Van Costa

Posted on 17/06/2008

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Compositor, cantor e tecladista, Valdir de Jesus Costa é um dos muitos artistas do bairro de Sete de Abril, onde surgiram nomes como a cantora Virgínia Rodrigues e o percussionista Ivanzinho, entre outros. Nascido em agosto de 1967 e morador de Sete de Abril desde 1969, Van Costa fala em seu depoimento sobre os desafios de sobreviver de música trabalhando em bairros da periferia de Salvador.

Eu resido aqui nessa comunidade há 38 anos. E, nesse tempo, a partir de 14, 15 anos, a gente já vem fazendo um trabalho de voz e violão. Hoje, com essa nova roupagem da música mais avançada, que é a seresta, que é editada agora como arrocha. Eu venho fazendo esse trabalho agora, voz e teclado, e é um trabalho que está sendo até bem aceito nos bairros. Cantor de barzinho, hoje, aqui na área, a gente trabalha muito em cima do público pequeno. E, o público pequeno, a música mais aceita é o arrocha. É esse o trabalho eu venho fazendo, que é a antiga seresta, uma batida mais pegada.

O CD “O Talismã do Arrocha” é um trabalho feito no bairro, pra também divulgar aqui. No próprio bairro, a gente tem condições de fazer um trabalho caseiro. Então, a gente apostou em quê? Fazer um trabalho em computador, dentro de casa, com o teclado, colocando a voz. E o que venho trazer aqui: quatro músicas minhas, minha autoria, pra divulgar o meu trabalho também como compositor. Eu tenho mais ou menos seis meses com esse trabalho gravado, e é o que tá me dando uma divulgação melhor, e levando pra que a gente faça mais show fora, vendendo essa mídia, que é o trabalho do Van Costa: “O Talismã do Arrocha”.

Infância
É uma infância até um pouco gostosa de falar, porque eu trabalhei muito tempo com a música e os meninos aqui do bairro… Por sinal, temos hoje uma celebridade, posso dizer aqui do bairro, que é Virgínia Rodrigues, que é uma das cantoras que é conhecida, muito conhecida através de Caetano Veloso, Gilberto Gil, que resgatou ela aqui do bairro. Tem também outros músicos profissionais, que hoje trabalha com Ricardo Chaves e que trabalhou comigo. São vários, aqui na época de banda… Então eu tive uma infância muito boa. A gente começou com os meninos aqui fazendo voz e violão, barzinho, pagode, essa coisa toda, onde o músico começa mesmo. Deu certo, hoje eu venho fazendo meu trabalho solo. E todo mundo continua, hoje são músicos. Tem músicos daqui da área mesmo, que tá em São Paulo, tá no Rio. Quando a gente se vê, a gente conversa muito sobre o passado. Foi uma infância boa.

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Bairro
Sete de Abril é um bairro que é mal visto, como muitos bairros, porque é periferia, e antigamente era um bairro muito violento. Hoje, não, hoje já falam muito que morar em Sete de Abril é melhor do que morar em vários bairros do Centro. Um bairro que hoje tem uma segurança legal. Na área musical, o pessoal também tá dando oportunidade. O pessoal de fora mesmo, como os Camaradas, que tem gente daqui de Sete de Abril, Nova Brasília. Os meninos começaram praticamente aqui no bairro. É um bairro que tem muitos músicos também. E eu posso dizer que Sete de Abril hoje tá bem melhor do que o que era antes. Bem melhor, mesmo.

Pra mim, mudar daqui hoje é um pouco complicado. Porque a situação financeira, hoje, pra você se dirigir a um local melhor, o custo é mais… Tudo é mais. Então, eu acho que todo mundo pensa dessa forma: sempre querer ir pra um lugar melhor. Porque nascer e se criar e viver uma vida toda num lugar só, eu acho que não é por aí. Eu acho que você viver, viver pouco, mas viver bem, talvez seja melhor do que você viver muito e viver mal. Então, viver aqui no bairro… É um bairro muito humilde. Seria bom a gente poder encontrar situação financeira pra que a gente pudesse ir pra um lugar melhor. Mas, pra falar a verdade, eu não tenho muito que reclamar diante dos outros bairros de periferia, do bairro que eu moro não. Sete de Abril, de certa forma, tá melhorando bastante.

Fatos marcantes
Existe, sim, fatos marcantes aqui, na época de Gilberto Gil, o antigo “Boca de Brasa”. Aqui no bairro, eles vinham com um palco puxado por um Chevetinho e tal. Aí, chegava no fim de linha, armava aquele jogo de luz e convidava os artistas do bairro. Convidava os artistas do bairro e aí eu me apresentei também, na época, e fui escolhido o terceiro melhor artista do bairro. Por sinal, o primeiro melhor artista do bairro hoje é Ivanzinho, que é percussionista de Ricardo Chaves. O segundo colocado foi Virgínia Rodrigues, que é essa menina que hoje tem uma musicalidade contratada por Caetano Veloso. E o terceiro foi eu. Fui contratado naquela época, e foi muito marcante. A gente foi tocar ali no Relógio de São Pedro, aí eu fui recebido por Caetano Veloso, Gilberto Gil, subi no palco. Aquilo ali me marcou muito, eu não esqueço nunca, aquela parte foi muito marcante. Isso tem mais de 10 anos, o antigo “Boca de Brasa”. Muito bom, marcante mesmo. Eu conheci Tonho Matéria naquela época, Gilberto Gil, Caetano. Fiquei de frente com Milton Nascimento. Aquilo ali me marcou muito.

Os moradores famosos aqui, como eu já citei, além desse trabalho que vocês tão vendo aqui, que é Van Costa, que é o meu trabalho do arrocha, tenho outros colegas que também trabalham com música. Tecladista, que é Ivo Alfa, Jair Pinto, Roque do Arrocha. Por sinal, aqui na capa do meu CD, eu venho divulgando também Cristina Rivel, que tem um CD também. Tem a menina que é Adriana Reis, que são dois grupos que trabalham assim em show. Quando eu tô tocando, eles vão também pra divulgar o trabalho deles. Além de Pito, que trabalha com a Mambolada, é um colega que é percussionista, tocou comigo também, além de Ivan. Até no making-off do meu CD, eu faço uma entrevista e falo muito deles também, porque no bairro tem muitos músicos.

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Igreja
Eu fiz aqui o catecismo, na Igreja Católica, São José. Por sinal, a gente tá bem em frente a ela, onde eu fiz a minha formação na catequese, primeira comunhão, e foi onde tudo começou. Começou com violão ali, tocando com o grupo de jovens na igreja e, da igreja, foi que a gente acabou montando um grupo, indo pra rua tocar. Tocando em barzinho, tocando em palco armado onde tinha show. Por sinal até, na época, o pessoal da igreja ficou um pouco receoso com a gente, porque a gente tocava na igreja e, de repente, a gente pegou o grupo e saiu e começou a tocar pela rua. Mas a música leva a esses caminhos, né? E essa é uma história que hoje a gente tem como contar, assim, de coisas que são marcadas mesmo.

A religião é bem proveitosa aqui no bairro. O pessoal é muito assíduo mesmo, gosta muito. Hoje, a gente tá fazendo aqui uma entrevista no dia de Santa Bárbara. Tá a maior festa lá. Eu sei que hoje tem muita gente da Igreja Católica que tá lá participando dessa festa e, mais tarde, vai tá comentando, com certeza. A gente, que é músico, até espera que quando tiver essas festas assim, os músicos também possam ser aproveitados, ser chamados, e ir lá trabalhar também. Mas é bem gratificante a igreja no nosso bairro, bem gratificante mesmo.

Manifestações culturais e esportivas
Aqui é carente, nessa área. Eu sinto que é carente nessa parte de teatro. A musicalidade até que é mais pra cima um pouco. Mas, essa outra parte, eu acho que fica a desejar, porque as pessoas parecem que não tomam uma direção, assim, em termos de sociedade, associação de bairro, né?Temos duas associação, mas, porém, é como se não existisse, porque não existe um presidente, não temos um vereador. É um bairro populoso Sete de Abril, essa área aqui deveria já ter elegido um vereador. Nós não temos. Não temos um chefe de equipe, assim, de uma sede comunitária, não tem. Então, fica um pouco difícil. E quando merece, né? Que é um bairro populoso, tem uma capacidade de moradores que tem condições de eleger, sim, um vereador.

Era pra ter uma sede do Conselho, com uma equipe formada, pra formar eventos, trazer o teatro, trazer as pessoas que trabalham com a arte pra dentro, pra mostrar o jovem, o pessoal que tá começando hoje, que existe esse lado artístico, né? E que eu sei que, lá na frente, pra aqueles que estudam mesmo, correm atrás e conseguem, tem retorno sim. Sete de Abril tá precisando disso aí. Rádio comunitária tem no bairro, mas é uma coisa muito pouco divulgada e deveria ter um jornal, pra que pudesse ser divulgado mais as coisas que existe. Pra gente poder buscar recurso também com as pessoas de competência. Temos pessoas querendo formar uma equipe, um grupo. Tão querendo formar uma equipe pra agora se eleger pra ir pra sede, porque tudo tem que começar por uma associação. Eu acredito que seja por aí. E, na rua, no meio da rua, as coisas não vão andar muito bem.

Por sinal, no final de semana, teve um campeonato de time aqui na Mangueira, aqui no Largo, mas não tem uma direção. Teve uma faixa com o apoio de uma vereadora, mas o pessoal não tem uma localidade onde se reunir, aonde se formar um grupo, se fortalecer. Ainda não tem, mas tá precisando disso, de um grupo, pra que vá pra uma sede da associação, tenha um diretor, um vice, uma direção, pra que esses eventos venham a acontecer. Mas tem muita gente com essa vontade. Até pra mim mesmo, que sou músico, eles vêm querer formar comigo um grupo, porque sabem que eu tenho equipamento de som, que eu tenho teclado. Quando eles vêem meu show, eles vão, eles vêem, e querem se organizar comigo. Mas só que, não é do dia pra noite, que a gente vai formar uma equipe assim… Precisa se reunir, tomar conta de uma frente, de uma associação de bairro, pra poder dar um andamento nessas coisas.

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Convívio
É uma vizinhança antiga, boa, mas um pouco também conturbada, porque, eu, como músico também, já fui colocado assim, como aquela pessoa que é legal no bairro pra uns, mas pra outros… O pessoal se incomoda por causa do som. A gente coloca o som na rua, a gente precisa trabalhar, e o pessoal aí denuncia à Sucom. Já chegou a Sucom com a polícia, pra desarmar meu som todo, ter que parar o trabalho. Mas vizinho, pessoas vizinhas minha mesmo, e eu já fiquei sabendo. Fala comigo, anda comigo, tudo, mas já ligou contra mim por causa da poluição sonora. A gente sabe que tem, é uma faca de dois gumes, tem os dois lados: tanto a gente agrada a uns e a outros, não.

Como pai, eu me sinto muito bem. Quando eu estou tocando, que meu filho vai olhar, meus sobrinhos, o pessoal que é muito coligado com a família vai. E, depois do show, fica comentando: “Pô, seu pai, rapaz”. “Ah, você é pai de tal pessoa, né? Pô, você é pai de Bruno, eu vi seu CD, tem lá em casa, ele levou. Pô, você é o ‘Talismã do Arrocha’”. Isso é muito gratificante pra gente, dá uma força pra que a gente continue, pra que a gente não pare, porque é bonito, é gostoso; muito bom! Pra mim como pai. Eu até espero que meu filho também em breve, ele venha também levar essa cultura mais longe do que o pai hoje tá fazendo, porque é muito gratificante.

Infra-estrutura
Policiamento, aqui no bairro, a segurança em si, tá bem melhor do que antes. Eu acho que tem dado mais conta hoje do que antigamente. A violência tem diminuído. A gente vê, quando a gente tá trabalhando, tocando, que já temos segurança formada no bairro. Mesmo sem ser policiais, mas aquele pessoal que trabalha com apito, apitando tarde da noite, fazendo uma ronda no bairro pra cima e pra baixo. Então, eu acredito que a segurança tá muito boa mesmo. Falta um pouco do governo mais presente, com a área de pavimentação, urbanização. Sete de Abril mesmo precisa de uma área de lazer, não tem um palco estrutural assim, numa área. Eu acho que todo bairro deveria ter, um final de linha que tivesse uma área diretamente pra show, uma sede, uma área ampla pra que pudesse os músicos no final de semana vir, mostrar seu trabalho. Tá faltando isso, mas eu acho que breve eles devem tá olhando por esse lado, porque a música vem crescendo muito. Mas dá pra ir levando, dá pra acreditar que tenha uma melhora.

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Recado
A gente sempre tem alguma coisa pra dizer. O recado é que as autoridades enxerguem mais o lado do músico amador, as pessoas que são humildes, que sabem que não têm condições mesmo de estar hoje numa gravadora pra mostrar um trabalho, que eles pudessem abrir a porta. Porque as grandes casas de show, a gente vê muito dizer por aí que eles se ajuntou muito com o governo, com esse órgão que é a Sucom, pra destruir os barzinhos dos bairros, pra que os músicos amadores não se apresentem no bairros, pra que o pessoal, o público vá se direcionar pras casas de shows grandes. Então, eles perseguem os pequenos, que somos nós, a gente não pode trabalhar no bairro, pra que o público se dirija às grandes casas. Então, eu acho que o governo deveria olhar esse lado aí, olhar mais também pelos músicos pequenos e nos bairros abrir mais espaço pra que os músicos pequenos pudessem trabalhar. Essa seria uma boa mensagem pra que eles acordassem. Tem muita gente de bem trabalhando com a música, mas não tá podendo andar, porque o próprio governo talvez esteja atrapalhando.

Entrevista realizada em 04 de dezembro de 2007.

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