Lourenço Cerqueira

Posted on 01/07/2008

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O meu nome é Lourenço, Lourenço Ramos de Cerqueira. Nasci na Fazenda Queimada, na cidade de Antônio Cardoso. Com meus 18 anos vim para Salvador. Trabalhei de cobrador. consegui um dinheirinho, botei uma venda no interior, na roça, onde meu pai tinha venda, onde fui criado, praticamente. Eu tomava conta em adolescente. Eu estudava e tomava conta da venda do meu pai. Vim para Salvador com 18 anos, arrumei um dinheiro, voltei, e passei mais seis anos com essa venda no interior.

Com 29 anos eu me casei e fui para São Paulo. Passei cinco anos em São Paulo, me dei muito bem em São Paulo. Trabalhei em metalúrgica, trabalhei em fábrica de tecidos, trabalhei em fábrica de veneno, Bayer do Brasil, por sinal Baygon, uma firma que muito me marcou, me ajudou muito. Depois eu vim embora para Salvador. Com o dinheirinho que eu trouxe de São Paulo, comprei um terreno aqui na Vila Dois de Julho, fiz minha casa, passei a morar. Depois trabalhei no CIA, nessa mesma firma, Bayer. Consegui um dinheiro, comprei aqui na Heidi Carneiro, que eu morava lá embaixo na outra rua, Rua Fé em Deus. Comprei aqui e mudei para aqui. Botei uma bodega e mudei para aqui, aonde eu estou hoje. Fiz minha casa em cima, e tenho minha quitanda embaixo e vivo minha vida. Tem 17 anos que eu tenho essa quitanda. Eu tenho 60 anos. Tenho uma filha, a mulher e meu netinho. Quatro pessoas na minha casa. Eu trabalho aqui, minha esposa trabalha, faz reforma de roupas e tal. Trabalha também para me ajudar. E nós vivemos uma vida razoável. Minha filha também trabalha. É uma vida razoável.

PRIMEIROS TEMPOS
Aqui começou como uma vila pequena. Trabalhamos aqui para fazer a igreja, associações, carregando água na cabeça, sem água, sem luz. Batalhamos e chegamos numa vila que hoje é importante, pequena, o pessoal é humilde e não tem muita bandidagem. A gente consegue controlar, está em controle do pessoal mais velho aqui ainda. Os meninozinhos que têm mau costume ainda respeitam a gente.

Quando eu cheguei aqui, todas as ruas não tinham asfalto, não tinha nada. Tinha mais ou menos umas 10 a 20 casas. Tinha poucos moradores. A gente apanhava água numa fonte que tinha lá embaixo. Era uma mina, uma fonte que a gente fez. Ali a gente pegava água para beber, para lavar roupa, para tomar banho. Pegamos muita água dessa fonte para fazer associações. Fazer a igreja. Tudo foi água que nos pegamos na cabeça para trazer para aqui.

Não tinha luz. Era luz de aladin, candeeiro, vela. E disso para cá foi aumentando. Teve um vereador amigo da gente, o saudoso Ednildes Espírito Santo, que foi o vereador que contribuiu com a gente, com essa partezinha de asfalto que nós temos hoje aí. Esse asfalto foi o ex-vereador Edinildes Espírito Santo.
Depois disso, não tivemos mais nada feito aqui nesse loteamento. Os governos nunca olharam para o lado daqui. Sempre vem governo, tem alguns nas épocas das eleições, e não voltam mais.

SEM ESCOLA
A única coisa que aqui precisa muito, muito mesmo é uma escola. As crianças da gente estudam em Nova Brasília, Estrada Velha do Aeroporto. Por sinal tem muitas crianças aqui que já foram atropeladas na Estrada Velha, andando para as escolas. E a gente vive correndo atrás de uma escola nessa vila. Tem escola aí particular. Por sinal, para meu neto, eu pago R$ 30 de carro, ou é R$ 35, para ir para a escola e voltar de carro. Porque ele estuda lá no km 6, no Vila Mar, na Escola Maria Elisa. Então, aqui o que nós precisamos muito mesmo é de uma escola. É arrumar rua, é rede de esgoto, nós não temos nada aqui feito pelos governos. Os governos não fazem nada por aqui. Tudo o que a gente tem aqui foi quase feito por nós mesmos. A não ser Edinildes Espírito Santo, que fez alguma coisa pela gente, quando era vivo.



DIA DOIS DE JULHO

A melhor coisa que a gente tem aqui é a festa de aniversário do bairro, dia dois de julho. Foi uma festa que a gente fez muito bonita. Veio muita gente de todos os cantos, de toda Salvador. Nós fizemos uma festa aqui com uma vereadora que chamou a atenção do bairro, foi muito bonita, tinha mais de duas mil pessoas. Encheu essa vila aqui de gente. Dos últimos tempos para cá, a gente não está podendo mais fazer esse tipo de festa. Está tendo muita bagunça. O pessoal está com muito medo de fazer a festa, muita agressão. Mas no dia em que eu for presidente desse bairro aqui, eu vou continuar fazendo essa festa, porque foi a melhor coisa que teve aqui nessa área, foi essa festa do aniversário do bairro Dois de Julho.

ESPORTE
A gente já fez aqui vários campeonatos de baralho, buraco. Campeonato de dominó a gente faz direto, todos os anos. E temos o campo de futebol ali, que por sinal está até disputando campeonato esse ano. Muitos times de todos os cantos da Bahia vêm disputar campeonato aqui no nosso campo. Temos um time aqui que está disputando campeonato também.

VIZINHOS
Todo mundo se conhece, todo mundo se trata bem. Temos os nossos amigos velhos aqui, os primeiros amigos que moraram aqui. E aí as pessoas que vão chegando vão se unindo a gente. É tudo legal, tudo bem, aqui não tem negócio de problema de briga de vizinho. Não existe isso. Todos aqui somos amigos, somos irmãos. Agora assim, pessoas, cachaças, essas coisas a gente releva, é uma coisa que se passa, uma confusãozinha de briga de cachaça. Essas coisas a gente deixa para lá.

AVANÇOS
Quando nós chegamos aqui não tinha nada. Hoje já melhorou, já tem mercado. Chegou o desenvolvimento. No bairro tem muitos apartamentos, conjuntos. Melhorou muito. Chegou asfalto na Rua Mocambo. A Rua Mocambo era bastante ruim para a gente andar, feia. Hoje em dia está tudo asfaltado, com rede de esgoto, vários conjuntos. Melhorou bastante aqui também onde a gente mora. As casas aqui eram falhadas, não tinha quase casa nenhuma. Já fechou hoje, tem muita casa. Muitas casas boas. Melhorou muito, melhorou bastante depois que eu cheguei aqui. Só o que está faltando mesmo é os governos olharem um pouco pela nossa comunidade. Porque não olham, não fazem nada. Não tem um prédio escolar, não tem posto médico, não tem um posto policial.

SEGURANÇA
Sempre que a gente chama a polícia para qualquer coisa aqui, a polícia está por perto. Eles chegam, procuram resolver. Os pequenos casos que nós temos aqui, a polícia procura resolver. Aqui não tem muito caso. Aqui, graças a Deus, está bem dominado pela gente. As coisas ruins aqui acontecem muito pouco. A polícia vem aqui, mas não consegue encontrar muita coisa. Morte, tiro, facada, essas coisas não existem aqui. Muito pouco. Existe assim, nos bairros ao lado. Aqui dentro da Vila mesmo é muito calmo, direitinho, muito bom, o pessoal é muito calmo. Mas já aconteceu: um rapaz aqui foi morto a facadas por dois marginais, e marcou muito. Mataram o rapaz dormindo, bêbado, então marcou muito. Eu só me lembro mesmo desse caso, não aconteceram outras coisas desse jeito.

ASSOCIAÇÃO
Essa associação foi fundada por nós, por sinal eu fui secretário. Tinha Moisés, que era o presidente. A gente trabalhou muito, correu atrás. É toda registrada, tem toda a documentação legalizada, tudo ajeitado por nós. Hoje eu me afastei porque não posso trabalhar com a associação. Tenho o meu comércio, não posso trabalhar mais com a associação. Perdi muito tempo com reuniões, para correr atrás dos órgãos do governo, eu não tenho mais tempo para isso. Mas a gente correu atrás e temos uma associação que, hoje, aqui nessa área, é uma das melhores.

Entrevista realizada em novembro de 2007

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