Alba Liberato

Posted on 03/07/2008

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A professora e roteirista Alba Liberato se mudou para a Vila Dois de Julho na década de 70, em busca de liberdade e contato com a natureza, para criar seus filhos e alimentar a sua arte. De 2000 para cá, tem assistido a profundas mudanças no seu bairro, que a fizeram se engajar na luta comunitária, para tentar “mudar coisas que podem ser transformadas para melhor”.

A minha formação é de professora, mas sou autodidata em várias outras áreas e agora faço roteiro de cinema. Nesse momento eu estou fazendo roteiros para desenhos animados. Há 32 anos moro na Vila Dois de Julho. Quando eu cheguei aqui, em 1975, nós procurávamos um lugar fora da cidade, mas que tivesse um acesso fácil e que tivesse contato com a natureza. A minha geração foi aquela dos hippies, do contato com a natureza. Mas minha geração também sofreu uma ditadura militar muito forte. Então esse lugar aqui dava as duas coisas: o contato com a natureza e nos libertava daquela opressão que você vivia numa cidade onde toda hora tinha passeata, onde tudo que você fazia estava no foco da ditadura militar, porque nós somos artistas e temos uma expressão pública. Então, com isso a gente veio para aqui e conseguimos começar uma nova vida, criar nossos filhos como a gente queria.

A minha relação com o bairro é uma relação de prazer mesmo, de ter criado meus cinco filhos aqui. Eu tive aqui mais dois filhos. Tive três que chegaram e tive mais dois. Então meus filhos foram muito influenciados por aqui. Tenho um que é músico. Então eu imagino que isso aqui influenciou muito ele. Tem muito pássaro aqui e até ele se tornar adulto, aqui você tinha silêncio o tempo todo. Quando era interrompido, era só por um avião ou outro que passava. Tenho três filhos artistas, aliás, quatro, e um que é advogado. Então todos eles foram influenciados por esse ambiente de pássaros, de criação de animal, de contato com a natureza. Então minha relação é muito íntima com todo esse lugar aqui.

Continuo aqui porque ainda está valendo a pena e eu espero que continue valendo a pena. E eu estou lutando para mudar coisas que considero que podem ser transformadas para melhor. Enquanto eu tiver essa esperança eu continuo aqui. Todos nós somos artistas. Meu marido é pintor e desenhista. Eu escrevo, sou roteirista. Uma filha é dançarina. Outra filha é a atriz Ingra Liberato. Outra faz produção cultural e só um, como eu disse a vocês – tem outro músico – e só um é advogado, mas gosta também de tocar violão, chama os amigos… Então a casa tem já esse astral. Toda reunião de gente tem alguma coisa que se faz junto para gente ser mais feliz. Eu faço projetos, sou autônoma, então eu sempre trabalho em casa. Sempre tem muita coisa acontecendo na minha casa. Quando não tem gente tem silêncio.

CINTURÃO VERDE
As mudanças atualmente são muito velozes! Eu, quando era criança, passeava aqui. Foi por isso que eu escolhi vir morar aqui. O meu pai saía de vez em quando e nos trazia pra passear na Estrada Velha do Aeroporto e era toda de sítio. Quando eu cheguei aqui também era toda de sítios. Havia Pau da Lima. Havia o início de Nova Brasília, mas ainda era tudo muito pequeno. As pessoas todas se conheciam. Eu morava num sítio que a cerca era de arame. Então você via todo mundo que ficava dentro de casa, não tive portão durante muito tempo. Essa rua aqui só tem asfalto há quatro anos. Em poucos anos, de 2000 para cá, tudo isso vem sendo revolucionado de uma forma muito drástica, muito sem cuidado. A Caixa, que é a instituição que tem feito esses conjuntos todos, aproveitou que aqui tem terrenos baratos, porque a topografia é muito acidentada e está fazendo o que ela vem fazendo, a torto e a direita. Então a mudança foi muito drástica, não há uma preparação para chegar o progresso.

Isso aqui é um cinturão verde da cidade. Toda essa região tem nascentes. Porque em todo vale existe uma fonte, uma nascente, uma vertente que corre das cumeadas. E isso não está sendo considerado. Eu tenho um rio no meu quintal que a Caixa joga esgoto. E ela sabe disso, mas não toma nenhuma providência.

NOVAS OCUPAÇÕES
Mudou tudo, porque um condomínio traz centenas de família de uma vez só. Essas centenas de família não têm uma praça para se encontrar, para conhecer o bairro onde estão. Eles saem do apartamento para o ônibus e do ônibus para o apartamento. Por outro lado, eles usam os serviços do bairro. Já que não tem, a Caixa também não ampliou esses serviços, usam o que tem. E isso é uma sobrecarga para todos, quem já morava, quem já estava numa situação de carência mesmo. E o grande dano mesmo que está sendo feito a mais longo prazo – que eu imagino que, mais cedo ou mais tarde, esses serviços vão chegar, que a gente tá batalhando muito forte -, mas o grande dano é em cima do meio ambiente. Esse, sim! Fontes de água mineral. Toda essa região tem pedreira, então brota água de pedra mineral. Elas tão sendo poluídas, pouco a pouco, sem nenhum cuidado, sem nenhum planejamento.

Estão sendo vendidas para qualquer pessoa que tenha dinheiro. E como geralmente essas incorporações trazem o dinheiro, fazem. A Caixa não coloca nenhuma restrição, embora ela seja autora de um Estatuto da cidade, que ordena o solo, que diz o que é bom para uma cidade, para uma família, para uma pessoa… Ela diz, mas não faz absolutamente nada disso.



TRANSPORTE

Sempre houve transporte naquele larguinho lá. Recentemente o pessoal pediu para vir pra cá, para estender mais o transporte para esse largo. Nós moramos num lugar em que você está a 15 minutos do Iguatemi, se não fossem os engarrafamentos de Salvador. Tendo o metrô, por exemplo, vai ser muito fácil morar aqui, agora, com os devidos cuidados da região, pela natureza da região. É uma região onde todo mundo quer ver o que ainda está se vendo aqui, e não só ver concreto e asfalto e trânsito de veículos.

PRAÇAS
Praça? Muito poucas. Nós temos uma Associação e estamos lutando para que isso aconteça. O povo que vai organizar. Tem uma muito armengada, sem um preparo, sem um cuidado com o que é que as pessoas vão fazer naquele lugar, os encontros sociais que é preciso ter. Então é uma periferia muito mal cuidada.

TEMPLOS RELIGIOSOS
Tem algumas igrejas aqui. Eu acho que atendem bem a região. Quem não quer freqüentar aqui no bairro, vai para o Iguatemi, vai para igrejas que estão ali naquele centro, que tem várias outras também. Acho que isso é bem servido. Tem igreja evangélica, católica, tem alguns candomblés. Tem uns há muitos anos, antes de eu chegar. Igreja evangélica tem aquela lá onde nós fazemos nossas reuniões. Ali é batista. Já tem alguns anos. E evangélica também deve ter. Terreiro, tem um já mais recente, mas tem outros mais antigos, desde quando vim morar aqui tem terreiros na Estrada Velha do Aeroporto, porque tudo isto aqui era região de refúgio de escravos. Mocambo quer dizer isso, refúgio de escravos. O nome dessa rua é Rua do Mocambo Ilhado. Ela está entre rios.

FESTAS
Acontecem algumas festas, mas muito invadidas pela música de consumo. Hoje, na nossa associação, a gente procura trazer as características das pessoas, que elas se manifestam com atividades delas mesmas e estamos conseguindo. Antes, o que era visto é que se contrata um conjunto e aquele conjunto toca, toca, toca a noite toda e as pessoas saem muito excitadas, fazendo baderna, e a gente está querendo mudar esse contexto. Tornar um contexto mais cultural, mais esportivo.

Não há nenhuma opção de lazer. O bairro se chama Vila Dois de Julho. E é o único Dois de Julho que sobrou, todos os outros foram substituídos. Então, o que a gente hoje procura é trazer uma consciência para as pessoas desse contexto histórico do Dois de Julho, de estar perto de Pirajá. Aqui se faz berimbau. Uma grande quantidade de berimbau do Mercado Modelo se faz aqui próximo. Se faz muitas coisas que são a cultura da Bahia, mas as pessoas não têm consciência desse valor dela. Então a gente está procurando levantar isso. Não temos uma manifestação cultural marcante, por isso mesmo. Porque elas estão submergidas por tudo isso que tem chegado, que é a música de consumo. Mas, com o tempo, isso vai aflorar.

ESPORTE
Tem um campo muito ativo, um campo de futebol ali debaixo dos postes. Tem uma escolinha com aulas dadas por um morador, Val. Tem a iniciativa dos próprios moradores, mas agora a gente está também em cima dos políticos para trazerem melhorias para esse campo, mais esportes, favorecer as meninas. As meninas têm muito pouco espaço para praticar esportes. Ampliar e ofertar mais coisas. Estamos batendo firme nesse ponto. A escolinha de futebol já tem algum tempo, acho que uns 10 anos. O tempo que ele mora aqui. Ele é um cara entusiasmado! Tem outros também. Esse campo de futebol é utilizado o tempo todo, tem horários, principalmente nos fins de semana e eles entram num acordo, as duas associações dividem, é uma coisa super organizada. Não é à toa que futebol é o que é. No dia em que tudo for organizado como o futebol, o Brasil tem jeito.



SERVIÇOS

Quando as crianças vão para a escola, elas andam de onde vocês andaram e mais dois ou três quilômetros porque as escolas estão lá do outro lado. Então agora a gente está chamando o secretário municipal de Educação para ele vir aqui e solicitando escola para o povo daqui. Aumentou muito, porque a Caixa trouxe muito mais gente e não se cuidou dessa estrutura.

Também não tem posto de saúde. Nunca teve. Tem do outro lado. Tudo que tem está ali em Nova Brasília, que é um bairro muito mais antigo, mas esse já tem um volume de gente considerável.

Tanto é que uma escola municipal, aqui, a gente acha que vai pegar 2 mil crianças. Não pode ser menor do que isso. As escolas que tem são particulares, ou então as crianças têm que andar três ou quatro quilômetros para chegar. Essas escolas particulares são bem recentes. Antes, o que tinha era Dona Vanda, que é o Centro Social Irmã Elisa Maria, muito bom, é uma das escolas públicas. Tem o Adalto, o Vera Lux, todos lá do outro lado da pista. Então é muito longe para uma criança. Daqui a pouco vocês vão ver aí, quanto menino vem andando pela calçada. Você imagine um menino andar até lá. Se for pequeno, não vai só, a mãe não vai deixar. Aí não tem creche também. A creche que tem ou é Jaguaripe, que é bastante longe, ou é em Vila Mar, também é bastante longe para uma mãe ir lá botar a criança e depois voltar para trabalhar.

Casa lotérica, mercado, onde se paga, água, luz, até tem, mas não aqui dentro na Vila Dois de Julho. Está tudo lá em Nova Brasília, Vila Mar. Banco também não. Quando eu preciso ir, o mais próximo é no CAB. Todos esses serviços que beneficiam o povo, continua não tendo. Só que antes eram menos gente. Você dava carona a uma mulher que ia ter menino. Mas agora você vai dar carona toda hora a uma parturiente? Não, dá, né? Então, esses serviços não chegaram e as pessoas têm que se virar de outra forma. A população aumentou muito e não chegaram. Antes até tinha parteira aí, pertinho. Hoje já não tem mais. E com relação às lojas, tem. Foram chegando. Loja é o primeiro que chega mesmo, mas ainda falta muito. Por exemplo, não temos feira, dessas feiras de praça, uma vez por semana. Tudo é comprado em pequenas vendas. Agora mercadinho tem, tem bastante mercadinho, foram aumentando. Foram aumentando porque comércio é uma coisa espontânea, não depende de estrutura de governo.

SEGURANÇA
Policiamento aqui é zero. A gente antes não precisava, porque a gente se conhecia. Todo mundo se cumprimentava. Os problemas de marginalidade começam a aparecer quando as pessoas se sentem isoladas, quando você não conhece mais quem está chegando no bairro. Mas a gente não tem policiamento, não apareceu nunca aqui uma dupla de PM, por exemplo, circulando, andando. E tem acontecido muitos casos de assalto, de tomar celular, tomar dinheiro, isso acontece.

Eu, por exemplo, costumava passear aqui nessa rua a qualquer hora da noite. Hoje, quando eu saio, olho para um lado, olho para a cara de quem vem, para ver o jeito da pessoa e tem horas que eu não saio. Se estiver vazio, como acontece, ninguém passando, eu espero. Então, é uma situação de medo que eu nunca tive antes. Não tinha nem portão, como eu disse. Então, hoje em dia, a gente precisa ter muito cuidado e as pessoas que andam de ônibus também estão muito expostas. Elas saltam do ônibus e ficam à mercê de quem passa na rua e nem sempre está com boas intenções. E não aparece polícia.

Quando a polícia passa é nos carros. Ela não vem a pé, que é quando se vê as coisas, é quando tem policial andando a pé. Então tem havido algumas coisas aí. Se a gente não estivesse tomando algumas providências, eu acho que seria desanimador. Mas também a cidade toda vive no clima. Então a gente tem que lutar sabendo que não estamos isolados. Todo mundo está tendo que batalhar por isso.

CONVIVÊNCIA
A Vila há 32 anos era um lugar onde você tinha amigos. Você conhecia as pessoas e a relação social entre as pessoas era uma coisa muito espontânea. Hoje em dia você já chega com cuidado às pessoas. Elas precisam lhe conhecer, saber quem você é, para ficarem mais à vontade. Daí também o papel da associação é bom por isso. Porque é um espaço onde as pessoas se dão a conhecer. Mas essa diferença é fundamental: o convívio era outro, antes nós convivíamos muito perto, como numa cidade do interior. Aqui foi interior até muito pouco tempo atrás, porque não tinha asfalto, vinha quem tinha negócio mesmo. Não tinha os prédios – que é o grande volume de pessoas novas – então era uma história muito diferente.
Ainda tem ruas sem asfalto. Ter asfalto ou não ter asfalto não é bem o foco. O foco é que, quando vem o asfalto, ele libera para a velocidade mesmo, libera para o automóvel. Pedestre que…

É feito o asfalto, mas sem uma ciclovia. Aqui o povo todo usa bicicleta, que é o transporte mais barato, mas não tem o cuidado de construir uma ciclovia, os pedestres muito menos… E os carros… Doidos por essas ruas. Devia ter um limite de velocidade. Até hoje não tem. Então são coisas assim, detalhes, que quando você chega num lugar, você tem que manter o contexto desse lugar. Nós não estamos numa Paralela, onde ninguém mora ao redor. Pelo contrário, estamos numa rua onde todo mundo passa andando a pé, despreocupado e hoje isso não é mais possível.

MORADORES
Existe o fazendeiro original que loteou tudo isso, que é Doutor Jorge lá na esquina. Ele ainda está aí. Existem alguns vizinhos aqui que já estão há bastante tempo também. Vieram escolhendo esse lugar de sítio, para criar os filhos em contato com a natureza. Dona Rosa. Então existem algumas pessoas que estão aqui há muitos anos! Quem mora fica. Quem mora ainda está aqui. Os sítios que foram vendidos são de quem não morava, nunca morou, porque ainda é uma boa morada!

Associação de moradores tem duas: tem uma lá na Vila Dois de Julho mesmo, mais antiga, e tem essa Amovila, mais nova. A gente procura trabalhar em conjunto, na medida do possível, e quando não é possível, cada um tocar em benefício do bairro. O objetivo dos dois, das duas associações é esse.

EXPECTATIVAS
Eu estou vendo que o bairro enchendo de escolas, de faculdades, agora é preciso que ele criem um contexto mais favorável para os próprios moradores, que seja mais humano. Essas atividades de cultura e de esporte, que elas aconteçam dentro de um clima mais abrangente, para que as pessoas se sintam incluídas. Senão, vai ser um bairro aonde apenas as pessoas vêm estudar, a maioria com carro, estacionam, vão embora e pronto. Elas só vão aos bares, só consomem e não existe uma ligação, uma humanidade que atraia mais. Eu acho que a gente precisa reforçar esse ponto. Um senso de humanidade, de solidariedade, bem maior do que existe hoje. Aí vai ser bom.

Alba Liberato nasceu em 20 de outubro de 1944
Entrevista realizada em novembro de 2007

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