Irmã Mariana Maria Pereira

Posted on 23/06/2008

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Eu sou Irmã Mariana Maria Pereira. Eu sou Medianeira da Paz, da Congregação das Irmãs Medianeiras. Com 17 anos e 11 meses, eu entrei para a Congregação. Hoje estou com 64 anos. Eu nasci em 10 de setembro de 1943, na fazenda Sítios Novos. Meus pais eram campesinos, eram agricultores, fazendeiros também. Meu pai tinha muito gado. Eu tomava muito leite, comia muito queijo e gostava muito da minha infância, mesmo com muita dificuldade, porque no interior a gente tinha dificuldade… Estudava com dois, três quilômetros de distância. A gente ia andando. Mesmo assim eu consegui terminar o primário e, naquela época, o povo já exigia que quem terminasse o primário desse aula para as outras crianças que não tinham a facilidade de ter aulas nos sítios. Então, eu fui professora primária do primário. Hoje as minhas ex-alunas estão todas formadas em pedagogia, psicologia, são funcionárias públicas.

Nós chegamos aqui em 1987, em Sete de Abril, quando a Congregação das Irmãs Medianeiras assumiu a coordenação da Fundação São Geraldo, juntamente com o padre jesuíta Clodoveo Piazza. Naquela época, aqui quase não tinha residência, somente o núcleo. Depois é que foi se espalhando. Aqui era tipo um sítio. A gente chamava “Sítio São Geraldo”.

Aqui é um abrigo de crianças, adolescentes e jovens. Nós temos casas-lares aqui no conjunto e, lá em cima, está o reforço escolar e as outras atividades. Irmã Isabel veio na frente para assumir a direção da casa e a reforma do São Geraldo, que estava em decadência. Naquela época, quando nós chegamos aqui, foi como se a gente estivesse entrando num sistema prisional. O São Geraldo era muito fechado, estava tudo arrebentado. Mas quando começamos a construir, a reformar, foi justamente quando o povo começou a abrir espaço por aí. O bairro foi crescendo de um lado e do outro e foram se avolumando os bairros. E hoje está aí: onde era mata virgem hoje estão os bairros circunvizinhos. Tudo isso aí eu vi mata. E hoje a gente está vendo até casa adentrando no terreno da Fundação.

SEGURANÇA
Antes nós só tínhamos um posto policial. Eram dois policiais, dois agentes da Polícia Civil. Mas também não tinha essa procura excessiva, esse negócio de marginalidade. A gente podia deixar a porta aberta. Era tranquilo. O posto da Polícia Civil, ligado à 10ª, é que dava toda a cobertura. Mas o bairro foi crescendo, foi aumentando e foram aumentando também os problemas. Problemas sociais foram se agravando e diante da situação a gente fez um ofício ao governador. Eu pedi a padre Piazza para pedir ao governador do estado para pedir um policiamento mais ostensivo para Sete de Abril, porque os casos estavam aumentando. Aparecia gente morta, era aquela coisa toda e a gente precisava de segurança por causa das crianças, segurança também por causa da comunidade. E, aquela carta, padre Piazza levou, entregou ao governador. Na hora que ele entregou, o governador mandou logo que um coronel viesse à Fundação. Eles colocaram policiamento mais ostensivo aqui no bairro, foi aí que as coisas foram melhorando. Porque todo bairro da Estrada Velha do Aeroporto era lugar de desova, lugar de muitos crimes.

Primeiro mandaram policiamento ostensivo e depois pensou-se em trazer para cá uma companhia da polícia, porque eles estavam desmembrando os quartéis em companhias. E trouxeram justamente a 50ª. Há uns quatro ou cinco anos atrás a Companhia foi trazida para cá. No início era 5ª. Eles mudaram de Quartel e mudaram também de Companhia. Hoje é 50ª Companhia da Polícia Militar. A 10ª Delegacia, em Pau da Lima, que é responsável pelo policiamento civil, pelas investigações. As apreensões fica mais com a Polícia Militar, porque esta é a polícia ostensiva.

FESTAS
A festa é um novenário na Paróquia Nossa Senhora do Carmo. Ela está sediada em Sete de Abril e tem também outros pequenos núcleos que são as comunidades da paróquia: Santo Antônio, Nossa Senhora do Livramento, Nossa Senhora das Graças, Nossa Senhora do Rosário, comunidade de São José Operário, comunidade de São José do Loteamento, São Francisco Xavier. Então são nove comunidades, são nove células da paróquia e Sete de Abril está dentro desse contexto dessas comunidades que são movimentadas pela igreja que tem como pároco padre José Walter e tem a liderança da comunidade. A participação do pessoal é muito boa, significativa. Cada um quer apresentar um pouco a animação da sua comunidade. Vem partilhar com a comunidade mãe, que é a Nossa Senhora do Carmo, as alegrias, tristezas, as lutas, as dificuldades das suas comunidades.

Depois da festa da padroeira vinha a festa profana. Vinha aquele pessoal não sei de onde, daqui das ribeiras, de Pirajá, vinha fazer a festa profana, misturando com a religiosa. Eles ficavam lá e a igreja ficava aqui. Quem vinha para a festa profana, não vinha para a religiosa. Ou a gente rezava ou a gente ficava ligado no som, ficava muito difícil. Eu acho que foi um dos passos que a paróquia deu muito importante foi tirar a festa profana. A paróquia lutou.

E até não foi difícil. Essa festa profana tinha até morte e os jornais falavam que foi na Festa de Nossa Senhora do Carmo. A festa era dia 16, às vezes caía domingo, quarta, segunda, mas sempre se colocava para o domingo. É por isso que tinha a festa profana. Aí a gente disse: “Nós vamos festejar no dia que cair o 16”. E não brigamos com ninguém. (José Celestino de Campos)

Agora eles estão vindo depois. Depois que a festa passa, eles vão chegando, as barracas vão se instalando. Mas não usam mais o nome de Nossa Senhora.

SAÚDE
Depois dessa prefeitura a coisa ficou numa situação… Nem Conselho de Saúde funciona. Eu sou membro do Conselho de Saúde, já fui não sei quantas vezes para ver se reativa o Conselho e ninguém quer nada com nada. A gente sabe que, na saúde pública – eu fiz o curso de saúde pelo SUS –, para funcionar bem uma unidade de saúde num bairro, precisa existir o Conselho de Saúde local. Esse Conselho é que vai cobrar as políticas de saúde junto à Secretaria de Saúde do município. Mas isso não está acontecendo, o povo não é respeitado nos seus direitos.

Hoje a procura no posto é muito grande, a demanda é muito grande. O povo vem de toda essa redondeza para ser assistido, porque é um bairro que tem um posto bom, que tem todos os exames, tem convênio com a Ufba para fazer os exames. Então faz todos os tipos de exames de laboratório, radiografia de tórax. Tem cardiologista, tem oftalmologista, mas os principais médicos que a gente precisa – clínico geral – não tem. Só tem um clínico. E esse clínico está aí há mais de 20 anos e é um médico que não gosta de atender as pessoas. Pediatra, só tem um. Quando sai de férias, fica sem.

Só Pau da Lima tem o pronto atendimento, Castelo Branco, Cajazeiras. Para atendimento das nossas crianças, a gente corre aí, mas é uma dificuldade muito grande. A saúde está em decadência, precisa melhorar muito. Tem agentes de saúde, tem o pessoal da dengue. Os agentes de saúde trabalham, estão sempre atentos às necessidades. Eu acho que o problema está é na administração do município, em ver as carências e providenciar os recursos, os meios para atender melhor as pessoas. O posto tem medicamentos, tem duas assistentes sociais, tem nutricionista, uma equipe boa. O posto é grande, é bom, tem atendimento odontológico. É um posto que tem meios de funcionar para valer se o prefeito olhasse as carências da comunidade.

ESPORTE
Para idoso não tem mais nada aqui. Quadra de esporte, só tem a da associação de moradores. Agora, aqui na Fundação nós temos alguma coisa que acontece a nível de bairro. Os meninos estão se organizando. Tem o Agnaldo, que está com um grupo grande. Tem um rapaz que vem de fora da comunidade. Tem dois rapazes que são voluntários, que estão trabalhando com a gente e estão se organizando para a prática do esporte. Nós temos aqui capoeira, futsal com as meninas, com os meninos. E estamos criando aí um outro tipo de esporte, taekondo. Tem vôlei. Mas aqui, lá fora não tem.

ARTE
Daqui da Fundação nós temos um menino que toca guitarra muito bem e violão. Ele esteve na Escola de Música da Ufba e aprendeu. É Uilton. Hoje ele está trabalhando no Paes Mendonça, mas aos domingos ele sempre vem tocar aqui no coral da igreja. Ele toca bem baixo, violão, guitarra. E tem a turma daqui que toca na igreja. Também são meninos do bairro que tocam bem, que cantam bem, mas nunca foram pra mídia pra se destacar como cantores. Os talentos são descobertos na comunidade, vivenciados na comunidade.

PROJETOS
Um projeto que eu estou gostando é uma biblioteca. Lá na nossa igreja, embaixo da loja, tem a biblioteca, mas a moça que é responsável está construindo uma ali, no terreno que a Conder deu a Gilcélia, que é a presidente dessa associação que responde pela biblioteca. Mulher de muita luta, mulher de muita coragem, de muita garra. Ela merece muito apoio.

É lá dentro que vêm os universitários. É lá dentro da biblioteca que estudam, que já foram encaminhados vários jovens para a universidade. E lá dentro tem jovens universitários que vêm ajudá-la e eles estão também na luta pela construção da biblioteca. A biblioteca é comunitária e ela tem uma finalidade que é ajudar na promoção social, no conhecimento, no estudo e na descoberta da cidadania de todos os jovens, crianças, adultos. Quem quiser estudar.

Entrevista realizada em novembro de 2007

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