José Celestino de Campos

Posted on 17/06/2008

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A minha adolescência foi dura. Eu sou filho do interior, Mata de São João, mas de fazenda. Sou de 14 de julho de 1932. Meu pai era pobre, carpinteiro, lutava muito. A gente trabalhava na roça, com gado. Quando foi em 1950, eu vim morar em Itapuã, com 17 anos. Fui trabalhar na fazenda de Braz Bartilotti. Aí aprendi a dirigir trator e fui tratorista quatro anos. Depois a gente plantou toda a fazenda de coqueiro. Aí ele vendeu o trator e eu fui trabalhar em construção. Aprendi a profissão de pedreiro.

Aqui no bairro de Sete de Abril eu sou amigo de todo mundo. Todo mundo me conhece, me respeita e eu respeito todo mundo. A minha ligação aqui é essa: quando precisa de mim, eu dou uma ajuda. Sete de Abril é uma maravilha! De acordo com muitos bairros que eu vejo por aí, eu estou no céu. Saí do purgatório e vim para o céu. Naquele tempo que a gente veio para aqui, era difícil, mas agora a gente tem transporte para tudo quanto é lugar. Então eu não posso achar ruim.

Eu não tinha casa. Morava de aluguel lá na Caixa D’água. Então meu padrinho disse: “Zé, tem uma inscrição em Sete de Abril para umas casas”. Eu disse: “Pronto, pode pegar uma inscrição pra mim”. Aí me inscrevi e fui escolhido para a quadra G. Então, eu acho que para mim e para todos que vieram para Sete de Abril, foi uma maravilha. Porque a maioria desse pessoal morava de aluguel. Eu não tenho um amigo aqui que me disse: “Eu tinha uma casa em tal lugar”. Morava de aluguel e às vezes num buraco lá pela cidade, IAPI, Pau Miúdo, Cidade Nova. Eu morava ali na Caixa D’Água, atrás da Escola Parque, mas não era minha casa.

Em 1968, quando eu vim para aqui, já fui trabalhar no Conselho de Moradores, para trabalhar em prol do bairro. Esse colégio foi pedido nosso, o de lá de baixo, Eraldo Tinoco, posto médico… Tudo a gente tomou chá de cadeira pedindo. Eu estava no meio. Fui presidente do Conselho. A gente tem que ter um pouco de disponibilidade e vontade. Para a gente trabalhar com os poderes públicos, a gente tem que ter paciência para pedir. A gente pedia, forçava, fazia igual a viúva, até que conseguia. Quando a gente veio morar aqui, de lá da entrada do cajueiro para o fim de linha era tudo chão. E a gente conseguiu o asfalto.

COMEÇO
Antigamente Sete de Abril era uma fazenda e pertencia à Prefeitura. Era um lugar onde se prendia os animais que ficavam à toa na rua. Mas quando teve eles acharam que deveriam construir umas casas aqui, o núcleo habitacional para o pessoal dos Alagados. Tinham pena de ver o pessoal lá dependurado, em cima da água. Mas quando eles trouxeram um responsável de lá, que chegou aqui e viu as casas, aí disseram: “Não vem ninguém para aqui”. Então, naquele tempo, a Cohab – não era Urbis – a Cohab não ia perder o dinheiro. Isso foi em 65. Eu cheguei aqui em 1967, mas as casas foram vendidas em 1965. Passou dois anos para entregar as casas. Consertando as ruas, essas coisas. Aí eles lançaram a inscrição. Sete de Abril foi o primeiro Projeto Habitacional da Urbis e as casas eram divididas em quadras sinalizadas pelas letras do alfabeto. Tinha até a quadra H. Eu moro na G, mas agora é Rua Jesus Bento de Sousa. Partes aqui pertenciam a Lauro de Freitas, depois é que foi desmembrado de Lauro de Freitas para Salvador. Até 1970, mais ou menos.

ÁGUA
A água da caixa d’água vinha daqui de baixo, de um riacho. Eles fizeram uma barragem nesse riacho e dessa barragem a bomba jogava a água para a caixa d’água. A água era tratada. A Seção de Água (antes não era Embasa), fez uma seção de tratamento. Tratava a água e daí jogava para essa caixa d’água e distribuía para as casas. Mas só tinha água para a gente, só era do núcleo.

ACESSO
A Estrada Velha tinha pouco movimento, porque também tinha poucas pessoas. Agora que está movimentada, porque tem os conjuntos. Agora tem até engarrafamento. O transporte não tem comparação. Antes, Ave Maria! Quando eu vim morar aqui, só tinha dois ônibus e, em um bairro onde tinham 500 casas, cinco pessoas cada casa, dá 2.500 pessoas. Para vir só em dois ônibus era difícil. Agora é que está ótimo! Se você quer chegar na cidade 8h, sai daqui 7h. Naquele tempo, se a gente quisesse chegar 8h na cidade, tinha que sair 5h30, porque era o tempo que ficava esperando o transporte. Hoje, primeiramente, nós queríamos uma linha de transporte para o Campo Grande, indo pelo Terminal da França, como tem em Colina Azul. É uma linha que nós precisamos ter. Já temos Barra, Pituba, Comércio, Barroquinha via Liberdade – que é Baixa de Sapateiros – e Lapa, que é o que mais tem.

SEGURANÇA
Naquele tempo que a gente veio morar aqui, quase não precisava de segurança. Cada qual segurava a sua casa. Inclusive ali perto tinha a Colônia da Pedra Preta, mas eles não incomodava a gente. A gente dormia até com a porta aberta. Depois da valorização do bairro, vai crescendo, aí é que precisa de segurança.

FESTAS
De 07 a 16 de julho comemora-se a festa de Nossa Senhora do Carmo. É a padroeira do bairro. O dia dela é 16 de julho. No novenário, a gente convida as comunidades – são nove – e cada noite é de uma comunidade, que anima. A nossa comunidade fica com a procissão e o dia da festa. E damos convite para o bairro. A gente faz um programa e coloca ali: tal quadra com tal rua, para fazer parte da noite. A primeira festa aqui foi em 1969, quando foi construída a capelinha. A gente trouxe Nossa Senhora do Carmo, mas ela ficava aqui, no São Geraldo. A gente fazia tudo aqui, celebrava missa, rezava as nossas orações, terço, ofício. Então a gente construiu a capelinha.

VIZINHANÇA
Os moradores eram policiais, bombeiros, funcionários públicos. Naquele tempo tinha 2.500 pessoas, agora tem 27.000. Em minha rua, dos meus vizinhos, não tenho o que dizer. Só alguns que ligam a radiola para a rua toda escutar. Agora eu não sei nas outras ruas…

SAÚDE
Quando a gente inaugurou esse posto, ele era bom. Ele é de 68. Aqui é Posto Médico Sete de Abril, da prefeitura. Quando começou, era 24h. Uns três anos depois tirou o 24h e ficou só o dia. Mas era bom, tinha médico clínico, três, quatro médicos, ginecologista, pediatra. Agora, de uns dois anos pra cá, só é um médico clínico. Eu sou idoso, mas não procuro esse posto daí porque eu não quero morrer lá na porta.

ARTISTAS
Virgínia Rodrigues morou aqui em Sete de Abril. O irmão dela mora na Quadra B. Sempre vejo ela ali, na casa do irmão. Ela cantava nas igrejas. Aqui na Paróquia, ela tinha um grupo de meninas. Ensaiavam aqui na nossa igreja. Não sei onde foi que Caetano Veloso ouviu, viu que ela dava para cantora e convidou ela.

Entrevistado: José Celestino de Campos, nascido em 1932, morador de Sete de Abril, é pedreiro aposentado pela Odebrecht, presidente do Apostolado, do Terço dos Homens e da Pastoral Familiar da igreja do bairro

Entrevista realizada em novembro de 2007

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