico, que é o próprio banto. É uma língua falada há mais de 5 mil anos atrás. Então, são mais de 736 línguas diferentes entre esses povos. E que no Brasil ficou “quicongo”, “quibundo”, “umbundo”. A gente tem um conhecimento que ficou guardado nos terreiros de candomblé. Não é uma coisa de domínio da população.

Aí, quando vou ver o documento, tem lá o endereço daqui: Estrada Velha de Ipitanga, quilômetro 7, subdistrito de Pirajá. Porque essas terras não tinham nada a ver com a Paralela, com nada que eu pensava. Era ligada totalmente a outro bairro. Essas terras são oriundas de uma fazenda que era chamada Fazenda Mocambo. Sabe o que é Mocambo? Mocambo era o nome que se dava às casas, às palafitas, às casas dos negros e eram as casas que compunham o centro dos quilombos. As lideranças quilombolas moravam em mokambos. E essa palavra é quicongo, é da etnia que eu represento e eu vim para cá sem saber que era! Podia ser uma palavra em iorubá, podia ser uma palavra fon, podia ser uma palavra jêjê, podia ser uma palavra de qualquer outra língua africana. Agora, porque justamente da minha tradição? Então, isso deu origem ao nome do terreiro. O nome religioso, em quicongo, é Onzó Nguzo za Nkisi Dandalunda ye Tempo. Significa: Casa da força espiritual e da energia das divindades Dandalunda e Tempo. E hoje é conhecido nacionalmente como Terreiro Mokambo. A rua principal que você chega é Rua do Mocambo Ilhado. Então você vê que tudo tem uma sintonia que talvez a gente não saiba.

VONTADE DA ESPIRITUALIDADE
Eu sou o 13° filho de uma família de 14 irmãos. Sou nascido no Rio de Janeiro, não sou preto, e sou pai-de-santo na Bahia. Se você for analisar, tem que ter uma missão, alguma coisa. Eu abri essa casa com 21 anos de iniciado no candomblé. Hoje as pessoas entram no candomblé, fazem qualquer “bobaginha”, sai, já é pai-de-santo, já é mãe-de-santo, já recebeu obrigação. Não é nada disso. Obrigação nenhuma habilita ninguém a ser sacerdote, como diploma nenhum habilita você a ser profissional. O diploma é uma chave que vai abrir portas lá na frente. Agora, se você não for competente, se você não for capaz…

Outro dia veio uma menina aqui. Eu sou conselheiro da FIB, faço parte do Comitê de Ética da FIB. Eu lido muito com TCC de Fisioterapia. Uma das condições para que eles defendam a monografia deles, é que seja aprovado pelo Comitê de Ética. Aí ela veio aqui falar comigo e falou que era fisioterapeuta. Eu disse:
– Ah, que bom! Eu estou com essa dor aqui – chamei ela para conversar.

Ela é professora, não exerce. Fez fisioterapia, cursou, mas não exerce. Você está vendo que o diploma não habilita ninguém? Conheci advogado motorista de táxi. Como esses exemplos, tem diversos, No candomblé também é assim.

Essa casa foi aberta, foi fundada no dia 18 de janeiro de 1996. Por que? Porque existia uma vontade da espiritualidade que eu conduzisse logo esse processo. A minha mãe-de-santo já tem 19 anos de morta. E passava pela morte dela. A ordem que a gente recebeu é que eu tinha que organizar tudo antes que ela fizesse sete anos de morta. Porque, se eu deixasse passar essa data, aí, a minha vida viraria de cabeça para baixo. Eu tinha 21 anos de santo.

E, aí, o que que acontece? Para você ter uma idéia de que a gente se organizou para conseguir o nosso objetivo, que era não deixar passar os sete anos de morte da minha Mãe, a casa foi inaugurada dia 18 de janeiro de 1996. Ela fez sete anos de morta dia 18 de fevereiro do mesmo ano. A casa foi fundada um mês antes. Foi um redemoinho! A coisa foi acontecendo… Hoje, as pessoas chegam aqui:
– Nossa, como está grande isso aqui.

Eu mesmo não acho, porque cada bloco, cada areia, cada brita tem o meu olhar, tem a minha supervisão, a minha mão. Quando você faz isso, você não percebe. Tem gente que veio aqui no início e chega aqui hoje e se assusta.

APOIO PARA O POVO
E, aí, o que que acontece? Começou todo um trabalho… Você sabe, muito embora a nossa tradição africana seja uma tradição oral, mas na sociedade em que a gente vive o que vale é o que está escrito. Aí você começa a correr atrás para validar o seu trabalho. Começaram a acontecer diversas coisas. Eu comecei organizando a associação, criamos um estatuto, registramos em cartório. Fomos em busca dos reconhecimentos, do certificado de utilidade pública municipal, utilidade pública estadual, utilidade pública federal, inscrição no Conselho Nacional de Assistência Social em Brasília. Recebemos o certificado de entidade beneficente pelo próprio CNAS. Temos inscrição no Conselho Municipal das Crianças e Adolescentes. Temos no Conselho Municipal de Serviço Social. Isso só da instituição. Só da Associação Beneficente Pena Dourada.

Nós começamos a desenvolver projetos sociais, porque o candomblé sempre foi muito procurado, em função das dificuldades de vida das pessoas do entorno. É falta de comida, é para encaminhar a um médico, morreu um parente e não tem caixão, vai se formar e não tem isso. Sempre a coisa acaba batendo aqui e como eu não tenho uma situação financeira que me permita assumir essas responsabilidades todas, com toda essa habilitação que a gente conseguiu, da entidade, a gente conseguiu bater nas portas e trazer apoio para esse povo. E nisso a gente já fez diversos projetos sociais em parceria com o governo de Fernando Henrique, com o Comunidade Solidária. Fizemos diversas parcerias com o Sebrae, parceria com o Cefet, com o Ceafro, com o Ceao, com a UFBa, Farmácia da Terra, Omi Dudu, Malê de Balê, Olodum. Uma estilista que se chama Márcia Ganem, a gente fez um projeto aqui com ela também. Enfim, a coisa foi tomando um rumo muito grande, foi tendo muita visibilidade. Isso, o trabalho social. E o trabalho religioso também.

TERRA ABENÇOADA
Eu vim despontando como uma nova liderança religiosa, pela seriedade do trabalho, pelo respeito como a gente conduz tudo. O terreiro foi certificado como bem da cultural imaterial afro-brasileira pelo Ministério da Cultura, através da Fundação Cultural Palmares. Quer dizer, é um reconhecimento nacional. É um pré-tombamento. Fomos reconhecidos pelo Ipac, o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia. Agora fomos reconhecidos como bem imaterial da cidade de Salvador, saiu no Diário Oficial outro dia. Eu recebi o título de cidadão baiano, que foi uma coisa também muito legal. Então tem acontecido coisas muito significativas a nível de resposta do trabalho da gente.

Esse pedacinho de terra aqui é um pedacinho abençoado. É tão abençoado que dentro dessa área, eu não sabia, ficou a única fonte que abastecia toda essa comunidade antes da água encanada da Embasa. Agora eu pedi ao superintendente de Recursos Hídricos uma ajuda para manutenção da fonte. Porque ela precisa de trabalhos, uns acabamentos, umas coisas. Muito antiga, precisa mesmo e ninguém melhor que a Secretaria de Recursos Hídricos para isso. E ele ficou tão sensibilizado com esse projeto que eu mandei para ele, que ele se reuniu com o Conselho e eles criaram um fundo de apoio às fontes dos terreiros de Salvador. Eu não vou ser beneficiado, a minha comunidade, mas abri precedente para outras comunidades serem beneficiadas.

A história dessa terra aqui é uma história muito bonita. Eu ainda não tive muito tempo, embora esteja fazendo um trabalho de pesquisa para meu próprio mestrado, mas eu queria me dedicar e me debruçar mais sobre o estudo dessa terra. Existe inclusive uma possibilidade de aqui ter sido um quilombo. Eu digo com sinceridade: nunca nem olhei aqui para trás, porque eu trabalhava viajando, eu chegava dos Estados Unidos e ia para outro lugar. Chegava de um lado já ia para outro. Então eu sempre olhava para frente. Eu nunca tive tempo de olhar aqui para trás, até porque não tinha nada aqui. Depois é que construíram o condomínio Asa.

Não sei se vocês têm essa sensação, mas todo mundo que chega aqui tem a sensação de que está fora de Salvador. Quando descem aqui, então, se sentem em uma cidade do interior. Aqui é um remanescente de Mata Atlântica. A gente está numa área que é remanescente de Mata Atlântica, uma APC, Área de Proteção Contínua. Nós fomos contemplados no PDDU como uma área de preservação, mas que está dependendo do PDDU ser votado.

Então essa é a história da casa de candomblé, a história da minha vida, que liga diretamente ao candomblé, por uma força maior. Não é por uma questão de opção. Candomblé você não opta por estar nele, a sua espiritualidade lhe leva lá. A espiritualidade afro eu acho que todos nós temos. Eu tenho um filho-de-santo francês que falava assim:
– Todo mundo fala de ancestralidade africana. E eu, que sou francês?.

Aí, não demorou muito se descobriu que o homem nasceu no continente africano. Ou seja, todos nós somos descendentes de africanos. Preto, branco, azul, amarelo. E aí vai mudando a luta, vai sendo outro tipo de luta.

TODO MUNDO É TUDO
Eu não acredito em reparação. Os nossos ancestrais que tiveram que apanhar, que morrer, eles já morreram, já sofreram. Então, não é pela cor da pele que eu vou reparar o que aconteceu com eles lá atrás. Eu sou a favor, sim, de uma política de inclusão justa, de uma divisão de renda que proporcione uma melhor condição de vida a todo mundo. E se, por acaso, você for pegar as periferias: é tudo afro-descendente. É porque não houve uma política de reinserção dos escravos libertos no mercado de trabalho. Eles receberam a liberdade e não sabiam o que fazer com ela. Até porque muitos deles foram induzidos psicologicamente a se sentirem inferiores. Foi um processo muito cruel e eu acho que, hoje, a gente tem que reparar, não nesse nível de reparação, é no nível de inserir, de dar a possibilidade às pessoas de modo geral. Se essas pessoas que necessitam, se a maioria for de negro, que ótimo! Mas eu acho que a gente não tem que direcionar, porque senão vai ficar parecendo um processo de vingança, sabe?
– Ah, ela fez comigo no passado, agora eu tenho que…

Porquê? Eu não fiz nada com ninguém no passado, nunca tive escravo, nunca bati em ninguém! Ser negro não é ter a pele preta. Porque eu me considero muito mais negro do que muitos que eu conheço de pele preta. Porque eu tenho a ancestralidade africana em mim e não fui eu que coloquei, foi Deus que me colocou. E o que é que eu vou fazer? Vou lutar contra Deus? Não posso, eu tenho que aceitar e desenvolver meu trabalho da melhor maneira possível. Fazer com que as pessoas entendam o que é o candomblé. Não é se converter, não é aceitar, porque o candomblé, graças a Deus, não é uma religião de conversão. Você não ouve?
– Ah, no candomblé só tem viado.

Sabe por que que a maioria dos homossexuais vão para o candomblé? Porque é aonde eles são acolhidos, onde eles não são discriminados. Porque o candomblé não tem o hábito de discriminar a sexualidade de ninguém, não tem esse objetivo. Como eles se sentem acolhidos, se sentem respeitados, se sentem como um ser humano, então eles procuram. Vá numas igrejas aí… Eu conheço um monte de … que são homossexuais, mas eles até se casam com meninas da igreja. A igreja católica também é outra história. Eu não tenho nada contra, mas existe uma falsidade mesmo na relação e no candomblé você não tem isso. No candomblé, se você for garota de programa, o problema é seu, desde que você não venha fazer o seu programa do portão para dentro, você pode fazer o que você quiser. Agora, cabe a mim, enquanto sacerdote, chegar para você e tentar despertar em você um outro lado que você pode ter um crescimento como ser humano melhor do que vender seu corpo. Agora, quem sou eu para dizer que você vender seu corpo está errado? Não, eu não posso julgar. A mim não foi dado o direito de julgar. A mim, foi dado a possibilidade de acolher. E, através desse acolhimento, através dessa convivência, é que a gente vê o quê que a pessoa pode melhorar, porque ninguém muda. Quando essas pessoas falam:
– Ah, encontrei Jesus.

Por que? Antes era cego? Porque Jesus está aí há 2007 anos. Por que encontrou agora? Aí matou, estuprou, roubou, mas “agora encontrei Jesus”. Quer dizer, Jesus sempre esteve lá, entendeu? Então ele não vai deixar de ser aquele estuprador, aquele marginal, porque foi o ato que ele cometeu, que não vai passar uma borracha, não vai apagar. Na cabeça dele pode até apagar, mas na cabeça dos familiares de quem ele maltratou, de quem ele matou, de quem ele abusou, não vai passar nunca! Então ele pode encontrar com o próprio Deus em carne, que ele não vai deixar de ser o que ele foi. E para que você esteja no candomblé, não é preciso você ter sido nada, porque todo mundo é tudo. Todo mundo é tudo. Eu conheço casos de pessoas que tinham uma convicção em relação a um assunto:
– Não, é isso!

E depois de passar anos, quando eu vejo, essa pessoa totalmente… Uê, cadê? Então isso para mim é uma lição, para eu aprender que a vida é dinâmica, que nós somos dinâmicos. Então não adianta você lutar para preservar uma coisa que você vai mudar lá na frente. Acho que você tem que acreditar nos seus valores e saber que eles mudam. As pessoas chegam assim:
– Ah, um telecentro dentro de uma casa de candomblé?

Esse é que é o grande mistério, a contemporaneidade e a tradição, caminhando juntos, paralelamente. Você não pode esquecer de quem você foi para ser quem você é e construir quem você vai ser. Agora, o candomblé vive o hoje, o hoje que é importante. Eu estou conversando com você aqui agora e não sei se eu chego de noite. A gente tem que viver os momentos como se fossem os últimos, porque a gente nunca sabe quando vão ser. Eu posso morrer hoje de noite e aí amanhã falar:
– Ah, menina, estava ontem lá fazendo entrevista com ele.

Como eu posso fazer 90 anos e falar:
– Menina, aquelas meninas que fizeram entrevista comigo já morreram e eu estou aqui.

Essa é a única certeza que a gente tem. Você pode dribrar a velhice, a medicina está aí prolongando a vida das pessoas. Existem cosméticos milagrosos. Mas, um dia, você vai morrer. Isso é uma verdade para todo mundo, dessa você não escapa. Independente de classe, de raça, de dinheiro, de tudo.

RELIGAÇÃO
Eu vejo a vida como um grande grande aprendizado. Eu valorizo muito o estudo por conta disso. Porque você conhecer, você saber, te abre um monte de horizontes, te faz um ser humano mais questionador. Claro que tudo é uma faca de dois gumes. Às vezes você dá luz a cego e aquele ali se torna um Hitler da vida. Mas, para um Hitler, muitos outros que melhoraram a vida da gente tem. Então é nessa perspectiva que eu vejo. Eu sou uma pessoa extremamente positiva. Não sou motorista de ônibus, mas tudo na vida é passageiro. Você, às vezes, está numa situação extremamente angustiante, mas a vida é redonda. Amanhã, sua vida está numa situação completamente diferente da de hoje. Então você tem que ter força para poder passar.

O que que as religiões fazem? É a minha definição de religião. É fazer a ligação com o ser maior. Ela faz com que você passe por esses momentos com mais serenidade, com mais tranqüilidade, com menos sofrimento, com mais clareza. Esse é o papel da religião. Não é dar homem, não é dar mulher, não é tirar ninguém do caminho, não é fazer trabalhinho disso, trabalhinho daquilo, não é nada disso. Porque, para o candomblé, a gente não está ligado a esse tipo de feitiçaria que as pessoas impõem para as religiões de candomblé e muita gente de candomblé aceita a capa e bota. Duas coisas que eu aprendi recentemente, eu faço questão de falar em toda oportunidade que eu tenho. Uma, eu ouvi uma pessoa dizer assim:

Quem dorme com os olhos dos outros não tem hora de acordar.

Menina, é uma coisa simples, mas se você parar para pensar, é uma coisa tão profunda. Você dormir com os olhos dos outros, é você está baseado no que alguém fala, você não ter domínio de você, da sua causa, da sua luta. Você sendo guiado, que é o que a maioria das pessoas são. Quando você dorme com seus olhos, você sabe a hora que você quer abrir os olhos. Quando você dorme com os olhos dos outros, como é que você vai saber? Eu achei isso interessantíssimo e tenho aplicado isso. Toda hora que eu posso, eu falo.

E a outra coisa é que as coisas não voltam. Os momentos não voltam. Você passou por eles, procure passar da melhor maneira possível. Você não está fazendo essa entrevista aqui comigo? Você pode fazer umas 500, mas essa vai ser única, nesse momento. Com essa disposição que eu estou. Com essa que você está. As coisas vão fluindo de uma maneira diferente. O candomblé dá muito valor à palavra. A palavra tem força. Então pode ser que numa outra entrevista eu não tenha tanta força na palavra, eu não seja tão claro. Tudo pode acontecer, até mais claro do que hoje. Mas que são momentos diferentes, são. Eu tiro pelas próprias celebrações religiosas do candomblé. Os processos de iniciação têm sempre o mesmo perfil, mas cada um é um, cada um tem uma especificidade.

É por isso que candomblé não é uma religião de captar adeptos a dente de cachorro. Por isso que o candomblé respeita uma coisa no ser humano chamada individualidade. Você pode ter 5 mil pessoas na Praça de São Pedro, lá com o papa rezando. Você pode ter 5 mil pessoas dentro de uma mesquita. Você pode ter 5 mil pessoas dentro do centro evangélico. Você não pode ter 5 mil pessoas dentro do candomblé. Porque nós não temos essa coisa de massificação. Então, não adianta. Vou disputar? Não vou disputar, porque é outra realidade.

As pessoas que falam e que agridem o candomblé, coitadas, elas não têm conhecimento. Porque você fala em Cleópatra, Faraó, em pirâmide. A história antiga, não é? Só esquece de dizer que isso tudo foi na África, ninguém fala. Porque não é interessante que as pessoas saibam. Jesus Cristo era judeu. Quem disse que ele era loiro de olhos azuis? E as pessoas acreditam.

O que eu encontrei na religião do candomblé, é que eu não preciso de nada escrito. O meu corpo é o meu templo. A forma de expressão que existe e a forma de ligação que existe entre as divindades do panteão africano e o nós, seres humanos, é através da vida. Então, não estou desacreditando de nada, mas como é que eu vou entender uma Bíblia que vai para a gráfica, que muda uma vírgula, que muda um ponto? Não precisa ser muito inteligente para saber que muda o sentido de uma frase. E, aí, pegam diversas pessoas, sem a mínima condição…

SABERES TRADICIONAIS
O candomblé valoriza muito o ser humano. O ser humano é muito bem visto pelo candomblé. Ele é cuidado. Dentro das liturgias das religiões de matriz africana, cada divindade é responsável por uma parte do seu corpo. Quando você está doente, a gente vai ver que parte é, que divindade é responsável, se a gente pode, através das infusões, dos ebós, dos sacrifícios, do que for, se a gente pode ajudar você a ficar boa daquele órgão que está doente. Ou se já chegou num ponto tão avançado que aí precisa passar por um médico normal. Porque, da mesma maneira que existem os nossos saberes, que são saberes tradicionais de comunidades remanescentes de religiões africanas, tem os saberes dos médicos. Eles estão lá estudando para quê? Até aqui eu vou, daqui eu não vou. Então, você vai morrer? Não, minha filha, vá, tente lá. Tente, vá procurar um médico, vá fazer exame, vá fazer isso, vá fazer aquilo. Tem infecções que você, com uma simples lavagem com espinho cheiroso, com alguma erva antibiótica, você fica boa. Mas de repente você está com um câncer no útero. Você acha que o espinho cheiroso vai tirar? Você tem que procurar fazer um exame de Papanicolau.

Porque que a gente não tem que saber quais são os nossos limites? O candomblé não prega isso, muito pelo contrário. Determina exatamente o limite até onde vai o seu saber ancestral e até onde você tem que passar a bola para frente, porque o importante é você estar bem. E a gente faz um tratamento paralelo, um tratamento espiritual, que é desenvolvido. A gente fala espiritual até por conta de entendimento, mas na realidade a gente não trabalha com espiritualidade, a gente trabalha com energia. Os orixás da cultura iorubá, os inquices da cultura banto e os voduns da cultura jeje não são nada mais, nada menos do que energias da natureza. Para você acreditar nisso, não precisa eu te convencer. Você está vendo lá o subir e desce de uma maré. Só se você é maluco para não ver que ali tem uma energia. Você bota uma semente aqui, agora, rega, daqui a pouco vira uma árvore. Só se você for doido para você dizer que não tem uma energia ali. Essas energias é que são de domínio dos sacerdotes de candomblé. Essas energias que eles usam para trazer malefícios ou benefícios a alguém. Vai depender de quem está aqui. E nós humanizamos muito essas relações.



BAIRRO

Todas as vezes que você me perguntar isso, eu vou te dar a mesma resposta: eu sou apaixonado por esse lugar. Acho que esse lugar tem um clima diferente, ele tem uma magia diferente. Os habitantes desse bairro são pessoas que, na sua grande maioria, são oriundas de famílias do interior. Então, não são pessoas que se favelizaram. Isso é um loteamento de gente humilde, de gente sem recursos, mas de um loteamento. Você sabe que todo mundo no interior tem seu cacetinho armado, tem seu pedacinho de terra, tem sua casinha de farinha. Então, quando eles chegaram aqui, chegaram com essa idéia. É por isso que eu digo, é tudo da família “Tá”: “Tá se achando alguma coisa”. Porque é difícil você trabalhar em comunidade, por conta deles já terem esse feeling de quem já teve alguma coisa. “Tenho cavalo”. E chegaram aqui querendo manter essa mesma história. E aí, quando vê que não é, que é dureza, que é competitividade mesmo, que a gente, infelizmente, vive num país do QI, quem indica. Se você não tiver quem te indique, você pode ser capacitadíssimo, mas não vai para lugar nenhum. E aí eles começam a ver que a realidade tem que ser outra.

Então é um bairro que tudo que tem aqui de melhoramento – sem nenhuma vaidade pessoal -. tudo foi construído pelo candomblé. Essa borra de asfalto, essa rua… Esse bairro não tem saneamento básico, não tem asfalto. Isso tudo a gente tem tentado lutar para conseguir. Mas eu tive um filho-de-santo na casa, que era vereador na época, e, aliás, antes até, ele era responsável pelos distritos, pelas administrações regionais. Então, ele tinha a possibilidade de conseguir, nas usinas, borra de asfalto, para jogar, para melhorar, porque o pessoal daqui ia para o ponto de ônibus com saco de mercado no pé. E de manhã jogava lá. Porque nem ponto de ônibus tinha aqui. O ponto de ônibus era lá embaixo, na Aldeia da Pedras. O ônibus nem subia aqui. Então melhorou muito, melhorou muito.

SANEAMENTO
Agora, é um bairro que cresceu com construções irregulares. Irregulares porque? Porque as pessoas são pobres, não têm dinheiro para contratar arquiteto, engenheiro. São mestres de obras que vão fazendo suas casas, mas tu vê que aqui não tem uma casa (até a invasão que a gente chama de Portelinha, uma invasão que deixaram fazer ali na frente), você não vê um barraco. É tudo casa de bloco. Porque? O quê que eles fizeram? Algumas pessoas daqui pegaram, invadiram para vender. E aí, sem saber, eles estavam cometendo o maior suicídio no meio ambiente. Porque aqui, por incrível que pareça, aqui atrás passa o que foi o Rio Trobogy e Rio Mocambo, que hoje está uma valeta poluída que nego joga coco, joga tudo para dentro do mato. Eu ainda consegui conscientizar algumas pessoas daqui para construir fossas sépticas, porque a gente não tem saneamento básico. Mas outras não, pegam e jogam direto lá. Quer dizer: o mosquito vai lá, pousa naquelas coisas, vem, te morde, causa doença, causa doença nos seus filhos. A gente fala isso toda hora. Tenho tido esse trabalho o tempo inteiro. Então todas essas melhorias foi através da associação daqui.

PEDIATRA
A associação de moradores foi toda reformada por nós aqui. Dentro da associação de moradores tem um consultório médico de uma pessoa que vinha aqui, que foi atendido por mim, teve seus objetivos atingidos e queria retribuir de alguma forma. Falei:
– Olha, você pode retribuir ajudando a comunidade. Você é médico.

Então, ele foi para esse consultório, foi montando o consultório, de 15 em 15 dias ele vinha, atendia. Ele era um médico pediatra. Atendia as crianças, dava remédio. Ele ficou três anos. É sempre assim. Não tem aquela coisa? Vai atender de 15 em 15 dias, todo domingo. Só que o homem trabalha feito um f… Chega no domingo, que ele tem para descansar, vai atender os pobres. Aí, chega na hora, os pobres todos arrogantes. Ele não quer aceitar. Aquelas histórias que todo mundo já conhece. Ele acha que o pobre é arrogante, que o pobre que precisa, tem que baixar a cabeça. O pobre acha que não precisa, que não sei o quê, enfim… Nós conseguimos arrastar isso durante três anos. Ele dava remédio, de amostra grátis. Nós conseguimos um convênio com um laboratório clínico. O laboratório vinha pegar material das pessoas aqui, fezes, urina. E vinha trazer os resultados, porque as pessoas não tinham o dinheiro do transporte para ir e voltar.

MUITA COISA
Nós conseguimos curso de alfabetização de adultos. Nós conseguimos com o Sebrae um curso de empreendedorismo’ para todos os comerciantes da área. Nós reformamos o telhado da igreja, a capela, que estava quase caindo. Fomos lá, reformamos. Nós conseguimos com o governo do estado aquele projeto “Minha sopa”, que vem até hoje. Foi através da nossa associação que a gente conseguiu trazer um carteiro para a comunidade, que não tinha. Foi através da associação que a gente conseguiu iluminar essa parte de baixo. Foi através de mim, porque não tinha, era gato. Menina, se eu for te contar, é muita coisa, é muita coisa. E eu sempre trabalhando em parceria com a associação de moradores, visando um atendimento ao ser humano, independente de religião, opção sexual, de cor, de tudo. Mas existem aqueles religiosos fanáticos que acham que o candomblé é a casa do diabo. Então não vou lá. Só entram na casa do diabo quando eu dou cesta básica. Aí ninguém lembra, porque fome não tem religião.

Terreiro só tem eu. Se olhar igreja, necessariamente não é igreja. Nego abre uma portinha, junta um monte de gente ali. Tem mais evangélica. Evangélica deve ter umas duas, tem uma católica e tem eu de candomblé.

CULTURA
Aqui é muito carente de entretenimento cultural. Diversão de pobre da periferia é encher a cara de cachaça, cantar pagode e dar porrada nos outros. Se divertem assim no final de semana. Não é que seja culpa deles não, é que a realidade é essa. Então, meu trabalho social é muito voltado para a conscientização dos jovens, para que ele não se torne um adulto dessa forma. Porque eles não têm muita opção. Aqui, nego vai abrir um comércio:
– Ah, vou abrir um comércio.

Quando você vê: bar. Se você contar quantos bares tem aqui…

Eu já trouxe para cá um Auto de Natal, tem uns três a quatro anos e foi maravilhoso. Foi encenado na frente da associação de moradores, foi muito bom. Eu já trouxe um projeto para cá para levar as crianças para conhecerem os pontos turísticos de Salvador. Crianças de 7 a 12 anos, se não me engano. Com lanche, com parada para almoço, aqueles ônibus bonitos. Foi uma festa, foi uma festa. Dentro dos projetos da gente aqui, teve meninos, adolescentes daqui, que nunca tinham entrado no Teatro Castro Alves. E entraram pela primeira vez. Ficaram emocionados. São essas coisas que a gente tenta proporcionar. E como existe uma coisa de uma certa intransigência com o povo evangélico – e eles sabem que aqui eles não devem entrar, são orientados para isso -, então, tudo que eu faço em benefício da comunidade, eu faço em comum acordo com a associação de moradores. Justamente para não ter esse tipo de empecilho. A única coisa que definitivamente eu não posso fazer é quando a gente tem a possibilidade de fazer alguma doação de cesta básica, que tem que ser aqui mesmo. Aí não tem como.

ESPORTE
Tem um campo de futebol lá em cima. Tem um time aqui da Vila e, eventualmente, em alguns domingos, eles jogam, mas não é nada organizado. É uma coisa muito amadorística. Eu tinha uma idéia, até falei com eles na época. No Rio de Janeiro, você não vê esses vôleis de hoje? Nasceu nas quadras do Rio de Janeiro dos conjuntos habitacionais. Então, em relação a isso, eu até falei para eles:
– Vocês têm que ter uma diretoria de esporte, que crie coisas.

Aqui na comunidade já era para ter um grupo de capoeira, que é uma coisa tradicional, da gente. Mas o capoeirista daqui fumava mais maconha do que jogava capoeira, aí expulsaram o cara. Agora está nascendo um outro e estão querendo ver se institucionalizam ele como um grupo. Mas acho muito difícil, porque não existe incentivo. Existe incentivo político, mesmo assim, o incentivo político daqui é muito incipiente, porque a Vila é pequena.

A Vila não comporta, não comporta não, não corresponde em votos ao investimento que é necessário para urbanizar a Vila. Então, os políticos não têm interesse de entrar aqui, entendeu? Eles não têm essa visão. Fazer um concurso de dominó, concurso de xadrez.

POLICIAMENTO
Policiamento não existe. O atendimento do 190 é extremamente… Só para te dar uma noçãozinha de como acontece: eu estava aqui anteontem. As pessoas vêm a mim. Aí, liga a mulher:
– Seu Anselmo, pelo amor de Deus, liga para polícia aí que fulano está aqui (o genro dela) quebrando tudo, está dizendo que vai matar a menina. Eu disse para ele que ela estava na sua casa. Eu escondi ela e disse que ela estava aí. Se ele chegar aí procurando ela, diz que ela não está.

Olha a minha situação.
– Mas pode ligar para a polícia que eu me responsabilizo.

Eu prontamente ligo para o 190:
– Boa noite.
– Boa noite.
– Meu nome é Anselmo, eu moro aqui na Vila Dois de Julho. Meu telefone é tal e tal. Eu estou ligando para vocês porque está havendo aqui um desentendimento na casa da vizinha. O genro dela está embriagado, está quebrando tudo, está armado com faca ou com machado (não sei o que eu falei na hora). E pode acontecer uma coisa séria e a gente queria…
– Porque que ela não ligou para a gente? Porque que o senhor está ligando?

Eu falei:
– Minha filha, ela ligou para mim num momento que ela teve lá, pedindo para mim providenciar, porque ela não ia ter tempo de ligar pra vocês. Você não está vendo que eu estou me identificando, que estou dando o número do meu telefone? Você está achando que eu estou brincando com você? Ou vocês estão esperando deixar para aparecer quando morrer alguém?

Passou a coisa, o cara acalmou e a polícia aqui não veio. E não vem.

CRIMINALIDADE
Não tem porque não tem. Entendeu? Porque as intervenções policiais que a gente precisa normalmente é nesses casos. Aqui, graças a Deus, é um lugar que a criminalidade ainda não chegou. Outro dia os meninos foram levar uma coisa de um trabalho, não sei onde foi e aí o meu carro ficou na porta e foram no outro carro. E tem um menino aqui que só não esquece a cabeça porque está grudada no pescoço. Daqui a pouco estão batendo na porta.
– Aqui, Seu Anselmo, que esqueceram dentro do carro.

Era carteira, dinheiro, documento, celular, tudo. Se fosse em outro lugar…
Festa, aqui, tem no sábado. Então, normalmente, tem muito carro. Aí, teve uma vez, no dia seguinte, veio um menino:
– Seu Anselmo, aqui o que eu achei, deve ser de algum carro daí.

Uma carteira de plástico com todos os documentos do carro da pessoa.

ALIMENTANDO CORPO E ALMA
Na realidade, a gente chama festa porque o candomblé celebra a vida com música, com dança, mas não é festa. É uma celebração religiosa, como uma missa, como um culto, só que é diferente. O candomblé é tão acolhedor, tão abrangente, que ele entende que você tem dois tipos de energia diferentes: a energia do seu corpo, que é o que é você, a sua força de ser, e a energia que você tem que comer para manter seu corpo em pé, para seu fígado, para seu estômago, para funcionar. Então, se você for a uma missa, acabou a missa, você vai para onde? Para casa. Se você estiver num culto evangélico, acabou o culto, você vai para onde? Se terminou uma celebração religiosa no candomblé, quando você acaba de participar da celebração religiosa, você vai para o lado de fora, você vai comer, beber, tem caruru, vatapá, refrigerante, cerveja, não sei o quê. Aí, para o candomblé, quando você for embora, você foi contemplado com os dois tipos de energias que são importantes para o ser humano: a energia da alma e a energia do corpo.

ASSOCIAÇÕES
Aqui não tem um mercado. Eles vão para o Extra, vão em mercado grande. Ou então vão aqui em Nova Brasília, que tem o Portal. Eles fazem até uma promoção: se a pessoa comprar a parti de tanto, trazem as compras. Não tem uma farmácia, nem casa lotérica, escola. Aqui não tem uma escola. A escola que tem mais próxima é lá em Nova Brasília, Vera Lux, e aqui é o IAT – Instituto Anísio Teixeira. Se dá para ir andando? Tem que dar, né? Se já não tem dinheiro para o transporte e não tem transporte também. Mesmo que tivesse dinheiro, não tinha transporte. Eles saem daqui, pelo km 7, e vão andando. E aqui eles descem, passam pela Paralela, passam ali pelo Flamboyant, pela Jorge Amado, para ir para o IAT.

É uma outra solicitação que a gente faz, pede. E aí o quê que acontece? Entra a história que eu falei da família “Tá”. A associação que tem aqui, tem uma que eu acho que foi fundada na época de Dom Pedro e é a mesma pessoa que está. Quando não é o vice é o sub que está. A outra é uma associação mais politizada, mais envolvida com trabalhos comunitários. Porém surgiu numa hora extremamente indevida, não tem nenhum respaldo popular, ou seja: como é que você é presidente de um país que não te elegeu? Eles são ótimos, mas também foram outros que fizeram isso porque quiseram. Quando eles falaram em criar uma outra associação, eu falei:
– Gente, se você pegar uma vara e fizer assim, ó, você quebra. Se pegar 10, você não quebra.A união faz a força. Não dividam, tentem compor uma chapa com eles.

Essa associação que tem aqui, quando não é fulano que é o presidente, é sicrano que é o presidente. Quando não é sicrano, é fulano de novo. Sempre foi assim. Aí, agora, de tanto ser os dois, puseram um que é comandado pelos dois. E isso, se estivesse fazendo algum benefício para a comunidade, mas só traz prejuízo. O que que está acontecendo agora? Vem a outra associação, que tem conhecido não sei da onde, tem político de lá. Aí, tem reservado no mapa da Vila um espaço para a escola, um espaço para uma praça. A nova entende que a escola tem que ser no lugar da praça e a praça no lugar da escola. A associação de lá acha que a escola tem que ser no lugar da escola e a praça no lugar da praça. E, aí, vem um engenheiro da prefeitura, quando vê a p.., junta tudo e vai embora, entendeu?

Mas é isso que eu falei para eles. Porque a associação nova tem um embasamento comunitário muito, infinitamente maior do que esses meninos. Para você ter uma idéia, o tal sicrano era presidente da associação de moradores daqui, tinha uma festa, ele explorava o bar para ele. Ele era o presidente, o filho era o tesoureiro, a filha era a secretária. Nepotismo é piada. É uma empresa familiar. E não ganham nada… Porque, que eu saiba, não ganham nada: prestígio.
– Eu sou presidente, eu mando.

Aí, eu peguei, falei com os meninos. Eles queriam que eu fosse, eles sabem da influência que eu tenho, aí queriam que eu fosse para a associação. Aí eu falei:
– Gente, não é uma questão de eu ir ou eu não ir. Eu tenho um envolvimento religioso, eu não posso ser de associação nenhuma. Associação que desenvolve trabalho social, já tenho a do candomblé, que eu tomo conta. Não me pergunte a fórmula, porque, se eu soubesse, eu estava rico. Vocês é que têm que achar uma fórmula de entender, de criar uma diretoria mista. E, daí, vai mudando, até que, se vocês estiverem com a razão, eles vão ter que sair. Vá no Ministério Público.
– Ah! mas eles não são…

Quando eu falava para eles que eles não estavam legitimados pelo povo, é porque não estão. Se você chegar aqui e fizer uma enquete, ninguém nem sabe o que é. Aí veio uma menina, que é casada com o menino que é da associação, que é um menino gente boa, ela também é gente boa. Aí ela já vem querendo fazer um trabalho social que eu não entendi pinóia de nada… Eu não sei. Não tem nada concreto, não tem nada para dizer.

Por exemplo, eu estou fazendo um projeto aqui: fabricação de velas, são meninos de 16 a 24 anos que têm uma renda familiar baixa, que têm um número de componentes dessa família mais alto, que tenham problema de risco social eminente, tem uma série de… que a gente até burla. Por que tem um mais velho que não estudou, não vai entrar? Vai. Eu prefiro ele aqui dentro estudando do que fumando maconha. A gente dá, eles vêm aqui, estudam de manhã, almoçam e vão embora. Às vezes só tem essa alimentação. E quando eu digo para você que aqui é da família “Tá”, é porque a maioria dos meninos, se você perguntar, é tudo de Nova Brasília. Daqui mesmo da Vila, só tem dois ou três. Você vive correndo atrás de coisas, trazer para cá, melhorar a qualidade de vida deles, mas eles mesmos não estão nem aí, nem vem chegando.

ONTEM E HOJE
Quando eu cheguei aqui, o povo colocava saco plástico no pé para ir para o ponto de ônibus. Você saía na lama. Aqui, na minha casa, não entrava carro, porque eu fico na baixada. Se chovesse, quem entrasse, não subia. Era tudo barro, o carro ficava patinando, tanto para lá quanto para cá. E não tem outra saída. Só veio entrar carro aqui depois de asfaltar.

VIZINHOS
Eu me dou maravilhosamente bem com a vizinhança. Os famosos aqui? Eu acho que dos moradores, o mais famoso aqui sou eu. Por que normalmente eu estou desenvolvendo um trabalho religioso, contra a intolerância, contra o racismo institucional. Tem sempre uma emissora de TV fazendo uma entrevista, tem sempre um jornal fazendo uma entrevista. Então, é mais por conta desse trabalho que eu desenvolvo, não é porque eu sou nenhum artista ou sou famoso. É por conta dessa luta. Mas, da minha vizinhança, próximas a mim, são pessoas extremamente amigas, não tenho o que dizer. Nunca tive uma rusga com nenhum vizinho. Moro aqui esses anos todos e não sei se é porque eu tenho uma ocupação muito grande na minha casa, então eu não tenho tempo de ir na casa de ninguém. Raramente! Eu tenho afilhados que eu ainda nem batizei, entendeu.
– Ah, meu padrinho, é você!
– Está bom.

Tem até aqui um agora que me deram para batizar, outro ali também. Tem uma que me vê e fica doida Ela agora deve está com o que? Seis anos, por aí, não me lembro. Desde pequenininha, quando eu passava no carro:
– Oi, Bia, meu amor, tudo bom?

Aí eu jogava um beijo. Quando ela começou a falar, quando eu passava:
– Anselmo, meu amor.

E jogava beijo para mim. E hoje, se eu chegar aqui e ela estiver no portão, ela desce desbandeirada. Eu digo:
– Calma, criatura!

Aí vem, me abraça, me beija. Uma coisa de afinidade mesmo.

Os moradores aqui são solidários demais, se ajudam muito, muito. Isso é uma coisa que a gente não pode negar. O que acontece aqui de desentendimento é a bebida. Porque a maioria dos profissionais que moram aqui são pedreiros, são ajudantes de pedreiros, carpinteiros, seguranças, empregadas domésticas, motoristas. Um povo que fica na base da pirâmide social mesmo. Que tem uma renda mínima e que a diversão é essa mesma. Não tem cinema, não tem teatro, não tem uma orientação para isso, então cai no bar, enche a cara de cachaça, a mulher do vizinho passa com a calçola de fora, ele vai lá e come. Daqui a pouco o outro sabe que comeu, vai lá, briga, dá na cara, puxa a faca e é aquela confusão. As brigas que tem aqui são essas. Teve um tempo que rolou maconha e não sei o quê e graças a Deus já fechou o bar. E agora não sei se vai continuar na Vila ou não, mas não é morador daqui. São pessoas que chegaram depois.

E aqui tinha uma coisa muito interessante, que aqui todo mundo era “Joaquim de Célia”, não sei quem de não sei quem. Coisa de interior. E hoje já nem está tanto, por conta de muitos proprietários terem vendido a casa, muita gente se separou. Essa primeira que eu estava falando, que me deu a filha para batizar, eu corria atrás dela aqui, eu dava nela. Era uma velha já com 12 anos e ainda chupava chupeta. Eu ficava quieto, mas quando ela chegava, eu pegava ela assim… Menina, ela corria feito doida e eu atrás dela e eu pegava a chupeta:
– Agora, vá pegar lá na minha casa!

E ela, chorando, ia para casa para poder fazer queixa para a mãe que eu tinha tirado a chupeta dela.
– Manda ela vim pegar! Uma moça, uma moça! Ah, você toma vergonha.

Tanto que até hoje ela tem um dentão, culpa da chupeta. Sempre tive uma relação muito legal com todos, com a vizinhança e comigo mesmo era um negócio interessante. Logo no início eu morava aqui sozinho e morar aqui sozinho num lugar como esse, de baixada, e que freqüenta outras pessoas… Aí uma vez veio um povo para jogar aqui, um povo de Nordeste de Amaralina. Aquele povo com cara de “brown”, sabe? Oxente, uns quatro ou cinco… Aí, daqui a pouco, o telefone toca:
– Seu Anselmo, está tudo bem aí?

Eu falei:
– Está.
– Não, é que eu vi um pessoal entrando aí.
– Não, pode ficar tranqüila, é gente conhecida.

Alguém sempre fica de olho. É uma faca de dois gumes. É forma de você monitorar a vida do outro, mas é uma forma de você ajudar.

O mal da Vila é a bebida. E agora que estão introduzindo alguma coisa de maconha, mas não sei se chega a ter alguém tão maconheiro a esse ponto. Eu tenho medo é que através dela venham outras coisas. Porque a maconha em si… O cara acende o cigarro de maconha dele eu viro para lá, não quero nem saber. Agora depois da maconha vem o crack, a cocaína e atrás disso vem coisa de traficante cheios de energias pesadas que transformam o lugar e a população.

São mais caras, mas o pessoal começa a roubar bolsa da mãe, a vender tudo dentro de casa. Vender panela, vender geladeira. A droga faz coisas horríveis com uma pessoa. Eu estava falando com um amigo ontem. Ele mora em uma casa de dois andares. Mora ele, a mãe dele e o irmão, na parte de baixo da casa. Na parte de cima, o irmão da mãe, a mulher e dois filhos pequenos. Aí, quando foi um dia, ele ligou para cá e eu fui lá, pensei que tinha acontecido alguma coisa. Quando chego lá, foi o menino, no celular. Ligou para cá a cobrar, o pequeno. Quando foi ontem, ele me contando que os meninos são tão magrinhos, tão pequenininhos, que eles passam pela grade da porta, da janela, abrem e entram na casa da avó. Já roubou R$ 50 do tio que estava na carteira, já roubou tênis do outro. Chegou um dia, pediu ao outro se podia emprestar farinha de trigo. Aí perguntou:
– Para que você quer farinha.

Não tinha ninguém lá. A mãe tinha saído, para que ele queria farinha de trigo?
– Ah, porque minha mãe ligou e disse para pedir para quando ela chegar fazer um bolo.
– Não vou dar não. Quando ela chegar, ela fala comigo.

Aí saiu para trabalhar. Quando chegou de noite, a mãe dele viu a cozinha toda suja de farinha de trigo. Quando foram ver, eram eles. Entraram, abriram o armário, pegaram a farinha de trigo e levaram. Você acredita? Então é assim que começa. Eu falei:
– Você falou com o pai deles?.
– Ah, falei. Falei umas três vezes e não deu certo…

O que ele fizeram? Botaram um ferro na janela, dificultaram o acesso dos meninos. Mas se eles acharem que aquele acesso está difícil, vai em outro! E aí é que cria, e isso é que eu tenho medo!

PUXÃO DE ORELHA
Eu tive uma educação em relação a isso muito rígida. Eu me lembro uma vez, eu estava na escola pública, aí, no caminho da escola, tinha um armarinho. No lugar onde tinha essa escola, tinha muita enchente e nesse armarinho teve uma enchente e o estoque que ficou embaixo ficou todo cheio de água, ficou praticamente perdido. Então o rapaz botou um cesto com ofertas de linha e tal, tudo manchado. Cada um pegou e eu pum! Peguei logo o meu, é claro. Botei no bolso sem pagar. Quando eu cheguei na minha casa, eu tirei a blusa e o carretel de linha caiu. Minha mãe:
– Ué, você está tomando aula de corte e costura?

Menina, até hoje, quando eu me lembro, a sensação volta. É um negócio impressionante. Quando eu vi o negócio caindo:
– Putz, grila, agora que lascou!

Aí eu disse:
– Ah, não, mãe, um amigo que me deu.
– Que amigo?
– Ah, não…
– Vamos lá, vem cá.

Eu sei que ela me encostou na parede de um jeito que eu contei que estava lá e eu passei e peguei. Ela me pegou pela orelha e foi me levando até lá com o carretel de linha na mão. Quando chegou lá:
Aqui, moço.
– Fala o que você veio fazer!

Aí eu:
– Eu vim entregar o carretel.
– Levanta!

E tinha que falar olhando para a cara do homem. Não era assim de cabeça baixa não. Menina, se o chão abrisse e eu entrasse para mim era mais fácil. Aí o moço:
– Não, pode deixar, a gente viu, é porque é criança.

Aí, minha mãe falou assim:
– Não, é de criança que começa. Hoje é um carretel de linha, amanhã ele está com uma arma levando seu dinheiro.

Nunca me esqueci! Podia cair o que fosse, que eu passava e não pegava. Eu passava, mas o que? Ave Maria! E hoje eu não vejo isso. Entendeu?

Aqui eu ainda sou desse jeito. Aqui, se os meninos fizeram alguma coisa, tem gente que fala em casa:
– Olha, eu vou falar com Seu Anselmo, hein.

Porque se eu ver, eu pego. Se chegar perto de mim e eu souber que está fazendo alguma coisa de errado. Eu pego, dou tapa. Se a mãe gosta, se a mãe não gostar eu não quero nem saber. E aí elas mesmo no fim acabam gostando. Porque se falar com Seu Anselmo, todo mundo murcha a bola.

CERCADO DE CIDADÃOS
Essa situação a gente criou convivendo. Por isso que eu digo que a vivência aqui é uma vivência legal. Eles mereciam mais oportunidade, mereciam mais chance, mereciam ter uma rua saneada, são trabalhadores. Infelizmente, de um modo geral a gente vive num país onde, quem constrói… Isso já é uma coisa bem histórica. É o caso clássico do pedreiro e do arquiteto. Quem constrói é o pedreiro e quem leva a fama é o arquiteto. Não desmerecendo o arquiteto, mas a gente sabe que esse povo é sofrido, que dá um duro danado. Que sai de manhã para trabalhar e leva esse país nas costas e que não tem uma condição de vida melhor. Por isso a minha preocupação. Não é paternalismo não. Eu acho que, se eu não fizer direito o que eu acho que é o meu papel hoje, amanhã, ao invés de eu estar cercado de cidadãos, eu vou estar cercado de marginais. Então, é meu papel enquanto cidadão tentar ajudar o outro. Enquanto sacerdote é ajudar mais ainda. Para mim, quanto mais eu me doar em relação ao outro, eu acho que mais benefícios eu tenho. Comigo mesmo, com a minha espiritualidade, com meu crescimento pessoal. Com o crescimento da casa, das pessoas que freqüentam a casa. Eu acho que isso que é importante.

Entrevista realizada em novembro de 2007

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