Nilzete Argolo Costa

Posted on 23/06/2008

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Foto de Evana Marmo

O meu nome é Nilzete Argolo Costa. Eu sou de 1943. Vai fazer 47 anos que eu tô aqui. Eu estava moderna, com os primeiros filhos ainda. As duas gêmeas que eu tenho, as mais velhas, e o mais velho, que vai fazer 47 anos. Trouxe ele com 4 meses para cá. Eu mais meu marido: Reinaldo José dos Santos. Filhos, agora eu tenho sete, mas eu tive 13. Os netos? 28. Tem dois pra nascer. Eu tenho um bocado de bisneto. Essas casinhas aqui todas são dos meus filhos.

Meu marido não comprou esse lote. Ele trabalhava com uma pessoa lá em Matatu. Aí, a pessoa, Dr. Sales, deu esse terreno para ele tomar conta. Ele morreu e eu fiquei. Eu sou daqui de Salvador mesmo, meu marido era de Itaberaba. Eu vim do Nordeste de Amaralina para aqui com meus filhos. Criei todos aqui, tranquilo. Eu gostava porque era mais mato. Meu marido saía para trabalhar e eu ficava aqui com eles, lutando a vida. Vendi muito na Feira de São Joaquim, vendia muita folha para ajudar meu marido a sobreviver. Folha de mato. Lavava muita roupa de ganho. Aí em cima todo mundo em conhece porque eu lavava muita roupa para sobreviver com os meninos e com ele, meu marido. Ele era pedreiro, trabalho de pedreiro e eu procurava ajudar ele.

Filhos, hoje eu só tenho sete filhos. Tem uma lá no Rio de Janeiro. Tem uma em São Paulo. Tem três que moram aqui dentro desse trajeto. Tem uma que tá trabalhando. A minha filha mais nova é essa, que é do outro casal, tem 27. Arranjei um casamentozinho, mas já é falecido também. O nome do meu último marido era Nivaldo Costa. Ele era pintor. Ele não morou aqui diretamemte. Ele me dava atenção e tudo, mas não morava aqui diretamente. Morar comigo mesmo, quem morou foi o pai das meninas, desde quando comecei a vida, comecei com ele. O pai dos meus meninos.

COMEÇO
Aqui era uma fazenda de mato. Ali mesmo na frente era mato. Lá para baixo era mato. A gente só ouvia a zoada do carro passar. Aí para cima não tinha casa, não tinha nada. Só tinha essa casinha minha aqui. Nessa época eu morava lá embaixo. Descia aqui pelos matos. E outra casinha lá em baixo, perto do rio, perto da finada Maria. Não tinha movimento não. Aí, depois, o dono da Etecla comprou esse terreno aí. Etecla é uma firma. Comprou esse terreno e hoje em dia tem essas casas, está fazendo esses prédios. Era Dr. Vicente, o irmão de Fernando Santana.

Para pegar água, descia para uma fonte lá embaixo. E aqui também tinha outra fonte que era uma ladeira horrível. Pegava lá embaixo. Porque aqui não tinha água encanada, não tinha energia. Água encanada começou quando construíram esses prédio aí. Começou dos prédios e daí foi aumentando. E a energia começou também quando chegaram esses prédios. Até no Dois de Julho não tinha energia. Tem pouco tempo. Eu estou aqui tem uns 47 anos. Isso tem uns 10 a 12 anos.



VIZINHOS

Dona Alba não morava aqui. Dona Alba morava em Campinas. A minha filha trabalhava com ela. Tinha Dr. Rubens, que era da Souza Cruz, mais abaixo tinha Santa Rita, onde agora é prédio. Tinha outra chácara para cá, Sítio Mangabeira, aí chegava Alba. Ela estava construindo a casa dela ainda. Aí veio o Sítio Verde, veio o Sítio Novo, de Glorinha, veio o outro de Dona Angela, aí veio chegando gente. Jacó, ali do lado. Aquela casa sempre foi de Jacó. Era do pai dele. Depois o pai morreu e ele ficou com a casa. Aí depois veio o pessoal ali de Seu Mascarenhas, de junto do Sítio Verde. Depois tinha outro para cá. Depois tinha Seu Muniz que criava uns gados ali em cima. E aquela parte de lá que hoje em dia está tudo cheio de casa, era mato, era mangabeira. Era fazenda, mas não tinha dono especificado. Tinha os mato, os pés de mangaba… os pés das frutas, mas não tinha ninguém.

Aqui conheço todo mundo, acompanhei a chegada de todo mundo. Dona Alba mesmo, eu conheci Dona Alba há muitos anos. Eu já trabalhei pra ela. Trabalhei a primeira vez por cinco anos. Depois trabalhei mais dois. Minha tia, que é falecida, trabalhou de cozinha com ela uns dez anos. Minhas filhas já trabalharam com ela. Dona Alba conhece meus filhos e minhas filhas. Boa vizinha ela.

Conheço aqui todo mundo. Glorinha também conheço, ali do Sítio Novo. Depois de mim veio chegando o pessoal do loteamento. Chegou depois de mim, do Dois de Julho. Essa moça que mora aqui nessa casa aqui, evangélica. E muitas e muitas pessoas chegou depois de mim. As bibocas que tem aí, no Dois de Julho, Lourenço, Cristóvão, chegaram muito depois de mim. Se for contar, é muita gente.

Aqui é tudo vizinho mesmo, não vou para a casa de nenhum, mas todos me dão atenção. O que é bom. Eu tenho problema de pressão. Se acontecer de me contrariar, a pressão sobe logo. Aí as meninas chamam a Samu, me levam. Aí a casa enche. A bondade é essa. “Dona Nilzete tá sentindo isso”. A casa enche.

Eu me dou com todo mundo.
– Dona Nilzete.
– Oi.
– Nunca mais eu lhe vi.
– Eu tô aqui mesmo.

O pessoal do loteamento, a maior parte eu conheço. A não ser esses novos, que estão chegando agora. Mas a maior parte eu conheço, tudo menino que eu vi crescer. Menino, menina, que hoje está tudo mãe de família.


MOCAMBO E DOIS DE JULHO

A fazenda Mocambo já vem desde o início, que era de Dr. Jorge, que morava lá em cima. Então tinha Sítio Mocambo. Aí botaram aqui o nome Fazenda Mocambo. E hoje em dia é Rua Mocambo. Aí veio o pessoal invadindo, outros comprando, outros fazendo casa e reuniu essas casaradas todas que tem por aí.

Quando nós viemos para aqui, não tinha o loteamento Dois de Julho, só tinha duas pessoas que moravam: Davi e a finada Joana. Aí, Deus ajudou e construíram. Aqui não é Dois de Julho. Essa parte aqui faz parte do Mocambo. Porque esse parte aqui, quando o patrão do meu marido comprou, comprou na mão de Dr. Jorge. O Dois de Julho já veio depois. Não faz parte com o Dois de Julho, não.

TRANSPORTE
Naquele tempo, não era como agora. Agora está mais evoluído. Eu ficava aqui. O meu marido ia para a cidade trabalhar e eu procurava ajudar. Não tinha transporte. Saltava lá no Sete de Abril, no Cajueiro, ou então pegava Pau da Lima e vinha andando aqui por dentro. E tinha o ônibus de Portão. Era o que passava aqui sempre. A gente queria sair de manhã cedo, ir numa feira… Quando eu ia vender com as colegas, pegava Portão. Quando ele buzinava de lá, a gente via daqui, subia e ficava no ponto esperando. Aqui não tinha Nova Brasília, não tinha esses ônibus que tem agora não. Nova Brasília veio muito depois. Já tinha a Estrada Velha, toda acabada, mas já tinha, não era assim como é hoje em dia não.

Hoje o transporte está bom, mas em um ponto não está, porque só tem Lapa e Pituba. Às vezes a pessoa quer dar um pulinho mais rápido na rua e não tem transporte. Que ir ali na Baixa dos Sapateiro, não tem transporte, tem que pegar dois. Na Sete Portas, não pode, tem que pegar dois. Aqui só rodam duas linhas: Pituba e Lapa, que vai pelo Comércio.

SAÚDE
Posto de saúde? Só lá em Nova Brasília, ou então aqui no Marback, no Imbuí. Ou então chama o Samu. Mas aqui perto mesmo não tem. Precisa de posto e de farmácia também.

CRESCIMENTO
O crescimento foi uma coisa boa, porque era mato, o caminho era estreitinho, deu mais liberdade a gente. Não tinha esse caminho aí, abriram essa pista muito depois. Aí para baixo era barro. Mas em um ponto, por causa da marginalidade, é que está piorando. Quanto mais o bairro cresce, a gente fica sem tranquilidade. Lá para o Dois de Julho é meio agitado, mas aqui, graças a Deus, é tranquilo.

USO CAPEÃO
O filho de Seu Sales ainda é vivo, Sérgio. Ele sempre vem aqui: “Ah, Nilzete, vou ver se eu vendo”. Mas, ele não pode mais vender, porque tem um advogado tomando conta do terreno, já loteou lá em baixo tudo. Então ele diz: “É, Nilzete…”. Então eu fico imaginando, se ele resolver amanhã ou depois qualquer coisa e eu sair daqui. Eu não vou arrumar um lugar mais calmo do que aqui. Sérgio é filho de Sales, ficou com a responsabilidade do terreno. Ele mora em Minas, mas sempre está vindo aqui me dá alerta. Mas só que meus meninos também estão andando para poder ver, porque pelo tempo que eu estou aqui eles não podem me tirar.

De uso capeão, já tá cheio, porque é 10 anos. E ainda tem mais um bocado de ano em cima, 12 anos ou 13 em cima. Então de uso capeão o direito já me deu tudo. Quando meu marido faleceu, eu morava em uma casa de taipa, estava com os meninos pequenos ainda. Depois disso eu já tive uma casinha ali onde está aquele cimento, já tive outra mais lá para cima e depois fiz essa aqui. Mas sempre aqui.

CELEBRAÇÕES
O que acontece aqui é, de vez em quando, essa folia do pessoal que tem barracas. É o que me distrai, por sinal até. Eu fico daqui da porta, tenho medo de confusão. Daqui da porta, boto a cadeira, fico de noite apreciando tudo, não gosto de barraca não.

No meu aniversário eles sempre fazem uma surpresa para mim, e no fim de ano, que é festa de familiar. Principalmente no Natal, fazem um churrasquinho ali fora, perto da mangueira, compram a cervejinha, a gente fica ali brincando. Nossa brincadeira é aqui mesmo, todo domingo. Minha filha que trabalha lá no Trobogy, sobe sábado. Aí fica todo mundo reunido ali em baixo da mangueira. Ali a gente brinca, bota som para tocar, um distrai de um lado, um distrai de outro, pronto. A brincadeira é essa, aqui dentro mesmo.

Entrevista realizada em novembro de 2007

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