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	<title>SOTEROPOLITANOS</title>
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		<title>SOTEROPOLITANOS</title>
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		<title>Ana Lucia Venira Costa</title>
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		<pubDate>Sun, 03 Aug 2008 01:23:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Soteropolitanos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ana Lucia Venira]]></category>
		<category><![CDATA[Estrada Velha do Aeroporto]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/10/uma-luz1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-146" title="uma-luz1" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/10/uma-luz1.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Inclusão digital, capacitação de jovens e adultos, atividades esportivas e artísticas, apoio a jovens usuários de drogas, a meninos de rua, em situação de rua e suas famílias, reivindicações comunitárias. Em Jaguaripe, nas salinhas do Comorja, instituição que ajudou a criar, Ana Lúcia Venira cuida de tudo isso e um pouco mais. A dona-de-casa discreta e caseira ficou para trás. Hoje, Ana é uma líder comunitária e educadora para quem nada é impossível. <span id="more-111"></span></p>
<p style="text-align:justify;">O meu nome é Ana Lúcia Venira de Jesus Costa, nasci no dia 21 do 10 de 1966. Eu sou doméstica, do lar, sou pensionista. Recebo uma pensão do meu pai, que morreu e deixou uma pensão para mim e para minha mãe. Sou solteira e convivo com meu marido há 22 anos, companheiro, Josué Firmo dos Santos. Moro aqui em Jaguaripe II. Eu sou um das fundadoras daqui, desde 1989, praticamente há 19 anos.</p>
<p style="text-align:justify;">Jaguaripe II é uma comunidade dentro de Nova Brasília. Nós somos desabrigados da chuva de 1989. Foi na época que aconteceu o acidente com o Hotel Mustang e muitas famílias foram soterradas, inclusive onde nós morávamos. Eu morava na Calçada e assisti de perto aquela tragédia, foi um desespero, coisa de horror. Foi uma coisa assim tão grave que, eu mesma, que estava grávida de nove meses, eu pensei que a minha casa ia desabar em cima de mim, de ter visto a casa do vizinho soterrar uma família, a outra também. Do lado da minha casa era plano, era só eu correr mais à frente que eu estava livre do perigo, mas o susto e o pavor foi tão grande, que eu achei que não, que aquilo também ia acontecer comigo naquele momento e eu me joguei de um barranco muito alto, acho que mais de cinco metros. Eu me joguei literalmente. Eu vejo aquilo ali como se estivesse passando um filme na minha cabeça. Gritando, gritando, pedindo socorro e Josué, no dia, não estava em casa. Eu estava sozinha em casa e aí, simplesmente, eu só lembro assim, eu descendo, parecendo que era uma bola, rolando ribanceira abaixo e me deparei com uma cerca de arame farpado. Sei que fui eu, porque quem estava gritando, pedindo socorro, disseram que fui eu. E eu passei por essa cerca de arame farpado e, acredite, que eu até hoje não consigo me lembrar disso. Só sei que eu passei mesmo, de barriga e tudo, com a menina. E, graças a Deus, ela não teve nenhum arranhão. Eu tive um arranhão, estou com uma cicatriz aqui no joelho desse incidente. Às vezes a gente tem aquela fé em Deus muito grande. Ali foi Deus mesmo quem me amparou com ela, minha filha tinha nove meses nesse dia.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando aconteceu essa tragédia, tinha uma associação lá na Calçada e essa associação nos colocou no espaço dela. Mas ficava pendurado entre o barranco, Calçada e Liberdade. E, nesse espaço, estávamos nós lá e vários moradores daquela região que ficaram desabrigados. A gente tinha aquela certeza de que tinha que sair dali também, porque ali também estava condenado, na época, pelo setor social do município. E a gente teve que travar uma briga com eles para sair desse local e ser remanejados. Nós queríamos ganhar nossa casa, a gente queria sair daquele local, daquele desespero. Eu fiz uma promessa pra mim mesma, de que eu nunca iria morar mais em ribanceira nenhuma, devido ao que eu passei e também por ter visto os meus vizinhos perderem a vida e ver crianças ficarem órfãs.</p>
<p><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/10/anna-20.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-148" title="anna-20" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/10/anna-20.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">E, aí, o que aconteceu? Nesse meio tempo, Josué, que é meu companheiro, junto com alguns moradores, inclusive eu também, para forçar a Prefeitura a nos dar nossas casas, a gente fechou uma pista num local lá, na Liberdade, e eles vieram com um caminhão para pegar nosso material dizendo que iam nos colocar em outro abrigo. E a gente só aceitava sair daquele local diretamente para nossa casa. Aí veio a negociação e saiu essas casas aqui. Na época, foram 704 casas aqui em Jaguaripe II. Mas, a nossa ânsia de receber nossa casa, de botar a nossa cabeça no nosso teto, foi tão grande, a ansiedade era tão grande, que a gente não pensou no que íamos ter que enfrentar dali em diante.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>GATO POR LEBRE<br />
</strong>Quando nós chegamos aqui, ganhamos a chave da nossa casa, foi uma felicidade enorme, mas na primeira noite que a gente já ia dormir na casa, já sentimos que era como se tivesse ganhado gato por lebre. Viemos a nos deparar com outro problema enorme. Aí começou a nossa história aqui de luta. Não tínhamos água, não tínhamos luz, não tínhamos rede de esgoto. Nós tínhamos um banheiro que estava ali só a fachada. As nossas necessidades todas, fosse para tomar banho, ir para o vaso, tinha que ser tudo jogado na ribanceira. Nós também contribuímos nessa época bastante para a destruição da mata virgem que nós tínhamos aqui.  E aí acordamos no outro dia tendo certeza que a gente tinha que fazer alguma coisa. E isso foi incrível porque eu, uma pessoa pacata, de interior, de Senhor do Bonfim, nunca estive em movimento nenhum. Muito pelo contrário, o único movimento de que a gente participava era da escola, fazer trabalho de colégio. E aqui eu acordei um dia e tive que parar para ver que ou a gente fazia realmente alguma coisa ou a gente ia ficar naquela dali o tempo todo. E, para minha surpresa, descobri em meu companheiro também uma pessoa voltada para a área da reivindicação política. Eu era a-política, nunca gostei de estar em briga, nunca gostei de estar em movimento, era uma pessoa que sempre ficava em casa fechada. E um belo dia, em época de campanha, aqui ferveu de políticos dizendo que se ia fazer alguma coisa e acabou não fazendo nada e quem fez realmente fomos nós, os moradores.</p>
<p style="text-align:justify;">Formamos uma comissão de moradores de Jaguaripe II e começamos. Nossa primeira reivindicação foi uma caminhada, uma passeata. Nós saímos daqui de Jaguaripe, andamos até o Centro Administrativo, na Embasa, para reivindicar a nossa água encanada e de lá para cá a gente vem brigando. Tudo que temos em Jaguaripe II foi uma busca nossa, dos moradores. Tanto é que a gente tem um orgulho que a gente diz assim, tanto nós aqui na instituição como morador:<br />
- Não tem nenhum político que se orgulhe de dizer que eu levei isso, eu fiz isso em Jaguaripe II.</p>
<p style="text-align:justify;">Acredito que essa seja única comunidade que a gente possa dizer isso.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>NÃO PEDI AO SANTO<br />
</strong>Isso aconteceu em 1989. A luta foi grande, foi muito tempo. Isso aqui nasceu em 1989 e a nossa reivindicação foi no mesmo ano. Quando nós chegamos aqui foi entre o mês de julho e o mês de outubro e ainda estava chegando gente. Em 1996, nós recebemos o comunicado de que iríamos receber a infra-estrutura, por causa de nossa briga, e, em 1998, nós já estávamos com nossa escola, que é a Escola Municipal Padre Ugo Meregali. Até o nome da escola foi uma vitória da comunidade, pois já vinha um nome pronto. Na época, queriam botar o nome da mulher do prefeito, de mãe do prefeito, e nós tínhamos um padre aqui na comunidade, padre Ugo&#8230; Eu costumo dizer que era nosso segundo pai, que foi a única pessoa que tinha uma luta na área social. Ele ajudava desde a doação de cesta básica, material de construção. Na época, ele formou um grupo de padres estrangeiro e doou para algumas famílias alguns blocos para se fazer uma fossa, que não tinha condições de se fazer o banheiro, para não se jogar na ribanceira. E foram feitas essas fossas. Então decidimos assim: nada mais justo do que fazer uma homenagem a ele que ainda estava vivo e que era uma pessoa que tinha aquele carinho muito grande por essa comunidade. A justiça começou aí. Em um consenso, a gente fez uma reunião com a comunidade e para nossa surpresa nossa &#8211; a gente falando sobre as nossas dificuldades aqui na comunidade -, o governo do estado também decretou a construção de um centro comunitário. Por isso que a escola e o centro ficam em um prédio só. E o colégio nós denominamos Escola Municipal Padre Ugo Meregali.</p>
<p style="text-align:justify;">Então, a gente jogou fora qualquer possibilidade de fazer homenagem a qualquer político, pois a gente sabe que isso era questão política também. Com a força, com a união, a gente vence. Acredito que se fosse só a instituição brigando, se fosse só um ou dois moradores brigando, pode ser que a gente não tivesse conseguido. Devido às dificuldades que nós passamos aqui, nós começamos a perceber que a união morador-instituição-escola fazia a força. Isso a gente aprendeu certo, dentro de muita mágoa, muita ferida. Porque o sofrimento que nós temos aqui em Jaguaripe II, a gente começa a dizer que é diferente de qualquer outra comunidade, porque as histórias que nós temos aqui em relação à violência deixaram muitas marcas profundas.</p>
<p style="text-align:justify;">Então, das duas uma, ou a gente realmente sentava e unia forças ou&#8230; E não era com a comunidade assim 100%, porque em todas as comunidades sempre tem aqueles grupos que se unem, que defendem seus políticos, porque eles trabalham para isso, para receber realmente dinheiro do político. Esse tipo de proposta nós também recebíamos. E a gente passou a dizer não. Você aprender a dizer não na hora certa para a pessoa certa é o ponto-chave. Geralmente você diz “não” e o momento não seria aquele. Você diz um “sim” e também estava no momento errado. Mas a gente aprendeu que, na política, dependendo das propostas que vêm para a comunidade, nós aprendemos a hora certa de dizer não. E a gente faz, a gente luta, a gente vai buscar. Eu tenho uma coisa comigo, estou falando agora por mim: eu não faço nenhum documento aqui para nome de político. Se eu quero falar algum problema em relação a escola, saúde, transporte, educação, eu, como pessoa mesmo, faço diretamente para o prefeito, para o governador. Eles, se quiserem, que mandem para o político dele, porque quando o político bater aqui na porta eu vou estar dizendo que pedi a Deus e não pedi ao santo.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>RUAS E TRANSPORTE<br />
</strong>Na época, como eu falei, foram construídas 704 casas, foram 1.500 pessoas. Aqui, hoje, o número triplicou. Eu não saberia te dizer assim o número exato. Aqui são divididos por caminhos: caminho A, B e C. Nós temos aqui do caminho 1 ao caminho 47, tem caminho aqui que vai até o número 36. É complicado aqui as ruas. Então, assim, do caminho 1 ao caminho 18 é Rua A. Do caminho 19 ao caminho 31, é B. E do 32 ao 47 é Rua C.</p>
<p style="text-align:justify;">As sobras de terreno? Como foi isso? Vamos supor, você recebeu aqui a sua casa e recebeu esse terreno e geralmente aquela casa vinha com três, quatro famílias. Então, aqueles terrenos eram construídos. No fundo daquela casa, era interessante, porque ali eles construíam outros embriões e já passava a ter não só uma família, já passava a ter morar três, quatro pessoas no mesmo local. Começamos a perceber também a deficiência dos embriões, a metragem era 7 x 14. Então era muito pequeno para o número de pessoas que moravam, enquanto tinham pessoas no nosso grupo que eram solteiras e recebiam o mesmo embrião também. E, às vezes, nem estavam no nosso meio. Às vezes tem essas falhas. Na questão do cadastramento de prefeituras sempre houve falhas. Teve pessoas aqui que, na época para receber as casas, uma pessoa só recebeu seis casas, porque botou em nome dos filhos, primos, enfim, gato, cachorro, papagaio.</p>
<p style="text-align:justify;">Transporte, estamos precisando muito. Nós somos guarnecidos pelo transporte de Nova Brasília, porque, aqui dentro&#8230; Uma certa vez nós solicitamos à Secretaria de Transportes que  os transportes entrassem aqui também. Mas devido aqui ter muita criança&#8230; Isso já foi uma coisa que assusta qualquer um. O pessoal do IBGE já fez estudo aqui dentro e ficou horrorizado. O governador, em dezembro de 2005, veio entregar os títulos de posse, que era para ter entregue na época e entregou em 2005 agora, e ele também saiu daqui com um comentário assim, que, segundo ele, ficou bestificado ao ver o tanto de criança que tem em Jaguaripe II. Da população que ia chegar junto dele foi minoria, foram as crianças mesmo que vieram para abraçar.</p>
<p style="text-align:justify;">A questão do transporte aqui nessa área ainda está um pouco a desejar realmente, porque ele atende Nova Brasília, Estrada Velha em geral. Aqui em Nova Brasília temos Estação Pirajá, Pituba, Barra, Narandiba, Comércio e Lapa, que passa aqui de Cajazeiras, que já vem também fazendo turno, é o Lapa / Barra Avenida, que passa aqui pela Estrada Velha e só. A gente precisa também de mais oferta de transporte. Os moradores daqui fazem o seguinte, para andar rápido &#8211; porque quando você pega um ônibus aqui para o Comércio parece que está indo para Feira de Santana, é horrível -, a gente sai daqui e anda até o Trobogy, que é na Rua Mocambo, para pegar lá, porque é bem mais rápido.</p>
<p style="text-align:justify;">Então, hoje, o número de transporte nosso aqui aumentou pelo Trobogy. A oferta deles vem pela Paralela, entra no Trobogy, é rapidinho.  2h30 que a gente tira, vindo para casa. Quando a gente vem para casa pelo Pau da Lima, entra em Sete de Abril, Jardim Esperança, para vir para Nova Brasília. Imagine o transtorno que é? É horrível, é horrível mesmo. Eu não gosto de estar na rua para ir para a Estação Pirajá, que também é outra briga. Vindo pela Estação Pirajá é a mesma coisa: entra em Sete de Abril, Jardim Esperança, todos os ônibus entram. Então, se você está na Paralela, no Comércio, em qualquer bairro que for, a melhor opção é pegar o Trobogy, anda um pouquinho, mas é bem mais rápido. O que você tiraria em 1h30, tira em 1h ou menos.</p>
<p style="text-align:justify;">Aqui nós temos acesso para Cajazeiras. Mussurunga, nós temos vindo aqui, sentido Aeroporto. Descendo para cá, todos os bairros que estão ao redor daqui da Estrada Velha: Sete de Abril, Jardim Esperança, Marotinho. Só não temos acesso à Canabrava. Aí segue Bosque Real, Pau da Lima, São Marcos. Entrando aqui no Trobogy: Trobogy, Paralela.</p>
<p><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/10/cdc-em-oficinas.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-151" title="cdc-em-oficinas" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/10/cdc-em-oficinas.jpg?w=400&#038;h=320" alt="" width="400" height="320" /></a></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>CONTAS ENGAVETADAS<br />
</strong>A água, aqui, nós temos uma pequena pendência. A nossa história de água aqui foi engraçada. Quando nós viemos para aqui, o governo do Estado construiu uns embriões e, por não termos água encanada, ele construiu para a gente uns tanques na rua. As tampas eram umas tábuas. E aí vinha o carro-pipa e despejava essa água nesses tanques. Então ali, naquela hora, quem tinha seus filhos &#8211; quatro, cinco &#8211; cada um vinha com dois baldes. Enquanto deixava um na fila, o outro ia buscar, e essa fila ia crescendo. E foi interessante essa luta nossa, porque a gente começou a ver as nossas dificuldades. Então, o que aconteceu? Uma certa vez a gente descobriu que essa água que a gente bebia, tomava banho e cozinhava vinha de um riacho ali da Paralela. O governo pagava por aquilo ali. Uma água daquelas, suja, contaminada e traziam. Para você ver o descaso que era aqui.</p>
<p style="text-align:justify;">Em uma dessas nossas reivindicações, certa vez um cidadão, morador daqui que trabalhava para político, trouxe um político aqui e pegou todos os recibos – depois que a Embasa colocou água – pegou todos os recibos dos moradores dizendo que ia quitar aquela dívida toda com o pessoal. E, por incrível que pareça, deram fim nesses recibos de água dos moradores. Aí todo mundo também se recusou a pagar a água, todo mundo mesmo, literalmente, foi decisão em massa da comunidade. Devido terem se recusado a pagar essa água, muita gente ficou inadimplente com a Embasa. Hoje que a Embasa está negociando com esses devedores da água. E a gente está entrando em um processo de solicitação para que eles esqueçam essa dívida. Inúmeros moradores já foram lá, já negociaram a dívida com a Embasa, mas outros ainda continuam inadimplentes. Ou seja, nós temos nossa água encanada, a Embasa vem, manda os recibos, mas a maioria dos recibos estão engavetados. A dívida está crescendo. Não falta água não. Falta água como falta em qualquer comunidade, mas não por causa dessa dívida.</p>
<p style="text-align:justify;">Hoje a Coelba está descobrindo alguns gatos. São gatos que alguns moradores não deixam de fazer, mas hoje ela está implantando uma instalação e estão detectando. E esses moradores que estão fazendo esse tipo de coisa inadequada estão indo negociar as multas que estão recebendo. Mas energia também não temos problema não.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>NASCENTE CONTAMINADA<br />
</strong>A vegetação daqui de Jaguaripe, da Estrada Velha, quando nós chegamos aqui, em 1989, era ótima, todo tipo de verde. Era um local muito invejável. Hoje, pelo contrário, está precisando de apoio. A vegetação está bastante decadente, desmatamento. Os pássaros que tínhamos aqui desapareceram, árvores centenárias sumiram. Eu sou do interior de Senhor do Bonfim, e lá a gente convivia com alguns tipos de animais, principalmente raposa, e para nossa surpresa, quando chegamos aqui, encontrávamos também esse bicho na região, na curva da morte, aqui perto na Estrada Velha do Aeroporto. Hoje esses animais todos desapareceram daqui da área, não só pela questão do desmatamento, mas devido também à construção desses condomínios que estão aí acabando com nossa área verde.</p>
<p style="text-align:justify;">O desmatamento acontece por causa da moradia. Um dos nossos problemas é esse, a questão da moradia e outro é a questão do respeito mesmo com a própria natureza. Porque de vez em quando nós estamos vendo o mato pegando fogo, alguém vai e coloca fogo no mato e a gente não acredita muito que seja acidentalmente. O mato pegando fogo é provocado mesmo, porque começa assim sem pé nem cabeça. E fora o Governo do Estado, a Conder, Caixa Econômica, Governo Federal, que estão construindo esses conjuntos habitacionais desordenadamente. Alphaville também desmatou uma imensidão de áreas verdes. Ou seja, a minha visão em relação ao meio ambiente é que daqui a cinco anos a gente só vai ver uma árvore se a gente plantar hoje para dizer assim:<br />
- Essa aqui vai se salvar.</p>
<p style="text-align:justify;">O Rio Jaguaripe está contaminado. Nós temos essa nascente de água doce que está contamina. Quando faltava água aqui na região, todos os moradores daqui dessa área vinham buscar água nessa fonte. Hoje a fonte está contaminada. Já mandamos vários e vários recados aos poderes públicos para virem ver o que poderiam fazer, Ibama, Grupo Gambá, grupos ambientalistas, para virem nos ajudar nesta luta, mas até hoje nada. Tanto que um dia desses Josué desceu e encontrou um cavalo morto dentro da água dessa nascente e isso nos choca bastante. Infelizmente ele estava sem a máquina na hora para tirar umas fotos pra mandar. A minha idéia é está pegando isso aí e jogar na internet. Nós temos uma proposta, vou ver com o pessoal da Colieva, que é o grupo de associações que nós criamos aqui na instituição, para que a gente possa está fazendo um trabalho aqui sobre o meio ambiente em relação a isso aí. Porque é inadmissível, né? Vê uma nascente dessa se perdendo e a gente sabe que no futuro a gente pode precisar dela.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/08/campo.jpg"><img class="size-full wp-image-116 aligncenter" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/08/campo.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a></strong><br />
Eu não posso te dizer que nós temos uma praça. Temos um espaço ali em baixo que a gente denomina praça, porque tem dois bancos e uma mesa, onde o pessoal senta de vez em quando para jogar conversa fora, mas isso também está se acabando devido à questão das drogas, da violência.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>NÃO É COISA BOBA<br />
</strong>Passamos por aqui uma situação de violência desde o início da nossa vinda para cá e nunca melhorou. A verdade é essa. Temos um pouco de respeito pelos traficantes daqui de dentro, que vieram todos juntos conosco, porque Jaguaripe é uma salada mista, vieram moradores de todos os pontos da cidade, do Subúrbio, da Liberdade, Calçada, Fazenda Grande e da própria Nova Brasília. E junto com esses moradores vieram essas pessoas que foram os maiores contribuintes para que essa comunidade ficasse como ficou, uma comunidade bastante revoltada com o histórico da violência. A gente costuma dizer que Jaguaripe II é uma bomba relógio, você pensa que está tudo calmo, tudo direitinho, pensar que não: explode. E não explode assim uma coisa pequena não. É chacina, é assassinato, são mortes por facada, por tiro, por bobagem. Briga entre traficantes. A gente vê mais a questão da violência aqui por causa das drogas, da prostituição, briga de ponto de fumo. Temos esse problema, mas geralmente não é o traficante daqui que traz esse problema. São essas brigas com pessoas que vêm de fora. Geralmente tem um traficante de outra comunidade que chega aqui, vê uma comunidade pacata e aí quer brigar com os daqui e aí começa aquele inferno.  Tem um lado aqui que é o que mais sofre que é o Setor A, é o lado que mais sofre com o histórico de violência. A gente vê a situação de meninos, meninas, que quando não estão envolvidos, estão assistindo de perto o uso de drogas, o tráfico. A questão não é estar defendendo não, mas os daqui da comunidade, nós não temos nada contra eles. A não ser realmente a questão do uso de drogas e prostituição, que a gente sabe que isso é crime mesmo. Mas dizer que trazem esses problemas assim para a gente, é complicado. Os de fora que geralmente vêm, mas trazem porque acham guarita de quem está aqui dentro, né?</p>
<p style="text-align:justify;">Eu costumo dar um exemplo assim. Foi implantado aqui em 2005 o infocentro. O governo do estado implantou esse infocentro e são 10 computadores. Nós temos aqui essa instituição e, até hoje, graças a Deus, as portas, como você vê, não têm essa segurança toda. Esses dias mesmo o infocentro está dormindo só com um cadeado, que o outro nós tivemos que quebrar e a gente está sem dinheiro para comprar outro cadeado. Então, o que eu quero dizer com isso? Ao longo desse tempo todo nunca tivemos problema com assalto, com roubo, com falta de respeito de traficante de entrar aqui. Até para as pessoas entrarem aqui, entram com camisa, entram com calça, ou seja, respeitam o trabalho da instituição. Eu não poderia dizer isso com segurança se tivesse outras pessoas de fora, como aconteceu recentemente, se eu não me engano, numa instituição no Subúrbio, que além de levarem tudo da creche, ainda tocaram fogo na instituição. Esse tipo de problema nunca tivemos.</p>
<p style="text-align:justify;">Temos aqui também a escola, que é totalmente equipada, tem seus computadores, materiais. De dia não temos vigilante, à noite temos um vigilante na escola, mas chegou uma época da gente não ter segurança nenhuma. Segurança que a gente tinha era a própria entidade que estava por aqui o tempo todo. Nunca assaltaram essa escola, nenhum professor nunca saiu daqui dessa forma. Agora, dia 16 de junho de 2007, aconteceu a última chacina, onde morreram cinco e quatro ficaram feridos. E desses que morreram alguns eram pais de famílias. Foram três carros que vieram cheios, tinham mais de 15 pessoas nesses grupos, entraram aqui, fecharam a entrada, ficou um grupo aqui na entrada e outro desceu. Desceram normal, mas chegaram lá em baixo no lago se encapuzaram e já subiram atirando. Se fosse criança, se fosse adulto, a lan house estava cheia com os meninos ali. Uma das pessoas que trabalhava na lan house foi um dos mortos, pai de família. Então não é coisa boba geralmente o que acontece aqui.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>QUADRILHA PODEROSA</strong><br />
Logo quando chegamos aqui, a nossa história de violência era tão grande que, se você morasse aqui e fosse comprar &#8211; aconteceu isso comigo &#8211; e fosse numa loja fazer uma compra, estava tudo bem. Contra-cheque? Você apresentava. Chegava na hora de você dar o endereço, você dizia:<br />
- Sou de Jaguaripe II.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí tudo era recolhido, aquela documentação, você passava a ser chamada em uma sala achando que você poderia estar ali aplicando um golpe ou poderia ser um dos traficantes ou com dinheiro roubado.</p>
<p style="text-align:justify;">Porque se montou aqui uma quadrilha, uma das maiores quadrilhas de assaltantes à banco. Tinha gente que fazia parte do Comando Vermelho do Rio e aqui em Jaguaripe foi uma fonte certa para eles. Aqui eles se implantaram, fizeram aqui seu quartel-general, que era aqui na Avenida Peixe. Essa quadrilha era bastante poderosa, bastante mesmo aqui dentro de Salvador. Assaltavam os bancos e vinham para aqui. Aqui dentro eles davam presentes para as crianças, para pessoas pobres, teve morador aqui que recebeu geladeira, fogão, crianças receberam bolsas, doces, carros de mão cheios de alimentos eles entregavam nas casas. Eles não queriam movimento de polícia aqui dentro para não acabar com a festa deles. E aí, nesse meio tempo, esses três que eram os cabeças, quando eles armaram o quartel-general, tinha até toque de recolher. Essas histórias que passam no Rio é aquilo ali que a gente vivia. Hoje, a gente sabe o que aquelas pessoas vivem. Esse foi um dos motivos para a gente meter a cabeça na área social. E se você tinha uma filha de 13, 14 anos que tinha seios, que tinha um corpo legalzinho, eles vinham e batiam na porta. Não vinham estuprar na hora, mas vinham dar um ultimato:<br />
- Olha, gostei da tua filha e se você tiver aqui até à meia noite de hoje ela vai ser nossa.</p>
<p style="text-align:justify;">E ali tinha até a meia noite pra pegar tudo o que tinha e ir embora dali, pois se eles voltassem, como geralmente voltavam, eles pegavam a menina. Graças a Deus, nessa época, as minhas filhas ainda eram crianças: 6 anos era o que a mais velha tinha, a outra tinha 5, a outra 2 anos e eu me dava feliz por aquilo, por que assisti meus vizinhos, as outras pessoas passar por aquele tipo de situação. Às vezes a gente estava em casa dormindo e a gente estava ouvindo o grito dessas meninas, porque eles estupravam mesmo. Eles tiravam de dentro de casa, levavam para o mato, para o local deles lá. A maternidade aqui de uma hora para outra passou a ser a partir dos 11 anos. Tinha corpo para enfrentar a luta e pronto, acabou.</p>
<p style="text-align:justify;">Teve pai de família que só saiu da casa mesmo com a roupa do corpo. Esse tinha para onde ir, muitos foram para o interior, abandonou a casa ou então só deixou o recado com o vizinho:<br />
- Tire minhas coisas de dentro de casa e procure comprador para minha casa &#8211; para não dizer onde estava<br />
- Eu entro em contato com vocês.</p>
<p style="text-align:justify;">Aconteceram inúmeros desses aqui. Muitos tiveram que botar as coisas dentro do carro e ir embora. A proposta era: você saía e deixava a casa para eles. Uma vez a CONDER entrou aqui e encontrou inúmeras casas vazias, abandonadas.</p>
<p>Então a prostituição aqui era tão aberta, descaradamente, que tinha aqui prostitutas profissionais que pegavam os meninos R$ 1, R$ 2, para se prostituir, para tirar a virgindade dos meninos, para colocar o menino na vida sexual. As mães que tinham suas filhas cansaram de ver as filhas se perdendo nessa questão de prostituição.</p>
<p>E cadê o poder público? Não tinha. Não estava aqui para ver nosso sofrimento, que começou em 1989 e durou até 1997. Agora, graças a Deus, a gente costuma dizer que não saímos do inferno, porque eu acredito que todas as comunidades têm essa situação, mas hoje eu comparo Jaguaripe assim como uma das melhores comunidades daqui da Estrada Velha.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>UMA VIDA MELHOR<br />
</strong>Mas foi muita luta para a gente conseguir isso. E esse pessoal só foi desarticulando porque começamos a nos unir em grupos e começamos a falar, não dizendo que tinha traficante, mas passando a dizer que a gente precisava mudar, que a gente estava precisando de ajuda. E um belo dia, em 1996, mais ou menos nesse horário, lá pelas 3h da tarde, a gente estava sentado na frente da televisão e passou assim: “Edição extraordinária”. Nós na televisão na parte policial. E aquilo ali para a gente que morava do outro lado já ficamos horrorizados, porque aparece helicópteros, Jaguaripe todo cercado e fechado.</p>
<p style="text-align:justify;">Armandinho tinha ido fazer naquele dia um assalto em um banco e já estava uma articulação da polícia e da inteligência &#8211; parece que tinha até polícia federal no meio, para você ter uma idéia do tamanho que era essa quadrilha -, que ficaram naquele matagal. Ali tem uma chácara abandonada, e nessa chácara tinha um paiol e desse paiol tem toda a visão de Jaguaripe. E os policiais ficaram ali, mais de 30 policiais, a pão e água durante 30 dias. Então eles filmaram tudo e a todos nós. E então dali dessa filmagem deu para eles verem os esconderijos, onde eles matavam as pessoas, enterravam, obrigavam alguns moradores a enterrar aquele corpo. Enfim, tudo isso que se passou conosco eles conseguiram detectar. E, para nossa surpresa, a gente aparece na televisão às 3h da tarde e meia noite começa o tiroteio. Armandinho conseguiu escapar aqui do cerco, mas foi pego depois em outro local, não sei bem aonde. Dizem na época que ele era protegido por um pai-de-santo que morreu junto com ele. E aí cercaram lá na ponte, na curva da morte, que é denominada área da desova. Esses traficantes daqui, dizem que também tinham um grupo de extermínio, e aí tinha essa área de desova onde eram encontrados vários corpos. Aqui era o seguinte, todo final de semana tinha uma morte aqui, abatiam dois, três. E aí, simplesmente, nesse dia&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Engraçado que a comunidade começou a ser invadida por um monte de mendigos, começou mendigo batendo na porta da gente pedindo comida, roupa rasgada, pedindo onde morar e ficavam porque aqui. Eram policiais disfarçados, que estavam ali olhando e observando tudo. Engraçado que dois deles conseguiram ficar. Se instalaram mesmo ali na rua e eles mesmos começaram a dar comida para aqueles mendigos. Queriam tirar eles dali e aí o próprio chefão dizia:<br />
- Não, deixa aí, rapaz, os caras não tem para onde ir nem nada.</p>
<p style="text-align:justify;">E esse com a câmera conseguiu filmar tudo, até moradores que apoiavam também eles conseguiram pegar. Mas foi assim, um trabalho tão legal, tão legal, que naquele dia nos sentimos como se tivessem lavado nossa alma desses anos todos, os estupros, a violência, tudo. Foram 30 dias de filmagem. E aí depois que fecharam tudo, os helicópteros, nós começamos a ouvir os tiros. Das 15h à meia-noite, essa área toda cercada, ninguém subia, ninguém descia. Os policiais aqui dessa área se envolveram também nessa questão e aí foi que conseguiram matar um monte e estão presos até hoje, não conseguiram sair da Detenção por conta da gravidade dos crimes que cometeram aqui dentro. E nós conseguimos a partir daí lutar e dizer que a gente queria uma outra vida melhor. E aí veio uma bronca mais ainda. Quando aconteceu isso, no outro dia saiu daqui dois caminhões baús cheios de moradores que eles conseguiram filmar, que recebiam algum tipo de doação deles lá ou apoiavam, os aviõezinhos, que avisavam que estava entrando gente diferente.</p>
<p style="text-align:justify;">A nossa primeira reunião foi na igreja católica Dona Raquel e lá o Direitos Humanos veio, pessoas bem vestidas. E a gente estava pensando que eles iam discutir os direitos humanos nossos, a nossa integridade, o que a gente tinha, a nossa dignidade. Para nossa surpresa, me lembro bem que um dos representantes, um tal de Paulo Assunção ou Anunciação, que era vereador na época,  ele veio defender os direitos humanos dos vagabundos. Disse que foi uma prisão ilícita. E aquilo ali nos revoltou. E a partir daquele momento nós dissemos para a gente mesmo que a gente não ia apoiar político, que a instituição daqui, o conselho ia tomar a posição de não apoiar político nenhum, que a gente ia tomar a posição de que o morador que quisesse seguir o nosso lema estaria conosco, aquele que não, que fosse fazer seu trabalho.</p>
<p style="text-align:justify;">Felizmente nós conseguimos um grupo de moradores forte, que foram pais de famílias também que passaram essa situação por verem suas filhas sendo judiadas, seus filhos envolvidos com drogas e o outro disse que não, que ia trabalhar para o bolso dele e para isso eles tinham que está se vendendo para político. E hoje nós temos esse grupo aqui dentro ainda. Temos ainda aqueles que fazem qualquer coisa, passam por cima de qualquer um para defender o político deles se o político der mais de R$250. Infelizmente nós temos um número de políticos corruptos aqui dentro que faz esse tipo de situação e deixa a comunidade também em certas situações que não tem como a gente correr atrás.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/08/veralux.jpg"><img class="size-full wp-image-117 aligncenter" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/08/veralux.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p><strong>EDUCAÇÃO<br />
</strong>A integridade da pessoa, do ser humano, ela vem de si, da educação. Eu, graças a Deus, tive uma educação, eu fui criada num regime rígido. Porque, minha mãe, ela é alcoólatra, ela tem problemas de bebida, mas uma coisa que ela conseguiu passar para mim e para os meus irmãos: foi a educação de pedir “por favor”, “muito obrigado”, “com licença” e respeitar os mais velhos. Tanto era que quando tinha alguém na sala conversando, a gente não passava pelo meio. A gente esperava terminar de conversar. Se nós queríamos alguma coisa, para pedir a ela, a gente não pedia na frente dos estranhos. Hoje, a gente vê uma educação bastante sucateada. Eu tiro assim como exemplo um projeto que nós temos aqui, que é o projeto social. A gente atende 100 crianças e 25 do Agente Jovem, de 15 a 17 anos, e aqui, não todas, mas a maioria delas, nós temos que ser mãe, pai, amiga, professora, assistente social, falar sobre sexo, menstruação, falar sobre os problemas daquela criança. Porque a maioria, eu já ouvi muito disso, de algumas mães dizerem que estão doidas para que a filha se perca com qualquer um para ela tirar aquela responsabilidade dela. Isso a gente ouve e me dói, porque a minha filha mais velha tem 19 anos e a mais nova tem 16 anos. E a educação que eu tive, que a minha mãe me deu, mesmo com esse problema, alcoólatra, eu passo para as minhas filhas também.</p>
<p style="text-align:justify;">Nós temos aqui a Escola Municipal Padre Ugo Meregali, a Escola Municipal Adauto Pereira de Sousa e a Irmã Elisa Maria, que é até a quarta série. E a única escola que nós temos aqui que é da quinta, dizendo que é até o terceiro ano, é a Vera Lux. A gente mal confia nesse estudo, de jeito nenhum, devido ao governo não estar dando de jeito nenhum a atenção que deveria estar dando à educação.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu continuo acreditando muito na educação. A educação para mim é a chave de tudo. Primeiro você precisa aprender para você saber o que é que vai fazer. Então, tem muita gente que não, que quer fazer para aprender depois e isso está errado, é um dos nossos maiores problemas. Nós temos aqui dentro hoje pessoas que são usuários de drogas, mas eles sabem quais os limites deles, não porque a gente vai lá ensinar, mas porque a gente procura se impor também. A primeira impressão é aquela que fica. Geralmente você está ali fazendo um trabalho, você passa por um sofrimento, das duas uma: ou você aprende com aquele sofrimento ou você se entrega ao sofrimento. E o que nós fizemos aqui em Jaguaripe foi não nos entregar ao sofrimento, foi tentar dar a volta por cima. Tudo isso que eu estou te falando está registrado nesses jornais. A gente tem assim uma vontade e um sonho de resgatar essa história que estou te falando aqui agora, da quadrilha de Armandinho, do que foi Jaguaripe, mas, infelizmente, já tentei até pela Internet, para ver se conseguia nos jornais e não achei nada. Era Armandinho, Pinho e Cafezinho. Desde o ano passado que eu não ouço falar de assalto no comércio aqui, o que temos mais aqui é a questão das drogas.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>INFOCENTRO</strong><br />
Hoje eu tenho um problema aqui que nos preocupa bastante. Eu estava até discutindo com umas mães e a gente às vezes fica se perguntando: porque nós temos Conselhos Tutelares, nós temos Juizado de Menores, temos o Ministério Público, temos tantos órgãos públicos aí a fora que dizem que fazem trabalho social&#8230; A Estrada Velha do Aeroporto é extensa, de Vila Verde a Pau da Lima nós temos 16 a 25 comunidades, bairros. Tem bairros, como Nova Brasília, que comporta várias comunidades, ao todo somos cinco, só em Nova Brasília. Se você me perguntar quando nós vimos aqui uma batida, uma entrada de Conselho Tutelar em final de semana ou Juizado de Menor para pegar com a boca na botija meninos e meninas de 8 anos em diante com copo de cerveja na mão na rua e em qualquer boteco: nunca! Então, hoje, a gente costuma dizer: área social, lazer para essa criançada nas comunidades não existe. Você pergunta a qualquer uma criança por aqui o que é que vocês têm de lazer na comunidade?<br />
- Hoje nós temos o infocentro.</p>
<p><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/08/infocentro1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-137" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/08/infocentro1.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Nós temos hoje aqui um infocentro que foi montado pelo governo do Estado e esse infocentro tem Internet, que é o atrativo dessa meninada. O mais engraçado é que nós temos lá dentro do infocentro uma placa enorme da Telemar e do governo do estado. A internet quem botou fui eu, quem paga a internet sou eu, do meu bolso. Eu gasto de energia R$160. Eu tive que abrir mão da linha de telefone da minha casa, ou bem pagava a de lá ou a daqui. Estou com uma conta que eu não paguei, acho que está com um acúmulo de R$ 300 a R$ 400 de linha telefônica. Tirei a linha, deixei acumulada, não vou ter condições de pagar, para depois negociar com a Telemar. Só estou mesmo com o meu celular. E botei essa linha de telefone aqui. Pedi a Telemar para fazer uma vistoria aqui para saber se tem condições de Internet aqui. A proposta do governo do Estado, quando implantou o infocentro, foi assim: implantava o infocentro e receberíamos Internet gratuita durante um ano, depois ia buscar parceiros. O infocentro foi implantado em 2005 e eu tenho dois meses com essa linha de telefone com Internet. Porque o governo do Estado não botou, implantou, a Telemar não veio, não sabe nem se tem infocentro aqui em Jaguaripe. São 11 computadores e mais esse aqui. Ao todo são 12. Eu peguei uma perna pra mim aqui, é onde eu faço o meu trabalho, e o infocentro atende à comunidade.</p>
<p style="text-align:justify;">Às vezes me chateia, me revolta, dá vontade de chutar o balde, mas eu faço isso tudo por amor a minha família. Eu sou pensionista, recebo uma pensão de R$ 600 por mês e essa pensão eu divido com isso aqui, o trabalho que a gente faz, e com a minha casa. E não dá de jeito nenhum, porque a gente passa por várias privações, passo várias necessidades. Eu não deixo faltar é o pão de cada dia. Eu trabalho na instituição, mas o desemprego é recorde, então não tem nem como hoje em dia está com três filhas empregadas. As três estudam aqui em uma escola sucateada, a Escola Vera Lux. Os professores são profissionais, o diretor é gente boa, mas eu vou ser franca com você, se eu tivesse um poder aquisitivo financeiro melhor, elas não estavam nessa escola, porque eu sei que elas vão terminar o terceiro ano e é como se elas estivessem fazendo a quinta série. Porque o primeiro,  segundo e o terceiro ano aí não tem todas as matérias. Das 11 matérias que elas deveriam ter, ela está fazendo quatro ou cinco matérias. Que chance a minha filha teria hoje de fazer uma faculdade? Nenhuma.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/08/infocentro2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-138" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/08/infocentro2.jpg?w=344&#038;h=258" alt="" width="344" height="258" /></a><br />
<strong><br />
SE CAPACITARAM<br />
</strong>Eu moro aqui em Jaguaripe II e não vendo a minha casa para comprar uma outra casa , porque eu sei que ia chegar em outra comunidade e ia ter que começar tudo de novo. A gente não sabe aonde ia parar e todas as suas comunidades têm os seus problemas. Então optamos pelo seguinte: tentar fazer um pouco aonde nós moramos, contribuir um pouco com aquela história do beija flor, que a floresta estava pegando fogo&#8230; Me sinto um pouquinho assim. Estou fazendo só um pouquinho e gostaria que muitas outras pessoas que estão aí fora, não só morador, mas principalmente morador, acho que se cada um de nós fizéssemos um pouquinho nós estávamos muito mais avançados. Eu disse que Jaguaripe hoje é considerada uma das melhores comunidades daqui da Estrada Velha e é.</p>
<p style="text-align:justify;">Você encontra Jaguaripe II hoje 100% urbanizada, a rua principal, os caminhos. Nós não temos problemas com energia, água, não temos problemas em relação a moradia. Se o morador estiver com problema de moradia, vai na Conder, se tiver uma área sobrando, vai lá, negocia e consegue aquele pedacinho de chão. Nosso maior problema aqui é o setor social, para a família, para a criança, até para esses usuários de drogas, que também são gente. Eu conheço inúmeros adolescentes que foram praticamente induzidos a usar drogas. São meninos que a gente viu crescendo. Josa costuma dizer que nós temos aqui um cadastro de mais de 1.400 jovens que nós já atendemos. Se você perguntar quantos a gente acha que teve baixa, que saiu daqui, os usuários? A gente acha que não chega a 10 crianças. É um número pequeno para uma instituição que realmente abraçou a causa dessa área social. Nós tivemos aqui a perca de um menor que era o Nei. Esse não quis conversa com nenhum trabalho social. Foi baleado lá na praça. É um dos casos que a gente sempre cita. Era aluno nosso, mas abandonou o trabalho e saiu. Mas a maioria não, a maioria que passou por aqui foram multiplicadores. Alguns ficaram como monitores do infocentro, da escolinha de futebol, ajudando aqui na instituição, cresceram, se capacitaram.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PARCERIAS<br />
</strong>A Faculdade Jorge Amado foi uma das nossas parceiras nisso. Nós conseguimos criar o Nac (Núcleo de Ações Comunitárias) na Faculdade Jorge Amado. Nós fomos lá atrás de um auditório, na época, e não tinha. Nós queríamos pegar todas as atividades que nós temos para lançar na mídia e pedir ajuda para a mídia, para o governo do Estado e empresas privadas. Dizer:<br />
- Nós estamos aqui, temos esse trabalho social, temos aqui um grupo de dança, grupo de teatro.</p>
<p style="text-align:justify;">E, na faculdade, quando nós chegamos lá, em 2002, encontrei o professor Pedro, Luciano Simões e o professor Antônio Vasconcelos. Três figuras. E eu me lembro que, na época, eu pedi para eles um computador, que a gente não tinha. Eu precisava de um ofício, era R$ 2, R$1,50, para digitar. Para imprimir, então, era um sufoco. Eu gastava em média R$3 num documento, era uma luta. Aí eu fiz esse pedido e eles disseram que iam ver o que podiam fazer. Aí eles vieram certa vez aqui, fizeram uma visita, fizeram uma vistoria, visitaram a comunidade, conversaram com várias pessoas e de repente eles me trouxeram aqui Maria, que é uma das representantes da Cipó, que é uma ONG muito grande e importante. Nessa conversa ela disse assim:<br />
- Vocês vão ganhar uma rede do Programa Cibersolidário.</p>
<p style="text-align:justify;">E aí eu ganhei 10 computadores. Desses computadores nós fizemos uma oficina na salinha que fizemos aqui em cima. O Sesi entrou como parceiro nosso também, deu R$5.000 para reforma do espaço e de lá para cá a gente vem buscando nos capacitar, para ver se a gente pode estar melhorando um pouquinho mais.</p>
<p><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/10/cdc-em-oficinas2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-150" title="cdc-em-oficinas2" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/10/cdc-em-oficinas2.jpg?w=400&#038;h=320" alt="" width="400" height="320" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Na época que a Cipó nos doou os computadores foram 10, só que eram aqueles computadores antigos. Então eles começaram a virar sucata, muitos quebravam e para fazer a manutenção a gente não tinha como fazer. Então, tinha um desses professores, que era o professor Vasconcelos, que vinha para aqui às vezes no final de semana e trazia toda a família. Vendo o trabalho e que a necessidade nossa era tão grande, ele abraçou mesmo, com toda a vontade. Ficava o dia todo aqui consertando os computadores, para segunda-feira a gente funcionar os computadores na comunidade. E chegou o tempo que eles foram pifando, o professor foi embora também. Guardamos todos eles ali como sucata, porque o nosso intuito no futuro é colocar uma oficina de manutenção de micro, dependemos de um profissional que venha querer dar essa aula também.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas, devido a esse trabalho, a Cipó passou as informações do Comorja para a Secti e, aí, num belo dia, eles vieram para implantar o programa, para o Cibersolidário se transformar no infocentro. Hoje ela faz a manutenção. Se a gente ligar:<br />
- Está com um computador quebrado.</p>
<p style="text-align:justify;">Eles vêem. Mas mouse, teclado, qualquer outro tipo de coisa é por minha conta, isso tudo sem verba, sem ajuda. Mas uma coisa é certa, a gente não pode parar esse trabalho, devido a esse problema que nós temos aqui. O problema é difícil. O ano passado mesmo aconteceu aqui um episódio com três meninas, colegas de vocês da faculdade. Elas vieram aqui, entraram e foram assaltadas aqui dentro. Elas entraram em desespero. Lógico, segundo elas, botaram revolver na cabeça delas. Quando chegou ao nosso conhecimento, elas já tinham pegado ônibus, já tinham corrido. Se apavoraram e foram embora. Meia hora depois eles bateram em nossa porta e vieram entregar a máquina delas. Pediram mil e uma desculpas:<br />
- Dona Ana, perdoe, a gente não sabia que as meninas era daqui, era da faculdade que faz o trabalho aqui e os meninos se precipitou, pensou que era pessoas de fora, foi lá e assaltou as meninas. Mas a gente veio devolver.</p>
<p style="text-align:justify;">E para a gente foi uma satisfação enorme ligar para a professora e mandar ela vir buscar aquela máquina.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando a Conder veio, construiu a escola e construiu aqui o centro, a gente pensou:<br />
- Como vamos fazer agora?</p>
<p style="text-align:justify;">Precisava fazer alguma coisa. A gente começou a fazer uma reunião com as mães na igreja e, por incrível que pareça, na primeira reunião vieram sete pessoas. Para quem queria fazer um trabalho&#8230; E a gente ansioso. E dessas sete pessoas que vieram, foi uma decepção, a gente conversou com as sete. Mas não desanimamos não. Na outra reunião veio uma. Aí eu disse:<br />
- Sabe o que vamos fazer?</p>
<p style="text-align:justify;">Dei uma de doida, mandei abrir o salão. Era só um salão que a gente recebeu. Aí saí catando os meninos na rua.<br />
- Está fazendo o que?<br />
- Brincando.<br />
- Vamos ali, vamos brincar ali dentro.</p>
<p style="text-align:justify;">Saí pegando essa meninada toda e botamos aqui. Chegamos aqui, botamos o cadeado, fechamos os meninos aqui dentro do salão. Então sentou eu e Josa, parecendo dois malucos e começamos a conversar com as crianças, perguntando o que eles queriam fazer. Daí foram aparecendo as idéias e começamos a botar no papel. Veio futebol.<br />
- Quem quer futebol passa para aqui.</p>
<p style="text-align:justify;">Veio dança, capoeira. Nossa primeira atividade aqui foi o futebol e a capoeira. E aí começamos a formar as atividades. Peguei um cartaz e coloquei assim: “Declare amor ao seu bairro, seja um voluntário”. Da comunidade aqui só apareceu uma pessoa, mas o cartaz ficou em frente à pista e aí o pessoal começou a me ligar, querendo ser voluntário, como poderia ajudar, como é que poderia fazer. Padre Ugo uma vez me disse assim:<br />
- Gente, o povo é bom de dar, nós é que somos ruins de pedir.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu ouvi aquilo e guardei aquilo pra mim e comecei a trabalhar em cima disso, comecei a explorar a questão do voluntariado e a gente foi desenvolvendo atividades nesse sentido. Hoje, estamos aqui contando a nossa história.</p>
<p><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/08/futebol.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-130" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/08/futebol.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>NOME DO BAIRRO</strong><br />
O bairro já tinha esse nome quando nós chegamos aqui. Segundo a Conder, é por causa do rio. Hoje tem uma polêmica que é assim, se é Rio Jaguaripe ou Rio Jaguaribe. A própria igreja conhece a comunidade como Jaguaribe, com B de bola e a gente conhece oficialmente com P de pato.  Nos registros da Conder, na documentação que nós recebemos, está como Jaguaripe. Uma certa vez nós procuramos saber porque o nome e é por causa do Rio Jaguaripe. Tanto é que, lá em frente, já é Fazenda Grande III, Cajazeira XVIII e tem o Jaguaripe. E aqui é o Jaguaripe II.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>RELIGIÃO</strong><br />
As religiões cristãs são as mais fortes: a Assembléia, a Adventista. Nós temos uma igreja católica aqui e se você for olhar ela está fechada. Se você vier de manhã ela está fechada. Se você vem sábado de manhã, ela está aberta para a missa. E nós somos a favor do seguinte: principalmente as igrejas, era para estarem abertae ali o tempo todo, integral, nem que fosse só para entrar cachorro. Porque hoje nós precisaríamos desse apoio espiritual que nós não temos. Então, hoje, se a gente pedir o apoio de qualquer outra igreja cristã ela está aberta. Eu tenho um salão do lado da minha casa e eu emprestei para a Igreja Adventista, onde eles estão fazendo um trabalho durante 30 dias. A gente está fazendo uma parceria legal, geralmente eles têm alguns cursos, não só para os participantes da igreja, mas estão ajudando também a comunidade.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>MÚSICA<br />
</strong>Nós temos aqui algumas descobertas. Tínhamos aqui Michele, ela cantava forró, canta muito bem, mas casou, estava estudando e nunca mais ouvimos falar de Michele. Nós temos aqui uma banda de percussão, que é daqui da própria instituição também, que são os meninos que fazem esse trabalho, se apresentam. Nós temos aqui no Jardim Real a banda Swing Real, que é uma banda também de percussão. Quem nos ajuda também quando a gente precisa para algum evento é o Neném Calabar com o Bicho da Cana, que é bem legal o trabalho dele. Enfim, não temos uma fartura, mas temos pessoas que realmente consideramos como profissionais, como Uns Camaradas, que saíram daqui de Nova Brasília.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FESTAS<br />
</strong>Com esses tempos aí agora, quanto menos festa melhor. Se a gente puder substituir essa festa por uma missa ou um culto, acredite, estamos fazendo isso. No início, fazíamos eventos. O nosso primeiro evento aqui foi o maior sucesso, foram três dias de festa, com bandas, a comunidade aceitou, não tivemos nenhum tipo de confusão, mas hoje estamos receosos. A gente não sabe como pode estar repercutindo isso. Enquanto tiver essas brigas de tráfico de drogas a gente prefere ficar sem festa nenhuma.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>CURSOS</strong><br />
Temos uma parceria legal com o SESC, através da Colieva, que é a comissão de lideranças. O SESC nos ajudou a trazer alguns cursos e um desses foi a culinária. Nós ficamos com o curso “Faça e Venda”. Nova Brasília, culinária, no Vila Mar ficou macramê&#8230; Nós pegamos os cursos e cada comunidade fez um curso diferente. A pessoa poderia fazer um aqui e de tarde outro também. Os certificados foram entregues ontem para nós. A festa de encerramento dos cursos foi dia 09 e 10 de novembro, no Parque de Pituaçu. Em 2008, vamos estar trabalhando novamente.</p>
<p style="text-align:justify;">O “Aprenda, faça e venda” é o seguinte: Centro de Formação Artesanal &#8211; Núcleo Jaguaripe II. Foram cursos de artesanato de tecido, madeira, do que você imaginar, principalmente em pedrarias. Outros como os de culinária e serigrafia ficaram em outras comunidades. Esses cursos foram ministrados por esse centro de formação que é apoiado pelo SESC. O SESC que dá o professor, a gente matricula os alunos e o material é todo por conta dos alunos, é a única coisa que eles pedem. Mas o SESC, junto com os professores, conseguiram descobrir, por incrível que pareça, vários profissionais hoje que se qualificaram e estão aptos, sim, a colocar até uma loja dentro de qualquer um desses shoppings grã finos. Esse trabalho é uma maravilha.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>DANÇA</strong><br />
Nós temos um pequeno grupo de meninas. É um grupo pequeno, mas forte. É a dança afro. Elas se apresentam, tocam também com as Filhas de Gandhi nos carnavais. E o que elas aprenderam lá, elas trazem para cá. Além da dança, também elas fazem teatro. Um grupo de 10 meninas.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>ARTES PLÁSTICAS<br />
</strong>Não temos. Tem uns meninos que sabem desenhar e fazem cada desenho lindo, mas nada oficial. Uma das minhas filhas mesmo é assim. A gente está aqui conversando, quando vai ver, ela já fez o desenho da pessoa. E fica lindo&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>LENDAS<br />
</strong>Logo quando nós chegamos aqui, logo no início mesmo, quando nós viemos, veio junto conosco também um morador, o nome dele era Jacó, não sei se ele já morreu, onde é que ele está. E aí tinha essa história aqui em cima dele, que alguns moradores que diz que ele virava lobisomem. A nossa casa era um pouquinho distante assim, mas, graças a Deus, eu nunca vi. Se virava ou não, não vou confirmar isso nunca. É uma lenda, mas alguns moradores afirmavam. Eu, como não acredito muito em história de lobisomen e bicho papão&#8230; Risos.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>MANIFESTAÇÕES<br />
</strong>Geralmente a gente faz assim: a gente se reúne, o grupo, o morador e algumas lideranças para fazer manifestações aqui. Agora mesmo, recentemente, não tão recentemente, mas foi esse ano, em 17 de março, nós fizemos uma manifestação muito grande que foi sobre o meio ambiente. E foi uma caminhada ousada. Nós saímos dali da entrada de Jardim Esperança até a entrada do Coqueiro Grande, foi no encontro ali de Alphaville. A nossa pretensão era chegar ali e fazer um protesto contra a Fundação Alphaville, devido ao desmatamento e ao conjunto que eles vão fazer ali. Então nós temos algumas fotos dessa caminhada também. A própria faculdade veio e fez a cobertura através da professora Márcia. E ficou uma coisa muito legal, porque as escolas aderiram ao programa, as lideranças aderiram a essa caminhada, e nós começamos a sair das 9h e em 1h mais ou menos já estávamos na rua protestando. Infelizmente, quem não deu assim nenhuma importância a nossa caminhada foram os órgãos públicos, que até hoje não nos deram resposta nenhuma em relação a esse manifesto que nós fizemos.</p>
<p style="text-align:justify;">E uma recentemente agora, no dia 10 desse mês, que foi uma outra caminhada também em prol do não à violência. Foi uma caminhada ousada que nós mandamos um ofício para alguns órgãos públicos dizendo que a gente ia fechar ali o Iguatemi e a gente saiu do Iguatemi até o Parque da Cidade. E aí veio a resposta da SET dizendo que não ia liberar, o Corpo de Bombeiros não ia poder liberar e nós ousadamente fomos para lá. Provavelmente ia ter algum tipo de confusão, mas aí nós conseguimos e saímos do Iguatemi até o Parque da Cidade andando.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>ESPORTE<br />
</strong>Acontecem, sim, campeonatos de futebol. Mas devido a gente não ter apoio da parte do governo, esses campeonatos são ministrados por Josué aqui do Conselho e alguns moradores e professores que dão aula de futebol aqui para a meninada. Acontece o seguinte, a gente faz um cadastramento de todas as escolinhas da redondeza e as de fora que também queiram participar. Ali é feito um cronograma, datas de disputa dos campeonatos. Nós temos um critério também para participarem do projeto, que é o colégio, tem que estar estudando. Isso para a gente é legal, porque, quando chega assim logo no início do ano, eu só retorno a matricular os meninos nos projetos devido a mãe me trazer o comprovante de matrícula. Só que, além do comprovante de matrícula, a gente acompanha no colégio. Como é que isso é feito? A gente faz uma ficha, onde a gente coloca mais de 20 requisitos, vários questionários aonde a professora é obrigada a responder. E uma dessas perguntas é saber quanto por cento de freqüência, o problema que aquela criança tem, tanto de visão, como de audição, como é que ele está na aula, atenção. E, aí, quando essas fichas vêm, que senta para analisar, a gente vai cobrar até do colégio, porque se for problema de visão você sabe que as escolas hoje em dia têm essas parcerias que podem estar trazendo oculistas. Posto de saúde, a gente procura ver aquela informação, quem está precisando, por que geralmente a mãe não faz isso. A gente faz tudo isso aí. E quando a gente vê aquele menino que tem 100% de freqüência, ele é incluído. Aquele que não tem 100% de freqüência a gente até usa um pouco de chantagem. A gente negocia com ele. Ele está com vontade de participar, ele não fica de fora, mas a gente negocia a volta para a escola e mais atenção nos estudos.</p>
<p style="text-align:justify;">Nós temos locais que os meninos jogam, mas dizer que é um campo de futebol, não. Nós temos esse campo de futebol aqui em frente ao Comorja e o nosso sonho é transformar esse campo em um mini estádio, porque ele é todo íngreme. Nós já conseguimos uma escada e lá em baixo nós temos quatro degraus, que é onde o pessoal fica sentado. Mas às vezes eu fico olhando assim e vejo ali um mini Barradão, porque dá para se fazer várias arquibancadas, dá para se colocar iluminação, dá para aumentar mais o espaço, porque ele é muito pequeno.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/08/boxe-pedro-cavalcanti.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-142" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/08/boxe-pedro-cavalcanti.jpg?w=300&#038;h=225" alt="" width="300" height="225" /></a><br />
<strong><br />
ATLETAS<br />
</strong>Nós temos dois orgulhos. O Pedro Lima, que foi o Pan agora, para gente, mais uma vitória. Mas o nosso primeiro vitorioso nas Olimpíadas foi Xande, Alexandre Matos, esse foi para as Olimpíadas de Atenas. Ele é boxer também e ele foi. Infelizmente ele não foi campeão, mas só de a gente ter&#8230; Ele é daqui de Jaguaripe. Pedro Lima é de Nova Brasília e Xande é daqui de Jaguaripe. Só de a gente ter esses dois pesos, disputando medalhas e, para a gente, foi uma vitória pelo seguinte: porque através deles nós conseguimos também mostrar para essa criançada que o esporte vale a pena, o que não vale a pena é está nas ruas, deixar os estudos e está entrando para as drogas. Então esse foi um lema que eles dois colocaram na vida deles. Porque, para a gente, realmente é um orgulho que nós temos hoje. Não é em toda comunidade que tem um Pedro Lima da vida e tem um Xande, né?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>COISAS ANTIGAS</strong><br />
Aqui eu vejo muito dominó, baralho. Até a meninada está no projeto, às vezes eu tenho que comprar dominó para eles jogarem. Principalmente idosos. Nós somos aqui conhecidos como uma comunidade legal, que tem estrutura, dessa área social e o resgate daquelas coisas antigas, que as pessoas sentavam na porta, os vizinhos, não para falar da vida dos outros, mas às vezes a gente sentava ali para está contando alguma história.</p>
<p style="text-align:justify;">A gente não vê mais crianças brincando de roda, aquelas músicas: “Eu morava na areia, sereia”. Era uma das brincadeiras antigas. Hoje, a gente não vê mais isso, pelo contrário, acabou-se. As brincadeiras infantis que tem hoje, que eu vejo muito, é um tal de “o no um”. Um dia desses mesmo eu estava olhando e à medida que elas vão pulando, pulando e vão dizendo, se a gente prestar atenção, não entende nada, não tem sentido nenhum. E os meninos ainda é aquela questão da arraia, que é perigoso. Agora, tem fase. Tem uma fase que você entra aqui e encontra os meninos brincando muito de empinar a arraia. Tem outras que você entra e encontra as meninas no “o no um”. Já tem os que estão no gude ali o tempo todo e a bola. Essa daí, para eles, não deixa de moda nunca.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>ACADEMIA</strong><br />
Hoje, não temos academia. Hoje, no Comorja, nós estamos nos preocupando muito com essa questão de atividades esportivas. Nós temos um desses meninos que trabalham com Pedro e com Xande, temos aqui um grupo, que é Davi, professor de boxe, e eles dão aula aqui. Então a gente faz o seguinte, eles geralmente alugam o espaço para dar aula de boxe e cobram dos alunos. Quando eles vêm procurar a instituição, a gente negocia. Eles ficam com os alunos deles cobrando, mas a gente cede o espaço, ele não precisa pagar o aluguel. Em compensação, ele tem que dar as aulas para aqueles meninos do projeto que se interessam, qualquer pessoa da comunidade que venha e não tenha condições de pagar entra aqui pela instituição.</p>
<p style="text-align:justify;">O boxe está bombando mesmo. É só à noite que tem, nos outros horários todos os espaços estão ocupados. E o caratê, que é um rapaz formidável aqui de Jardim Esperança. Temos também a capoeira e o caratê a gente vinha olhando. É uma atividade que aqui nessa área é muito esquecida, mas, hoje, esse professor conseguiu resgatar essa atividade. E fora também que, para uma pessoa pagar uma aula dessas, não é todo mundo que tem condições. Então hoje nós estamos com 25 alunos na aula de caratê e cada vez mais chegando alunos. É tanto que hoje ele está querendo formar um dos alunos e está trazendo um dos alunos dele da própria academia para estar ajudando.</p>
<p style="text-align:justify;">À noite nós temos todos os espaços, além daqui do Comorja. A gente trabalha mais com essas atividades à noite. Os ensaios, as danças, teatro e todas essas atividades que fazem zoada e que incomodam são a partir das 18h. Aqui e a gente usa a escola. A escola tem seis salas disponíveis para a gente e o salão lá em baixo também. Então, a gente tem aqui espaços disponíveis à noite para fazer todos os tipos de atividades, para dar aula, para cantar, pular. Hoje, de noite, nós temos aqui no colégio o boxe, a capoeira e o caratê. As meninas, aqui, ensaiam o teatro, a dança e a música. Tem a minha menina também que dá aula de flauta. Então, a gente tem essas atividades que geralmente ficam até às 7h30 da noite. Às vezes eu saio, as atividades continuam e os meninos fecham tudo e nos entregam a chave em casa.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/08/comorja.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-131" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/08/comorja.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a></strong><br />
Posto de saúde é bem complexo, complicado. Nós temos um problema grave no posto de saúde. Em 2003, eu estou aqui e aí recebemos um telefonema da coordenação do distrito de saúde de Pau da Lima. Elas estavam vindo aqui para discutir com as lideranças a possível implantação de um posto novo ou que a gente indicasse um local para alugar. O posto de saúde, desde que nós viemos para aqui e Jaguaripe foi implantada, ficou um posto pequeno. Foi um posto de 60 anos atrás praticamente, para atender Nova Brasília, que ainda era um cubículo, não era esse bairro que é hoje. Quando veio mais uma comunidade para cá, com mais de 1.500 pessoas, claro que isso tinha que mudar. Aí, começamos a travar uma negociação juntos, prefeitura, secretaria de saúde, comunidade e entidades. A gente foi atrás de vários espaços para alugar, enquanto o prefeito divulgou no Diário Oficial que em 2004 estaria sendo entregue para a comunidade o posto de saúde. Achamos uma negociação perfeita, o posto ficaria no centro, todas as comunidades iriam andar o mesmo tanto, mas, para nossa surpresa, um belo dia, simplesmente, ela nos liga revoltadíssima dizendo que a nossa negociação tinha ido por água abaixo, porque o prefeito e a secretária de saúde na época tinham dado carta branca para a compra de um outro espaço aqui em Nova Brasília, em cima da pista, na curva e pouco maior do que o que nós temos.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>POSTO DE SAÚDE<br />
</strong>Aquilo ali nos revoltou e começamos a levantar uma guerra contra a secretaria de saúde e contra a prefeitura. Solicitamos uma resposta por causa daquilo ali e aí veio a resposta dizendo o seguinte: que essa compra foi feita porque as lideranças assinaram um documento dizendo que aprovavam a compra desse espaço. E as lideranças, a gente sabe, jamais irima fazer um negócio desse. Aí nós descobrimos mais uma vez mais uma falcatrua desse grupo que eu estou te falando que trabalha para políticos. Nós não temos provas, infelizmente, mas vou te falar aqui quem foi: o próprio sobrinho do prefeito, que estava nas coordenações das ARS e, junto com esses cidadãos, que moram aqui, fizeram essa negociata, compraram esse espaço, porque o dono era parente de XXX.</p>
<p style="text-align:justify;">Nós conseguimos embargar. A compra foi assim tão grotesca, tão vergonhosa, que o prefeito recebeu a nossa denúncia e embargou, nos garantindo que esse espaço não iria sair de jeito nenhum, que nós estávamos aptos a procurar um outro espaço para alugar até ver o que poderia fazer. Resumindo a história, o prefeito perdeu, entrou esse outro e o espaço estava lá embargado. O novo prefeito entrou com outras negociações e tinha saído uma resposta favorável para haver a construção desse posto. Então nós chamamos aqui secretário, mandou pessoas, foi cansativo.</p>
<p style="text-align:justify;">Nós descobrimos nesse meio tempo que, quando essa padaria aqui foi vendida, quem negociou isso doou o material da padaria para a implantação de uma cozinha comunitária e ele ganhou mais um outro conjunto de padaria comunitária para implantar aqui na comunidade. Resumindo essa história, esse material que foi doado aqui pra comunidade desapareceu, sumiu né? Mais R$5.000.</p>
<p style="text-align:justify;">E, além disso tudo, nos disseram que documentos aqui do conselho pararam nas mãos dessas pessoas e ainda foram falsificados, com assinatura, na época, minha, porque eu era presidente aqui da instituição. Hoje eu sou coordenadora do projeto, o presidente é Josué. Até o documento eles assinaram para tentar prejudicar essa instituição, porque a luta deles era tão grande em ofuscar a minha imagem e a imagem de Josué para tirar toda aquela lama de junto deles, que não era muito pouca.</p>
<p style="text-align:justify;">Esse secretário que entrou, trouxemos ele aqui, passamos todas as informações e esse homem não teve discernimento nenhum de nos dar uma resposta, de averiguar essa denúncia, de ir procurar ver. Hoje não sabemos quem foi que assinou a compra desse espaço, como foi que foi comprado isso. Desde quando isso tinha sido embargado, o parecer do próprio XXX, que hoje é secretário, disse para a gente que não tinha condições nenhuma, porque para se construir aqui em cima da pista tinha que alargar essa pista. Aí, de repente, aparece que esse espaço tinha sido aprovado.</p>
<p style="text-align:justify;">Para você ter uma idéia, poder público nenhum, nem Câmara Municipal, nem a própria prefeitura, nem secretaria de saúde tomaram conhecimento dessa história. Nova Brasília tem mais ou menos, segundo estudo do IBGE, em torno de 29 a 30 mil moradores, incluindo todas as outras comunidades. Isso quer dizer que foi o total de pessoas ludibriadas com a questão do posto de saúde. A nossa idéia é construir posto de abrangência, isso quer dizer que a gente quer um posto de qualidade, que tenha espaço. Para você ter uma idéia, o local em que a gerente atende é tão espremido, que ela divide o espaço com caixas. Você fica com medo de entrar na sala, porque você não sabe se que aquele negócio vai cair em cima de você ou em cima dela. O espaço que você tem é só o corredor que e acabou. Quer dizer, é um biombo. Para você chamar aquilo ali de um posto de saúde que está dentro de uma abrangência de moradores de um total de 28 mil pessoas é uma coisa inaceitável, é um absurdo. Outra questão é que, com o crescimento que teve essa região, com o crescimento desses condomínios, eles vão precisar de um posto de saúde. Hoje, se você precisar de um curativo, nesse posto você não tem. Não temos médico nenhum. A única pessoa que nós temos para atender é a própria gerente, que é enfermeira. Eu estou fazendo agora para mim um relato, um dossiê, e vou estar pedindo nesse documento até segurança de vida.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>SEGURANÇA<br />
</strong>Policiamento aqui é zero. Nós não temos segurança nenhuma aqui nessa área. Não temos posto, não temos nada. Nós temos uma negociação junto ao governo do Estado para implantação de uma delegacia. Chegamos a negociar também o espaço para a implantação desta delegacia, o local para se alugar, mas nada saiu. O papel está lá, não saiu mesmo foi na caneta, porque eles têm que assinar a ordem de serviço.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>GENTE QUE FAZ<br />
</strong>Aí nós temos. Posso citar alguns. Eu cito Raquel, que é da igreja, que foi uma pessoa que lutou bastante. Eu cito Xande, eu cito Peu, que são pessoas que vêm lutando na área social. Tem uma senhora aqui que é Dona Estela. Ela é deficiente, é uma idosa, mas é uma pessoa bastante legal. Eu cito até o próprio Josué, que é o presidente daqui da instituição, uma pessoa que dorme e acorda Comorja.</p>
<p><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/08/comorja3.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-139" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/08/comorja3.jpg?w=300&#038;h=450" alt="" width="300" height="450" /></a></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FAZER TÃO BEM<br />
</strong>Teve um fato que aconteceu na minha vida mesmo, foi aqui.  Uma criança uma vez me parou e me pediu comida. Eu não imaginava fazer parte deste trabalho. Eu perguntei para o menino – ele tinha casa, família e tudo – e eu perguntei para ele por que ele estava pedindo comida.<br />
- Porque na minha casa não tem.</p>
<p style="text-align:justify;">Ele falou assim naquele tom grosso, de zangado, porque eu fiz a pergunta a ele. Aí eu fiz assim:<br />
- Você tá zangado?</p>
<p style="text-align:justify;">Ele disse:<br />
- Tô. Meu pai tá em casa, bêbado. Minha mãe fica na rua o dia todo e uma hora dessa a gente ainda tá sem comer. Então eu tenho que pedir aos outros.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu levei ele lá em casa e dei comida. Eu fiquei 2h conversando com aquela criança. Por incrível que pareça, eu acredito que foi depois daquela conversa que eu vim ver que as coisas não eram como eu pensava. E eu pensava assim: eu tinha minha casa, tinha minha família, não faltava o meu pão. Eu fazia de tudo para não faltar. Na época, Josa trabalhava, mas uma coisa que me faltava muito quando eu vim morar aqui, é que eu vim parar dentro de uma comunidade que não tinha respeito. Eu conhecia meu vizinho da frente, meu vizinho do fundo, do lado e do lado esquerdo, mas a gente veio a descobrir aqui dentro de Jaguaripe que o mundo era aquilo.</p>
<p style="text-align:justify;">Aqui dentro nós encontramos pessoas ruins, pessoas miseráveis, pessoas más. Mas vinham pessoas boas. Essas pessoas boas é que a gente tinha que está indo buscar. A gente não sabia onde estavam. E a gente descobriu isso através do trabalho. Hoje, se você me pergunta qual o meu ponto de vista: milhares de pessoas ótimas, a minoria ruim, a minoria bastante ruim. E eu digo “milhares de pessoas ótimas”, porque basta ver nas reuniões que a gente faz, nas palestras que a gente faz, os conflitos que a gente tem.</p>
<p style="text-align:justify;">Hoje, eu faço um trabalho aqui com duas vertentes de criança: meninos de rua e meninos em situação de rua. Meninos de rua são meninos que a gente sabe que estão na rua mesmo por obrigação, porque não tem outra opção, porque não tem família. Estão na rua porque, provavelmente, pode ser um padastro, pode ser a madastra, é o tio que toma conta&#8230; O menino de rua não tem escola, não quer ir para rua, ele está ali para ganhar um pão naquela hora. Ele acha que vai ganhar e acabou. Já aquela criança em situação de rua é diferente. Ele tem a família dele, tem escola, mas ele não quer saber de nada disso. Essa criança é que tem que ser trabalhada, para não se transformar em criança de rua. Isso eu tive que aprender, a ver essa diferença.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu vi essa diferença nessa criança, quando ele disse para mim que ele tinha pai, tinha mãe, mas ele não tinha mais ninguém para&#8230; Então eu me perguntei: porque aquele pai, aquela mãe, deixaram aquela criança naquela situação? Aí você passa a viver aquele&#8230; Você vai ajudar ou acabar de complicar? Porque você vai chegar para um pai e uma mãe desse e chamar a atenção dela?  Você pode ser recebido com duas pedras na mão, a depender da maneira que você for fazer. Você pode chegar para essa mãe e dizer:<br />
- Você sabe fazer isso, então vamos procurar capacitar. Você vai comprar aquilo ali e então eu vou ser sua primeira freguesa. Vou comprar aquele primeiro pano de prato na tua mão para você ter R$1.</p>
<p style="text-align:justify;">E amanhã ela vai querer vender mais dois. E aquele pai, a gente faz o que? Já que ele não está de carteira assinada, ele não pode ser um pedreiro? Ele não pode ser um pintor? Ele não pode chegar aqui na escola e capinar alguma coisa? Se ele quiser fazer, se realmente ele quiser dar o pão&#8230; Então tivemos que trabalhar com aquilo ali, a formar aquele ser humano, a mostrar a ele que ele era capaz, isso é que é fundamental. Não é você chegar simplesmente assim:<br />
- Vou lhe dar isso aqui para você trazer o pão para teu filho.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas é dizer que ele é capaz. Ele só vai conseguir aquilo ali se ele quiser fazer e ele é capaz de fazer. Eu cansei de ver milhares de pais de família indo fazer pela necessidade e depois dizer:<br />
- Poxa, Dona Ana, eu não sabia que eu podia fazer isso aqui tão bem.</p>
<p><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/08/comorja4.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-140" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/08/comorja4.jpg?w=342&#038;h=228" alt="" width="342" height="228" /></a></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>COVARDIA</strong><br />
Aqui fizeram uma covardia com um policial, que foi o único que entrou. Mas ele foi burro, usou da revolta dele. Ele estava tão revoltado com isso que acontecia aqui, porque tinha parentes aqui e não podia entrar, porque era policial, que ele bebeu nesse dia e entrou com a arma na mão. Aí, antes dele botar dois pés na metade do caminho, ele levou um tiro. Mataram ele e era um policial que todo mundo aqui na comunidade gostava. Nós tínhamos aqui um padeiro. Ele levantava de madrugada para ir vender o pão, gritando:<br />
- Olhe o pão, olhe o pão.</p>
<p style="text-align:justify;">E esses cidadãos fizeram ele vir com o carrinho de mão, pegar o finado, botar no carro, levar para o final da casa dele, cavar uma cova rasa e enterrar. Isso, todos nós assistimos, porque essa ribanceira ficou cheia. Os moradores todos vendo isso. Ele fez isso, com aquela dor no coração.</p>
<p style="text-align:justify;">A polícia conseguiu tirar esse cidadão. Fecharam isso aqui tudo, parece que pegaram a polícia toda de Salvador e jogaram aqui, para vir tirar só esse corpo. Por isso é que a gente sempre dizia que quando eles queriam fazer, eles faziam. Uma coisa que eles podiam ter feito há muito tempo era vir, fechar isso aqui tudo e botar todo mundo para correr, livrava a gente daquela situação.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>COMORJA</strong><br />
A Associação nasceu dessas histórias. Ela tinha que nascer disso aí, das ações reivindicatórias. Nosso primeiro histórico foi o futebol e a capoeira, depois que pegamos as crianças e fechamos aqui dentro. Mas devido à gente ver tantas adolescentes grávidas, tanta criança aí à toa, nós resolvemos fazer o seguinte: fundamos essa associação aqui na igreja. Não ia ser eu que logo de cara ia ser a presidente. Ia ser Dona Raquel, na assembléia. E Raquel, na hora, disse que não queria, porque tinha outras coisas para fazer e a igreja era uma das partes mais importantes. E aí na hora me nomearam. Eu não sabia nem para onde ir, o que fazer, nem nada, não tinha pretensão nenhuma de ser presidente. Nomeamos uma diretoria que, ao total, foram 12 pessoas, que se reduziu, foi se reduzindo, reduzindo, porque muita gente tinha outras coisas para fazer. Eu botei uma coisa na minha cabeça, mais meu marido e umas poucas pessoas que ficaram: que a gente tinha muita coisa para fazer, mas era voltado à comunidade. Eu aproveitei que recebia a pensão, meu marido trabalhava na área de construção civil, colocando pedra portuguesas &#8211; metade aqui de Salvador ele trabalhou colocando aquilo ali -, então a gente tinha uma folgazinha, dava para fazer alguma coisa, até que um dia a gente pudesse conseguir algum apoio do poder público. Uma delas era comprar caderno, livro, essas coisas. Conseguimos o apoio do Padre Ugo logo no início.</p>
<p style="text-align:justify;">A nossa primeira reivindicação foi solicitar esse espaço. A gente precisava de um espaço para as reuniões e a CONDER tinha feito esse projeto para construir escola e centro comunitário em conjunto. Hoje a gente não paga energia, água, tudo graças a essa parceria que nós temos.  E aí devido a toda essa problemática, nós começamos a ver a perceber o número de pessoas que precisavam realmente de apoio: família, adolescentes, na questão da reeducação, palestras sobre sexo; crianças, envolver em atividades, que não tinha. E aí, nesse trabalho que começamos a desenvolver, colocamos esse cartaz que já citei aqui, “Declare amor pela sua comunidade”, e começaram a vir os voluntários. E aí conseguimos colocar pequenas oficinas.</p>
<p><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/08/comorja2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-141" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/08/comorja2.jpg?w=263&#038;h=394" alt="" width="263" height="394" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Por incrível que pareça, essas pequenas oficinas não começaram dando resultado, porque a gente fez uma reunião que veio sete. Da outra vez, a gente chama e só veio uma moradora, mas através das crianças que estavam aqui, as mães começaram a vir, buscando saber aonde elas estavam e o que estavam fazendo. Chegavam e procuravam pela rua o tempo todo. Quando chegavam aqui, estavam trancadas aqui dentro, aí eu ia abrir o portão, já trancava aquela mãe aqui dentro e ia pedindo ajuda a ela. Ela começava a entrar e a perceber que o menino estava mais guardado aqui do que lá fora. Até que chegaram às nossas mãos também alguns meninos que estavam se iniciando nas drogas. A mãe começou a perceber pelo comportamento da criança, começou a vir e a gente encaminhou para o Conselho Tutelar. Não deu certo e eu fiquei mais revoltada. Geralmente a gente encaminhava a mãe para esse Conselho e a mãe voltava com raiva de mim, porque eu mandei para um local achando que teria ajuda e chegava lá não tinha ajuda nenhuma, não tinha nada, não tinha para onde ir, não tinha transporte, não tinha psicólogo. Então eu comecei a fazer uma proposta para aquela mãe, se ela confiava de me ajudar a trabalhar o filho dela e, por incrível que pareça, a gente começou a ter aquela confiança, o menino começou a vir para cá. Aqui a gente tinha tempo para trabalhar o colégio, mostrar para ele outras atividades e deixar ele desenvolver o que ele queria fazer. E, com aquilo ali, o tempo ia passando, ele esquecia de está na rua e geralmente os meninos saiam daqui até de noite,  6h, chegava em casa cansado, tomava banho, jantava, que era uma das coisas que a gente pedia cuidado: chegar em casa e não deixar mais sair. Começamos a ver o resultado. Para mim, o resultado não era eu que tinha que ver, era a mãe que tinha que ver. Tinha que trabalhar a criança e ela. Eu não tinha nem que estar trabalhando o marido, mas se a gente  conseguisse trabalhar a mãe, porque você sabe que a mãe é o ponto chave, ela ia tentar conciliar o marido e o filho. Então a gente foi conseguindo.</p>
<p style="text-align:justify;">Conseguimos isso de tal maneira que, um certo dia, elas começaram a dizer que os filhos que  estavam começando a mudar, aqueles meninos que iam na porta chamar, eles começaram a trazer para cá também. Isso foi o ponto chave, eu comecei a ver que esse trabalho que a gente estava fazendo ia precisar de ajuda, aí fui atrás do Juizado de Menores. Nossa primeira reunião aqui foi com Dr. Marcelo e uma assistente social. O primeiro caso de drogado que eu tirei daqui, mandei para o grupo da Banda XXX. Eles estiveram aqui pessoalmente, viram as nossas dificuldades e levaram esse menino. Mas era um menino que precisava do que eu estava fazendo aqui. Porque eu já aprendi assim: você bota um filho dentro de um projeto, joga lá e esquece? Não. Se você quer realmente ajudar, você tem que trabalhar o eu da criança e aí simplesmente o menino foi para o projeto e não deu certo, fugiu do projeto, não ficava lá. Aí ligaram e disseram ele não queria ficar, não ia ser obrigado e aí, simplesmente, esse menino se perdeu no mundo. Foi um desses que a gente conta nos dedos, as baixas que nós tivemos.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí comecei a perceber a diferença do que nós estávamos fazendo dentro da comunidade. A diferença dos projetos que estavam recebendo para trabalhar aquele menino. Uma outra falha que eu também consegui detectar em alguns desses meninos que estavam sendo trabalhados lá fora, era a saída da comunidade até chegar lá. Eles não iam, se perdiam pelo caminho. Comecei a conversar com a mãe e, junto com a mãe, comecei a buscar a resposta lá no projeto. Então isso incomodou até algumas pessoas. A gente era uma entidade que não tinha nada e o menino estava dentro de um projeto grande e o menino não estava dando resultado. Eu disse a uma assistente social, certa vez:<br />
- Eu não estou procurando resultado para mim, estou buscando resultado para aquela mãe, para aquela criança. Não é pra mim que vocês têm que dar respostas e, até então, a mãe continua se queixando.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí uma assistente social me desafiou. Ela disse que, se eu era tão melhor assim, por que eu não ficava trabalhando com o menino? Aí eu pedi a ela um mês. Se ele não ia perder a bolsa, que então eu ficaria, e fiquei. Eu trabalhei com esse menino aqui dentro da instituição e aí descobrimos que ele sabia desenhar &#8211; cada desenho lindo que aquele menino fazia. E aí nos 30 dias fomos eu, ele e a mãe e aquele menino que era usuário de drogas.<br />
Através do Prof. Vasconcelos, eu disse a ele:<br />
- Olha, ele é usuário de drogas, nós estamos fazendo um curso de capacitação, mas eu preciso dessa ajuda.</p>
<p style="text-align:justify;">O professor Vasconcelos olhou assim para mim e disse:<br />
- Eu tenho que ver com os outros, porque você está me dizendo que ele é usuário de drogas&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Imagine levar um menino usuário de drogas para dentro da faculdade, mas eu disse:<br />
- É minha inteira responsabilidade.</p>
<p style="text-align:justify;">Isso morrendo de medo. Resultado: esse menino deixou as drogas, consegui para ele uma bolsa com Rui na UNICEF. Eu tive orgulho de chegar no Projeto XXX e mostrar para ela. Eu disse a ela:<br />
- Eu não dei minha atenção total para ele, não. Ele trabalhou junto conosco e junto com os outros meninos dentro da instituição.</p>
<p style="text-align:justify;">E daí eu também tive que parar para analisar a minha situação aqui dentro com esses meninos. Tem uma história que eu me lembrei aqui agora. A mãe dessa menina falou para mim dentro do Juizado de Menores. Já tem muito tempo isso, mas eu tenho os recortes de jornal, onde uma criança, de 8 anos, foi estuprada aqui no Campo Clube de Golfe por três adolescentes. O mais velho ainda era adolescente, mas ia fazer de maior e essa mãe apresentou vários documentos e, dentre esses documentos, estava o encaminhamento para o Conselho Tutelar, Juizado de Menores e Ministério Público. Ela dizia assim:<br />
- Eu tentei evitar a criação de um monstro.</p>
<p style="text-align:justify;">Ela chamou o filho de monstro. Ele já vinha dando problema e ela não conseguiu ajuda. Ela disse para mim dentro do Juizado de Menores:<br />
- Dona Ana, eu tentei todos esses lugares e não consegui ajuda. Se eu tivesse encontrado a senhora, meu filho teria tido ajuda.</p>
<p style="text-align:justify;">Aquilo ali para mim não foi só um elogio. Aquilo ali foi uma coisa que me ajudava a ter mais força ainda. Eu juro: quando eu ouvia um negócio assim, não me envaidecia. Pelo contrário, eu me sentia com mais força para cobrar dos poderes públicos, a ter mais atenção. Eu comecei a perceber que o Comorja foi criado com fins reivindicatórios, para reclamar da água, que não tinha, de transporte, de educação e a gente começou a encaminhar o COMORJA para essa área social, para o atendimento da criança e da família. Eu comecei a perceber que a gente estava se afastando mais desse problema até porque comecei a ver que a gente não tinha muitos problemas nessa área, a não ser de picuinha de família:<br />
-Ah, porque o morador invadiu o meu terreno.<br />
- Ah, porque tem invasão aqui, o que a gente vai fazer?</p>
<p style="text-align:justify;">Não, o nosso problema era aquilo ali, focado naquela questão.</p>
<p>Eu não vou ficar na instituição para semente. Eu tenho aqui 10 anos. Fiz dois a frente dessa instituição. Ninguém nunca quis saber de conselho de moradores, devido aos problemas que nós temos e aí, simplesmente, o que acontece? Hoje nós estamos vendo grupos de organizando, querendo o conselho, porque acham que entra dinheiro e não entra. Pelo contrário, porque tudo que a gente faz aqui é pedido, é doação, é busca.</p>
<p><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/10/anna-10.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-149" title="anna-10" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/10/anna-10.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>ALGUM TIPO DE CORAGEM<br />
</strong>Eu sou de Senhor do Bonfim. Nasci aqui em Salvador, mas fomos morar lá. Mas, como te falei, minha mãe sempre foi problemática. Desde criança, que a gente se lembra que ela sempre foi alcoólatra. Meu pai morreu quando eu tinha 8 anos de idade e, a partir daí, nós começamos a ser criados por uma pessoa que tentava nos dar uma noção de educação, mas também sem muita noção. Ela não sabe ler. A gente foi crescendo vendo aquela situação. Eu cresci num regime que eu dizia assim: “Eu não quero beber, eu não quero fumar, eu não quero fazer nada que seja de ruim para me prejudicar”. Eu pensava que quando eu crescesse e se tivesse a minha família, meus filhos não iam passar pela mesma situação, porque a gente apanhava quando era criança. Eu apanhei até a minha adolescência, eu e meus irmãos. Qualquer coisa, bastava ela beber.</p>
<p style="text-align:justify;">A minha infância foi muito atribulada, eu vivi com um padastro que, no meu tempo de moça, não me olhava como pai. Eu morria de medo, porque ele tentava realmente me pegar a força e eu simplesmente fazia de tudo para me esquivar, porque eu tinha na frente uma mãe que não tinha noção nenhuma de responsabilidade em relação aos filhos. Enquanto estava eu, com meus irmãos morando dentro de casa, eu me sentia segura, porque eu ficava com as minhas irmãs, estava sempre ali. Mas eu sempre tive também uma personalidade forte. Quando começaram a sair os meus irmãos e eu fui ficando em casa, tive também que me proteger. A primeira proteção que eu fiz, que eu me lembro, foi chamar minha mãe para conversar e ela não quis conversa. Eu disse a ela:<br />
- Como é que uma filha fica numa situação onde você quer chegar e dizer à própria mãe que o marido dela está dando em cima dela, está querendo ela de alguma forma?</p>
<p style="text-align:justify;">É complicado, minha mãe não entendeu isso. Aí, o que é que eu fiz? Tive que falar com minha irmã. Saí de casa certo dia e vim aqui para Salvador. Saí escondida e vim morar aqui em Salvador. Minha irmã morava aqui na Calçada. Foi onde minha vida começou. Ela morava na penúltima casa e, naquela convivência, eu vi uma pessoa sentada na porta de casa, em cima de uma pedra. Minha irmã foi e me apresentou.  Era Josa. Foi assim que a gente se conheceu. Minha irmã nos apresentou, ficamos conversando ali na porta um pouquinho. Ele falou um pouco da vida dele, eu falei da minha e, ali mesmo, começamos a namorar e estamos aqui vivendo até hoje. Foi incrível a nossa história, porque foi assim desta forma. Ele tinha dito para mim o seguinte: que ele sabia que tinha uma morena bonita ali na Calçada já há alguns dias e ele estava louco para conhecer. Primeiro, foi assim, uma amizade legal, transparente, mas o que aconteceu depois? Ele era casado, mas estava separado. Mas no papel ainda era casado, e eu comecei a ficar já precavida. Você começa a se envolver com uma pessoa e de repente descobre que é casado, que tem família, fica complicado, então eu não quis.</p>
<p style="text-align:justify;">Uns dias depois foi a minha mãe que veio aqui para Salvador, que veio me buscar, porque eu era de menor. Eu tinha 17 anos, ia fazer 18. Minha mãe chegou, bastante com raiva e disse se eu não fosse embora com ela, iria dar uma queixa dele. Para ele não ter problema, eu fui embora para Senhor do Bonfim, 8h de viagem daqui para lá, mas não deixei de deixar um bilhete para ele dizendo que foi muito bom a gente ter se conhecido e aquela coisa toda. Todo final de semana ele ia para Senhor do Bonfim me visitar. Isso para mim era uma prova de amor, porque não é todo homem que sai daqui toda sexta-feira, pega uma noite toda de viagem, vai para Senhor do Bonfim&#8230; Não ficava lá em casa, porque ela não queria, ficava pela rua. A gente se via duas vezes rápido, pela rua mesmo. Ele jantava ou tomava café. A gente tinha pouquíssimo tempo para conversar, porque ela ficava em cima. E ele, no sábado mesmo, de noite, viajava, para no domingo está aqui e ir trabalhar na segunda-feira. E assim foi durante uns quatro meses, todo final de semana, até que um dia ele baixou lá e disse que não saía sem antes conversar com minha mãe:<br />
- Não vou ficar vindo de Salvador para ficar desse jeito. Não sou ladrão, não estou fazendo nada demais. Sou separado já há muito tempo e quero realmente enfrentar uma vida com você. Você quer?</p>
<p style="text-align:justify;">Eu disse:<br />
- Quero.</p>
<p style="text-align:justify;">Abri o portão, ele entrou e ela veio conversar com a gente e começamos a namorar na porta. Um dia, ele disse:<br />
- Chega, você quer ir morar comigo?</p>
<p style="text-align:justify;">Eu disse:<br />
- Quero.</p>
<p style="text-align:justify;">Porque também estava cansada de ver aquela situação, eu simplesmente saí de casa e vir morar com ele. Eu saí de casa só com a roupa que eu tinha. Minha irmã, quando casou, cidade pequena, a gente conhece todo mundo, prefeito, vereador. A festa de casamento da minha irmã foi uma festa inesquecível. O prefeito bancou, era uma pessoa da família. Foi festa de princesa, ela ganhou uma casa e o chá de cozinha dela foi do móvel ao quarto, uma maravilha. Não teve três meses de casamento feliz e eu não queria isso para mim. E, minha mãe, antes de eu vir embora, ela me disse que iria me dar um presente, que era para eu escolher o que quisesse. Eu disse a ela que o único presente que eu queria era que um dia ela aceitasse ajuda, mas até hoje não.</p>
<p style="text-align:justify;">Hoje, eu me considero uma pessoa realizada. Eu não sou feliz porque até hoje ela tem esse problema. Ela tem 62 anos. Hoje, eu me considero realizada pelas filhas que eu tenho, porque eu consegui passar um pouco dessa educação que ela mesma me deu. São três meninas de caráter, uma educação que sabe ouvir qualquer tipo de problema, tenho um companheiro assim formidável. Eu entrei nessa área, nesse trabalho social por impulso de meu marido. Eu via ele se envolvendo, eu morria de medo de confusão. Sempre fui uma pessoa medrosa, mas eu digo que atrás do medo sempre tem algum tipo de coragem.</p>
<p>Entrevista realizada em novembro de 2007</p>
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		<title>Josué Firmo dos Santos</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Jul 2008 00:10:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Soteropolitanos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Josué Firmo dos Santos]]></category>
		<category><![CDATA[Estrada Velha do Aeroporto]]></category>
		<category><![CDATA[Jaguaripe]]></category>
		<category><![CDATA[lider comunitario]]></category>

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		<description><![CDATA[
Em seu depoimento, Josué Firmo dos Santos nos conta a saga dos moradores de Jaguaripe II. Desabrigados pelas chuvas de 1989, receberam do governo pequenos casinhas numa área distante, sem luz, asfalto ou água encanada. Para enfrentar tantas dificuldades, o pedreiro Josué acabou se tornando também um importante líder comunitário, presidente do Conselho de Moradores [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com&blog=1555239&post=100&subd=soteropolitanosdaestradavelha&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/josue21.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-102" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/josue21.jpg?w=300&#038;h=335" alt="" width="300" height="335" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Em seu depoimento, Josué Firmo dos Santos nos conta a saga dos moradores de Jaguaripe II. Desabrigados pelas chuvas de 1989, receberam do governo pequenos casinhas numa área distante, sem luz, asfalto ou água encanada. Para enfrentar tantas dificuldades, o pedreiro Josué acabou se tornando também um importante líder comunitário, presidente do Conselho de Moradores de Jaguaripe II (Comorja II). <span id="more-100"></span></p>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">Jaguaripe II nasceu dos ex-desabrigados das chuvas de 1989. Na época, nós fomos vítimas das enchentes, dos desabamentos que vitimaram centenas de pessoas aqui em Salvador, e milhares ficaram desabrigadas. Mais de 2 mil pessoas ficaram desabrigadas.  Eu morava na Calçada, ao lado do plano inclinado. Lá foi uma das áreas atingidas, onde teve famílias que morreram quase todos e muita gente ficou desabrigada. Só lá na nossa comunidade foram aproximadamente 80 famílias desabrigadas.</p>
<p style="text-align:justify;">Na época as pessoas ficaram abrigadas em colégios, creches, centros sociais urbanos, enfim, todo lugar que poderia abrigar essas pessoas. Naquele momento, o pessoal foi ficando através de associações de bairros daquela localidade, negociava com as escolas, enfim&#8230; E a gente foi abrigado nesse local até a prefeitura resolver o nosso problema. Nós ficamos numa associação que funciona na área mesmo ali da Calçada, entre a Liberdade e Calçada, associação dos moradores da área do Queiroz.</p>
<p style="text-align:justify;">Na época, quando aconteceu o acidente, eu tinha uma filha e Ana estava grávida. E por pouco não aconteceu uma tragédia com ela e as meninas. Porque a nossa casa foi atingida pela força das terras, barrancos que caíram e ela teve que se jogar também de um local muito alto. Por pouco a gente não teve também uma perda muito grande na nossa família. Na hora eu estava trabalhando.</p>
<p style="text-align:justify;">Nós ficamos aproximadamente seis meses nessa associação. Foi muito difícil, muito difícil, porque não tinha nenhuma estrutura no local onde a gente ficou. A gente dividia o espaço com insetos, com sujeiras, com pingueiras. Uma parte da nossa localidade ficou no Centro Social Urbano da Liberdade, mas devido a ser um local público, logo eles tiraram esse pessoal. E a gente, que estava nesse local que não envergonhava e não mostrava o contrastes dessa situação, eles deixaram a gente um bom tempo lá, aguardando aprontar as casas para vir para aqui.</p>
<p style="text-align:justify;">Para você ter uma idéia, naquele mesmo ano foi disputado aqui a Copa América, aqui na Bahia. E existia também centenas de famílias que estavam abrigadas na Fonte Nova. Quando se aproximou a Copa América, eles tiraram essas pessoas da Fonte Nova, porque seria um local mesmo, como se diz na gíria, a “vitrine”, onde repórteres de todos os países daqui da América e até de outros países de fora estavam lá cobrindo a Copa. Eles tiraram essas pessoas, trouxeram para aqui sem nenhuma infra-estrutura. Como aconteceu com todos, mas aqueles foram pior, porque foi uma época de chuva, muita lama, as casas inacabadas e eles trouxeram praticamente à força e botaram aqui na comunidade para tirar de lá da Fonte Nova.</p>
<p style="text-align:justify;">E com a gente foi o seguinte: eles pegaram aquelas pessoas que estavam no Centro Social Urbano, porque era na Liberdade, na rua principal, tinha outros trabalhos no Centro Social Urbano, retiraram de lá e trouxeram. E a gente, que estava num local pouco visitado, pouco freqüentado, eles deixaram a gente por um bom tempo. A gente sofrendo naquela situação todo tipo de humilhação. (Silêncio)</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PRIMEIRA INICIATIVA</strong><br />
Na época, a secretária de Ação Social, que hoje é presidente da Conder, foi a pessoa que conduziu toda essa questão desses desabrigados. Depois de um tempo fomos informados &#8211; foi uma assistente social até o local para nos informar &#8211; que nós estávamos vindo para nossa casa. Quando recebemos essa notícia, a gente pensava que o problema se acabaria ali, mas, na verdade, estava começando o problema a partir daquele momento. Primeiro, porque além de toda humilhação que a gente já passava, a falta de respeito muito grande para conosco veio no momento que eles foram lá no local para nos deslocar para aqui.</p>
<p style="text-align:justify;">O primeiro passo foi eles levarem uma caçamba, pedir para a gente botar todas as nossas coisas em cima dessa caçamba, onde tinha mães de família, crianças, idosos e queriam que viesse todo mundo junto com esses móveis, enfim, uma tremenda falta de respeito. Como coisas. Como aquele verdadeiro balaio de lixo, era como se a gente estivesse sendo também um verdadeiro lixo humano. A gente já não tinha quase nada, tudo o que a gente tinha era o que sobrou. E aí eles queriam que a gente fosse transportado assim também. Era aproximadamente umas 35 famílias.</p>
<p style="text-align:justify;">Naquele momento eu assumi a postura &#8211; até mesmo sem ter muita idéia de liderar, aquela coisa toda – assumi uma postura que a gente não sairia dali enquanto a gente não fosse tratado como ser humano. O que a gente queria era que viesse carro suficiente para trazer todas as coisas e não dar três, quatro viagens, fazendo aos poucos. E um ônibus para trazer as pessoas, as crianças, mães de família, as pessoas, os seres humanos. Aí travamos uma luta a tarde toda junto com as assistentes sociais que achavam que aquilo estava certo. Moradores da Liberdade também ficaram ao nosso lado, devido aquela falta de sensibilidade dos poderes públicos. As assistentes sociais achavam que a gente estava errado, que a gente não poderia agir assim, que a gente tinha que vir. A caçamba já estava acima do normal mais de um metro, de coisa mesmo. E eles queriam ainda que essas pessoas viessem transportadas em cima dessa caçamba de qualquer maneira. Ou mesmo que a gente pegasse um ônibus e viesse, um local que a gente nem conhecia&#8230; E aí a gente não aceitou.</p>
<p style="text-align:justify;">Aquele dia, a maioria – eu contei muito também com a sorte, porque geralmente as pessoas, na euforia, na ansiedade, muitos já queriam vir de qualquer maneira – a maioria ficou ao meu lado e a gente conseguiu negociar e isso foi adiado mais um dia. No outro dia foi que eles levaram carro suficiente, levaram ônibus e trouxeram a gente para aqui, pelo menos, um pouquinho com dignidade.</p>
<p style="text-align:justify;">No dia seguinte veio mais caçamba para trazer nossas coisas, para vir tudo de vez. Tinha uma que ficou carregada e vieram mais duas. Vieram também pessoas da Limpurb para carregar nossas coisas porque a gente mesmo que tinha que estar jogando em cima de qualquer maneira, arrumar nos carros, e veio um ônibus que nos transportou até aqui.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu acho que foi assim a primeira iniciativa de peitar mesmo, de começar, e até mesmo descobrir como uma liderança. Pela necessidade da gente ter alguém que dissesse “não” e “precisamos negociar”. Acho que foi aquele momento que a gente começou a sentir na pele que precisava de alguém para poder assumir de verdade o controle.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/jaguaripe2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-106" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/jaguaripe2.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a><br />
<strong><br />
ME SENTI NO PARAÍSO</strong><br />
Na verdade, eu não conhecia aqui a região. Conhecia até a Toca do Leão, mais ou menos, aproximadamente. O Barradão. No caminho, a gente vinha na expectativa de chegar a uma moradia nova, uma comunidade organizada, com ruas abertas, enfim, uma estrutura. Pelo menos isso seria até uma reparação pelas perdas, pela dor, a humilhação toda que a gente passou durante aquela época do desabamento, enfim&#8230; Mas, vindo de lá para cá, a gente vinha refletindo muito, e aí a gente entrou na Estrada Velha. Quando a  gente chegou na Estrada Velha, eu, na verdade, eu me senti no paraíso. Primeiro, porque eu me identifico muito com áreas como a Estrada Velha, com muito verde, sou uma pessoa que nasci no interior, vivi lá, muito verde, muitos rios.</p>
<p style="text-align:justify;">A Estrada Velha era um verdadeiro paraíso. Quando a gente chegou aqui, o Vila Mar estava começando, loteamento que hoje é uma comunidade muito grande. No Vila Mar tinham pouquíssimas casas, tinha malmente a rua principal, muito verde. Esses condomínios não existia nenhum, nenhum desses prédios existia. Era uma coisa assim bonita de se ver, era um verdadeiro paraíso mesmo.</p>
<p style="text-align:justify;">Você encontrava aqui, na época, como ainda existe, uma diversidade muito grande de frutas. Antes existiam muitos pássaros, até pássaros em extinção a gente via aqui pela Estrada Velha. Eu lembro muito. Frutas, se a gente for contar assim&#8230; Como se diz na gíria: “Pense em fruta”, que aqui a gente tem. Todo tipo de fruta. Temos manga, cacau, jaca, graviola, banana, coco, sapoti, abiu, que é uma fruta muito gostosa. Há muitos anos que eu não vejo essa fruta. Temos por aqui cupuaçu, pitanga, siriguela. O que você pensar de fruta, aqui na Estrada Velha você encontra. É uma reserva de Mata Atlântica.</p>
<p>Aí vem aquela outra parte, que são os animais. Quando a gente chegou aqui, tinha muitos animais aqui. O pessoal matava, caçava, o teiú, a própria raposa e ainda existe por aqui o teiú, raposa. Tinha muita cotia, tatu bola. Onça, o pessoal diz que no passado tinha muito, não sei se existe. Agora, acho que todo tipo de cobra existe aqui na nossa região. A gente vê muito por aqui. Insetos de toda variedade.</p>
<p style="text-align:justify;">Pássaros, você via aqui uma variedade muito grande. Eu tinha um pé de manga, que eu plantei lá do lado da minha casa e quando essas mangas começaram a dar, a gente via até pássaro acho que em extinção, como a pega, que quase a gente não vê falar. Aquele sangue de boi, vermelhão, bonitão, bem-te-vi, todos os tipos de pássaros. Até um pássaro que hoje quase não se vê mais falar, que é o curió, existe aqui na região ainda. É uma coisa fantástica a Estrada Velha.</p>
<p style="text-align:justify;">E vem também a questão da água. Muita água. Aqui, em cada esquina que você procura, você encontra uma nascente. Toda cercada de rios e nascentes a Estrada Velha. Tem cachoeiras em alguns pontos aqui ainda. O Rio Trobogy fica aqui próximo à Faculdade Jorge Amado. Tem o Rio Jaguaripe, esse que passa aqui e deságua lá em Patamares. Temos  “n” nascentes aqui. Córregos menores tem vários. Tem um outro rio, agora me falha a memória o nome desses rios. A gente estava até discutindo sobre a bacia do Jaguaripe e até rios que conheço por aqui, mas não sabia o nome. Agora eu não me lembro.</p>
<p style="text-align:justify;">Temos pequenos lagos e muitas lagoas aqui na região. Assim por nome mesmo eu não sei. Eu lembro de uma lagoa que tem no início da Estrada Velha que eu acho uma coisa linda e essa semana eu fiquei triste porque passei lá e vi ela praticamente morta, ali perto da Brasilgás. Me falaram que ali chama-se Lagoa do Urubu. Porquê, não me pergunte. Mas é uma coisa bonita, uma lagoa bem centralizada, quem sai ali da Estação Pirajá, aquela pista quem sai da Estação Pirajá e se encontra ali na pista da Brasilgás, quem sai da Estrada Velha. Então aquela lagoa é uma área tão bonita e ela está maltratada. Muitas empresas que ficam próximas aterraram muito ela e agora mesmo a gente vê que ela está morrendo. Ela está com uma capacidade assim.. Uma época dessa, que o verão ainda não está mesmo no&#8230; e ela já está naquelas condições. Imagine se não chover agora, vai ficar bem pior.</p>
<p style="text-align:justify;">E aqui mesmo atrás do Cemitério Jardim Bosque da Paz tem uma queda d&#8217;água muito bonita. Quer dizer, até a última vez que eu estive lá, há uns dois anos atrás, ela existia. Na verdade, aí antigamente funcionava uma pedreira, de onde o pessoal retirava pedra bruta para alvenaria. E ela ficou tipo uma área com as paredes muito altas, de pedra, e só tem um lado, que é a saída, que é aberta, onde as caçambas entravam para pegar as pedras. No fundo ela tem uma queda d&#8217;água muito bonita. Aproximadamente seis, oito metros e ela cai. Uma nascente muito interessante, uma coisa bonita mesmo, aqui no fundo do cemitério. O acesso é só pelo cemitério. Pertence à área do cemitério.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/bosquedapaz.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-105" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/bosquedapaz.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a><br />
<strong><br />
PROBLEMAÇO</strong><br />
Quando fomos chegando aqui na Estrada Velha, achei as mil maravilhas, mas ao chegar mesmo aqui em Jaguaripe II, aí que a gente viu que o problema começaria a partir daquele momento, que não era nada daquilo. Quando a gente chegou aqui, na verdade já existiam algumas pessoas que vieram de outros abrigos: Fonte Nova, Centro Social Urbano e outras que vieram de outras localidades. Chegamos aqui e foram sorteados. Eram os embriões, de aproximadamente 24 metros quadrados construídos, com um banheirinho. Enfim, na verdade, como se diz na gíria da construção civil: cru. Um cômodo só, de alvenaria, com telhado de cerâmica. Mas também era só o que tinha. Nós tínhamos área para a gente ampliar. O total de área era 6 por 14, mas construído só tinha isso aí: 5 por 4,5, mais ou menos. Não tínhamos piso, a maioria não era rebocada. O piso era cimento rústico.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí vem aquela questão&#8230; A gente, na verdade, na ansiedade, a gente acha que o problema sanou em você receber esse espaço, aquele embrião, e vir para dentro com a sua família. Mas, além de só ter aquele pequeno espaço, nós não tínhamos rede de esgoto, não tinha água e nem energia. Aqui não tinha asfalto. O asfalto era era até aqui a pista da Estrada Velha, aqui dentro da comunidade não tinha. A Estrada Velha é antiga, uns 60, 40 anos mais ou menos.</p>
<p style="text-align:justify;">Era como se fosse um assentamento de sem-terra. As ruas não eram urbanizadas. Era uma época dessa, final de outubro que eu cheguei aqui e estava um verdadeiro sol. A poeira aqui, quando passava um carro, era horrível. Então foi aí que a gente passou a ver que a gente estava dentro de uma casa, de um barraco, mas lá fora tinha um problemaço para a gente ainda começar a lutar.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>TRANSPORTE</strong><br />
O transporte aqui era horrível. A comunidade, na época, era pouco habitada, então tinha poucos ônibus, pouca oferta de ônibus, de linhas de ônibus. Já pensou? Uma pessoa que já está empregado, recebendo o seu salário, já é difícil você está se deslocando para um local distante. Imagina uma pessoa desempregada ainda ir em busca de um trabalho. Então foi um transtorno muito grande, uma situação muito desconfortável para a gente. Para ir para o centro da cidade hoje é quase o mesmo trajeto. A gente tem que pegar o carro aqui, descer na Estação Pirajá e  lá você vê o destino que você vai e pega um transbordo.</p>
<p style="text-align:justify;">Não existia Estação Pirajá. Era Estação Nova Esperança “Estação N”, no mesmo local. Esperava muito tempo, porque a única opção aqui mesmo era a Estação Nova Esperança. Depois foi que, com muita luta, muito abaixo-assinado, a gente conseguiu alguns carros: Pituba, depois veio Barra, veio Baixa dos Sapateiros, enfim, veio aqueles carros &#8211; Comércio, Narandiba &#8211; aqueles carros diretos. Mas a logística mesmo era você pegar Estação Nova Esperança.</p>
<p style="text-align:justify;">Tinha vezes que a gente esperava muito mais de 1h. Para você ter idéia, agora, em pleno século XXI, tem dias que a gente espera isso. Hoje, depois de tanto tempo, a gente mora aqui, para a gente ir à Faculdade Jorge Amado, que é aqui ao lado, a gente vai andando&#8230; Se a gente for de ônibus, ou você anda – um quilômetro, mais ou menos – para pegar um carro lá na Rua Mocambo, ou você tem que fazer um arrodeio fora de série. É muito mais prático você ir andando para a faculdade do que você ir de ônibus. Esse ônibus Trobogy vem perto porque construíram um condomínio, porque se não tivessem construído esse condomínio, não teria esse carro até aí. Os carros retornam nesse condomínio e a gente, geralmente, quando está no Centro, pega, porque é muito mais rápido para chegar aqui. Se a gente estiver na Pituba, você pegar o Nova Brasília e eu pegar o Dois de Julho, eu chego em casa, tomo banho, janto, assisto a novela  e você ainda está para chegar aqui. No mínimo, economizo 40, 45 minutos.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>SALADA DE FRUTAS</strong><br />
Na verdade, em Jaguaripe II foram 704 unidades construídas para os desabrigados. Parceria Urbis e prefeitura. (A Urbis ainda existe, mas não lida mais com essa questão de construção, essas coisas. O menor engoliu o maior. A Conder, que era uma empresa bem menor, até em questões políticas, assumiu o papel da Urbis. A Urbis ficou lá e quase ninguém procura, fica lá na Carlos Gomes,  acho que no Edifício Brasilgás. São questões mesmo burocráticas).</p>
<p style="text-align:justify;">No meu caso existiam poucas pessoas que eram conhecidas. Foram aquelas pessoas que se dividiram lá, no Centro Social Urbano e outros na Associação. Mas o restante eram de comunidades completamente estranhas, por isso que a gente diz que quando  chegamos aqui, era aquela verdadeira salada de frutas. Pessoas de todas as partes de Salvador: Calçada, Fazenda Grande, São Caetano, Baixa do Cacau, IAPI, Santa Mônica, Subúrbio ferroviário &#8211; vários bairros como Coutos, Lobato, Escada &#8211; Nova Brasília aqui ao lado também, Ogunjá &#8211; aquela comunidade Iolanda Pires. Então eu acredito que aqui tinha aproximadamente 13 a 15 bairros diferentes.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu me senti naquela história da Torre de Babel: todo mundo falando línguas diferentes. Porque todo mundo queria uma coisa, todo mundo queria ser liderança, queria assumir o papel de líder na comunidade. Toda pessoa que veio de um bairro queria fundar uma associação e cada um falava uma língua diferente. Uma comunidade não aceitava que fulano de outra comunidade fundasse a associação: “Vambora fundar a nossa”. E aí criou aquela verdadeira confusão dentro da comunidade. Foi todo mundo falando línguas diferentes e acabou não se formando nenhuma entidade que representasse a comunidade. Na influência dos líderes&#8230; Vamos supor, o líder de tal bairro chegava para mim e dizia:<br />
- Você funda a associação, porque eu vou lhe ajudar e tal e tal.</p>
<p style="text-align:justify;">Aquela pessoa achava que ele tinha condição de fundar a associação e vinha o foco lá que outro queria fundar a associação. E outro de lá&#8230; Aí começava aquela briga. Quando se falava em se unir, sentava todo mundo:<br />
- Vamos unir, criar uma associação forte.<br />
- Tudo bem.</p>
<p style="text-align:justify;">Na hora que ia se falar:<br />
- Mas fulano vai ser o presidente.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí começava a briga, porque tinha cinco, seis presidentes querendo assumir e era um verdadeiro&#8230; Era mesmo uma coisa estranha.</p>
<p style="text-align:justify;">A gente se reunia geralmente nas casas de um, de outro, existia a igrejinha aqui também. A gente se reunia na igrejinha para gente tentar discutir as questões da nossa comunidade. O palco maior era a igreja. Todos os movimentos, as discussões da comunidade, a gente discutia na igrejinha.</p>
<p style="text-align:justify;">Existia aqui Dona Marinalva, uma pessoa aqui que chegou a fundar uma associação. Essa foi praticamente imposta mesmo. A maioria não queria e fundaram essa associação. Acho que ela veio de Coutos, Subúrbio. Teve também Maltilde, que foi também da área de onde nós viemos, de Calçada. Chegou a fundar uma associação e não deu seguimento também. Judemar, que veio, eu acho, de Santa Mônica. Fundou também uma associação e não vingou. Depois apareceu um outro cidadão aqui, que era filiado ao PCdoB, uma pessoa super inteligente, muito dinâmico. Chegou aqui, começou se envolver também. Fundou uma associação. A gente conhecia ele como Beto, mas o nome dele era Idalberto. Chegou aqui, fundou a associação, com pouco tempo ele sumiu, não apareceu mais. E aí foi ficando só aquela saga, que ninguém assumia o papel de líder da comunidade.</p>
<p style="text-align:justify;">E aí, o que ocorreu? Eu não gostaria de citar nomes, mas aproveitaram o momento, todas essas confusões, para implantar um cartel do prostituísmo político. Um cidadão aqui implantou esse projeto de prostituísmo político mesmo, de fazer da comunidade um trampolim. Políticos, rolava aí a todo instante. Chegava um de manhã, ele atendia. Saía aquele, a tarde já vinha outro. Enfim, a comunidade ficou respirando só a questão da politicagem, devido à necessidade da comunidade de melhoria. Eles chegavam prometendo, que um ia trazer água, outro ia asfaltar, outro ia trazer a energia. E nisso o tempo foi se passando e a gente cada vez mais numa situação precária.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong><br />
ÁGUA</strong><br />
Logo no início, quem fornecia água aqui para a gente era uma empresa. A empresa que construiu aqui fez alguns reservatórios, em alguns pontos estratégicos dentro da comunidade, que era assim um tanque aproximadamente 5 por 3, mais ou menos 1,50 de altura. Então ele tinha o que? 7,5 metros cúbicos. Eles traziam o carro-pipa, chegavam naquele tanque e despejavam. Era como se fosse uma coisa lá do sertão, da roça mesmo.</p>
<p style="text-align:justify;">Tinha briga. O pessoal não conseguia pegar, marcava a fila com pedra, com pedaço de pau, com lata. O dia amanhecia e já começava a botar umas marcazinhas, dizendo que era a marcas daquela pessoa para pegar água. Aí, quando começava a chegar era a maior confusão, tinha briga. Quando começava a água a cair pouco, os outros não davam tempo para pegar, entravam no tanque. E aquela água a gente não sabia qual era a procedência, de onde vinha. Ali para cozinhar, lavar, muita gente bebia. Quem tinha condição mandava pegar aqui na nascente que tinha na Rua da Bica. Alguns moradores ganhavam para pegar água da nascente, era muito boa, limpa.</p>
<p style="text-align:justify;">O carro-pipa vinha todo dia. Ele vinha, abastecia de manhã esse tanque daqui. Durante a manhã, ele botava de lá até lá em cima, em cada ponto estratégico, a cada 30 metros, tinha um. Abastecia um de cada vez. As pessoas iam e pegavam. A tarde ele voltava fazendo o mesmo. Vinha duas vezes no dia. Tinha pessoas que pegavam duas vezes, duas viagens, cada vez que ele vinha. Outros não pegavam nada. Aí criou a briga.</p>
<p style="text-align:justify;">Tinha uma nascente aqui na Rua da Bica, em Nova Brasília, uma nascente muito boa. Hoje está poluída. Os próprios moradores botaram esgoto próximo, ficaram contaminadas. A gente mandava pegar água para beber da água da bica, das fontes da Rua da Bica. Tinha também uma fonte aqui, bem em frente de onde nós estamos, abaixo desse campinho, que a maioria do pessoal daqui usava. Muita gente pegava água daí cristalina, limpinha. Hoje também ela não presta, porque tem muito esgoto se misturando com ela.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí a gente foi se organizando em grupos, ruas, duas, três ruas, e a gente começou a fazer a ligação clandestina, o popular gato de água. A gente foi comprar os tubos, unia assim 20 famílias, 30 famílias e comprava os tubos e aí vinha e fazia a ligação da rede geral. Para você ter uma idéia, toda a comunidade tinha a tubulação da rede geral ligada nas casas. As casas todas canalizadas, só faltava a Embasa vir colocar na rede geral e puxar os tubos nas ruas.</p>
<p style="text-align:justify;">Nós tínhamos água praticamente dentro da comunidade e não era canalizada na comunidade. Aqui próximo, se você chegar aqui nesses coqueiros, até hoje tem resíduos de ligação clandestina que as pessoas fizeram e ficou aí até hoje. Lá na entrada, lá próximo onde eu moro, a água parava na chegada de Jaguaripe, que é a Rua São Benedito &#8211; que é uma transversal de Nova Brasília para Jaguaripe -, no finalzinho, na entrada de Jaguaripe, era que parava a rede geral, onde nós fizemos a nossa ligação lá para cima.</p>
<p style="text-align:justify;">A gente chegou aqui em outubro. No início de ano a gente fez essa ligação e começou a cair água. Foi uma felicidade para a gente ter água em casa, que era uma verdadeira confusão. Ligamos essa água, teve uma briga muito grande com uns moradores. Um cidadão aqui que não aceitava que a gente fizesse aquela ação na comunidade, porque eles achavam que eles que deveriam fazer. Era aquele mesmo que eu citei que começou com o prostituísmo político e hoje ainda fazem. E aí não aceitava de maneira nenhuma. Quando a gente colocou essa água na rua, ele foi lá com um grupo de amigos dele e foi aquela briga generalizada. Foi mãe de família que apanhou, foi pai de família, foi uma confusão fora de série.</p>
<p style="text-align:justify;">Não aceitavam, achavam que – como até hoje – achavam que tudo tinha que passar por ele. Eles acham o seguinte: tudo que entrar na comunidade, tem que pagar um pedágio a ele, que ele tem que se beneficiar, tem que ganhar alguma coisa em cima daquilo. É como ele diz sempre:<br />
Se me ver metido em qualquer briga aqui na comunidade, é porque o meu está entrando – e ainda bate no bolso.</p>
<p style="text-align:justify;">Então tudo isso aconteceu. É uma história em que ainda vamos chegar a muito mais coisa.</p>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;"><strong>UNIÃO FORA DE SÉRIE</strong><br />
Não tinha luz. A luz era em volta, a mesma coisa da água. Era como morrer de sede na praia. Em volta, Nova Brasília e Estrada Velha tinham energia. Aqui dentro não tinha energia. Usamos o mesmo método. Ia conseguindo um pedaço de fio, fio de telefone,  fio normal e fomos puxando dos postes. Tinha poste que tinha cinco, seis ligações e a gente ia distribuindo. E o que acontecia? Quando você ligava várias casas numa rede fraca, quando chegava lá, parecia aqueles candeeiros numa roça, uma velinha. Era praticamente escuro, quase não dava para você ver uma televisão, não se podia usar uma geladeira. A maioria quase ninguém tinha. Só quem tinha uma condição melhor é que fazia o seguinte: comprava os seus fios, fios resistentes, e puxava uma linha só para ele, que era muito difícil ficar. E, às vezes, quando passava próximo às casas, ele não tinha tempo de está vigiando sempre, alguém ia lá e engatava no fio dele. E era uma briga também por causa da energia fora de série.</p>
<p style="text-align:justify;">Vamos supor: você botava para 10 casas. Aí o vizinho fazia amizade com aquele lá do fundo, já puxava para aquele também e a rede ia ficando cada vez mais fraca. Mas, com toda confusão, a gente sente, pela necessidade, sente uma união das pessoas. Era uma união fora de série. “Vambora vê”. É a luz. A máquina veio ali pegar o lixo, quebrou o tubo. “Vambora arrumar”. Fazer aquela tradicional vaquinha, comprava o tubo.</p>
<p style="text-align:justify;">A Coelba não vinha aqui. Para nos perseguir não vinha. Como diz o outro: a gente estava errado e ainda achava que era perseguição se alguém viesse. (risos) Mas a gente corria muito atrás. Fizemos uma caminhada, uma passeata daqui para o Centro Administrativo, porque por falta dessa água houve até mortes de crianças aqui. As mães mandavam ir lavar roupa lá no rio, lavar prato. As pessoas desciam uma ladeira muito grande e iam para o rio. Aí uma vez morreu uma criança afogada. Fizemos uma caminhada, fomos até o Centro Administrativo, na Embasa, para reivindicar que ligassem a água aqui.</p>
<p style="text-align:justify;">Fizemos essa caminhada daqui, cansativo, o sol muito quente, chegamos lá. Aí, praticamente nos ganharam no cansaço. A pessoa que liderava, esse Idalberto que eu citei, era um cara que tinha esse poder de mobilização. Então a gente:<br />
- Vambora fazer, vambora para lá.</p>
<p style="text-align:justify;">E fomos lá. Quando chegamos lá, ele teve que se ausentar. Enquanto ele foi na Assembléia, o diretor da Embasa na época pegou um grupo e chamou. Chegou lá:<br />
- Qual é o problema?<br />
- O problema é água, tal.<br />
- Qual é o problema?.<br />
- Não, é que o carro-pipa não está botando &#8211; algumas pessoas usaram isso.<br />
- Não, agora mesmo o carro-pipa vai botar água, pode ir para lá que tal.</p>
<p style="text-align:justify;">Naquele tempo não tinha aquele poder ainda de negociação, aquela visão. Aí acabou ficando:<br />
- Vamos mandar botar essa água lá e vamos fazer um estudo para instalar a água na comunidade.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí desmobilizou e levamos muito tempo sem água mais uma vez.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/jaguaripe.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-107" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/jaguaripe.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>CONTAS EXUBERANTES</strong><br />
Aí veio uma certa campanha política de um candidato que conseguiu junto à Embasa colocar uma água aqui. Foi através da Embasa, feito em mutirão, mas também não foi uma coisa oficial. Porque digo que não foi oficial? Porque não atingiu a comunidade toda. Eles colocaram água no Setor A e colocaram água no Setor C. E nesse Setor B aqui eles não canalizaram, deixaram aqui sem água. O morador continuou usando os tradicionais gatos. E mesmo eles colocando no Setor A, quando chegou a conta, chegou uma conta exuberante. Era para pagar uma taxa mínima, não tinha nem contador e aí foi uma coisa política mesmo, que fizeram assim um final de semana, um corre-corre.</p>
<p style="text-align:justify;">E aí o que aconteceu? Chegou umas contas exuberantes. Morador sem poder pagar, aí entra em cena esse mesmo cidadão dizendo que ia resolver, que a Embasa mandou recolher os recibos. As pessoas deram os recibos para ele resolver na Embasa. Eu sei que não apareceu recibo e todo mundo ficou endividado com a Embasa. Começou acumulando dívida e acabou não podendo pagar. Então ela não era nada oficializada. Muita gente ficou endividado e até hoje, na verdade, isso ainda reflete na comunidade. Muita gente não conseguiu regularizar essa questão. A Embasa geralmente não desliga. Geralmente fica acumulando. Ano após ano acumulando essas dívidas. E isso, quando a gente vai dá pé dessa situação, às vezes a dívida está mais alta que o valor do imóvel.</p>
<p style="text-align:justify;">Na verdade, foi feito um trabalho através de mutirão, uma parceria com a comunidade, Ainda estava muito recente a chegada aqui. Estava todo mundo tentando se estruturar. Não estava ainda estruturado do baque daquela questão de perder suas coisas, seus imóveis. Muita gente perdeu ente da família, perdeu tudo, não estava estruturado. Não era conta tão alta, mas veio trazendo as taxas de ligação, taxa disso, daquilo e não foi acertado por aí. Era tanto que não tinha contador, ia pagar uma taxa mínima, era para ser taxa mínima, só que veio cobrando tudo. O morador aí se assustou, não pagaram aquelas contas, procurou a pessoa que era o mentor disso tudo e ele disse:<br />
- Não, tudo bem, a gente vai resolver.</p>
<p style="text-align:justify;">E começou a tomar os recibos das pessoas. Que já foi errado, né? Era para ter chamado aqui alguém da Embasa para orientar o que se fazer. Aí só foi se acumulando dívidas. Geralmente, a coisa, quando é eleitoreira, eles trazem pronta e de qualquer maneira, tudo pela metade. Por isso que hoje, aqui na nossa entidade, quando a gente passa a negociar, a gente procura buscar uma negociação para ver de fundo, do momento em que se começa o projeto, até o final, como vai ser finalizado. Isso é interessante. Antigamente as coisas era muito eleitoreiras mesmo. Agora, com essa fiscalização maior&#8230; mas, antigamente, era o toma lá dá cá mesmo.<br />
- Eu vou botar uma máquina para abrir ali o campo e você tem que ter o compromisso comigo na comunidade, de está lá fazendo lavagem cerebral na comunidade para votar em mim.</p>
<p style="text-align:justify;">Tem gente que não mora mais aqui, vendeu seus imóveis, e aí, quando vendia os imóveis, quando as pessoas iam lá ver o “Nada consta” na Embasa, na Coelba, estavam lá dívidas imensas. Muitas vezes se negociava:<br />
- Minha casa você paga R$8 mil.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando chegava lá, estava R$1.500 de dívida. Aí o que que faz, o que que não faz? Aí faz o seguinte:<br />
- Você me paga R$ 7 mil e assume a dívida.</p>
<p style="text-align:justify;">Tinha aquelas barganhas. Quem comprava sempre assumia a dívida, ia na Embasa, negociava, outros deixavam rolar, enfim, ainda tem hoje essa saga, essa questão da água ainda.</p>
<p style="text-align:justify;">Em 1997, quando entrou o Programa Viver Melhor, quando foi urbanizada toda a comunidade, aí foi retirada toda essa canalização que foi colocada na época das eleições. Tudo aquilo foi perdido. Você vê que é um custo, dinheiro público jogado fora, todos aqueles tubos, aquela tubulação foi toda arrancada. Aí foi colocada toda a rede novamente e aí foi que regularizou, em todos os imóveis colocaram água. Porque, na verdade, tinha irregularidade aquela colocação de água anterior. Lá constava, na Conder, que aqui não tinha água no loteamento. Então foi feita uma licitação para colocar água em toda a comunidade. Aí teve que arrancar tudo e se fazer tudo. O que quer dizer, dinheiro que poderia ter se gasto uma vez só, gastaram duas vezes.</p>
<p style="text-align:justify;">A luz foi um pouquinho antes dessa questão de vir a urbanização, logo após, assim, meados dos anos 1990. Um ano mais ou menos depois que nós já estávamos aqui. Pelo menos a gente que chegou por último, porque já tinha gente há aproximadamente seis meses. Então um ano depois a luz chegou oficialmente, mas antes foi aquela verdadeira migração, aquela gataria infernal.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>LIXO HUMANO</strong><br />
Porque, na verdade, em Jaguaripe foi construído um conjunto habitacional de embriões para os desabrigados, mas era tratado por todos como a favela de Jaguaripe II. Favela é um amontoado de barracos, de plástico. Aqui era tudo padronizado, tudo organizado. Construído pelo próprio governo, mas com aspecto de favela e todo mundo tratava assim. Quando acontecia um problema maior aqui:<br />
Aconteceu na invasão de Jaguaripe II.</p>
<p style="text-align:justify;">Era como se a gente fosse invasores. A gente aqui não tinha credibilidade, não tinha respeito, a gente não tinha nada. A gente ia no mercado na comunidade vizinha, Nova Brasília, comprar com nosso dinheiro e nós éramos destratados, nós éramos desrespeitados. Aí é que vinha a discriminação, a exclusão, vinha a falta de respeito e a violência.</p>
<p style="text-align:justify;">A gente era visto como lixo humano aqui, com certeza. Dentro do coletivo, muita gente dizia:<br />
- Tem que ter o transporte lá de Jaguaripe.</p>
<p style="text-align:justify;">Para a gente não utilizar aquele transporte daqui da comunidade vizinha.<br />
- Devia ter lá um posto de saúde para vocês usarem.<br />
- Devia ter uma escola para vocês.</p>
<p style="text-align:justify;">Então a gente era completamente discriminado. Foi muito difícil a adaptação, era tipo aquela guerra de gangues que a gente vê no dia-a-dia, porque não se unia as comunidades. Quando se tratava de Jaguaripe, as pessoas do lado só imaginavam assim: em Jaguaripe só tem criminosos, em Jaguaripe só tem ladrões, Jaguaripe só tem prostitutas, mas a verdade era essa. Então essa coisa acompanhou a gente por muito tempo, a gente se via mesmo refém dessa questão.</p>
<p style="text-align:justify;">Eram pessoas normais. Tinha suas problemáticas, como todo lugar tem, principalmente quando vem tribos de várias comunidades, né? Então era uma comunicação meio difícil, mas no que se tratava da comunidade ao lado, tudo para eles era “um balaio de gatos” só. Não interessava para eles se tinham pessoas decentes, era uma verdadeira discriminação contra essa comunidade.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>VAMOS LIMPAR DE NOVO</strong><br />
Tinha acessos, como a gente vê hoje, abertos, mas não existia urbanização, não existia asfalto, não existia nada. Tinha só as ruas abertas, que carro poderia entrar, tudo bem alinhada, no barro, na poeira mesmo.</p>
<p style="text-align:justify;">Esses conjuntos geralmente são mais planejados. Não é como quando você começa uma comunidade na base do facão, que nego bota uma casa no meio, aí para você fazer a passagem tem que desviar. Chega lá na frente desvia, porque alguém construiu no meio. Não achou mais terreno e diz:<br />
- Não, eu vou fazer aqui e acabou.</p>
<p style="text-align:justify;">Tinha essa organização, só que era na lama mesmo. Nessa época que a gente chegou aqui, a gente não precisava nem se alimentar, porque a gente engolia muita poeira, né? (risos). Limpava as casas, mas a poeira não deixava a gente em paz. Você botava uma roupa no varal e quando ventava &#8211; aqui venta muito -, aí, quando você ia ver, estava cheio de poeira.<br />
Vamos limpar de novo.</p>
<p style="text-align:justify;">Era um transtorno. Quando chovia, você tinha que sair com o sapato na mão para calçar quando chegasse lá no asfalto.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>ONDA DE VIOLÊNCIA</strong><br />
Logo no início a maioria não tinha televisão. Muitos que tinham até perderam, outros não tinham mesmo. Era até bom, porque se tivesse a energia caía. Geralmente ia um para a casa do outro para assistir a novela, se encontrava muito nessas horas, a hora da novela, para sair para a casa do outro. Praça mesmo não tinha.</p>
<p style="text-align:justify;">Existe um pequeno espaço aqui que foi organizado para, pelo menos, parecer com uma praça. Não ficou pronto. É aqui no largo, era um local justamente para ser feito uma pracinha, organizada, uma pracinha bonitinha, mas foi transformado em um aterro de lixo. Chegou época de ter tanto lixo &#8211; o local é largo, imenso -, mas chegou época de você passar de manhã e ter que empurrar o lixo assim para o lado, empurrar com o pé para passar. Era tanto lixo, a prefeitura não recolhia o lixo e era um transtorno muito grande para a gente. Como se diz na gíria: “Pense, pense numa montanha de lixo”. Era essa praça.</p>
<p style="text-align:justify;">Bem, quando foi urbanizado aqui a comunidade, que entrou o Viver Melhor, aí se criou esse espaçozinho, mesmo pequeno, mas nessa época assim, de muito calor, as pessoas se encontravam ali. Você via muita gente na pracinha, ficava ali batendo papo, mas ocorreu que começou aquela onda de violência. Aconteceu até assassinato. Eu cheguei a presenciar um assassinato nesse local de um jovem que estava sentado conversando com uma garota e um delinqüente daqui na época, chegou lá  e esfaqueou o garoto, a troco de nada. Deu várias facadas e matou o garoto naquele local, simplesmente porque ele achou que devia matar o garoto. Um garoto de uma índole decente, um garoto muito bom aqui na comunidade. Chegamos a fazer protesto, isso saiu até em rede nacional, eu tenho fotos desse protesto. Isso foi em 2000. Eu presenciei. Não foi que ninguém que me disse como aconteceu, eu estava passando na hora e vi quando ele chegou perto. Primeiro ele bateu no menino. O menino não reagiu, já estava saindo, estava a uns 10 metros. Ele voltou, puxou uma peixeira e esfaqueou o garoto. Isso foi trazendo medo na comunidade. E aí hoje a praça&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Depois veio a questão do tráfico de drogas, as pessoas usavam isso para está vendendo, comercializando drogas. Então os moradores, a gente presenciando isso&#8230; Ela foi ficando defasada. Até hoje a gente vem solicitando que seja restaurada, construída uma pracinha decente e isso não ocorreu, então as pessoas se afastaram desse espaço. Então,  na verdade, não é aquele ponto de encontro que poderia ser, para nós podermos está sentados ali batendo papo entre famílias, um ponto de encontro. Com essa onda também que as comunidades hoje, os bairros periféricos enfrentam da violência&#8230; As pessoas chegam atirando. Atiram e depois que vem saber quem era através de jornais. E geralmente até a imprensa tem aquela coisa de não querer saber também e bota logo “que tem envolvimento com o tráfico”. Tudo geralmente é assim, primeiro eles botam lá:<br />
- Tudo indica que tem envolvimento com o tráfico de drogas.</p>
<p style="text-align:justify;">Hoje é assim, as vítimas é quem estão sendo condenadas, mesmo embaixo da terra. Primeiro já está condenado porque já está morto. Geralmente a comunidade é vítima várias vezes.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>EDUCAÇÃO</strong><br />
Quando a gente chegou aqui, Vila Mar estava começando. Jardim Real também era muito pequeno. Dois de Julho: muito pequeno, muito pouca coisa. Hoje eu acho que o bairro de Nova Brasília, que compõe todas essas comunidades, é três vezes maior, o fluxo bem maior da população. E, para você ter uma idéia, foram construídas, de lá para cá, seis salas de aula, que é esse colégio aqui. Então, você vê que triplicou a população dessa comunidade e foram construídas seis salas de aula, de escola de pequeno porte.</p>
<p style="text-align:justify;">Só a 4ª série do primário. Então praticamente as escolas são as mesmas de lá para cá: o Vera Lux, já existia; o Adalto Pereira, que já existia; a Escola Irmã Elísia Maria, que é lá no lote, no Jardim Real, que já existia. Então, as escolas são insuficientes, desestruturadas para o ensino da nossa comunidade. Enfrentamos muita dificuldade nesse sentido, sem contar que muitos dos nossos filhos, nossos vizinhos, têm que sair para estudar no centro, que é outra tortura, é outra problemática. As escolas, quando nós encontramos, já eram precárias e continuam precárias.</p>
<p style="text-align:justify;">O Adalto é também em Nova Brasília. Antigamente era do governo e hoje, com a municipalização, passou para o município. O Vera Lux é do governo. A Irmã Elísia foi municipalizada. O Padre Ugo, aqui, é a mais nova dessas todas, de 97. Foi junto com a urbanização que ela foi construída. Junto com essa sede social aqui do Conselho, toda a urbanização de Jaguaripe II, no Projeto Viver Melhor.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>COMÉRCIO<br />
</strong>Quando a gente chegou aqui, na verdade, praticamente não existia comércio. Era muito pequeno o comércio daqui de Nova Brasília, muito acanhado. A maioria era quitanda, mercearias pequenas, não tinha um grande mercado aqui.</p>
<p style="text-align:justify;">O maior mercado que tinha aqui era o Mercado Santo Antonio. Era junto da praça do final de linha de Nova Brasília. E existia também uma casa &#8211; hoje é o super-mercado Portal &#8211; que era uma mercearia de um cidadão chamado Adílson. Ele morreu num acidente logo após a gente chegar aqui. Ele era uma pessoa muito boa, muito voltado para o social. Quando as pessoas precisavam de socorro, estava ali presente. E um dos que tinha maior porte era a Casa Néri, supermercado Néri, uma quitanda, que ainda tinha aquele balcão no meio.</p>
<p style="text-align:justify;">Depois da nossa chegada aqui, o comércio começou a crescer. O mercado Néri foi o que mais desenvolveu, mas, em compensação, o Santo Antonio fechou. O Adílson também, depois do acidente que veio a óbito, fechou. Aí ficaram só aquelas pequenas casas. O Néri fechou. Acho que foram para o interior e existe um outro mercado nesse local. Então o comércio era muito pequeno.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando chegamos aqui já existiam duas padarias. Hoje, entre padarias de médio porte e pequeno porte existem várias. Dessas do começo só existe uma. Acho que o nome dele é Antonio. Era panificadora Boa Massa e hoje não me lembro bem, porque ele reformou, já é praticamente um mercadinho também, que vende tudo.</p>
<p style="text-align:justify;">Tudo em Nova Brasília. Do lado de cá, nenhum. Quando as pessoas iam chegando, ficavam naquela expectativa:<br />
- Vou botar um comércio.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí botava aquelas quitandinhas, em casa mesmo, para vender bebida alcoólica, outros vendiam cereais e, na verdade, o comércio em Jaguaripe nunca decolou. Acho que é uma área mesmo que não tem vocação para comércio. A gente tem até aquela brincadeira aqui que as pessoas, se você botar um comércio aqui, as pessoas passam em sua porta, passam pertinho do seu estabelecimento, vão em Nova Brasília, compram e voltam, mas não compram na comunidade. Aqui tem aquela história que santo de casa não faz milagre.</p>
<p style="text-align:justify;">Jaguaripe é uma comunidade dentro do bairro de Nova Brasília. É como você tem a Liberdade e Curuzu, Pero Vaz, Bairro Guarani, que são bairros. Nova Brasília, além de Jaguaripe, tem o loteamento Vila Mar, loteamento Dois de Julho. Fazem parte de Nova Brasília, mas, por incrível que pareça, são comunidades desgarradas, não é comunidade que você, num movimento, está dentro. Você está na Rua Direta da Liberdade e quer ir para o Curuzu, não tem como dizer:<br />
- Eu passei assim por um espaço ocioso, sem movimento.</p>
<p>E aqui, não. Dois de Julho está lá próximo à Paralela, lá embaixo. O Vila Mar já está lá na frente&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>SAÚDE<br />
</strong>A saúde, eu acho que é pior do que quando a gente chegou. Retroagiu. Quando chegamos aqui, já existia esse posto de saúde em Nova Brasília, que é um posto minúsculo. Acho que não tem nem 100m2. Era para atender uma demanda de Nova Brasília há 25 anos atrás, na época que ele foi construído. Depois que a gente chegou, triplicou essa demanda e o posto continua o mesmo. Agora, uma correção: antigamente pelo menos você ainda encontrava um clínico, um pediatra, um dentista, um remédio e, hoje, você não encontra nada disso. Foi prometido pelo prefeito atual na época de suas campanhas que acabaria com as filas em posto de saúde. E ele acabou, porque não tem médico, não tem nenhuma demanda, lógico, tem que acabar com as filas, não precisa fila. Eu vou lá para quê? Então a saúde é pior do que o que era no passado.</p>
<p style="text-align:justify;">Então, o que acontece com isso? Acontece que só faz prevalecer as campanhas políticas, os políticos. A comunidade não tem médico, mas a Câmara de Vereadores tem mais médicos do que grandes hospitais.  A maioria dos vereadores são médicos. Ele então faz o seguinte, monta uma estratégia: o vereador tal vai atender em Jaguaripe II. Eles vêm aqui, pedem uma casa, uma associação ou uma igreja, para estar de 15 em 15 dias. Aí ele vem, a cada 15 dias e atende 10 pessoas. Atende entre aspas, porque faz o seguinte: entra, olha para a sua cara, mede a sua pressão e lhe dá um monte de guias para você fazer seus exames. E aí você vai para o SUS fazer todos os exames. Depois que você pega seus exames, com toda dificuldade, você volta para ele, ele lhe dá uma receita e você volta para o SUS para pegar o remédio. Quando, na verdade, ele não está fazendo nada demais</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>NEGOCIATA<br />
</strong>Aqui mesmo tem uma história verídica. Nós temos até o Diário Oficial em que foi aprovada a construção de um posto médico aqui para a nossa comunidade. Acho que foi em 2004 que saiu no Diário Oficial que esse posto seria construído aqui, ainda na gestão de Imbassai. Um posto de saúde da família. E quando saiu essa licitação para comprar um espaço para construir esse posto, fizeram o quê? Tinha um cidadão que era coordenador da Regional 13, AR13, a administração regional da prefeitura, que seria o caminho mais curto da comunidade para os poderes públicos. Ma se torna mais difícil, porque esse cidadão era uma pessoa que pleiteava ser um representante, como é um vereador. Então esse cidadão fez o seguinte: veio a licitação e ele, como não é morador, não tinha nada a ver, ele tinha interesse de que fosse negociado um imóvel aqui na comunidade. Então, enquanto a secretaria abriu para a comunidade ver um local mais amplo, um local legal para se construir o posto, para que a prefeitura comprasse, ele começou a negociar junto com sua influência &#8211; como administrador da AR -, a negociar um espaço que não tinha mínima condição para se construir o posto.</p>
<p style="text-align:justify;">Segundo a lenda, negociando esse espaço, ele ia ter uma boa porcentagem. O que aconteceu com isso? Para ele fazer isso, já que ele tinha pela frente lideranças com visão &#8211; como a nossa, como o pessoal do Vila Mar, outras lideranças que tinha por aqui -,  eles sentiram dificuldade, porque a gente estava procurando um espaço adequado que desse para se construir um posto de qualidade. O que acontece? Quando ele se viu que a gente não abria mão de um espaço decente, ele se associaram a aqueles mesmos do passado que negociaram a água, que negociaram tudo de ruim aqui para a comunidade, que vivem explorando a miséria da comunidade, pegaram essa gente e prometeram dar uma porcentagem para esse grupo. Na verdade, não foi um grupo, foi uma quadrilha.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí essa quadrilha se viu meio sem força para fazer isso, mas o que aconteceu? Um candidato, na época, a vereador &#8211; estava se aproximando uma  Semana Santa &#8211; prometeu 500 quilos de peixe para distribuir com a comunidade. Um político, candidato, não quero citar nomes, prometeu para um cabo eleitoral dele, que é aquele mesmo das histórias desde o início. Ele chegou na comunidade e disse:<br />
- Pôxa, caiu a sopa no mel.</p>
<p style="text-align:justify;">Ele fez o quê? Pegou esse peixe e usou assim: já que a comunidade precisava aprovar para se comprar esse espaço, ele botou uma mesinha na porta de uma casa aqui e chamou a comunidade para cadastrar para dar o peixe da Semana Santa. Essas pessoas, inocentemente, para ganhar o peixe&#8230; Ou gosta também muito de bolacha quebrada, como dizem, né? Foi lá, cadastrou todo mundo, botou CPF, endereço, RG, número de título, tudo direitinho. Isso são 500 famílias. Ele pegou tudo isso, botou debaixo do braço e entregou a esse cidadão, que essas famílias aprovavam a compra, que fez uma reunião com essas famílias e que essas famílias aprovavam a compra. Quer dizer, um crime perfeito. Aí pegaram, levaram à secretaria e compraram o imóvel. A secretaria foi lá e pagou. Esse imóvel, na época, provavelmente, por mais que ele valesse, ele valia aproximadamente uns R$40 mil, por mais que ele valesse. E – não tenho precisão, já tentei de todas as maneiras saber – já ouvi dizer que custou R$120 mil, outros dizem que R$ 170 mil. Outros:<br />
- Ah, foi muito mais.</p>
<p style="text-align:justify;">E, aí, foi uma verdadeira farra do boi. Compraram esse espaço e a secretaria pagou.</p>
<p style="text-align:justify;">Nesse local funcionava uma padaria. Tinha uns maquinários velhos, sucateados&#8230; Porque a briga de quadrilha é assim: quando está todo mundo junto, enquanto não tem a quebra da divisão, eles estão todos unidos. Na hora que o chefe da quadrilha quebra alguém ou alguém quebra o chefe, aí se dividem e começa a cada um falar tudo o que sabe:<br />
- Ah, mas infelizmente eu não provo. Aconteceu isso e ele não pagou meu dinheiro. Disse que ia me dar X e não me deu X. E eu fiz e aconteci.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí começou a briga, um a denunciar o outro. E o que aconteceu? Ganharam maquinários, que, dizem, era para se colocar uma padaria comunitária. A conversa era essa, para tapear a comunidade. E, segundo outras pessoas, dizem que teve mais R$ 5 mil para montar essa padaria comunitária. O que ocorreu?  Eles receberam, não pagaram, um não deu o dinheiro ao outro, houve uma quebrança.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>SEM CONDIÇÕES</strong><br />
E, aí, o que aconteceu?  Quando isso veio à tona, moral da história: a comunidade pagou um preço altíssimo. Na época que estava se negociando isso, além das áreas que a gente tinha vistoriado, que seria perfeita para se construir o posto, tem uma área também aqui na nossa comunidade que dava para se construir o posto tranqüilo, que foi oferecida no 0800 para a secretaria. Eu tenho documento aqui onde eles disseram que o local era apto para se construir o posto, mas, infelizmente, a prefeitura já estava desapropriando&#8230; Que desapropriação é essa de mais de R$100 mil? Que estava desapropriando uma área para se construir o posto.</p>
<p style="text-align:justify;">O local é em cima da pista. Você, saindo daqui, na primeira à direita você vai encontrar a entrada de Nova Brasília. Assim que tem a entrada de Nova Brasília, você vai ver uma casa com porta de aço, duas a três portas de aço, que está fechada até hoje. Se fosse um imóvel que se comprasse para implantar o posto, que tivesse condições de se implantar o posto, até tudo bem&#8230; Mas é comprar, demolir tudo, voltar ao pó, ao zero, para se construir o espaço. Se você fosse uma médica, chegasse lá, você ia botar seu carro aonde? No meio da rua, ou estacionava na borda da Estrada Velha, porque não tem local para se fazer estacionamento. Hoje mesmo, você vai ver, na frente dessas portas de ferro tem um ponto de moto-taxi, os meninos botaram um ponto de moto-taxi aí na frente, bem na frente mesmo. Então, segundo eles, vai demolir tudo e se fazer. </p>
<p style="text-align:justify;">Então entramos com uma ação para que não fosse colocado o posto ali, uma ação na secretaria de saúde, que aquilo ali não tinha a mínima condição. E todos os especialistas que estiveram no local disseram que ali não tinha a mínima condição de se construir, inclusive o atual secretário de saúde hoje. Até ele chegou aí e disse:<br />
- Não, para fazer um posto aqui, tem que mexer com pista, a pista está muito em cima, é muito perigoso. Tem que deslocar pista, tem que fazer, tem que acontecer.</p>
<p style="text-align:justify;">E, poucos dias depois, esse mesmo grupo que fez todo esse problema, conseguiu reverter em cima desse próprio secretário, que na época era gerente de operação da secretaria, nessa mesma gestão. Ele esteve aqui, discutiu com a gente, olhou outros espaços em que poderia estar implantando o posto, porque ali era horrível, não tinha nenhuma condição. E, em poucos dias, ele veio com outra história: que tinha condição, que o local era bom. E o engenheiro da secretaria, com uma planta muito bem feita. Ninguém tem nada contra o projeto, ótimo, vários consultórios dentro de um padrão muito bom, mas, em compensação, esse cara, segundo informações, participou dessa mesma quadrilha. Para aprovar aquilo ali, um engenheiro tinha que  dizer  se o local era&#8230; E ele batia pé firme em todas as reuniões em que ele foi chamado que o local era bom, que ia fazer, acontecer, que ia desmanchar tudo e se construir tudo de novo. Então é uma história mirabolante essa questão da saúde em nossa comunidade. E a comunidade continua sem saúde.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí a gente retomou a negociação com o secretário (esse que foi exonerado). Trouxemos ele aqui, fizemos um seminário sobre saúde, convidamos todas as lideranças da abrangência e discutimos aqui com ele.<br />
- Não, vambora vê. Agora precisamos ter um estudo para ver como vai fazer. Se a comunidade não quer que seja ali, vambora ver outro espaço.</p>
<p style="text-align:justify;">Quem veio aqui e não foi a favor do local de construção é o que hoje é o secretário, mas o engenheiro, por sua vez, que estava mais enrolado do que outra coisa nessa compra, provou, conseguiu botar na cabeça. A coordenadora do distrito veio aqui e disse:<br />
- Não tem a mínima condição de se fazer.</p>
<p style="text-align:justify;">E depois ela já estava dizendo que tinha condição, porque foi chamada&#8230; Não sei se por isso ou por aquilo, perdeu até seu posto. Não sei se foi por isso, mas que a gente bateu pé firme que ela disse mesmo, que ela falou aqui conosco. E poucos dias depois eles já estavam até contra a nossa comissão que estava negociando isso e já estavam a favor da comissão que negociou tudo isso, de um grupo de moradores da comunidade que sobrevive da miséria da nossa comunidade.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>90 DIAS</strong><br />
Aí, o que ocorreu? Ficou certo de ver o que se fazia, já que a gente já estava no fogo, a secretaria não poderia comprar outro espaço, para a gente ver como negociar aqui com a comunidade, para ver se a gente construía ali. E eu disse para ele:<br />
- Vamos sentar com a comunidade e vamos tentar negociar.</p>
<p style="text-align:justify;">Fizemos essa reunião no distrito de manhã com a coordenadora do distrito, o Sr. &#8230;, o engenheiro da prefeitura. No outro dia, eles marcaram outra reunião com essa mesma quadrilha e lá eles já trouxeram outra coisa. Os caras disseram:<br />
- Nós vamos aprovar.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando foi 6h da tarde, passaram com um carro de som avisando que esse pessoal vinha para aqui e gostaria que os moradores estivessem lá para aprovar a construção do posto ali. Aí foram alguns moradores, juntamente com esses mentores intelectuais da saúde de Nova Brasília, chegaram lá e aprovaram. Segundo eles, estava aprovado. Para a comunidade, que não sabe da história, a necessidade&#8230; A gente simplesmente fez o seguinte, a gente recuou, para que acontecesse. Até mesmo porque, aquelas pessoas que lá estavam, se a gente fosse dizer:<br />
- Não, a gente vai bater pé firme para não construir”.</p>
<p style="text-align:justify;">Iam dizer:<br />
- Não tem o posto porque eles não querem.</p>
<p style="text-align:justify;">O que eles disseram?<br />
- Se a comunidade aprovar, nós imediatamente construímos. O projeto está pronto, só é começar.</p>
<p style="text-align:justify;">Teve uma reunião e o secretário chegou para nós, uma comissão que ali estava, de lideranças, fez todos os cálculos dele &#8211; de licitação, de Diário Oficial, de tudo – e disse:<br />
- Me dê 90 dias para começar a construir o posto.</p>
<p style="text-align:justify;">A gente disse para ele:<br />
- Tudo bem.</p>
<p style="text-align:justify;">A gente veio para casa super feliz e hoje está se completando quase um ano e meio e ele não começou nada ainda. Quando chega a eleição eles vão dizer o seguinte:<br />
- Infelizmente ano de eleição nós não podemos fazer nada, vão dizer que foi coisa eleitoreira.</p>
<p style="text-align:justify;">Essa semana eu vi até assinaram aí um protocolo que vão ser construídos e reformados 11 postos de saúde em vários pontos de Salvador e, por incrível que pareça, o que eu estou sabendo é que o posto Nova Brasília está fora desses 11. Chegaram até ali próximo, em Marotinho. Lá também tem mais de dois anos que tem uma placa bem grande dizendo que a prefeitura está trabalhando. E o nosso, desde a gestão passada já estava no Diário Oficial e não vai sair. É como se a secretaria estivesse querendo perseguir a nossa comunidade. Quando você luta em prol da melhor qualidade de vida das nossas comunidades, eles chegam lá e revertem:<br />
- Não, isso aí é briga de comunidade, é briga de poderes na comunidade.</p>
<p style="text-align:justify;">Tem aproximadamente uns quatro meses que tem um médico aí através de um candidato. Entra em cena aquele mesmo grupo daquela quadrilha. Alugaram uma casa, botaram um clínico, não sei se um dentista&#8230; Segundo eles, estão atendendo a comunidade. Aqui dentro tem um vereador que atende. Esse mesmo atende em Nova Brasília. Tem esse candidato que atende ali. Tem outro vereador que atende no lote Jardim Real. Então os vereadores ficam tentando fazer esse tipo de picuinha dentro da comunidade, invés de brigar assim:<br />
- Não, nós queremos que faça o posto.</p>
<p style="text-align:justify;">Se fizer o posto, eles vão poder estar dentro da comunidade com a faixa dele?<br />
- Doutor Fulano de tal atende aqui. Vereador Fulano de tal atende aqui.</p>
<p style="text-align:justify;">Não existe&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>POSTO</strong><br />
Do início dessa gestão da prefeitura para cá, não teve mais médico no posto, pelo contrário. Minto. Teve um médico nessa gestão ainda, que se dizia que era médico. Esse cara era mais para estar lá no Juliano. Ele estava atendendo, aí chegava uma mãe de família e ia ser atendida por ele. Ele olhava para aquela criatura e dizia assim:<br />
- Não, você não tem nada, você está ótima, você está precisando é fazer sexo e de preferência de tal posição assim. Isso que você está precisando.</p>
<p style="text-align:justify;">Ele receitava muito esse tipo de coisa. Tanto que, quando soubemos disso, levamos ao conhecimento da gerente e a gerente afastou ele daqui. Depois eu soube que em outras comunidades ele procedia com a mesma conduta. E daí para cá saiu esse médico e não veio mais outro médico.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando eu estava questionando a construção do posto com o secretário, ele, no maior cinismo, naquela elegância dele, disse o seguinte:<br />
 - Não se faz saúde se construindo paredes.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu disse a ele que concordava, mas que entre as paredes que estavam construídas que tivesse profissionais, porque sem profissionais ele não conseguia. Aí eles se fingem de inocentes:<br />
- E lá não tem médico?</p>
<p style="text-align:justify;">E a gente falando o tempo todo, mandando documento o tempo todo. E nunca chegou profissional. Aí, quem atende a comunidade são enfermeiras formadas, que estão aí trabalhando, atendendo as pessoas no posto. Acho que tem dentista aí só para criança. Os aparelhos quebrados, não tem a mínima estrutura. É tipo revezamento. Se o dentista estiver atendendo, outro não pode atender, porque não tem espaço.</p>
<p style="text-align:justify;">Aqui as pessoas migram muito, o posto de maior potencial aqui é o de Sete de Abril. Atendia melhor, na verdade, nenhum hoje atende nada. Os postos aqui, na gestão atual, não atendem ninguém. Então as pessoas vão muito para Sete de Abril. Esperam a coisa ficar feia mesma para correr para uma emergência. É atendido na emergência de São Marcos ou a gente leva aqui para Cajazeira, que é o local mais próximo. Lá tem um posto de emergência também. Está numa área bem mais populosa e atende mais rápido. Lá é do governo e aqui é do município. Lá o atendimento é muito melhor. É o local que o pessoal vai. Os postos de saúde não existem.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>SAÚDE DA FAMÍLIA<br />
</strong>Existia aqui na comunidade um agente de saúde que não está aqui mais. Ele deve estar em casa. É uma pessoa muito boa, tinha uma consciência muito grande. Então ele sempre conversava muito comigo, que não adiantava ele está nas casas das pessoas simplesmente para estar de conversa, porque ele chegava &#8211; tinha uma cota, acho que 150 famílias cada agente -, atendia a família, levava o problema para o posto e o posto não tinha nenhuma estrutura. E sem contar que os profissionais do posto acham que o agente não é credenciado da saúde e às vezes não dão a devida atenção. Quando são pessoas que têm uma amizade, uma consciência, tudo bem, mas geralmente eles não atendem.</p>
<p style="text-align:justify;">Se você me dissesse aqui agora:<br />
- É viável um posto de saúde da família aqui?</p>
<p style="text-align:justify;">Eu não sei bem se eu dizia a você que eu acharia viável. Pelo que a gente vê, não deu certo. Não deu certo em lugar nenhum. Primeiro que você tem uma cota. Digamos que o posto de saúde vai atender 2 mil famílias. Se você tem 5 mil famílias, você fica com 3 mil famílias descobertas. Ela atende num raio em volta do posto. Nunca consegue atingir todos, de maneira nenhuma. E, vamos supor, eu fico de fora. Aí eu tenho um filho, meu filho dá um dor, dá uma convulsão, eu vou até aquele posto. Chego lá, eu não sou cadastrado, minha família não é cadastrada no posto, aí eu não vou ser atendido. Não vou ser atendido porque eu não sou cadastrado. Aí você acha que eu estou vendo meu filho morrendo, eu vou ficar calmo?</p>
<p style="text-align:justify;">O que se reclama muito nos postos onde eu tenho conversado com as pessoas é que não atendem. Não atendem os que são cadastrados, as pessoas que estão dentro, imagina as outras pessoas. Você chega em Canabrava mesmo, tenho amigos que são agentes de saúde lá. Primeiro, que eles não pagam os agentes. Os agentes não são profissionais da saúde, são terceirizados. Eles não pagam os funcionários, as equipes são insuficientes para atender as pessoas todas. Eu acho que seria muito mais viável, como a gente vem discutindo aqui, que seja um posto de abrangência, um posto que atenda a todos. Não que seja 24h, a gente não quer que seja um posto de emergência, mas um posto que venha atender tudo, que tenha laboratório, que tenha tudo. E que atenda a gregos e troianos. A gente não quer um postinho aqui para ser atendido meia dúzia de pessoas.</p>
<p style="text-align:justify;">
Entrevista realizada nos dias 05 e 14 de novembro de 2007.</p>
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		<title>Jacira de Brito</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Jul 2008 20:09:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Soteropolitanos</dc:creator>
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Eu sou Jacira de Brito, nasci em Conceição de Jacuípe, em 1953. Cheguei aqui com 22 anos, morei na Capelinha, depois em Campinas de Pirajá e depois fui para Nova Brasília. Em Nova Brasília tenho 16 anos. Minha filha quando foi para lá tinha 13 anos e meu filho tinha 9.
Encontrei muita coisa desorganizada. Recebi [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com&blog=1555239&post=97&subd=soteropolitanosdaestradavelha&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/rua.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-98" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/rua.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a><br />
Eu sou Jacira de Brito, nasci em Conceição de Jacuípe, em 1953. Cheguei aqui com 22 anos, morei na Capelinha, depois em Campinas de Pirajá e depois fui para Nova Brasília. Em Nova Brasília tenho 16 anos. Minha filha quando foi para lá tinha 13 anos e meu filho tinha 9.</p>
<p style="text-align:justify;">Encontrei muita coisa desorganizada. Recebi uma casa sem reboco, sem piso, sem luz, sem água, não tinha nada. Levamos 15 dias sem luz. Eu não fui logo quando recebi a casa. Levei  um ano para poder morar lá, mas as outras pessoas que receberam foram todo mundo morar logo. Eu recebi a casa assim: só dois cômodos e um terreno do lado para construir os quartos.<span id="more-97"></span></p>
<p style="text-align:justify;">A vizinhança é boa, apesar das fofocas, de muitos quererem se meter na vida dos outros, mas você não tem queixa dos vizinhos. Eu não devo nada a ninguém, vivo dos meus custos, do meu trabalho. E agora, com meu neto, estou uma avó babona. Eu acho que ali tem que melhorar cada vez mais.  A população ali faz com que as coisas melhorem mais.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>TIPO UMA TROCA</strong><br />
Bom, essa casa foi fornecida porque a de Capelinha teve um acidente. A terra desceu na frente da minha casa e algumas casas caíram na época, outras racharam o muro. A minha, por sinal, rachou o muro. Aí foi quando saiu essa Codesal. Aí foram lá em Capelinha, inutilizaram aquelas casas todas para ninguém morar e deram a casa  a quem teve prejuízo, em Nova Brasília. Foi tipo uma troca.</p>
<p style="text-align:justify;">Não tinha nada, só tinha mesmo dois cômodos cobertos, sem nada, sem piso, sem parede, rebocada, sem nada. Eu fui fazendo aos poucos, botei piso, reboquei, isso antes de eu ir morar lá. Porque um ano eu não fui morar lá. Fiquei na casa do meu sobrinho em Águas Claras. A gente largou a casa lá, ficou todo mundo com medo. Quando eu cheguei, com um ano, ainda peguei essa fase de não ter água. E aí foi continuando, depois era muita lama, não tinha asfalto, nada&#8230; Nova Brasília tinha, mas entrando para Jaguaripe não tinha nada.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>ÁGUA</strong><br />
Carregamos muita água na cabeça. Comprei água para beber. Não tinha água, só tinha água de carro pipa. Um carro pipa é que levava água, para poder a gente fazer fila de balde para poder conseguir pegar água. Era muita briga na fila, até tapa saía. E aí, depois de um mês e pouco, conseguiram botar algumas torneiras no bairro para fornecer água naquelas torneiras. Aí continuava a fila novamente. Nas casas ainda não tinha, em algumas casas, no outro lado, que botaram umas torneiras. Do outro lado do Jaguaripe, no mesmo Jaguaripe,  só que é  Jaguaripe I e Jaguaripe II. Eu moro em Jaguaripe I. Também é Nova Brasília.</p>
<p style="text-align:justify;">Depois de um mês e pouco jogaram água para as casas. Só que a água, quando chegava, era 4h da manhã, 3h. Passei muitas noites sem dormir, esperando a água chegar, para pegar de pingo em pingo, até encher os toneizinhos, o tanque, que era lá em cima. A gente tinha que subir de escada, com os baldes de água na cabeça para botar a água. Quando todo mundo abria as torneiras, em algumas casas faltava, porque quem vinha de frente pegava mais e como minha casa era mais reservada&#8230; O tanque ficava lá em cima. A água vinha e jogava por esse cano para dentro do tanque. Só que, quando não subia, porque estava fraca, a gente botava uma mangueira na torneira, ia enchendo os baldes e jogando para cima. Uma pessoa subindo na escada e enchendo o tanque, para no outro dia ter água em casa. Depois de uns dois meses já começaram a legalizar tudo. Aí já tinha água em todas as casas.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando chegou a água normal, todo mundo ficou com sua água. Mas para lavar roupa a gente tinha que ir lá embaixo no rio. No rio tinha água corrente, porque em casa não dava para lavar. Não tinha como você lavar a roupa porque era muito água. A gente economizava, para no outro dia, se o carro pipa não fosse, a gente ter água.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>SERVIÇOS</strong><br />
E aí fomos levando a vida, o mercado foi crescendo. Quando veio uma campanha lá, que resolveram asfaltar a rua,  botaram calçamento, deixaram a rua toda bonitinha. Aí foi por volta de uns dois anos. Eu me lembro que era um barro danado. A gente limpava a casa, quando chovia, as casas pareciam aquela lameira.</p>
<p style="text-align:justify;">Tinha um posto policial no final de linha, mas nunca  tinha policial. Sempre que você chegava no posto, não tinha policial. Acabaram tirando o posto. Hoje em dia não tem mais posto lá. De tanto ficar fechado sem policial, resolveram arrancar o posto. Quando acontecia alguma coisa lá embaixo, que a gente ia chamar o policial, se tivesse dois, ia lá embaixo. Se tivesse um, ninguém descia. Todo mundo tinha medo de ir lá. Quer dizer que a gente ficava praticamente sem cobertura nenhuma. Até hoje continua sem cobertura, porque só tem posto policial em Sete de Abril, o mais próximo. Sete de Abril e Jardim  Esperança. Nova Brasília não tem nada.</p>
<p style="text-align:justify;">O posto médico já tinha, mas para atendimento é naquela base ali: quando tem, você é atendido, quando não tem, tem que ir para fora. Se você quiser fazer um exame, tem que fazer para fora, porque lá não tem coleta para fazer o exame. Pega o conteúdo e leva para o São Rafael e aí depois é um mês, um mês e pouco para você receber o resultado do exame. Se você quiser fazer um curativo, tem vezes que não tem nem uma gaze. Você tem que levar tudo.</p>
<p style="text-align:justify;">As mudanças que a gente foi percebendo é que o bairro realmente melhorou. Já tinha o Colégio Vera Lux, já tinha o Adauto. E aí botaram o mercado, agora já tem vários mercados para você escolher. Pista direta que o carro vai até a porta. Porque antigamente o táxi não descia. Você pegava um táxi, chegava ali na entrada e você tinha que saltar, a hora que fosse, porque o táxi não descia.</p>
<p style="text-align:justify;">As mulheres, algumas trabalham, outras não. Os maridos também, alguns trabalham, outros não.   Geralmente as mulheres trabalham mais que os homens. Os homens ficam mais tomando sua “pingazinha” e procurando fofoca.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu agora acho que Nova Brasília para mim é uma cidade. Só falta em Nova Brasília mesmo um shopping maior, porque loja de roupa tem bastante. Se você não quiser vir para a cidade, você compra  tudo lá. Você sobe para o fim de linha ou até mesmo no bairro, você encontra três, quatro lojas de roupa, sapato. Quando eu cheguei não tinha nada disso. Aí as pessoas foram botando suas barraquinhas para vender algumas coisas, foram construindo alguns barzinhos e trabalhando fora.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>VEREADORES</strong><br />
No posto médico sempre aconteceu alguma falha. Nesses últimos dias, dizem que já está tendo médico para criança. Já entrou outros candidatos que botaram assim tipo uma clinicazinha, atendendo também as pessoas. Candidato a vereador. Aí vai ajudando. Sempre aparece vereador. Quando aparece um, tem sempre as pessoas que ficam encarregadas, que o candidato bota para fazer campanha. Eles ajudam muito, só que às vezes as pessoas que fazem isso não distribuem para o povo. Quer dizer, recebe aquela mercadoria e recolhe. Então o povo fica sempre em falta. Fica pedindo voto&#8230; Eles pedem para votar neles.<br />
- A gente está fazendo isso aqui, vocês também tem que ajudar a gente. Não estamos dando comida para vocês votarem por 1 kg de feijão, mas também ajudem a gente a crescer, que a gente vai melhorar o bairro, fazer alguma coisa.</p>
<p style="text-align:justify;">E muitos fazem, consertam muitos lugares. XXX começou a dar consulta no meio da rua, debaixo de um pé de árvore que tem lá, um pé de amêndoa, ali naquela pracinha. O carro pára ali, vai com uma médica, uma assistente e o candidato. Eles dão assim uma palestra, que eles estão querendo que o bairro melhore, ajudar as pessoas. Aí eles fazem cirurgia de graça. Eu mesmo já me operei com ele há oito anos atrás. Foi a equipe dele. Nessa época ele não operava ainda. Agora ele já está operando, mas ele tinha uma equipe muito boa. Ele continua lá. Agora ele está ajudando o primo dele. Tem uma clínica ali no Campo Grande, junto ao Hotel da Bahia, que ele está dando assistência. A pessoa vai para o médico e não paga nada. Faz exame. Se for exame caro, aí faz particular. A clínica tem convênio. Se a pessoa tiver uma carteirinha, você paga menos. Faz a carteirinha da clínica. A clínica, eu acho que não é deles mesmo. Eles estão atendendo, fazendo consulta.</p>
<p style="text-align:justify;">Na época da cirurgia, ele marca com a pessoa. E aí, digamos, você vai para tal lugar. Marca o lugar, a gente vai. Bota a gente no carro, dá uma palestra primeiro para todo mundo, explica como é. Aí leva você. Chega lá, ele interna, a pessoa tem toda a assistência, faz a cirurgia e no outro dia entrega a pessoa no mesmo lugar onde pegou, na casa da pessoa.</p>
<p style="text-align:justify;">Se não fosse esse tipo de atendimento seria tudo mais difícil. A gente tem que pagar o INAMPS. Para a gente fazer uma cirurgia dá trabalho. Tem gente que para fazer uma cirurgia lá tem três, quatro anos esperando vaga e com ele não. Com ele, você faz os exames hoje, e se daqui a um mês seu exame já estiver todo pronto, ele já marca a cirurgia.</p>
<p style="text-align:justify;">No ano passado, Dr. XXX recebeu muito voto. No primeiro ano ele não ganhou, mas continuou fazendo tudo o que ele fazia quando estava na espera de ganhar. Ele não parou. Com ele sempre tem, que tenha eleição, que não. Mas como ele já se candidatou e em todas ele se elegeu, ele está apoiando o primo dele, mas está dando toda a cobertura. Então ele fala:<br />
- Minha gente, como vocês me ajudaram, espero que vocês também reconheçam e ajudem essa pessoa, porque essa pessoa também vai fazer a mesma coisa que eu.</p>
<p style="text-align:justify;">E ele está continuando também. Por sinal, agora, a minha cirurgia que eu estava pronta para fazer, só vou fazer com ele. Não pago nada. Eles só pedem a minha identidade e o CPF. Aí eles passam a requisição. A gente vai para o médico, faz os exames e depois leva pra ele. Quando ele vê o resultado dos exames, aí ele fala. Se tem algum problema, ele passa remédio. Quando tem no posto, ele manda a gente pegar no posto. Quando não tem, tem que comprar. Eu continuo com ele. Gostei muito.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>A PARTE  PIOR</strong><br />
Hoje em dia falta um posto policial, porque está acontecendo muitas coisas em Nova Brasília. Esse ano aconteceu e está acontecendo.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando a gente chegou logo, sempre acontecia coisas pequenas, no outro Jaguaripe, que é do outro lado, faz parte do Jaguaripe, mas é do outro lado. Foi uma época que veio uma quadrilha da Liberdade, que aí fizeram extermínio lá mesmo. Na época que mataram acho que sete pessoas. Aí foi a parte pior.</p>
<p style="text-align:justify;">Acho que tem uns 15 anos que aconteceu isso. Aí veio uma quadrilha que se escondia também no matagal, lá debaixo, no rio, que aí fazia medo. Todo mundo ficava com medo, porque eles ameaçavam as pessoas. A polícia estava atrás deles e eles chegavam para as pessoas que moravam e diziam:<br />
Se você não me der cobertura eu venho aqui e lhe apago.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando chegavam na porta, pediam comida, pediam uma guarida, a pessoa tinha que&#8230; Mesmo sabendo que era arriscado, fazia, porque com eles seria pior. Então muitas pessoas deram cobertura a esses bandidos. Por sinal, teve uma vez que uma senhora lá deu cobertura a um, deu comida, deixou ele descansar na beira da casa. Aí foram e denunciaram ela. E aí um policial que tem lá foi lá, pegou ela e deu muito pau nela dentro de casa. E hoje em dia ela se sente prejudicada devido a  esses pontapés que ela tomou do policial. E mesmo ela falando que deu porque era ameaçada, mas eles achavam que ela tinha que recuar, não tinha que dar. Depois disseram que mataram alguns. Aí os outros caíram fora, porque ficaram sem cobertura dos “grandões”, mas hoje em dia ainda está acontecendo muitas coisas lá.</p>
<p style="text-align:justify;">De ruim, o que nunca esqueço foi essa matança que teve lá. Teve outro rapaz que morava na  minha rua que mataram lá no outro Jaguaripe. A gente foi ver, estava lá embaixo na ribanceira, e até hoje ninguém sabe quem foi. Teve outro também que morreu na entrada da minha rua, porque vinha de lá de cima e tinha discutido com outro rapaz lá no campo, no baba. Uns oito dias depois teve uma festa lá no final de linha, ele estava lá na festa. Depois ele pegou o filho e veio embora. Aí o cara viu ele. Tinha jurado ele, porque ele foi defender um outro em que ele deu uma canelada na perna. Aí ele foi defender:<br />
- Rapaz, não faça isso não, que a gente está brincando de baba.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí ele disse:<br />
- Ah, você está defendendo ele? Então você me aguarde.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí ele não levou a sério. Uma brincadeira de campo, ele não levou a sério. Nesse dia da festa, ele foi lá para cima, bebeu, levou o filho de 5 anos, e ele desceu para casa umas 5h da tarde. Quando ele desceu, parou em frente de uma casa e ficou conversando com um rapaz. Aí o cara veio atrás dele, de moto, seguindo devagarzinho. Quando ele entrou na rua, que parou na frente da casa para conversar com o pessoal, ele desceu da moto, botou o capacete na mão,  pegou o revólver, botou debaixo do capacete e veio andando normalmente. Como ninguém conhecia quem era&#8230; Quando chegou perto, chamou pelo nome dele. Na hora que ele olhou, correu, largou o menino e tomou três tiros. Quando foram pegar, já estava morto.</p>
<p style="text-align:justify;">Um dia de domingo também, nessa casa de candomblé que botou lá agora, estava todo mundo lá fora no terreiro, sambando, fazendo seus negócios. Aí vem um cara com um revólver na mão, procurando não sei quem. Foi é gente correndo. Gente voltando da porta correndo:<br />
- Fecha tudo, fecha tudo.</p>
<p style="text-align:justify;">Quer dizer, o cara desceu pelo meio de todo mundo, procurando uma pessoa, e dando tiro. Ele não olha quem está: tem criança, tem muita gente na rua. Então eu acho que o que está pegando lá agora são essas coisas, porque se tivesse um posto policial ali essas coisas não aconteciam. Então ali eu só peço melhora. Eu não tenho vontade de sair dali, mas se as coisas continuarem assim, eu não sei até quando, porque a gente vai chegando, já fica com medo. 4h da manhã você já sobe com medo ali.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>RIXA</strong><br />
Antigamente aquilo ali parecia mais uma favela. Era tanto que quando você pegava um táxi na rua, o táxi não descia, porque dizia que ali era a favela do Jaguaripe. Quando eu fui morar lá, esbarrava no caminho com um monte de gente com pedaço de pau de todo tamanho, porque o pessoal de Nova Brasília não podia descer para o Jaguaripe e nem o de Jaguaripe podia subir para Nova Brasília. Era uma rixa deles, como se achasse que depois que chegou Jaguaripe, ia tomar o lugar.<br />
Nova Brasília é mais antigo. Então chegou muita gente para o Jaguaripe. Quando a pessoa descia, você tinha que avisar:<br />
- Eu moro aqui, viu?</p>
<p style="text-align:justify;">Porque se não você caía na madeira.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PARECE UM BAIRRO</strong><br />
O bairro hoje está crescendo para os dois lados, porque muita gente já construiu suas casas, fizeram casas melhores. Você conta poucas casas que ainda estão como recebeu. Todo mundo já fez um pouquinho, um já puxou um quarto para o lado&#8230; Porque quem recebeu a casa, recebeu com o terreno. Aí quem ainda não tinha construído, já construiu, a casa já aumentou. Aí é casa de frente, casa de fundo, só fica mesmo a pista para você passar. O carro vai na porta.</p>
<p style="text-align:justify;">Hoje parece um bairro. Hoje em dia você não vê mais ninguém falar de Jaguaripe. Era tanto que se você chegasse num ônibus e você visse alguém comentando alguma coisa do Jaguaripe, você não dizia que morava lá. Porque nego só falava:<br />
- Ali só mora favelado, é tudo ladrão, é a maior quadrilha.</p>
<p style="text-align:justify;">Hoje eu não vejo ninguém falar isso. Eu já vi muitas pessoas falarem que Jaguaripe cresceu muito e modificou. Agora eu acho que o bairro de Jaguaripe I cresceu mais, em contagem de casas, do que o Jaguaripe II. Tem mais espaço e também o Jaguaripe I é muito falado. É onde acontece muita coisa: Jaguaripe I. Eu acho que Nova Brasília também cresceu com a vinda de Jaguaripe. Porque Nova Brasília era pequeno, era aquele bairrozinho ali só, tinha dois mercadinhos.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FESTAS</strong><br />
Uma vez que tentaram botar uma festinha lá no largo, deu confusão, deu briga, aí ninguém mais fez nada. Porque se você fizer uma brincadeira lá, com poucas horas aparece meio mundo de gente que não presta e aí começa a querer fazer bagunça, entendeu? Então as pessoas não se reúnem muito.<br />
Por sinal, a gente estava até discutindo isso um dia desses, que os vizinhos tinham que se reunir mais. Assim, em tempo de Natal, em tempo de Ano Novo ou São João, aquele povo todo que está ali no caminho da minha casa, se reunissem todos os moradores e fizessem uma coisa bonita ali na entrada&#8230; Enfeitava de bandeira e fazia assim uma festa de São João. Porque todo mundo dentro de casa faz alguma coisa, então, reunia todo mundo, cada um fazia assim dois pratos, botava em uma mesa e, pronto, fazia aquela festa. Mas não, ninguém se reúne assim.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>RELIGIÃO</strong><br />
Lá tem bastante gente cristã. Só na descida da minha casa tem cinco igrejas, fora da entrada da minha casa, logo da pista. Começaram a aparecer depois de um tempo que eu já estava lá. Essa casa que hoje em dia é uma igreja era de morador. Tinha duas famílias que moravam, uma em cima e outra em baixo. Depois que a de baixo vendeu, as pessoas que compraram fizeram a igreja. Aí o pessoal que morava em cima (era muita zoada), vendeu a parte deles e saiu de lá. Então hoje em dia tem essa igreja que é grande, é muito movimentada. No final de linha tem outra que fizeram agora também, enorme.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>SE REALIZAR</strong><br />
Agora chegou meu netinho e eu gostaria de ter paz para quando meu bambino crescer um pouquinho ele poder brincar na rua, porque do jeito que está, a gente não vai poder deixar ele brincar na rua um pouco. Porque ficar na rua ali não presta, tem muito menino que não presta, mas a gente nunca deve prender as crianças, tem que deixar um pouco de vez em quando. A única coisa que eu peço ali mesmo é melhora do bairro, para a gente poder se realizar mesmo.</p>
<p style="text-align:justify;">Entrevista realizada em dezembro de 2007</p>
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		<title>Zélia Rodrigues</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Jul 2008 18:41:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Soteropolitanos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Zélia Rodrigues]]></category>
		<category><![CDATA[Estrada Velha do Aeroporto]]></category>
		<category><![CDATA[Jaguaripe]]></category>
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Essa é a história da professora Zélia Muniz Rodrigues, que há mais de 38 anos vem cuidando da formação dos moradores de Nova Brasília e Jaguaripe. Apesar do caos no ensino, da violência dentro das escolas e negligência dos pais, Zélia, que conseguiu vencer as dificuldades impostas pela sua deficiência física, garante que não desiste [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com&blog=1555239&post=86&subd=soteropolitanosdaestradavelha&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/zelia2b.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-95" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/zelia2b.jpg?w=240&#038;h=180" alt="" width="240" height="180" /></a><br />
Essa é a história da professora Zélia Muniz Rodrigues, que há mais de 38 anos vem cuidando da formação dos moradores de Nova Brasília e Jaguaripe. Apesar do caos no ensino, da violência dentro das escolas e negligência dos pais, Zélia, que conseguiu vencer as dificuldades impostas pela sua deficiência física, garante que não desiste da educação.<span id="more-86"></span></p>
<p style="text-align:justify;">O meu nome é Zélia. Tenho 55 anos. Moro aqui desde 1970. Sou professora, mas muito antes de ser professora eu ensinava, com a idade de 17 anos. Eu morava no Uruguai, tinha de 16 para 17 anos. Aí meu pai veio morar aqui. Eu não gostei no início, porque não tinha ônibus. Tive que parar meus estudos. Depois voltei a a estudar.</p>
<p style="text-align:justify;">Do segundo casal, eu sou a primeira. Nasci assim, com deficiência. Meus outros irmãos nenhum tem problemas físicos, só eu mesmo. Freqüentei escola, estudei, incentivei minha irmã. Ela também se formou. Meus pais eram pioneiros no bairro, porque ele era muito voltado para a comunidade. Ele era agente policial e tinha o posto que minha cunhada era enfermeira e cuidava dos doentes.</p>
<p style="text-align:justify;">Quem me ensinou a escrever foi meu pai. Eu sentava na mesa, me abaixava, escrevia com o lápis na boca. Ele me tirou isso. Começou a pegar minha mão, eu sentava na cadeira e fazia eu botar meus braços sobre a mesa. E uma coisa que eu admirei muito em meu pai (foi dito pelos médicos): ele não ficava mimando.<br />
- Oh, coitadinha, nasceu assim&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Ele agia como agia com os outros. Na hora de reclamar comigo, reclamava igual. Não tinha diferença nenhuma. Então foi por isso &#8211; os médicos disseram para ele  &#8211; que eu me desenvolvi, procurei minha defesa, por mim mesma, porque ele me deu esse espaço.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando eu fui para a escola, já fui na 3ª série, no primário. Já fui sabendo ler, escrever e  as quatro operações. Comecei a ir para a escola pública. Lá na escola, minha professora me olhava com um olhar igual, não tinha aquela diferença. Só que ela não me deixava no meio da turma, para eu não cair, me deixava sentadinha. Eu, sentadinha, controlava a turma toda. Para brincar de roda, pega-pega, agora, não podia correr.</p>
<p style="text-align:justify;">Comecei a andar com 8 anos. Eu passei a ser Testemunha de Jeová, com a idade de 8 anos, não era batizada. Eu não andava. Fiz uma promessa a meu Pai, que se um dia eu eu andasse, eu ia servir a Ele. Aí, pronto! Eu escolhi ser uma Testemunha de Jeová, onde eu descobri a verdade.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu entrei em 1979 e quando foi em 1981 eu me formei. Fiz magistério no Iceia (Instituto Central de Educação Isaías Alves). Eu também estagiei lá no Iceia. A primeira escola que eu trabalhei aqui foi o Adauto Pereira. Do Adauto, me transferi para o Vera Lux, porque era muito distante para mim, por causa da minha deficiência física.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu tive muito obstáculo quando fiz o magistério, à noite, inclusive: o transporte. Eu tinha que correr e falar com a professora que não podia assistir a última aula para pegar o ônibus. Tinha que alguém me ajudar a subir, descer. Uma prima minha que estudava em outra sala. A minha maior dificuldade foi, quando eu me formei, ingressar na prefeitura. Porque eles não queriam me aceitar por causa da minha deficiência. Aí eu disse para a junta médica que a minha deficiência estava na minha mão, não na minha cabeça. Não são as minhas mãos que vão educar, o que vai educar o ser humano é a minha inteligência. Mostrei a ele. Se eu não posso ir no quadro, preparo o aluno para ir no quadro. Tenho os meus recursos para educar, chamo um a um junto de mim. Então mostrei que podia.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu tenho duas filhas. Uma eu tive mesmo. E a outra é de criação, que eu tomei com 11 meses. E hoje já são moças. Cozinhar? Se facilitar eu cozinho. Agora é um pouco dificultoso. Eu não faço, mas oriento alguém. Uma boa feijoada, ensino a temperar uma galinha, mas agora não precisa, porque tem alguém lá em casa que faz. Eu não tomo banho sozinha. Se eu estiver em pé, se não tiver o apoio da mesa, eu não como sozinha, tem que alguém botar na minha boca. Se eu sentar numa mesa, numa cadeira, eu faço tudo sozinha. Se eu cair, não levanto. Alguém tem que me levantar. Mas, mesmo assim, eu venci.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/veralux.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-92" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/veralux.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>COMUNIDADE MUITO MARAVILHOSA</strong><br />
Aqui não tinha energia, não tinha água. O povo pegava água na fonte e era de candeeiro a energia. A energia daqui era natural, através de velas. Era uma rua muito calma, tinha mais fazendas, pessoas antigas, pessoas que tinham muito respeito. O bairro era muito tranqüilo naquela época e todos nós, as mocinhas, brincavam de roda, de boneca. Eu dormia lá para 1h a 2h da manhã, assistindo televisão com o povo. Porque quando eu vim para aqui, não tinha televisão. A primeira foi de meu pai. Aí, meu pai, como era uma pessoa muito boa, deixava os filhos e todo mundo assistir televisão.</p>
<p style="text-align:justify;">Isso foi em volta de 1971. Foi quando eu comecei a conhecer a minha comunidade, que era uma comunidade muito maravilhosa mesmo. Era uma tranqüilidade. Era como se fosse um paraíso. Não tinha assalto, dormia de porta aberta. Os vizinhos, quando observavam a porta, às vezes encostava. Então não tinha esse medo como hoje estamos tendo.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>ESCOLAS</strong><br />
A primeira escola aqui foi em 1970, o Vera Lux. A minha vida sempre foi para a educação. Gostei sempre de educar e a maioria dos alunos daqui, uns 90% dos moradores aqui, já passaram nas minhas mãos. Aí, quando surgiu a Escola Vera Lux, pronto, melhorou um pouquinho, porque tinha muitas crianças paradas querendo estudar. Eu aproveitava a  minha sala e dava minhas aulas (banca) de português e matemática aos alunos.</p>
<p style="text-align:justify;">Depois, foi indo, pela Escola São José, que era uma igreja e agora está desativada, não existe mais. Em 78 ou 76 ou 77, construíram a Escola Adauto Pereira de Souza, que antes era uma fazenda, Rua Santo Antonio. Ali era uma fazenda, aí fizeram uma escola do estado e me contrataram para ser professora de lá. Daí, a história foi indo, fui passando para o Vera Lux e hoje estou aqui na Padre Ugo, a primeira escola do bairro de Jaguaripe. Fui a primeira diretora do bairro de Jaguaripe. Eu sou querida por todos. Inclusive pessoas também que andam fora da lei. Todos eles gostam de mim, porque eu trato todos bem, respeitam muito, me respeitam bastante. Podem usar o que for, as drogas deles, mas não me atingem, não fazem nada. Eu também não sou Cristo para agir com justiça com ninguém. Cada qual faz sua escolha e sofre por ela mesma. Embora foram meus alunos também alguns que escolheram essa triste missão, mas não tenho o que dizer. Todos eles me respeitam muito. No ônibus, me ajudam a subir me ajudam a descer.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/veralux2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-93" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/veralux2.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>MUDANÇAS</strong><br />
Houve algumas mudanças favoráveis, inclusive o transporte. Foi quando começou a ter muitas linhas, não tanto, uma só ou duas, foi quando eu comecei a terminar meu curso, magistério.  Em 77 só tinha duas linhas e nessa época eu estava fazendo o 1º grau e o último horário era às 22h. Quem perdesse tinha que vir andando ou dormir na casa de algum parente. Daí, melhorando o transporte, começou a ter o posto médico.</p>
<p style="text-align:justify;">De lá para cá, as coisas foram mudando. Hoje tem farmácia no bairro, tem lojas, tem muitas coisas. Antigamente nós comprávamos em outro bairro, naquele tempo se chamava “Paes Mendonça”. As coisas eram um pouco caras, o bairro era mais caro. Agora não, não adianta sair do bairro para comprar, porque no bairro tem os preços favoráveis, onde nós podemos comprar nossas cestas básicas.</p>
<p style="text-align:justify;">Os hospitais ficaram mais próximos. Quando eram longe, as pessoas que tinham problemas de derrame cerebral, qualquer coisa, morriam no trajeto, porque não dava tempo. Meu pai mesmo eu perdi assim. Ele deu derrame. No trajeto, em Bom Juá, ele faleceu. Agora tem São Rafael, São Bernardo, tem todas as clínicas. Foi uma grande melhoria para a nossa comunidade.</p>
<p style="text-align:justify;">Muitas coisas foram melhorando. Agora, o que eu sinto saudade mesmo, é daquele tempo que a gente andava de porta aberta, brincava com as meninas de roda. Hoje as crianças não têm esse tempo para brincar de roda, as coisas mudaram muito. Hoje, brincar de boneca é coisa natural, “o menino no braço”. A coisa mudou muito, não é como antigamente. As meninas não saíam muito, quando saíam, era sob a responsabilidade dos pais&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>RESPEITADO POR TODO MUNDO</strong><br />
Minha família é formada pelo meu pai, que faleceu, meu irmão, que era agente policial que faleceu por problemas de coração. Tem outro irmão também, que é aposentado. Tem outro irmão que também faleceu que era comissário. Trabalhava na 10ª delegacia, de Pau da Lima. As pessoas respeitavam muito meu pai. Se acontecesse qualquer problema, de alguém espancar a esposa, e alguém dizia:<br />
- Vou falar com Seu Cesário.</p>
<p style="text-align:justify;">Pronto, a coisa tomava outro rumo. Tinha que chegar de junto dele, pedir desculpa, que não ia fazer mais isso e tal, porque ele chegava junto com essas coisas erradas. Ele era muito respeitado por todo mundo.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>BATIAM NOS PROFESSORES</strong><br />
No Vera Lux, alguns professores desistiram até de ensinar, porque os alunos são revoltados, devido à criação, os pais não tiveram condição financeira e muitos foram parar nas drogas e estão estudando. A escola aberta é para isso mesmo, tem que aceitar a todos. Aí, quando eu dava aula lá à noite e faltava energia, eles jogavam carteiras, batiam em outros professores, jogavam até bomba dentro do sanitário. Mas comigo eles respeitavam. Fechavam a porta e diziam:<br />
- Ó, pró, com a senhora não acontece nada. Pode ficar aqui, quietinha, que ninguém vai fazer nada.</p>
<p style="text-align:justify;">Eles também não deixavam o professor dar aula. Mas, quando chegavam na minha sala,  já me conheciam e perguntavam:<br />
- É a professora Zélia?<br />
- Sim, sou eu. Porque você não está em sua sala?<br />
- Ah, porque não quero assistir a aula.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí eu explicava que ele estava sendo prejudicado fazendo isso. Qual o futuro que ele ia ter? Aí ele ficava assim pensando.<br />
- Então você vai vir aqui, me ajudar e escrever no quadro.</p>
<p style="text-align:justify;">Às vezes eles iam, escreviam no quadro, e às vezes ele iam embora. Respeitavam. Todos eles me respeitam, não tenho o que dizer de nenhum deles, graças ao bom Deus. Só tenho pena das escolhas que eles fizeram. Quer dizer, não são todos. Alguns hoje são pais de família, outros são formados. Mas aqueles que escolheram o mal caminho, muitos morreram, inclusive até meu sobrinho. Está paraplégico porque ele usa drogas, já roubou muito, é uma tristeza, uma escolha. Eu acho assim: cada um que faz sua escolha tem que ver quais são as conseqüências que virá depois sobre eles.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/bosquedapaz2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-94" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/bosquedapaz2.jpg?w=468&#038;h=624" alt="" width="468" height="624" /></a></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>MISERICÓRDIA DE DEUS</strong><br />
Melhora? Eu vou ser franca: é tipo um paliativo. Pode ter algumas melhoras, mas uma melhora como eu desejo, só mesmo está registrado em Daniel 12:44. É o único que pode estabelecer o reino Dele aqui na Terra, acabar com a doença, com a morte, com o sofrimento da humanidade. Ele pode trazer a paz para todos os viventes. É quando Ele transformar a Terra num belo paraíso e acabar com todo o sofrimento e a violência. É o único que pode fazer isso, mas, fora disso&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Eu não vou desfazer do governo, mas, embora, coitados, eles lutem para conseguir algo, não vão alcançar esse objetivo de acabar com a doença, com a morte. A cada dia que passa aumenta a doença e a violência. Então, nós estamos vivendo aqui pelas misericórdia de Deus e também pela bondade dos governos que estão fazendo alguma coisa, embora não está nas mãos deles.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>ENSINAR O POVO</strong><br />
O meu sonho é me aposentar. Hoje, por mais amor que eu tenha, é triste lhe dizer: a educação está um caos! Você ensina uma coisa, educa, mas, adiante, ele não vai levar aquilo que você ensinou com carinho. A própria família &#8211; não são todas &#8211; não vão ajudar. Então, se hoje eu fosse mais nova, eu sairia da educação, com muita pena, mas faria outra coisa. Porque nós não estamos tendo esse apoio hoje, como eu tive anteriormente, há anos atrás, em 1970, 1968, que os pais chegavam junto na educação dos filhos e hoje não tem mais isso.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu tenho 55. Com educação eu tenho 25 anos e 26 em outro, mas ensinando mesmo eu comecei com 17. Se eu contasse, teria 38 anos de ensino. Sempre na região, na minha comunidade querida. Sempre eu digo:<br />
- Eu pretendo não mudar daqui. Prefiro morrer aqui.</p>
<p style="text-align:justify;">Inclusive, comprei até um pedacinho de terra no Cemitério Bosque da Paz, porque eu amo meu bairro, amo meus vizinhos, meu povo. Eu gosto muito deles e por isso que eu,  amanhã ou depois, quando me aposentar, vou me dedicar mais ensinar o povo o caminho de Deus. Eu ensino dia de domingo, mas vou mais me dedicar a Ele, para ver se salva alguns deles.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu educo o povo da comunidade, ensino, realizo estudo familiar e alguns deles, inclusive alguns usuários de drogas também realizam estudos. Eu explico o motivo dele está ali, que não é da vontade de Deus que as coisas acabam dessa maneira, mas é por escolhas que eles estão fazendo. Embora fico muito triste, por que eles foram meus alunos, mas o que eu posso fazer?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>MUITO CARENTES</strong><br />
Hoje eu não vou desistir porque já estou aqui mesmo. Mas mesmo assim eu tenho muito amor, porque quando eu passo uma explicação que eu vejo que eles não entendem, basta eu dar uma olhada, aí eu digo:<br />
- Você não entendeu. Venha no quadro agora escrever. Venha, você tem que aprender.</p>
<p style="text-align:justify;">Eles dizem:<br />
- Pôxa, pró, a senhora pega muito no nosso pé. Não é todo mundo que é assim não.</p>
<p style="text-align:justify;">Estão querendo que eu acompanhe no ginásio, por causa da dedicação que eu tenho, a paciência, porque eu quero que eles aprendam mesmo e enquanto eles não aprenderem, eu não sossego. Eu não ligo em passar o conteúdo não, eu quero que ele aprenda. Para ter uma base na vida deles, um primário bom, para quando chegar no ginásio ele não ficar parado.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu ensino a 4ª série do ensino fundamental e só vou passar para 5ª série quem sabe ler e escrever mesmo, senão vai ficar um pouquinho comigo. Eles já estão sabendo disso, já conversei com eles. Eles mesmos fazem a análise deles, dizem:<br />
- Eu não quero passar não, que ainda estou lendo com dificuldade. Eu quero ler bem com a senhora. Eu vou perder mais um ano só para ficar com a senhora.</p>
<p style="text-align:justify;">Conscientizo eles bastante, quando eles não conseguem atingir a meta de passar, eles não ficam com ódio, eles querem continuar mais comigo.<br />
- Eu quero ficar mais com a senhora. Não quero ir embora. Mais adiante não vou achar professora igual à senhora, que explica, tem aquela paciência de explicar. As coisas que eu nunca aprendi com outras professoras eu aprendi com a senhora, as operações todas. Agora mesmo eu pesquisei num livro preposição, não entendi nada, mas com a senhora já sei.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu me dedico muito aos meus alunos da noite. Eu amo bastante. Se eu hoje continuasse na educação eu ficaria mais a noite, porque são muito carentes. Tenho aluno com 60 anos, outros com 55, 45, 37, 38, 20 e tem adolescentes também, uns dois ou três adolescentes que estão acompanhando também. Mas não criam problemas na sala de aula não, eles me respeitam bastante. Porque minha aula é assim, quem entendeu o assuntos bem, eu digo assim:<br />
- Agora você vai ensinar ao seu colega o que você aprendeu. Se você não explicar você não vai tirar uma boa nota.</p>
<p style="text-align:justify;">Daí eles chamam os coleguinhas e explicam direitinho. Eu trabalho assim com eles.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/zelia21.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-91" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/zelia21.jpg?w=194&#038;h=180" alt="" width="194" height="180" /></a></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>SOLIDÁRIAS</strong><br />
Chegaram muitas pessoas aqui na comunidade. De respeito, pessoas direitas, chegaram muitas pessoas boas. Inclusive teve um delegado, que faleceu, que fazia uma festa. Todo mundo gostava da fogueira que ele fazia, a brincadeira agitava a comunidade, não tinha aquela violência que tem hoje. Mas depois, você sabe, foi entrando&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Jaguaripe era uma fazenda. Com aquela chuva de 78, mais ou menos, tiraram as pessoas, morreram. Então vieram muitas pessoas de índole boa e de índole má. Ficaram aqui na comunidade. Por causa disso criou um problema sério. Mesmo assim está dando para viver.</p>
<p style="text-align:justify;">Hoje eu daria ao meu bairro a nota 9. Antigamente eu daria 10. Sem água, sem energia, mas não tinha tanto problema como a gente tem hoje. Eu sinto muita saudade, muita, muita, muita de brincar de roda. Já pensou você ficar até meia noite na rua brincando com as meninas e não ter medo de nada? Qualquer coisa que pegassem seu, traziam em sua porta.<br />
- Olha, que a senhora perdeu.</p>
<p style="text-align:justify;">Minhas vizinhas eram maravilhosas, eram solidárias. Qualquer coisa, se você estivesse doente, elas estavam lá, ajudando, cuidando, fazendo remédio, limpando a casa. Era assim. Hoje não fazem mais assim por causa do tempo, todo mundo tem que trabalhar fora e a vida das pessoas é muito corrida.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu mesma acordo 5h30. Chego aqui 8h, saio daqui 5h da tarde. Vou para casa e tomo banho. 7h estou descendo para dar aula. Chego em casa 9h30. O único dia que eu me conheço, sei que eu sou Zélia e sou um ser humano: sábado e o domingo. De segunda a sexta, dedico ao trabalho, com amor.</p>
<p style="text-align:justify;">Entrevista realizada em novembro de 2007</p>
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		<title>Inácio Galdino</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Jul 2008 14:13:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Soteropolitanos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Inacio Galdino]]></category>
		<category><![CDATA[Estrada Velha do Aeroporto]]></category>
		<category><![CDATA[Nova Brasilia]]></category>
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		<description><![CDATA[
Sou pernambucano, de Recife. Vim para Salvador com 9 anos. Fui criado na San Martin, Largo do Tanque, Uruguai. Mas eu vinha e voltava,  porque eu gostava muito de Recife. Eu tinha um irmão lá que chamava Alemão, jogava bola. Eu gostava muito dele. Aí chegou uma época, em 1975, que eu soube que [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com&blog=1555239&post=78&subd=soteropolitanosdaestradavelha&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/futebol.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-81" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/futebol.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p>Sou pernambucano, de Recife. Vim para Salvador com 9 anos. Fui criado na San Martin, Largo do Tanque, Uruguai. Mas eu vinha e voltava,  porque eu gostava muito de Recife. Eu tinha um irmão lá que chamava Alemão, jogava bola. Eu gostava muito dele. Aí chegou uma época, em 1975, que eu soube que ele morreu afogado. Fui lá, peguei os documentos dele, me desgostei e não fui mais.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu não conhecia Nova Brasília. Eu trabalhava até ali na área da Brasilgás, sempre em construção civil. Quando foi em 1976, meu irmão veio aqui para o lado de Nova Brasília. Comprou quatro a cinco lotes: um para ele, um para a sogra dele, um para a irmã da sogra, outro para a cunhada, outro para a outra cunhada. Chamou minha mãe, deu um pedacinho de terreno, fez um barraquinho e minha mãe ficou aqui até falecer. E eu fiquei também. Aqui me casei, construí família. <span id="more-78"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Fiquei trabalhando nessas obras todas. Fui fazendo obra, trabalhando, criando meus filhos. Um casou, mora aí. Outro casou, mora ali. Esse está dentro de casa aqui. Tem um bocado de cursos. Trabalha de noite lá na Barra, barman. Disse que vai trabalhar para pagar a faculdade dele. Vim aqui para Jaguaripe em 89. Não saio mais para lugar nenhum. Trabalho pela Paralela, por perto da faculdade, fazendo serviço naqueles condomínios.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PIONEIROS</strong><br />
Eu não sou tão velho aqui não. Tem gente mais velho. Esse mesmo que chama Seu Zé, do Conselho de Moradores de Nova Brasília. Ele chamava Zé da Água, vendeu muito água no jegue. Eu conheci um velho, um sergipano, que chegou aqui em 1930. Chegou aqui e viu Doutor Jorge se formar. O dono da chácara ali, da entrada do Sete, que é Dr. Jorge. Chegou menino, se formou e  sempre morando aqui. Seu Pedro faleceu com 96 anos. Uma pessoa lúcida, conversava com todo mundo.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>DONOS DO MUNDO</strong><br />
Aqui só era mato. Em Cajazeiras não existia nada. Cajazeiras evolui dos anos 80 para cá. Eu entrava daqui e ia comprar carne no matadouro de Águas Claras. Andava por esses matos todos. Eu e a turma aí. Aqui tudo era fazenda. Chamava Fazenda Sete de Abril. Quando Água de Meninos pegou fogo, trouxeram aquele povo de lá, para aqui e para Canabrava. Eu tenho um conhecido das antigas que veio para aqui do tempo que Água de Menino pegou fogo, em 65. Tem gente vivo aí da época.  Dalva está viva ainda, mora ali na Rua Santo Antonio.</p>
<p style="text-align:justify;">Aqui era assim: eu sou um pessoa que tomo conta de uma fazenda e tem aquelas pessoas que moram há muitos anos, são herdeiros daquela fazenda. Aí a gente divide, tiro uma parte e dou a cada um. Quando esse povo da Água de Meninos chegou aqui, que o Exército trouxe, levaram lá para baixo, para os buracos, para as ladeiras, foi lá para a beira do rio. Quem tinha terreno aqui em cima eram os posseiros. Era meio mundo de terreno e ninguém fazia casa. Era deles. Ali tinha Nelson Lacerda. Lá no fim de linha tinha Esmeraldo. Tinha o pai de Evandro. Eles são donos daquela área toda, já lotearam tudo ali. Cada um tinha meio mundo de terra.  Tinha o finado João Deró aqui na frente, que tinha esses terrenos da entrada todos. Eles viram as coisas apertando, foram vendendo. Se eles não vendessem, trocassem por qualquer dinheiro, perdiam para o governo, porque tem que pagar imposto. Tem muita gente aí hoje dono de terreno que não comprou na mão de pessoa nenhuma.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando construíram o campo de Pituaçu, em 1977, mais ou menos, eu ia trabalhar todo dia às 6h, de pé, por dentro desses matos. Passava ali no Sete, o sítio, e você só via as placas com aquelas caveiras: “Não entre, perigo de vida”. Cheio de mato. Quem é dono disso? Eram os donos do mundo. Quem tocasse ali morria mesmo.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/mecanico.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-82" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/mecanico.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a><br />
<strong><br />
NÃO ME ESPERE</strong><br />
Só tinha um ônibus em Nova Brasília, que vinha de Portão. Eu não alcancei. Quando eu cheguei aqui, já tinha alguns carros rodando. E o ônibus de Portão ainda rodava, o “macaco”, um ônibus velho. Quando chovia, ele não passava, não vinha rodar. Aí, o povo de Nova Brasília até hoje tem essa história: “Se chover, não me espere”.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>ESCOLAS</strong><br />
Eu ouvi dizer que o Colégio Vera Lux foi feito por uns italianos maçons, não sei&#8230; A primeira parte, porque depois teve a reforma do fundo, o segundo colégio. E tem o Adalto, do fim de linha, que é outro colégio. Só tem esses em Nova Brasília. Eu trabalhei na obra do Adalto, quando fez, perto de 1980, e nas três reformas.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>JAGUARIPE</strong><br />
Em Nova Brasília, eu fiquei 13 anos. Quando foi em 1989, aconteceram muitos acidentes aqui em Salvador, morreu muita gente. Aí minha casa caiu e eu fui para o colégio em Nova Brasília mesmo. Eu conhecia um tenente e ele disse: “Inácio, sua casa caiu, vá lá para o colégio, que é ordem do governo”. Fui pro colégio e fiquei lá. Depois começou a chegar gente desabrigado e uma mulher ficou tomando conta de todo mundo. Aí precisou de uma reforma no colégio, em 1989 mesmo. Juntou eu, mais quatro pedreiros e fizemos a empreitada do colégio todo. Quando eu não esperei, de uma hora para outra, pegaram minha família, botaram dentro de um caminhão e largaram aqui em Jaguaripe.</p>
<p style="text-align:justify;">Aqui era uma fazenda, tinha muito coco. Antes de fazerem essas casas aqui de Jaguaripe, em 1989, veio uma firma, acho que era Monsieur Fabril e comprou esse terreno para construir prédio. Botou os tratores, derrubou um bocado de coqueiro, mas, na hora de construir, parece que o imposto do terreno era muito alto e a firma desistiu. Poucos meses depois, ou anos, não sei, Fernando José construiu essas casas aqui. Dizem que foram três meses para construir. Aí botaram o povo do Lobato, da Liberdade, da Suburbana, de um bocado de lugar.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/posto.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-83" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/posto.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a><br />
<strong><br />
DIA-A-DIA</strong><br />
Eu não gostava de Nova Brasília. Não vou negar. Tinha luz em algumas casas. Na rua não tinha. Água encanada não tinha. O povo carregava água no jegue. Nova Brasília não tinha mercado, só uma venda, uma quitanda. Depois, teve o Mercado Santo Antonio, que acabou. Veio Osvaldo, que acabou. Foram botando os mercados. Veio o Mercado Néri, não deu certo. Aí o Portal chegou, tomou conta da área. Pronto, está aí o Portal. Quem tem mais dinheiro é quem manda, né? Pois é isso.</p>
<p style="text-align:justify;">Em Jaguaripe, o bar que tem ali no fim de semana é o bar de Seu Aurino. Vende só cerveja, tem um sonzinho de CD que ele bota lá. E um barzinho pequeno, comércio quase nenhum. Comércio que vende alguma coisa, só os de lá da frente. Tem o rapaz que vende pão ali. Antes tinha uma padariazinha, já acabaram. A minha cunhada comprou uma casa ali, umas máquinas, botou meu filho para fazer pão. Minha família quase toda trabalha com salgado.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>CELEBRAÇÕES</strong><br />
Aqui tem a Assembléia, tem a Igreja Católica. Quando fizeram a obra de Jaguaripe, deixaram logo a igreja feita.  Nova Brasília tem igreja católica também. O padroeiro eu ouvi dizer que é São José. Todo ano sempre tem uma festa de São José.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>CONVIVÊNCIA</strong><br />
Aqui é pequeno, todo mundo conhece todo mundo. Eu tenho 30 anos aqui, nunca tive inimizade com pessoa nenhuma, nem com polícia, nem com vagabundo, com ninguém. Cada um vivendo no seu lugar, tá bom demais. Quando eu não estou em casa, eu estou trabalhando. Quando eu saio, é caminho direto. Eu não gosto de ficar na rua. Só vou comprar o pão. Eu não gosto de sair, aliás eu nunca gostei. Em Nova Brasília eu andava só quando vinha do trabalho. Na época, eu bebia. Hoje não bebo mais. Eu parava  no bar para tomar um negócio. Depois eu larguei esse negócio.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/centro-apoio.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-84" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/centro-apoio.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a><br />
<strong><br />
VIOLÊNCIA</strong><br />
O povo fala de violência, mas eu não acho tanta violência aqui não. Existe violência mais de gente que vem de fora. Aqui teve aquela chacina que mataram uns quatro aí. Foi gente que veio de fora, num carro. Pegaram os meninos ali no videogame. Morreu muita gente inocente. Chegaram fuzilando todo mundo. Eu conhecia até uns três. Um não era vagabundo nenhum, que eu sei. Um morava aqui na esquina dessa rua. Vendia queimado dentro do ônibus. Todo dia esse menino chegava, ficava ali no bar fazendo lanche. Nesse dia, que ele foi fazer lanche, foi o dia dele. A gente estava aqui, só ouviu os tiros. A família tem barraca na feira, comerciantes. Parece que foram quatro que morreram, mas isso tem em todo lugar. Nova Brasília e Jaguaripe eu não acho tão violento não.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>ESPORTE</strong><br />
Em Nova Brasília não tinha campo de futebol. Jogava no fim de linha, onde o ônibus faz a volta. Ali era um areal. A gente botava as traves, dia de domingo, jogava e quando terminava o jogo tirava as traves e guardava. Os moradores não queriam. Tinha uma moradora que pegava a bola, cortava, porque a bola batia nas casas. Quando cheguei aqui, ainda joguei no Fluminense, no Palmeirinha. Veio o Primavera, Flamenguinho. Todos esses times eu alcancei. Depois o Vasco, o Ipiranga, São José.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando foi em 1978 ou 1979, não tenho bem lembrança, o estádio desapropriou um terreno ali na beira do rio e fez um estádio que hoje chama Beira Rio. Botou a máquina, cortou o barranco todo, igual ao de Jaguaripe, de frente ao Conselho. Não tinha casa, era um sítio de um velho, uma roça de aipim. Sítio que tomava conta, não pagava imposto nem nada. Eu estava até trabalhando na época. Quando cheguei, já estava tudo plano. Um campo pequeno, depois foi mudando. Hoje é um estádio.</p>
<p style="text-align:justify;">Para jogar bola, a galera de Nova Brasília vinha aqui para a frente do Jaguaripe. Aqui era uma fazenda. Ali, onde faz aquele negócio de caixa de luz, era aberto, era uma fábrica de quiboa. Aí os adolescentes vinham jogar bola toda tarde. Mas tinha um delegado que morava ali dentro que era gente ruim. Ele tomava a bola, vinha com a viatura. E fim de semana a gente jogava bola na chácara de Dr. Francisco Bahia, o finado Francisco Bahia. Depois fizeram a praça, fizeram o campo.</p>
<p style="text-align:justify;">Entrevista realizada em novembro de 2007</p>
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		<title>Agenor Alves da Silva</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Jul 2008 14:03:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Soteropolitanos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Agenor da Silva]]></category>
		<category><![CDATA[comerciante]]></category>
		<category><![CDATA[Estrada Velha do Aeroporto]]></category>
		<category><![CDATA[Nova Brasilia]]></category>

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		<description><![CDATA[
O meu nome é Agenor Alves da Silva. Eu não sou filho de Salvador, meu documento é tirado como filho daqui, mas eu nasci mesmo em Serrinha. Cheguei aqui com a idade de 14 anos, em 1949, já para trabalhar. Eu sai de lá fugido, para morar aqui. Um amigo me trouxe, conseguiu um trabalho [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com&blog=1555239&post=77&subd=soteropolitanosdaestradavelha&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/comercio.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-79" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/comercio.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">O meu nome é Agenor Alves da Silva. Eu não sou filho de Salvador, meu documento é tirado como filho daqui, mas eu nasci mesmo em Serrinha. Cheguei aqui com a idade de 14 anos, em 1949, já para trabalhar. Eu sai de lá fugido, para morar aqui. Um amigo me trouxe, conseguiu um trabalho de balcão, em Pero Vaz. Minha mãe disse:<br />
- Nem conte comigo. Para Salvador você não vai.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí falei com meus irmão e disseram que eu nem pensasse nisso. Naquela época era trem, nem ônibus de lá para cá  existia, um trem que saía daqui para Bonfim, Juazeiro. A gente marcou encontro em Água Fria, depois de Irará. Eu arrumei meus paninho, botei num boca pio e me mandei. Quando pensavam que eu estava lá, já estava era chegando aqui em Salvador. <span id="more-77"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Eu trabalhei no Pero Vaz, na Calçada, e quando constituí família, vim me embora para Nova Brasília, porque achei o bairro melhor do que na cidade, mais calmo. É muito enxamoso a cidade. Cheguei aqui em 1964, quando era Fazenda São José. Só tinha quatro casas nessa linha direta. Modificou muito para o que é hoje. Aqui está uma cidade. Antes não tinha transporte, não tinha água encanada, não tinha luz, não tinha nada. Eu tenho 17 filhos, todos de lá de Sete de Abril até aqui. Todo mundo criado já, graças a Deus. Só tem uma que está em São Paulo. Agora eu estou com a terceira mulher. Minhas duas primeiras mulheres morreram.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu moro ali naquela casa sem pintar, há 15 anos e botei essa banquinha aqui para ter mais algum acesso de vida. Todo dia eu desço 4h30 para fazer minhas compras. Vendo aquela cocadazinha ali desde o início de minha vida, ainda empregado. Eu trabalhava na polícia administrativa, que é aquele rapa. No primeiro dia de folga, eu vendia aquilo para sobreviver. Quando passei a trabalhar no turno da noite, fui trabalhar de pedreiro. Graças a Deus hoje estou aposentado, 15 anos de aposentado já. Eu tenho quase 50 netos. Daqui eu não quero ir embora. Agora eu vou passar uns tempos lá em minha terra, lá no interior. Tenho muitas sobrinhas por lá. Mas mudando de bairro em bairro não gosto não.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu trabalhava na Ladeira da Praça. Saía daqui para apanhar transporte em Pau da Lima, dando essa paletada todos os dias. 4h era o meu horário de sair daqui de casa.  Hoje temos transporte. Aqui nós podemos dizer que estamos no céu. Quem se desloca daqui para o centro, é 40, 50 minutos.<br />
O transporte coletivo aqui, em 64, era um transporte saía ali da Calçada a Portão. Uma época aqui teve nove ônibus. Isso durou um ano e pouco. Depois saíram os nove ônibus, entrou uma tal empresa aí e jogaram no pára-brisa: “Se chover, não me espere”. Era difícil a gente apanhar esse carro, por que quando vinha de lá, já vinha cheio de estudante. A gente que morava por aqui tinha que paletar daqui para o Pau da Lima.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/cabeleireira.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-80" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/cabeleireira.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p>Em 1964, nem colégio por aqui existia. Para estudar, tinha que ir para o Novo Marotinho. As crianças daqui e meus filhos estudaram por lá e os outros aqui no Vera Lux. Meus filhos foram criados com liberdade, sem perigo de nada. Todos aprendeu, nenhum se formou, mas todo mundo aprendeu a assinar o nome,  não tem nenhum analfabeto, graças a Deus. Analfabeto mesmo quem ficou foi o papai velho, assim mesmo, assino o meu nome, graças a Deus. Leio qualquer uma carta, não de letra de médico, que eu não conheço.</p>
<p style="text-align:justify;">Aqui era a Fazenda São José e ali era outra, chamada Fazenda Café, hoje é o Jaguaripe II.</p>
<p style="text-align:justify;">Quisesse fazer uma feira, tinha aqueles armazenzinho, mas era armazém muito zinho, aqui no km 7.</p>
<p style="text-align:justify;">Festa de largo por aqui em Nova Brasília nunca teve. Tem em Pau da Lima, Castelo Branco, Sete de Abril, mas por aqui não.</p>
<p style="text-align:justify;">Todo mundo me conhece aqui. Em Jaguaripe não, que eu não freqüento muito. O meu negócio é daqui para Nova Brasília. Para lá eu não vou, só se tiver uma necessidade, algum amigo me chamar. Do contrário não vou, não gosto.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu não tenho o que dizer. Eu moro aqui e nunca teve problema comigo, nem com meus filhos, nem com meus familiares. Tudo numa boa. Agora, dizer que aqui é um bairro violento, é. Tem o pessoal que procura problema e encontra.<br />
Aqui precisa melhorar muita coisa: rede de água, porque essas águas entopem, o manilhamento aqui é precário; essas praça está mal acabada, precisando de recuperação; uma escola mesmo boa, que não tem. A gente está necessitando disso tudo.</p>
<p style="text-align:justify;">Entrevista realizada em novembro de 2007</p>
<img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com/77/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com/77/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com/77/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com/77/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com/77/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com/77/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com/77/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com&blog=1555239&post=77&subd=soteropolitanosdaestradavelha&ref=&feed=1" /></div>]]></content:encoded>
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		<title>Alba Liberato</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Jul 2008 19:49:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Soteropolitanos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Alba Liberato]]></category>
		<category><![CDATA[escritor]]></category>
		<category><![CDATA[Estrada Velha do Aeroporto]]></category>
		<category><![CDATA[lider comunitario]]></category>
		<category><![CDATA[Vila Dois de Julho]]></category>

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		<description><![CDATA[
A professora e roteirista Alba Liberato se mudou para a Vila Dois de Julho na década de 70, em busca de liberdade e contato com a natureza, para criar seus filhos e alimentar a sua arte. De 2000 para cá, tem assistido a profundas mudanças no seu bairro, que a fizeram se engajar na luta [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com&blog=1555239&post=73&subd=soteropolitanosdaestradavelha&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/alba2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-75" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/alba2.jpg?w=300&#038;h=401" alt="" width="300" height="401" /></a><br />
A professora e roteirista Alba Liberato se mudou para a Vila Dois de Julho na década de 70, em busca de liberdade e contato com a natureza, para criar seus filhos e alimentar a sua arte. De 2000 para cá, tem assistido a profundas mudanças no seu bairro, que a fizeram se engajar na luta comunitária, para tentar “mudar coisas que podem ser transformadas para melhor”.<span id="more-73"></span></p>
<p style="text-align:justify;">A minha formação é de professora, mas sou autodidata em várias outras áreas e agora faço roteiro de cinema. Nesse momento eu estou fazendo roteiros para desenhos animados. Há 32 anos moro na Vila Dois de Julho. Quando eu cheguei aqui, em 1975, nós procurávamos um lugar fora da cidade, mas que tivesse um acesso fácil e que tivesse contato com a natureza. A minha geração foi aquela dos hippies, do contato com a natureza. Mas minha geração também sofreu uma ditadura militar muito forte. Então esse lugar aqui dava as duas coisas: o contato com a natureza e nos libertava daquela opressão que você vivia numa cidade onde toda hora tinha passeata, onde tudo que você fazia estava no foco da ditadura militar, porque nós somos artistas e temos uma expressão pública. Então, com isso a gente veio para aqui e conseguimos começar uma nova vida, criar nossos filhos como a gente queria.</p>
<p style="text-align:justify;">A minha relação com o bairro é uma relação de prazer mesmo, de ter criado meus cinco filhos aqui. Eu tive aqui mais dois filhos. Tive três que chegaram e tive mais dois. Então meus filhos foram muito influenciados por aqui. Tenho um que é músico. Então eu imagino que isso aqui influenciou muito ele. Tem muito pássaro aqui e até ele se tornar adulto, aqui você tinha silêncio o tempo todo. Quando era interrompido, era só por um avião ou outro que passava. Tenho três filhos artistas, aliás, quatro, e um que é advogado. Então todos eles foram influenciados por esse ambiente de pássaros, de criação de animal, de contato com a natureza. Então minha relação é muito íntima com todo esse lugar aqui.</p>
<p style="text-align:justify;">Continuo aqui porque ainda está valendo a pena e eu espero que continue valendo a pena. E eu estou lutando para mudar coisas que considero que podem ser transformadas para melhor. Enquanto eu tiver essa esperança eu continuo aqui. Todos nós somos artistas. Meu marido é pintor e desenhista. Eu escrevo, sou roteirista. Uma filha é dançarina. Outra filha é a atriz Ingra Liberato. Outra faz produção cultural e só um, como eu disse a vocês &#8211; tem outro músico &#8211; e só um é advogado, mas gosta também de tocar violão, chama os amigos&#8230; Então a casa tem já esse astral. Toda reunião de gente tem alguma coisa que se faz junto para gente ser mais feliz. Eu faço projetos, sou autônoma, então eu sempre trabalho em casa. Sempre tem muita coisa acontecendo na minha casa. Quando não tem gente tem silêncio.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>CINTURÃO VERDE</strong><br />
As mudanças atualmente são muito velozes! Eu, quando era criança, passeava aqui. Foi por isso que eu escolhi vir morar aqui. O meu pai saía de vez em quando e nos trazia pra passear na Estrada Velha do Aeroporto e era toda de sítio. Quando eu cheguei aqui também era toda de sítios. Havia Pau da Lima. Havia o início de Nova Brasília, mas ainda era tudo muito pequeno. As pessoas todas se conheciam. Eu morava num sítio que a cerca era de arame. Então você via todo mundo que ficava dentro de casa, não tive portão durante muito tempo. Essa rua aqui só tem asfalto há quatro anos. Em poucos anos, de 2000 para cá, tudo isso vem sendo revolucionado de uma forma muito drástica, muito sem cuidado. A Caixa, que é a instituição que tem feito esses conjuntos todos, aproveitou que aqui tem terrenos baratos, porque a topografia é muito acidentada e está fazendo o que ela vem fazendo, a torto e a direita.  Então a mudança foi muito drástica, não há uma preparação para chegar o progresso.</p>
<p style="text-align:justify;">Isso aqui é um cinturão verde da cidade. Toda essa região tem nascentes. Porque em todo vale existe uma fonte, uma nascente, uma vertente que corre das cumeadas. E isso não está sendo considerado. Eu tenho um rio no meu quintal que a Caixa joga esgoto. E ela sabe disso, mas não toma nenhuma providência.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>NOVAS OCUPAÇÕES</strong><br />
Mudou tudo, porque um condomínio traz centenas de família de uma vez só. Essas centenas de família não têm uma praça para se encontrar, para conhecer o bairro onde estão. Eles saem do apartamento para o ônibus e do ônibus para o apartamento. Por outro lado, eles usam os serviços do bairro. Já que não tem, a Caixa também não ampliou esses serviços, usam o que tem. E isso é uma sobrecarga para todos, quem já morava, quem já estava numa situação de carência mesmo. E o grande dano mesmo que está sendo feito a mais longo prazo &#8211; que eu imagino que, mais cedo ou mais tarde, esses serviços vão chegar, que a gente tá batalhando  muito forte -, mas o grande dano é em cima do meio ambiente. Esse, sim! Fontes de água mineral. Toda essa região tem pedreira, então brota água de pedra mineral. Elas tão sendo poluídas, pouco a pouco, sem nenhum cuidado, sem nenhum planejamento.</p>
<p style="text-align:justify;">Estão sendo vendidas para qualquer pessoa que tenha dinheiro. E como geralmente essas incorporações trazem o dinheiro, fazem. A Caixa não coloca nenhuma restrição, embora ela seja autora de um Estatuto da cidade, que ordena o solo, que diz o que é bom para uma cidade, para uma família, para uma pessoa&#8230; Ela diz, mas não faz absolutamente nada disso.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/alba.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-74" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/alba.jpg?w=400&#038;h=364" alt="" width="400" height="364" /></a><br />
<strong><br />
TRANSPORTE</strong><br />
Sempre houve transporte naquele larguinho lá. Recentemente o pessoal pediu para vir pra cá, para estender mais o transporte para esse largo. Nós moramos num lugar em que você está a 15 minutos do Iguatemi, se não fossem os engarrafamentos de Salvador. Tendo o metrô, por exemplo, vai ser muito fácil morar aqui, agora, com os devidos cuidados da região, pela natureza da região. É uma região onde todo mundo quer ver o que ainda está se vendo aqui, e não só ver concreto e asfalto e trânsito de veículos.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PRAÇAS</strong><br />
Praça? Muito poucas. Nós temos uma Associação e estamos lutando para que isso aconteça. O povo que vai organizar. Tem uma muito armengada, sem um preparo, sem um cuidado com o que é que as pessoas vão fazer naquele lugar, os encontros sociais que é preciso ter. Então é uma periferia muito mal cuidada.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>TEMPLOS RELIGIOSOS</strong><br />
Tem algumas igrejas aqui. Eu acho que atendem bem a região. Quem não quer freqüentar aqui no bairro, vai para o Iguatemi, vai para igrejas que estão ali naquele centro, que tem várias outras também. Acho que isso é bem servido. Tem igreja evangélica, católica, tem alguns candomblés. Tem uns há muitos anos, antes de eu chegar. Igreja evangélica tem aquela lá onde nós fazemos nossas reuniões. Ali é batista. Já tem alguns anos. E evangélica também deve ter. Terreiro, tem um já mais recente, mas tem outros mais antigos, desde quando vim morar aqui tem terreiros na Estrada Velha do Aeroporto, porque tudo isto aqui era região de refúgio de escravos. Mocambo quer dizer isso, refúgio de escravos. O nome dessa rua é Rua do Mocambo Ilhado. Ela está entre rios.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FESTAS</strong><br />
Acontecem algumas festas, mas muito invadidas pela música de consumo. Hoje, na nossa associação, a gente procura trazer as características das pessoas, que elas se manifestam com atividades delas mesmas e estamos conseguindo. Antes, o que era visto é que se contrata um conjunto e aquele conjunto toca, toca, toca a noite toda e as pessoas saem muito excitadas, fazendo baderna, e a gente está querendo mudar esse contexto. Tornar um contexto mais cultural, mais esportivo.</p>
<p style="text-align:justify;">Não há nenhuma opção de lazer. O bairro se chama Vila Dois de Julho. E é o único Dois de Julho que sobrou, todos os outros foram substituídos. Então, o que a gente hoje procura é trazer uma consciência para as pessoas desse contexto histórico do Dois de Julho, de estar perto de Pirajá. Aqui se faz berimbau. Uma grande quantidade de berimbau do Mercado Modelo se faz aqui próximo. Se faz muitas coisas que são a cultura da Bahia, mas as pessoas não têm consciência desse valor dela. Então a gente está procurando levantar isso. Não temos uma manifestação cultural marcante, por isso mesmo. Porque elas estão submergidas por tudo isso que tem chegado, que é a música de consumo. Mas, com o tempo, isso vai aflorar.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>ESPORTE</strong><br />
Tem um campo muito ativo, um campo de futebol ali debaixo dos postes. Tem uma escolinha com aulas dadas por um morador, Val. Tem a iniciativa dos próprios moradores, mas agora a gente está também em cima dos políticos para trazerem melhorias para esse campo, mais esportes, favorecer as meninas. As meninas têm muito pouco espaço para praticar esportes. Ampliar e ofertar mais coisas. Estamos batendo firme nesse ponto. A escolinha de futebol já tem algum tempo, acho que uns 10 anos. O tempo que ele mora aqui. Ele é um cara entusiasmado! Tem outros também. Esse campo de futebol é utilizado o tempo todo, tem horários, principalmente nos fins de semana e eles entram num acordo, as duas associações dividem, é uma coisa super organizada. Não é à toa que futebol é o que é. No dia em que tudo for organizado como o futebol, o Brasil tem jeito.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/alba3.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-76" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/alba3.jpg?w=300&#038;h=401" alt="" width="300" height="401" /></a><br />
<strong><br />
SERVIÇOS</strong><br />
Quando as crianças vão para a escola, elas andam de onde vocês andaram e mais dois ou três quilômetros porque as escolas estão lá do outro lado. Então agora a gente está chamando o secretário municipal de Educação para ele vir aqui e solicitando escola para o povo daqui. Aumentou muito, porque a Caixa trouxe muito mais gente e não se cuidou dessa estrutura.</p>
<p style="text-align:justify;">Também não tem posto de saúde. Nunca teve. Tem do outro lado. Tudo que tem está ali em Nova Brasília, que é um bairro muito mais antigo, mas esse já tem um volume de gente considerável.</p>
<p style="text-align:justify;">Tanto é que uma escola municipal, aqui, a gente acha que vai pegar 2 mil crianças. Não pode ser menor do que isso. As escolas que tem são particulares, ou então as crianças têm que andar três ou quatro quilômetros para chegar. Essas escolas particulares são bem recentes. Antes, o que tinha era Dona Vanda, que é o Centro Social Irmã Elisa Maria, muito bom, é uma das escolas públicas. Tem o Adalto, o Vera Lux, todos lá do outro lado da pista. Então é muito longe para uma criança. Daqui a pouco vocês vão ver aí, quanto menino vem andando pela calçada. Você imagine um menino andar até lá. Se for pequeno, não vai só, a mãe não vai deixar. Aí não tem creche também. A creche que tem ou é Jaguaripe, que é bastante longe, ou é em Vila Mar, também é bastante longe para uma mãe ir lá botar a criança e depois voltar para trabalhar.</p>
<p style="text-align:justify;">Casa lotérica, mercado, onde se paga, água, luz, até tem, mas não aqui dentro na Vila Dois de Julho. Está tudo lá em Nova Brasília, Vila Mar. Banco também não. Quando eu preciso ir, o mais próximo é no CAB. Todos esses serviços que beneficiam o povo, continua não tendo. Só que antes eram menos gente. Você dava carona a uma mulher que ia ter menino. Mas agora você vai dar carona toda hora a uma parturiente? Não, dá, né? Então, esses serviços não chegaram e as pessoas têm que se virar de outra forma. A população aumentou muito e não chegaram. Antes até tinha parteira aí, pertinho. Hoje já não tem mais. E com relação às lojas, tem. Foram chegando. Loja é o primeiro que chega mesmo, mas ainda falta muito. Por exemplo, não temos feira, dessas feiras de praça, uma vez por semana. Tudo é comprado em pequenas vendas. Agora mercadinho tem, tem bastante mercadinho, foram aumentando. Foram aumentando  porque comércio é uma coisa espontânea, não depende de estrutura de governo.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>SEGURANÇA</strong><br />
Policiamento aqui é zero. A gente antes não precisava, porque a gente se conhecia. Todo mundo se cumprimentava. Os problemas de marginalidade começam a aparecer quando as pessoas se sentem isoladas, quando você não conhece mais quem está chegando no bairro. Mas a gente não tem policiamento, não apareceu nunca aqui uma dupla de PM, por exemplo, circulando, andando. E tem acontecido muitos casos de assalto, de tomar celular, tomar dinheiro, isso acontece.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu, por exemplo, costumava passear aqui nessa rua a qualquer hora da noite. Hoje, quando eu saio, olho para um lado, olho para a cara de quem vem, para ver o jeito da pessoa e tem horas que eu não saio. Se estiver vazio, como acontece, ninguém passando, eu espero. Então, é uma situação de medo que eu nunca tive antes. Não tinha nem portão, como eu disse. Então, hoje em dia, a gente precisa ter muito cuidado e as pessoas que andam de ônibus também estão muito expostas. Elas saltam do ônibus e ficam à mercê de quem passa na rua e nem sempre está com boas intenções. E não aparece polícia.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando a polícia passa é nos carros. Ela não vem a pé, que é quando se vê as coisas, é quando tem policial andando a pé. Então tem havido algumas coisas aí. Se a gente não estivesse tomando algumas providências, eu acho que seria desanimador. Mas também a cidade toda vive no clima. Então a gente tem que lutar sabendo que não estamos isolados. Todo mundo está tendo que batalhar por isso.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>CONVIVÊNCIA</strong><br />
A Vila há 32 anos era um lugar onde você tinha amigos. Você conhecia as pessoas e a relação social entre as pessoas era uma coisa muito espontânea. Hoje em dia você já chega com cuidado às pessoas. Elas precisam lhe conhecer, saber quem você é, para ficarem mais à vontade. Daí também o papel da associação é bom por isso. Porque é um espaço onde as pessoas se dão a conhecer. Mas essa diferença é fundamental: o convívio era outro, antes nós convivíamos muito perto, como numa cidade do interior. Aqui foi interior até muito pouco tempo atrás, porque não tinha asfalto, vinha quem tinha negócio mesmo. Não tinha os prédios &#8211; que é o grande volume de pessoas novas  &#8211; então era uma história muito diferente.<br />
Ainda tem ruas sem asfalto. Ter asfalto ou não ter asfalto não é bem o foco. O foco é que, quando vem o asfalto, ele libera para a velocidade mesmo, libera para o automóvel. Pedestre que&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">É feito o asfalto, mas sem uma ciclovia. Aqui o povo todo usa bicicleta, que é o transporte mais barato, mas não tem o cuidado de construir uma ciclovia, os pedestres muito menos&#8230; E os carros&#8230; Doidos por essas ruas. Devia ter um limite de velocidade. Até hoje não tem. Então são coisas assim, detalhes, que quando você chega num lugar, você tem que manter o contexto desse lugar. Nós não estamos numa Paralela, onde ninguém mora ao redor. Pelo contrário, estamos numa rua onde todo mundo passa andando a pé, despreocupado e hoje isso não é mais possível.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>MORADORES</strong><br />
Existe o fazendeiro original que loteou tudo isso, que é Doutor Jorge lá na esquina. Ele ainda está aí. Existem alguns vizinhos aqui que já estão há bastante tempo também. Vieram escolhendo esse lugar de sítio, para criar os filhos em contato com a natureza. Dona Rosa. Então existem algumas pessoas que estão aqui há muitos anos! Quem mora fica. Quem mora ainda está aqui. Os sítios que foram vendidos são de quem não morava, nunca morou, porque ainda é uma boa morada!</p>
<p style="text-align:justify;">Associação de moradores tem duas: tem uma lá na Vila Dois de Julho mesmo, mais antiga, e tem essa Amovila, mais nova. A gente procura trabalhar em conjunto, na medida do possível, e quando não é possível, cada um tocar em benefício do bairro. O objetivo dos dois, das duas associações é esse.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>EXPECTATIVAS</strong><br />
Eu estou vendo que o bairro enchendo de escolas, de faculdades, agora é preciso que ele criem um contexto mais favorável para os próprios moradores, que seja mais humano. Essas atividades de cultura e de esporte, que elas aconteçam dentro de um clima mais abrangente, para que as pessoas se sintam incluídas. Senão, vai ser um bairro aonde apenas as pessoas vêm estudar, a maioria com carro, estacionam, vão embora e pronto. Elas só vão aos bares, só consomem e não existe uma ligação, uma humanidade que atraia mais. Eu acho que a gente precisa reforçar esse ponto. Um senso de humanidade, de solidariedade, bem maior do que existe hoje. Aí vai ser bom.</p>
<p style="text-align:justify;">Alba Liberato nasceu em 20 de outubro de 1944<br />
Entrevista realizada em novembro de 2007</p>
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		<title>Anselmo José Santos</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Jul 2008 14:31:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Soteropolitanos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Anselmo Jose Santos]]></category>
		<category><![CDATA[candomble]]></category>
		<category><![CDATA[Estrada Velha do Aeroporto]]></category>
		<category><![CDATA[mokambo]]></category>
		<category><![CDATA[sacerdote]]></category>
		<category><![CDATA[Vila Dois de Julho]]></category>

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		<description><![CDATA[
O sacerdote Anselmo Santos mora desde 1988 nas proximidades da Avenida Paralela  e Estrada Velha do Aeroporto. Em 18 de janeiro de 1996 inaugurou o Terreiro Mokambo, onde realiza trabalhos sociais voltados para a comunidade da Vila Dois de Julho e entorno.
Olha, meu nome é Anselmo José da Gama Santos. Eu sou sacerdote de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com&blog=1555239&post=65&subd=soteropolitanosdaestradavelha&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/anselmo1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-67" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/anselmo1.jpg?w=300&#038;h=329" alt="" width="300" height="329" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">O sacerdote Anselmo Santos mora desde 1988 nas proximidades da Avenida Paralela  e Estrada Velha do Aeroporto. Em 18 de janeiro de 1996 inaugurou o Terreiro Mokambo, onde realiza trabalhos sociais voltados para a comunidade da Vila Dois de Julho e entorno.<span id="more-65"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Olha, meu nome é Anselmo José da Gama Santos. Eu sou sacerdote de religião de matriz africana, aqui do Terreiro Mokambo. Nasci dia 19 de fevereiro de 1955. Eu nasci em Realengo, no subúrbio. Na realidade, o nome era Real Engenho. E se escrevia Real Engo, com o “ozinho” pequenininho no final. E aí o povo,  com muita astúcia: realengo, realengo, realengo e ficou. Realengo é onde ficou preso Caetano Veloso, Gilberto Gil, na época da repressão. É uma área militar no Rio de Janeiro. Se vocês quiserem alguma coisa a mais, tem o site da gente que é  www.terreiromokambo.org.br. Aí tem o histórico daqui da casa.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu sou bacharel em secretariado executivo pela Universidade Católica do Salvador. Faço um curso de pós-graduação, a nível de mestrado, de educação e contemporaneidade na Uneb. Eu viajei pelo Brasil inteiro. Eu viajei pelo mundo inteiro. Eu sou bacharel em secretariado executivo, mas me tornei profissional de televisão. Hoje, se me perguntarem:<br />
- Que profissão você tem?</p>
<p style="text-align:justify;">Eu sou produtor executivo, produtor de jornalismo, produtor de programas de turismo, produtor de eventos.</p>
<p style="text-align:justify;">Hoje eu não faço mais nada. E não foi a minha formação. Eu entrei na televisão para ser secretário do gerente de eventos da TV Bahia. A partir dali a minha vida mudou. Eu deixei as minhas tarefas, enquanto secretário executivo, para desenvolver tarefas de jornalismo. E comecei a aprender uma série de coisas. Veio campanha política e o QG da campanha era na minha sala. Eu aprendi a fazer lauda. Aprendi a fazer um monte de coisas! E dali eu me tornei um profissional de TV. Na minha profissão mesmo eu trabalhei um ano e o resto foi trabalhando em comunicação.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas a minha atividade é sacerdote de religião de matriz africana. O que não significa profissão. É um sacerdócio. Eu me dedico hoje a isso. Exclusivamente! Aqui é o Terreiro Mokambo. É uma história interessante, se vocês quiserem ouvir.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>TEM QUE TER CHÃO</strong><br />
Eu morava num condomínio ali em baixo, condomínio Aldeia das Pedras, e eu vim morar aqui em 1988. A gente ouvia falar algumas coisas daqui de cima, mas ainda não tinha nada. Em 1988 essa Paralela era só mato. Depois, já no final da década de 80, é que eu vim comprar o lote aqui. Candomblé não é uma coisa pré-estabelecida como as pessoas pensam hoje. Ser sacerdote de candomblé é uma missão, porque candomblé não é uma religião de escolha, é uma religião de escolhidos. Você está na religião, mas você não sabe se vai ser escolhido pela ancestralidade da tradição étnica que você representa, para dar manutenção a essa tradição. Você se forma com 50 colegas. Nem todo mundo vai exercer a profissão, outros vão tomar outros caminhos. No candomblé acontece exatamente assim.</p>
<p style="text-align:justify;">E aí a gente olhava, de baixo, olhava para cá e eu não sabia nem o que tinha, porque eu nunca tinha vindo aqui. E aí foi um negócio muito interessante o que aconteceu. Eu vim com uma amiga minha, e ela me disse:<br />
- Ah, Anselmo, ali estão vendendo uns lotes, um loteamento, você não quer ir lá ver?.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu disse:<br />
- Vamos, porque eu estou precisando.</p>
<p style="text-align:justify;">É uma outra peculiaridade das religiões de matriz africana: elas necessariamente têm que ter terra, têm que ter chão. Elas não podem ter nada em cima, nem nada embaixo. Então quando você vê alguma coisa de religião de matriz africana com alguma coisa em cima ou embaixo, desconfie, porque tem alguma coisa de errada, porque são os elementos que a gente precisa. É a parte do céu, que é lá em cima, e a terra.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>COINCIDÊNCIA</strong><br />
E o que acontece? Quando eu vim para cá, para comprar esse terreno, eu comprei de um rapaz. Eu morava antes na casa da minha mãe-de-santo. Sou filho de Mirinha do Portão, que era filha de Joãozinho da Goméia. Todos os dois foram lendários no candomblé, tanto ele como ela. Se eu tiver um pouquinho do brilho deles para mim, já vou me dar por satisfeito. Porque eles foram pessoas que revolucionaram dentro das religiões de matriz africana, com os recursos que eles tinham na época. Seu João foi de 1932 para cá, e minha mãe foi de 1945, 1950, para cá. Eles fizeram um trabalho muito bonito dentro da religião e é o que eu pretendo seguir.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu morava com ela, que já vivia em segundas núpcias com uma pessoa maravilhosa. Eu me dava com ele, sabia que ele tinha outros filhos de outro casamento, mas nunca conheci ninguém da família anterior dele. Bom, aí, vim e comprei esse terreno na mão de um rapaz chamado Rubens. Preparei a documentação toda e ficou faltando um documento. Eu fui para casa me questionando:<br />
- Meu Deus, como é que eu comprei um negócio daquele?</p>
<p style="text-align:justify;">Olha como é que é aqui: um declive&#8230; Na época, eu não tinha nenhum meio de acesso para chegar na parte mais plana do terreno. Mas, enfim, já tinha feito. Eu não sou uma pessoa de voltar atrás naquilo que eu faço. Falei:<br />
- Bom, vou levar o documento que está faltando.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu vim trazer o CPF. Ele não estava, aí fui falar com a esposa dele. E ela:<br />
- O senhor vai abrir uma casa de candomblé?.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu falei assim:<br />
- Não, eu quero fazer uma casa, porque eu quero trazer meus santos para ficar aqui, mas eu não quero necessariamente abrir uma casa de candomblé.<br />
- A minha sogra é de candomblé.<br />
- Tudo bem.</p>
<p style="text-align:justify;">Conversa vai, conversa vem, não sei o que eu falei de Portão e ela disse:<br />
- Ah, você é de Portão?</p>
<p style="text-align:justify;">Eu disse:<br />
- Sou.<br />
- Ah, porque minha sogra é de Portão.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu falei:<br />
- Ai, meu Deus do céu, minha filha, me diga logo quem é a sua sogra.<br />
- Mirinha do Portão.</p>
<p style="text-align:justify;">Olha, se não é uma coisa predestinada. Eu comprei o terreno na mão do enteado da minha mãe-de-santo, sem saber, sem nunca ter conhecido. Aquilo, na hora, me arrepiou dos pés a cabeça. Eu sempre achei que eu não tinha que ser pai-de-santo. Eu tinha que ser qualquer outra coisa. Eu adoro a religião, sempre gostei, mas eu sempre fui muito cético em relação a certas coisas. E eu achava os pais-de-santo tão assim, sabe? Tão lúdicos. Ah, meu Deus, não é comigo isso! Eu não sou de chegar num lugar:<br />
- Ah, isso aqui está carregado! Olha, minha filha, cuidado com isso.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu não sou assim, não é de mim! Eu, para sentir alguma coisa, leva um tempo. Eu falei:<br />
- Meu Deus, isso não é comigo.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas acabou sendo. Esse foi o primeiro sinal que eu recebi de que realmente eu tinha que estar nesse caminho.</p>
<p style="text-align:justify;">E aí, depois dessa coincidência toda, comprei o terreno, limpei tudo e fomos  iniciar as coisas da casa. Aqui não tinha nada, só tinha mato, só mato. Tudo nós começamos aqui do zero, do chão mesmo. Tudo que você vê edificado hoje foi de 1991 para cá. Tudo. Aqui não tinha nada. E, aí, vamos ajeitar aqui, ajeita dali e a casa foi tomando forma. E o que que acontece? Precisou se chegar na documentação. O que é que eu tinha? Uma promessa de compra e venda. E o que que acontece? Nós temos uma entidade que representa o candomblé civilmente: é a Associação Beneficente Pena Dourada. Essa é a entidade que tem como objetivo principal ser a entidade mantenedora do terreiro e fazer com que através dela eu capte recursos para o desenvolvimento de projetos sociais que venham melhorar a qualidade de vida da comunidade da Vila Dois de Julho e do entorno. Porque tem Nova Brasília, tem Vila Mar, tem Jaguaripe, enfim&#8230; Quer dizer, o que não falta é afro-descendente pobre para eu ajudar aqui.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>BEM E MAL<br />
</strong>O candomblé tem essa característica, de ser acolhedor, sempre teve, mas do portão para dentro. Até por conta de muito preconceito, de muito estigma negativo. Falta realmente de conhecimento. Hoje, eu sou uma pessoa que tenho 32 anos de iniciado no candomblé e se você me chamar:<br />
- Então, você pode fazer uma palestra aqui na faculdade sobre a Bíblia, sobre o Alcorão, sobre a Torah?</p>
<p style="text-align:justify;">Eu declino do convite na hora:<br />
- Você me desculpe, mas eu não domino esse assunto para ir para a frente de um monte de gente para falar sobre isso. Me chame para falar de candomblé e eu falo até amanhã de manhã, sem cansar.</p>
<p style="text-align:justify;">É uma coisa que eu gosto, que eu domino e que eu estou me aprofundando cada vez mais, tentando desestigmatizar, melhorar a visibilidade que as pessoas têm da religião, “desdemonizar”, que é uma coisa fantástica que eu acho. Quando a gente não tem conhecimento, a gente briga, né? Eu estou no candomblé e não vejo nada desse negócio de mal que todo mundo fala! Como é que pode um negócio desse? Aí, depois, você vai estudar&#8230; Cristo é um gatinho, nasceu outro dia, tem 2007 anos. O candomblé tem mais de 5 mil anos! Se essa base religiosa existe há mais de 5 mil anos, como é que eu é que vou cultuar o diabo? O diabo é um elemento litúrgico criado nas religiões cristãs. O candomblé não tem nada a ver com essa história. O que passa é a coisa do sincretismo, que é outra história. Mas a essência do candomblé nem passa, porque  no candomblé não tem bem e mal.</p>
<p style="text-align:justify;">O candomblé tem certo e errado. Porque tem certo e errado? Porque, para nós, o bem e o mal estão dentro de você. Se você chegar e me procurar pedindo para quebrar a perna dela, não vai depender de você ou de mim. Vai depender de você chegar aqui e encontrar a resposta em mim. Se eu, como sacerdote de religião, usufruir desses conhecimentos que eu obtive durante esses anos todos para criar uma situação ruim para alguém, eu posso até conseguir. Eu acredito em tudo na face na Terra. Eu acho que Deus deixou tudo. Até se uma folha cair é com a permissão de Deus. Então eu acredito em tudo, mas eu acho que você tem que encontrar em mim outra resposta. Eu tenho que tentar demover de você a idéia de querer o mal das pessoas. Você pode conseguir o seu intuito de uma outra forma, sem que seja dessa maneira. Agora, tem gente inescrupulosa, tem gente de tudo quanto é marca no mundo. Então:<br />
- Ah, minha filha, você me dá tanto e a gente quebra as duas pernas, os dois braços.</p>
<p style="text-align:justify;">Mesmo que não aconteça nada, mas já meteu a mão no teu bolso, já tirou seu dinheiro, já lhe usou. O que eu acho bem feito, porque você paga pela sua fraqueza. Porque pior do que aquele que faz é você que acredita e que vai para lá com essa idéia. E que contribui para estigmatizar ainda mais a religião.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong><br />
</strong><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/mokambo.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-68" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/mokambo.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a><br />
<strong><br />
MOKAMBO</strong><br />
Bom, aí nessa parte de documento: vamos ver, vamos dar entrada na escritura. Até então meu endereço aqui era Rua C, quadra 8, lote 4, loteamento Vila Dois de Julho. Quando vou dar entrada, não entendi nada. Isso aqui é ligado ao subdistrito de Pirajá? Para você entender o porquê dessa outra coincidência, que não é coincidência: eu sou de manutenção da tradição banto, dos candomblés de Congo-Angola. Ou seja, é uma etnia africana de indivíduos que viveram abaixo da linha do Equador, na África Subsaariana. E se fala banto porque banto não é um povo, não é uma civilização, não é uma língua, não é cultura. Banto é uma designação que alguns estudiosos deram para um grupo de pessoas, de africanos que falam línguas que são provenientes do mesmo tronco lingüístico, que é o próprio banto. É uma língua falada há mais de 5 mil anos atrás. Então, são mais de 736 línguas diferentes entre esses povos. E que no Brasil ficou “quicongo”, “quibundo”, “umbundo”. A gente tem um conhecimento que ficou guardado nos terreiros de candomblé. Não é uma coisa de domínio da população.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí, quando vou ver o documento, tem lá o endereço daqui: Estrada Velha de Ipitanga, quilômetro 7,  subdistrito de Pirajá. Porque essas terras não tinham nada a ver com a Paralela, com nada que eu pensava. Era ligada totalmente a outro bairro. Essas terras são oriundas de uma fazenda que era chamada Fazenda Mocambo. Sabe o que é Mocambo? Mocambo era o nome que se dava às casas, às palafitas, às casas dos negros e eram as casas que compunham o centro dos quilombos. As lideranças quilombolas moravam em mokambos. E essa palavra é  quicongo, é da etnia que eu represento e eu vim para cá sem saber que era! Podia ser uma palavra em iorubá, podia ser uma palavra fon, podia ser uma palavra jêjê, podia ser uma palavra de qualquer outra língua africana. Agora, porque justamente da minha tradição? Então, isso deu origem ao nome do terreiro. O nome religioso, em quicongo, é <em>Onzó Nguzo za Nkisi Dandalunda ye Tempo</em>. Significa: Casa da força espiritual e da energia das divindades Dandalunda e Tempo. E hoje é conhecido nacionalmente como Terreiro Mokambo. A rua principal que você chega é Rua do Mocambo Ilhado. Então você vê que tudo tem uma sintonia que talvez a gente não saiba.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>VONTADE DA ESPIRITUALIDADE</strong><br />
Eu sou o 13° filho de uma família de 14 irmãos. Sou nascido no Rio de Janeiro, não sou preto, e sou pai-de-santo na Bahia. Se você for analisar, tem que ter uma missão, alguma coisa. Eu abri essa casa com 21 anos de iniciado no candomblé. Hoje as pessoas entram no candomblé, fazem qualquer “bobaginha”, sai, já é pai-de-santo, já é mãe-de-santo, já recebeu obrigação. Não é nada disso. Obrigação nenhuma habilita ninguém a ser sacerdote, como diploma nenhum habilita você a ser profissional. O diploma é uma chave que vai abrir portas lá na frente. Agora, se você não for competente, se você não for capaz&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Outro dia veio uma menina aqui. Eu sou conselheiro da FIB, faço parte do Comitê de Ética da FIB. Eu lido muito com TCC de Fisioterapia. Uma das condições para que eles defendam a monografia deles, é que seja aprovado pelo Comitê de Ética. Aí ela veio aqui falar comigo e  falou que era fisioterapeuta. Eu disse:<br />
- Ah, que bom! Eu estou com essa dor aqui &#8211; chamei ela para conversar.</p>
<p style="text-align:justify;">Ela é professora, não exerce. Fez fisioterapia, cursou, mas não exerce. Você está vendo que o diploma não habilita ninguém? Conheci advogado motorista de táxi. Como esses exemplos, tem diversos, No candomblé também é assim.</p>
<p style="text-align:justify;">Essa casa foi aberta, foi fundada no dia 18 de janeiro de 1996. Por que? Porque existia uma vontade da espiritualidade que eu conduzisse logo esse processo. A minha mãe-de-santo já tem 19 anos de morta. E passava pela morte dela. A ordem que a gente recebeu é que eu tinha que organizar tudo antes que ela fizesse sete anos de morta. Porque, se eu deixasse passar essa data, aí, a minha vida viraria de cabeça para baixo. Eu tinha 21 anos de santo.</p>
<p style="text-align:justify;">E, aí, o que que acontece? Para você ter uma idéia de que a gente se organizou para conseguir o nosso objetivo, que era não deixar passar os sete anos de morte da minha Mãe, a casa foi inaugurada dia 18 de janeiro de 1996. Ela fez sete anos de morta dia 18 de fevereiro do mesmo ano. A casa foi fundada um mês antes. Foi um redemoinho! A coisa foi acontecendo&#8230; Hoje, as pessoas chegam aqui:<br />
- Nossa, como está grande isso aqui.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu mesmo não acho, porque cada bloco, cada areia, cada brita tem o meu olhar, tem a minha supervisão, a minha mão. Quando você faz isso, você não percebe. Tem gente que veio aqui no início e chega aqui hoje e se assusta.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>APOIO PARA O POVO</strong><br />
E, aí, o que que acontece? Começou todo um trabalho&#8230; Você sabe, muito embora a nossa tradição africana seja uma tradição oral, mas na sociedade em que a gente vive o que vale é o que está escrito. Aí você começa a correr atrás para validar o seu trabalho. Começaram a acontecer diversas coisas. Eu comecei organizando a associação, criamos um estatuto, registramos em cartório. Fomos em busca dos reconhecimentos, do certificado de utilidade pública municipal, utilidade pública estadual, utilidade pública federal, inscrição no Conselho Nacional de Assistência Social em Brasília. Recebemos o certificado de entidade beneficente pelo próprio CNAS. Temos inscrição no Conselho Municipal das Crianças e Adolescentes. Temos no Conselho Municipal de Serviço Social. Isso só da instituição. Só da Associação Beneficente Pena Dourada.</p>
<p style="text-align:justify;">Nós começamos a desenvolver projetos sociais, porque o candomblé sempre foi muito procurado, em função das dificuldades de vida das pessoas do entorno. É falta de comida, é para encaminhar a um médico, morreu um parente e não tem caixão, vai se formar e não tem isso. Sempre a coisa acaba batendo aqui e como eu não tenho uma situação financeira que me permita assumir essas responsabilidades todas, com toda essa habilitação que a gente conseguiu, da entidade, a gente conseguiu bater nas portas e trazer apoio para esse povo. E nisso a gente já fez diversos projetos sociais em parceria com o governo de Fernando Henrique, com o Comunidade Solidária. Fizemos diversas parcerias com o Sebrae, parceria com o Cefet, com o Ceafro, com o Ceao, com  a UFBa, Farmácia da Terra, Omi Dudu, Malê de Balê, Olodum. Uma estilista que se chama Márcia Ganem, a gente fez um projeto aqui com ela também. Enfim, a coisa foi tomando um rumo muito grande, foi tendo muita visibilidade. Isso, o trabalho social. E o trabalho religioso também.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>TERRA ABENÇOADA</strong><br />
Eu vim despontando como uma nova liderança religiosa, pela seriedade do trabalho, pelo respeito como a gente conduz tudo.  O terreiro foi certificado como bem da cultural imaterial afro-brasileira pelo Ministério da Cultura, através da Fundação Cultural Palmares. Quer dizer,  é um reconhecimento nacional. É um pré-tombamento. Fomos reconhecidos pelo Ipac, o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia. Agora fomos reconhecidos como bem imaterial da cidade de Salvador, saiu no Diário Oficial outro dia. Eu recebi o título de cidadão baiano, que foi uma coisa também muito legal. Então tem acontecido coisas muito significativas a nível de resposta do trabalho da gente.</p>
<p style="text-align:justify;">Esse pedacinho de terra aqui é um pedacinho abençoado. É tão abençoado que dentro dessa área, eu não sabia, ficou a única fonte que abastecia toda essa comunidade antes da água encanada da Embasa. Agora eu pedi ao superintendente de Recursos Hídricos uma ajuda para manutenção da fonte. Porque ela precisa de trabalhos, uns acabamentos, umas coisas. Muito antiga, precisa mesmo e ninguém melhor que a Secretaria de Recursos Hídricos para isso. E ele ficou tão sensibilizado com esse projeto que eu mandei para ele, que ele se reuniu com o Conselho e eles criaram um fundo de apoio às fontes dos terreiros de Salvador. Eu não vou ser beneficiado, a minha comunidade, mas abri precedente para outras comunidades serem beneficiadas.</p>
<p style="text-align:justify;">A história dessa terra aqui é uma história muito bonita. Eu ainda não tive muito tempo, embora esteja fazendo um trabalho de pesquisa para meu próprio mestrado, mas eu queria me dedicar e me debruçar mais sobre o estudo dessa terra. Existe inclusive uma possibilidade de aqui ter sido um quilombo. Eu digo com sinceridade: nunca nem olhei aqui para trás, porque eu trabalhava viajando, eu chegava dos Estados Unidos e ia para outro lugar. Chegava de um lado já ia para outro. Então eu sempre olhava para frente. Eu nunca tive tempo de olhar aqui para trás, até porque não tinha nada aqui. Depois é que construíram o condomínio Asa.</p>
<p style="text-align:justify;">Não sei se vocês têm essa sensação, mas todo mundo que chega aqui tem a sensação de que está fora de Salvador. Quando descem aqui, então, se sentem em uma cidade do interior. Aqui é um remanescente de Mata Atlântica. A gente está numa área que é remanescente de Mata Atlântica, uma APC, Área de Proteção Contínua. Nós fomos contemplados no PDDU como uma área de preservação, mas que está dependendo do PDDU ser votado.</p>
<p style="text-align:justify;">Então essa é a história da casa de candomblé, a história da minha vida, que liga diretamente ao candomblé, por uma força maior. Não é por uma questão de opção. Candomblé você não opta por estar nele, a sua espiritualidade lhe leva lá. A espiritualidade afro eu acho que todos nós temos. Eu tenho um filho-de-santo francês que falava assim:<br />
- Todo mundo fala de  ancestralidade africana. E eu, que sou francês?.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí, não demorou muito se descobriu que o homem nasceu no continente africano. Ou seja, todos nós somos descendentes de africanos. Preto, branco, azul, amarelo. E aí vai mudando a luta, vai sendo outro tipo de luta.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>TODO MUNDO É TUDO<br />
</strong>Eu não acredito em reparação. Os nossos ancestrais que tiveram que apanhar, que morrer, eles já morreram, já sofreram. Então, não é pela cor da pele que eu vou reparar o que aconteceu com eles lá atrás. Eu sou a favor, sim, de uma política de inclusão justa, de uma divisão de renda que proporcione uma melhor condição de vida a todo mundo. E se, por acaso, você for pegar as periferias: é tudo afro-descendente. É  porque não houve uma política de reinserção dos escravos libertos no mercado de trabalho. Eles receberam a liberdade e não sabiam o que fazer com ela. Até porque muitos deles foram induzidos psicologicamente a se sentirem inferiores. Foi um processo muito cruel e eu acho que, hoje, a gente tem que reparar, não nesse nível de reparação, é no nível de inserir, de dar a possibilidade às pessoas de modo geral. Se essas pessoas que necessitam, se a maioria for de negro, que ótimo! Mas eu acho que a gente não tem que direcionar, porque senão vai ficar parecendo um processo de vingança, sabe?<br />
- Ah, ela fez comigo no passado, agora eu tenho que&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Porquê? Eu não fiz nada com ninguém no passado, nunca tive escravo, nunca bati em ninguém! Ser negro não é ter a pele preta. Porque eu me considero muito mais negro do que muitos que eu conheço de pele preta. Porque eu tenho a ancestralidade africana em mim e não fui eu que coloquei, foi Deus que me colocou. E o que é que eu vou fazer? Vou lutar contra Deus? Não posso, eu tenho que aceitar e desenvolver meu trabalho da melhor maneira possível. Fazer com que as pessoas entendam o que é o candomblé. Não é se converter, não é aceitar, porque o candomblé, graças a Deus, não é uma religião de conversão. Você não ouve?<br />
- Ah, no candomblé só tem viado.</p>
<p style="text-align:justify;">Sabe por que que a maioria dos homossexuais vão para o candomblé? Porque é aonde eles são acolhidos, onde eles não são discriminados. Porque o candomblé não tem o hábito de discriminar a sexualidade de ninguém, não tem esse objetivo. Como eles se sentem acolhidos, se sentem respeitados, se sentem como um ser humano, então eles procuram. Vá numas igrejas aí&#8230; Eu conheço um monte de &#8230; que são homossexuais, mas eles até se casam com meninas da igreja. A igreja católica também é outra história. Eu não tenho nada contra, mas existe uma falsidade mesmo na relação e no candomblé você não tem isso. No candomblé, se você for garota de programa, o problema é seu, desde que você não venha fazer o seu programa do portão para dentro, você pode fazer o que você quiser. Agora, cabe a mim, enquanto sacerdote, chegar para você e tentar despertar em você um outro lado que você pode ter um crescimento como ser humano melhor do que vender seu corpo. Agora, quem sou eu para dizer que você vender seu corpo está errado? Não, eu não posso julgar. A mim não foi dado o direito de julgar. A mim, foi dado a possibilidade de acolher. E, através desse acolhimento, através dessa convivência, é que a gente vê o quê que a pessoa pode melhorar, porque ninguém muda. Quando essas pessoas falam:<br />
- Ah, encontrei Jesus.</p>
<p style="text-align:justify;">Por que? Antes era cego? Porque Jesus está aí há 2007 anos. Por que encontrou agora? Aí matou, estuprou, roubou, mas “agora encontrei Jesus”. Quer dizer, Jesus sempre esteve lá, entendeu? Então ele não vai deixar de ser aquele estuprador, aquele marginal, porque foi o ato que ele cometeu, que não vai passar uma borracha, não vai apagar. Na cabeça dele pode até apagar, mas na cabeça dos familiares de quem ele maltratou, de quem ele matou, de quem ele abusou, não vai passar nunca! Então ele pode encontrar com o próprio Deus em carne, que ele não vai deixar de ser o que ele foi. E para que você esteja no candomblé, não é preciso você ter sido nada, porque todo mundo é tudo. Todo mundo é tudo. Eu conheço casos de pessoas que tinham uma convicção em relação a um assunto:<br />
- Não, é isso!</p>
<p style="text-align:justify;">E depois de passar anos, quando eu vejo, essa pessoa totalmente&#8230; Uê, cadê? Então isso para mim é uma lição, para eu aprender que a vida é dinâmica, que nós somos dinâmicos. Então não adianta você lutar para preservar uma coisa que você vai mudar lá na frente. Acho que você tem que acreditar nos seus valores e saber que eles mudam. As pessoas chegam assim:<br />
- Ah, um telecentro dentro de uma casa de candomblé?</p>
<p style="text-align:justify;">Esse é que é o grande mistério, a contemporaneidade e a tradição, caminhando juntos, paralelamente. Você não pode esquecer de quem você foi para ser quem você é e construir quem você vai ser. Agora, o candomblé vive o hoje, o hoje que é importante. Eu estou conversando com você aqui agora e não sei se eu chego de noite. A gente tem que viver os momentos como se fossem os últimos, porque a gente nunca sabe quando vão ser. Eu posso morrer hoje de noite e aí amanhã falar:<br />
- Ah, menina, estava ontem lá fazendo entrevista com ele.</p>
<p style="text-align:justify;">Como eu posso fazer 90 anos e falar:<br />
- Menina, aquelas meninas que fizeram entrevista comigo já morreram e eu estou aqui.</p>
<p style="text-align:justify;">Essa é a única certeza que a gente tem. Você pode dribrar a velhice, a medicina está aí prolongando a vida das pessoas. Existem cosméticos milagrosos. Mas, um dia, você vai morrer. Isso é uma verdade para todo mundo, dessa você não escapa. Independente de classe, de raça, de dinheiro, de tudo.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>RELIGAÇÃO</strong><br />
Eu vejo a vida como um grande grande aprendizado. Eu valorizo muito o estudo por conta disso. Porque você conhecer, você saber, te abre um monte de horizontes, te faz um ser humano mais questionador. Claro que tudo é uma faca de dois gumes. Às vezes você dá luz a cego e aquele ali se torna um Hitler da vida. Mas, para um Hitler, muitos outros que melhoraram a vida da gente tem. Então é nessa perspectiva que eu vejo. Eu sou uma pessoa extremamente positiva. Não sou motorista de ônibus, mas tudo na vida é passageiro. Você, às vezes, está numa situação extremamente angustiante, mas a vida é redonda. Amanhã, sua vida está numa situação completamente diferente da de hoje. Então você tem que ter força para poder passar.</p>
<p style="text-align:justify;">O que que as religiões fazem? É a minha definição de religião. É fazer a ligação com o ser maior. Ela faz com que você passe por esses momentos com mais serenidade, com mais tranqüilidade, com menos sofrimento, com mais clareza. Esse é o papel da religião. Não é dar homem, não é dar mulher, não é tirar ninguém do caminho, não é fazer trabalhinho disso, trabalhinho daquilo, não é nada disso. Porque, para o candomblé, a gente não está ligado a esse tipo de feitiçaria que as pessoas impõem para as religiões de candomblé e muita gente de candomblé aceita a capa e bota. Duas coisas que eu aprendi recentemente, eu faço questão de falar em toda oportunidade que eu tenho. Uma, eu ouvi uma pessoa dizer assim:</p>
<p style="text-align:justify;">Quem dorme com os olhos dos outros não tem hora de acordar.</p>
<p style="text-align:justify;">Menina, é uma coisa simples, mas se você parar para pensar, é uma coisa tão profunda. Você dormir com os olhos dos outros, é você está baseado no que alguém fala, você não ter domínio de você, da sua causa, da sua luta. Você sendo guiado, que é o que a maioria das pessoas são. Quando você dorme com seus olhos, você sabe a hora que você quer abrir os olhos. Quando você dorme com os olhos dos outros, como é que você vai saber? Eu achei isso  interessantíssimo e tenho aplicado isso. Toda hora que eu posso, eu falo.</p>
<p style="text-align:justify;">E a outra coisa é que as coisas não voltam. Os momentos não voltam. Você passou por eles, procure passar da melhor maneira possível. Você não está fazendo essa entrevista aqui comigo? Você pode fazer umas 500, mas essa vai ser única, nesse momento. Com essa disposição que eu estou. Com essa que você está. As coisas vão fluindo de uma maneira diferente. O candomblé dá muito valor à palavra. A palavra tem força. Então pode ser que numa outra entrevista eu não tenha tanta força na palavra, eu não seja tão claro. Tudo pode acontecer, até mais claro do que hoje. Mas que são momentos diferentes, são. Eu tiro pelas próprias celebrações religiosas do candomblé. Os processos de iniciação têm sempre o mesmo perfil, mas cada um é um, cada um tem uma especificidade.</p>
<p style="text-align:justify;">É por isso que candomblé não é uma religião de captar adeptos a dente de cachorro. Por isso que o candomblé respeita uma coisa no ser humano chamada individualidade. Você pode ter 5 mil pessoas na Praça de São Pedro, lá com o papa rezando. Você pode ter 5 mil pessoas dentro de uma mesquita. Você pode ter 5 mil pessoas dentro do centro evangélico. Você não pode ter 5 mil pessoas dentro do candomblé. Porque nós não temos essa coisa de massificação. Então, não adianta. Vou disputar? Não vou disputar, porque é outra realidade.</p>
<p style="text-align:justify;">As pessoas que falam e que agridem o candomblé, coitadas, elas não têm conhecimento. Porque você fala em Cleópatra, Faraó, em pirâmide. A história antiga, não é? Só esquece de dizer que isso tudo foi na África, ninguém fala. Porque não é interessante que as pessoas saibam. Jesus Cristo era judeu. Quem disse que ele era loiro de olhos azuis? E as pessoas acreditam.</p>
<p style="text-align:justify;">O que eu encontrei na religião do candomblé, é que eu não preciso de nada escrito. O meu corpo é o meu templo. A forma de expressão que existe e a forma de ligação que existe entre as divindades do panteão africano e o nós, seres humanos, é através da vida. Então, não estou desacreditando de nada, mas como é que eu vou entender uma Bíblia que vai para a gráfica, que muda uma vírgula, que muda um ponto? Não precisa ser muito inteligente para saber que muda o sentido de uma frase. E, aí, pegam diversas pessoas, sem a mínima condição&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>SABERES TRADICIONAIS</strong><br />
O candomblé valoriza muito o ser humano. O ser humano é muito bem visto pelo candomblé. Ele é cuidado. Dentro das liturgias das religiões de matriz africana, cada divindade é responsável por uma parte do seu corpo. Quando você está doente, a gente vai ver que parte é, que divindade é responsável, se a gente pode, através das infusões, dos ebós, dos sacrifícios, do que for, se a gente pode ajudar você a ficar boa daquele órgão que está doente. Ou se já chegou num ponto tão avançado que aí precisa passar por um médico normal. Porque, da mesma maneira que existem os nossos saberes, que são saberes tradicionais de comunidades remanescentes de religiões africanas, tem os saberes dos médicos. Eles estão lá estudando para quê? Até aqui eu vou, daqui eu não vou. Então, você vai morrer? Não, minha filha, vá, tente lá. Tente, vá procurar um médico, vá fazer exame, vá fazer isso, vá fazer aquilo. Tem infecções que você, com uma simples lavagem com espinho cheiroso, com alguma erva antibiótica, você fica boa. Mas de repente você está com um câncer no útero. Você acha que o espinho cheiroso vai tirar? Você tem que procurar fazer um exame de Papanicolau.</p>
<p style="text-align:justify;">Porque que a gente não tem que saber quais são os nossos limites? O candomblé não prega isso, muito pelo contrário. Determina exatamente o limite até onde vai o seu saber ancestral e até onde você tem que passar a bola para frente, porque o importante é você estar bem. E a gente faz um tratamento paralelo, um tratamento espiritual, que é desenvolvido. A gente fala espiritual até por conta de entendimento, mas na realidade a gente não trabalha com espiritualidade, a gente trabalha com energia. Os orixás da cultura iorubá, os inquices da cultura banto e os voduns da cultura jeje não são nada mais, nada menos do que energias da natureza. Para você acreditar nisso, não precisa eu te convencer. Você está vendo lá o subir e desce de uma maré. Só se você é maluco para não ver que ali tem uma energia. Você bota uma semente aqui, agora, rega, daqui a pouco vira uma árvore. Só se você for doido para você  dizer que não tem uma energia ali. Essas energias é que são de domínio dos sacerdotes de candomblé. Essas energias que eles usam para trazer malefícios ou benefícios a alguém. Vai depender de quem está aqui. E nós humanizamos muito essas relações.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/anselmo2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-69" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/anselmo2.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a><br />
<strong><br />
BAIRRO</strong><br />
Todas as vezes que você me perguntar isso, eu vou te dar a mesma resposta: eu sou apaixonado por esse lugar. Acho que esse lugar tem um clima diferente, ele tem uma magia diferente. Os habitantes desse bairro são pessoas que, na sua grande maioria, são oriundas de famílias do interior. Então, não são pessoas que se favelizaram. Isso é um loteamento de gente humilde, de  gente sem recursos, mas de um loteamento. Você sabe que todo mundo no interior tem seu cacetinho armado, tem seu pedacinho de terra, tem sua casinha de farinha. Então, quando eles chegaram aqui, chegaram com essa idéia. É por isso que eu digo, é tudo da família “Tá”: “Tá se achando alguma coisa”. Porque é difícil você trabalhar em comunidade, por conta deles já terem esse feeling de quem já teve alguma coisa. “Tenho cavalo”. E chegaram aqui querendo manter essa mesma história. E aí, quando vê que não é, que é dureza, que é competitividade mesmo, que a gente, infelizmente, vive num país do QI, quem indica. Se você não tiver quem te indique, você pode ser capacitadíssimo, mas não vai para lugar nenhum. E aí eles começam a ver que a realidade tem que ser outra.</p>
<p style="text-align:justify;">Então é um bairro que tudo que tem aqui de melhoramento &#8211; sem nenhuma vaidade pessoal -. tudo foi construído pelo candomblé. Essa borra de asfalto, essa rua&#8230; Esse bairro não tem saneamento básico, não tem asfalto. Isso tudo a gente tem tentado lutar para conseguir. Mas eu tive um filho-de-santo na casa, que era vereador na época, e, aliás, antes até, ele era responsável pelos distritos, pelas administrações regionais. Então, ele tinha a possibilidade de conseguir, nas usinas, borra de asfalto, para jogar, para melhorar, porque o pessoal daqui ia para o ponto de ônibus com saco de mercado no pé. E de manhã jogava lá. Porque nem ponto de ônibus tinha aqui. O ponto de ônibus era lá embaixo, na Aldeia da Pedras. O ônibus nem subia aqui. Então melhorou muito, melhorou muito.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>SANEAMENTO</strong><br />
Agora, é um bairro que cresceu com construções irregulares. Irregulares porque? Porque as pessoas são pobres, não têm dinheiro para contratar arquiteto, engenheiro. São mestres de obras que vão fazendo suas casas, mas tu vê que aqui não tem uma casa (até a invasão que a gente chama de Portelinha, uma invasão que deixaram fazer ali na frente), você não vê um barraco. É tudo casa de bloco. Porque? O quê que eles fizeram? Algumas pessoas daqui pegaram, invadiram para vender. E aí, sem saber, eles estavam cometendo o maior suicídio no meio ambiente. Porque aqui, por incrível que pareça, aqui atrás passa o que foi o Rio Trobogy e Rio Mocambo, que hoje está uma valeta poluída que nego joga coco, joga tudo para dentro do mato. Eu ainda consegui conscientizar algumas pessoas daqui para construir fossas sépticas, porque a gente não tem saneamento básico. Mas outras não, pegam e jogam direto lá. Quer dizer: o mosquito vai lá, pousa naquelas coisas, vem, te morde, causa doença, causa doença nos seus filhos. A gente fala isso toda hora. Tenho tido esse trabalho o tempo inteiro. Então todas essas melhorias foi através da associação daqui.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PEDIATRA<br />
</strong>A associação de moradores foi toda reformada por nós aqui. Dentro da associação de moradores tem um consultório médico de uma pessoa que vinha aqui, que foi atendido por mim, teve seus objetivos atingidos e queria retribuir de alguma forma. Falei:<br />
- Olha, você pode retribuir ajudando a comunidade. Você é médico.</p>
<p style="text-align:justify;">Então, ele foi para esse consultório, foi montando o consultório, de 15 em 15 dias ele vinha, atendia. Ele era um médico pediatra. Atendia as crianças, dava remédio. Ele ficou três anos. É sempre assim. Não tem aquela coisa? Vai atender de 15 em 15 dias, todo domingo. Só que o homem trabalha feito um f&#8230; Chega no domingo, que ele tem para descansar, vai atender os pobres. Aí, chega na hora, os pobres todos arrogantes. Ele não quer aceitar. Aquelas histórias que todo mundo já conhece. Ele acha que o pobre é arrogante, que o pobre que precisa, tem que baixar a cabeça. O pobre acha que não precisa, que não sei o quê, enfim&#8230; Nós conseguimos arrastar isso durante três anos. Ele dava remédio, de amostra grátis. Nós conseguimos um convênio com um laboratório clínico. O laboratório vinha pegar material das pessoas aqui, fezes, urina. E vinha trazer os resultados, porque as pessoas não tinham o dinheiro do transporte para ir e voltar.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>MUITA COISA</strong><br />
Nós conseguimos curso de alfabetização de adultos. Nós conseguimos com o Sebrae um curso de empreendedorismo’ para todos os comerciantes da área. Nós reformamos o telhado da igreja, a capela, que estava quase caindo. Fomos lá, reformamos. Nós conseguimos com o governo do estado aquele projeto “Minha sopa”, que vem até hoje. Foi através da nossa associação que a gente conseguiu trazer um carteiro para a comunidade, que não tinha. Foi através da associação que a gente conseguiu iluminar essa parte de baixo. Foi através de mim, porque não tinha, era gato. Menina, se eu for te contar, é muita coisa, é muita coisa. E eu sempre trabalhando em parceria com a associação de moradores, visando um atendimento ao ser humano, independente de religião, opção sexual, de cor, de tudo. Mas existem aqueles religiosos fanáticos que acham que o candomblé é a casa do diabo. Então não vou lá. Só entram na casa do diabo quando eu dou cesta básica. Aí ninguém lembra, porque fome não tem religião.</p>
<p style="text-align:justify;">Terreiro só tem eu. Se olhar igreja, necessariamente não é igreja. Nego abre uma portinha, junta um monte de gente ali. Tem mais evangélica. Evangélica deve ter umas duas, tem uma católica e tem eu de candomblé.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>CULTURA<br />
</strong>Aqui é muito carente de entretenimento cultural. Diversão de pobre da periferia é encher a cara de cachaça, cantar pagode e dar porrada nos outros. Se divertem assim no final de semana. Não é que seja culpa deles não, é que a realidade é essa. Então, meu trabalho social é muito voltado para a conscientização dos jovens, para que ele não se torne um adulto dessa forma. Porque eles não têm muita opção. Aqui, nego vai abrir um comércio:<br />
- Ah, vou abrir um comércio.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando você vê: bar. Se você contar quantos bares tem aqui&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Eu já trouxe para cá um Auto de Natal, tem uns três a quatro anos e foi maravilhoso. Foi encenado na frente da associação de moradores, foi muito bom. Eu já trouxe um projeto para cá para levar as crianças para conhecerem os pontos turísticos de Salvador. Crianças de 7 a 12 anos, se não me engano. Com lanche, com parada para almoço, aqueles ônibus bonitos. Foi uma festa, foi uma festa. Dentro dos projetos da gente aqui, teve meninos, adolescentes daqui, que nunca tinham entrado no Teatro Castro Alves. E entraram pela primeira vez. Ficaram emocionados. São essas coisas que a gente tenta proporcionar. E como existe uma coisa de uma certa intransigência com o povo evangélico &#8211; e eles sabem que aqui eles não devem entrar, são orientados para isso -, então, tudo que eu faço em benefício da comunidade, eu faço em comum acordo com a associação de moradores. Justamente para não ter esse tipo de empecilho. A única coisa que definitivamente eu não posso fazer é quando a gente tem a possibilidade de fazer alguma doação de cesta básica, que tem que ser aqui mesmo. Aí não tem como.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>ESPORTE<br />
</strong>Tem um campo de futebol lá em cima. Tem um time aqui da Vila e, eventualmente, em alguns domingos, eles jogam, mas não é nada organizado. É uma coisa muito amadorística. Eu tinha uma idéia, até falei com eles na época. No Rio de Janeiro, você não vê esses vôleis de hoje? Nasceu nas quadras do Rio de Janeiro dos conjuntos habitacionais. Então, em relação a isso, eu até falei para eles:<br />
- Vocês têm que ter uma diretoria de esporte, que crie coisas.</p>
<p style="text-align:justify;">Aqui na comunidade já era para ter um grupo de capoeira, que é uma coisa tradicional, da gente. Mas o capoeirista daqui fumava mais maconha do que jogava capoeira, aí expulsaram o cara. Agora está nascendo um outro e estão querendo ver se institucionalizam ele como um grupo. Mas acho muito difícil, porque não existe incentivo. Existe incentivo político, mesmo assim, o incentivo político daqui é muito incipiente, porque a Vila é pequena.</p>
<p style="text-align:justify;">A Vila não comporta, não comporta não, não corresponde em votos ao investimento que é necessário para urbanizar a Vila. Então, os políticos não têm interesse de entrar aqui, entendeu? Eles não têm essa visão. Fazer um concurso de dominó, concurso de xadrez.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>POLICIAMENTO<br />
</strong>Policiamento não existe. O atendimento do 190 é extremamente&#8230; Só para te dar uma noçãozinha de como acontece: eu estava aqui anteontem. As pessoas vêm a mim. Aí, liga a mulher:<br />
- Seu Anselmo, pelo amor de Deus, liga para polícia aí que fulano está aqui (o genro dela) quebrando tudo, está dizendo que vai matar a menina. Eu disse para ele que ela estava na sua casa. Eu escondi ela e disse que ela estava aí. Se ele chegar aí procurando ela, diz que ela não está.</p>
<p style="text-align:justify;">Olha a minha situação.<br />
- Mas pode ligar para a polícia que eu me responsabilizo.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu prontamente ligo para o 190:<br />
- Boa noite.<br />
- Boa noite.<br />
- Meu nome é Anselmo, eu moro aqui na Vila Dois de Julho. Meu telefone é tal e tal. Eu estou ligando para vocês porque está havendo aqui um desentendimento na casa da vizinha. O genro dela está embriagado, está quebrando tudo, está armado com faca ou com machado (não sei  o que eu falei na hora). E pode acontecer uma coisa séria e a gente queria&#8230;<br />
- Porque que ela não ligou para a gente? Porque que o senhor está ligando?</p>
<p style="text-align:justify;">Eu falei:<br />
- Minha filha, ela ligou para mim num momento que ela teve lá, pedindo para mim providenciar, porque ela não ia ter tempo de ligar pra vocês. Você não está vendo que eu estou me identificando,  que estou dando o número do meu telefone? Você está achando que eu estou brincando com você? Ou vocês estão esperando deixar para aparecer quando morrer alguém?</p>
<p style="text-align:justify;">Passou a coisa, o cara acalmou e a polícia aqui não veio. E não vem.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>CRIMINALIDADE</strong><br />
Não tem porque não tem. Entendeu? Porque as intervenções policiais que a gente precisa normalmente é nesses casos. Aqui, graças a Deus, é um lugar que a criminalidade ainda não chegou. Outro dia os meninos foram levar uma coisa de um trabalho, não sei onde foi e aí o meu carro ficou na porta e foram no outro carro. E tem um menino aqui que só não esquece a cabeça porque está grudada no pescoço. Daqui a pouco estão batendo na porta.<br />
- Aqui, Seu Anselmo, que esqueceram dentro do carro.</p>
<p style="text-align:justify;">Era carteira, dinheiro, documento, celular, tudo. Se fosse em outro lugar&#8230;<br />
Festa, aqui, tem no sábado. Então, normalmente, tem muito carro. Aí, teve uma vez, no dia seguinte, veio um menino:<br />
- Seu Anselmo, aqui o que eu achei, deve ser de algum carro daí.</p>
<p style="text-align:justify;">Uma carteira de plástico com todos os documentos do carro da pessoa.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>ALIMENTANDO CORPO E ALMA</strong><br />
Na realidade, a gente chama festa porque o candomblé celebra a vida com música, com dança, mas não é festa. É uma celebração religiosa, como uma missa, como um culto, só que é diferente. O candomblé é tão acolhedor, tão abrangente, que ele entende que você tem dois tipos de energia diferentes: a energia do seu corpo, que é o que é você, a sua força de ser, e a energia que você tem que comer para manter seu corpo em pé, para seu fígado, para seu estômago, para funcionar. Então, se você for a uma missa, acabou a missa, você vai para onde? Para casa. Se você estiver num culto evangélico, acabou o culto, você vai para onde? Se terminou uma celebração religiosa no candomblé, quando você acaba de participar da celebração religiosa, você vai para o lado de fora, você vai comer, beber, tem caruru, vatapá, refrigerante, cerveja, não sei o quê. Aí, para o candomblé, quando você for embora, você foi contemplado com os dois tipos de energias que são importantes para o ser humano: a energia da alma e a energia do corpo.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>ASSOCIAÇÕES</strong><br />
Aqui não tem um mercado. Eles vão para o Extra, vão em mercado grande. Ou então vão aqui em Nova Brasília, que tem o Portal. Eles fazem até uma promoção: se a pessoa comprar a parti de tanto, trazem as compras. Não tem uma farmácia, nem casa lotérica, escola. Aqui não tem uma escola. A escola que tem mais próxima é lá em Nova Brasília, Vera Lux, e aqui é o IAT &#8211; Instituto Anísio Teixeira. Se dá para ir andando? Tem que dar, né? Se já não tem dinheiro para o transporte e não tem transporte também. Mesmo que tivesse dinheiro, não tinha transporte. Eles saem daqui, pelo km 7, e vão andando. E aqui eles descem, passam pela Paralela, passam ali pelo Flamboyant, pela Jorge Amado, para ir para o IAT.</p>
<p style="text-align:justify;">É uma outra solicitação que a gente faz, pede. E aí o quê que acontece? Entra a história que eu falei da família “Tá”. A associação que tem aqui, tem uma que eu acho que foi fundada na época de Dom Pedro e é a mesma pessoa que está. Quando não é o vice é o sub que está. A outra é uma associação mais politizada, mais envolvida com trabalhos comunitários. Porém surgiu numa hora extremamente indevida, não tem nenhum respaldo popular, ou seja: como é que você é presidente de um país que não te elegeu? Eles são ótimos, mas também foram outros que fizeram isso porque quiseram. Quando eles falaram em criar uma outra associação, eu falei:<br />
- Gente, se você pegar uma vara e fizer assim, ó, você quebra. Se pegar 10, você não quebra.A união faz a força. Não dividam, tentem compor uma chapa com eles.</p>
<p>Essa associação que tem aqui, quando não é fulano que é o presidente, é sicrano que é o presidente. Quando não é sicrano, é fulano de novo. Sempre foi assim. Aí, agora, de tanto ser os dois, puseram um que é comandado pelos dois. E isso, se estivesse fazendo algum benefício para a comunidade, mas só traz prejuízo. O que que está acontecendo agora? Vem a outra associação, que tem conhecido não sei da onde, tem político de lá. Aí, tem reservado no mapa da Vila um espaço para a escola, um espaço para uma praça. A nova entende que a escola tem que ser no lugar da praça e a praça no lugar da escola. A associação de lá acha que a escola tem que ser no lugar da escola e a praça no lugar da praça. E, aí, vem um engenheiro da prefeitura, quando vê a p.., junta tudo e vai embora, entendeu?</p>
<p style="text-align:justify;">Mas é isso que eu falei para eles. Porque a associação nova tem um embasamento comunitário muito, infinitamente maior do que esses meninos. Para você ter uma idéia, o tal sicrano era presidente da associação de moradores daqui, tinha uma festa, ele explorava o bar para ele. Ele era o presidente, o filho era o tesoureiro, a filha era a secretária. Nepotismo é piada. É uma empresa familiar. E não ganham nada&#8230; Porque, que eu saiba, não ganham nada: prestígio.<br />
- Eu sou presidente, eu mando.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí, eu peguei, falei com os meninos. Eles queriam que eu fosse, eles sabem da influência que eu tenho, aí queriam que eu fosse para a associação. Aí eu falei:<br />
- Gente, não é uma questão de eu ir ou eu não ir. Eu tenho um envolvimento religioso, eu não posso ser de associação nenhuma. Associação que desenvolve trabalho social, já tenho a do candomblé, que eu tomo conta. Não me pergunte a fórmula, porque, se eu soubesse, eu estava rico. Vocês é que têm que achar uma fórmula de entender, de criar uma diretoria mista. E, daí, vai mudando, até que, se vocês estiverem com a razão, eles vão ter que sair. Vá no Ministério Público.<br />
- Ah! mas eles não são&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Quando eu falava para eles que eles não estavam legitimados pelo povo, é porque não estão. Se você chegar aqui e fizer uma enquete, ninguém nem sabe o que é. Aí veio uma menina, que é casada com o menino que é da associação, que é um menino gente boa, ela também é gente boa. Aí ela já vem querendo fazer um trabalho social que eu não entendi pinóia de nada&#8230; Eu não sei. Não tem nada concreto, não tem nada para dizer.</p>
<p style="text-align:justify;">Por exemplo, eu estou fazendo um projeto aqui: fabricação de velas, são meninos de 16 a 24 anos que têm uma renda familiar baixa, que têm um número de componentes dessa família mais alto, que tenham problema de risco social eminente, tem uma série de&#8230; que a gente até burla. Por que tem um mais velho que não estudou, não vai entrar? Vai. Eu prefiro ele aqui dentro estudando do que fumando maconha. A gente dá, eles vêm aqui, estudam de manhã, almoçam e vão embora. Às vezes só tem essa alimentação. E quando eu digo para você que aqui é da família &#8220;Tá&#8221;, é porque a maioria dos meninos, se você perguntar, é tudo de Nova Brasília. Daqui mesmo da Vila, só tem dois ou três. Você vive correndo atrás de coisas, trazer para cá, melhorar a qualidade de vida deles, mas eles mesmos não estão nem aí, nem vem chegando.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>ONTEM E HOJE</strong><br />
Quando eu cheguei aqui, o povo colocava saco plástico no pé para ir para o ponto de ônibus. Você saía na lama. Aqui, na minha casa, não entrava carro, porque eu fico na baixada. Se chovesse, quem entrasse, não subia. Era tudo barro, o carro ficava patinando, tanto para lá quanto para cá. E não tem outra saída. Só veio entrar carro aqui depois de asfaltar.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>VIZINHOS</strong><br />
Eu me dou maravilhosamente bem com a vizinhança. Os famosos aqui? Eu acho que dos moradores, o mais famoso aqui sou eu. Por que normalmente eu estou desenvolvendo um trabalho religioso, contra a intolerância, contra o racismo institucional. Tem sempre uma emissora de TV fazendo uma entrevista, tem sempre um jornal fazendo uma entrevista. Então, é mais por conta desse trabalho que eu desenvolvo, não é porque eu sou nenhum artista ou sou famoso. É por conta dessa luta. Mas, da minha vizinhança, próximas a mim, são pessoas extremamente amigas, não tenho o que dizer. Nunca tive uma rusga com nenhum vizinho. Moro aqui esses anos todos e não sei se é porque eu tenho uma ocupação muito grande na minha casa, então eu não tenho tempo de ir na casa de ninguém. Raramente! Eu tenho afilhados que eu ainda nem batizei, entendeu.<br />
- Ah, meu padrinho, é você!<br />
- Está bom.</p>
<p style="text-align:justify;">Tem até aqui um agora que me deram para batizar, outro ali também. Tem uma que me vê e fica doida Ela agora deve está com o que? Seis anos, por aí, não me lembro. Desde pequenininha, quando eu passava no carro:<br />
- Oi, Bia, meu amor, tudo bom?</p>
<p style="text-align:justify;">Aí eu jogava um beijo. Quando ela começou a falar, quando eu passava:<br />
- Anselmo, meu amor.</p>
<p style="text-align:justify;">E jogava beijo para mim. E hoje, se eu chegar aqui e ela estiver no portão, ela desce desbandeirada. Eu digo:<br />
- Calma, criatura!</p>
<p style="text-align:justify;">Aí vem, me abraça, me beija. Uma coisa de afinidade mesmo.</p>
<p style="text-align:justify;">Os moradores aqui são solidários demais, se ajudam muito, muito. Isso é uma coisa que a gente não pode negar. O que acontece aqui de desentendimento é a bebida. Porque a maioria dos profissionais que moram aqui são pedreiros, são ajudantes de pedreiros, carpinteiros, seguranças, empregadas domésticas, motoristas. Um povo que fica na base da pirâmide social mesmo. Que tem uma renda mínima e que a diversão é essa mesma. Não tem cinema, não tem teatro, não tem uma orientação para isso, então cai no bar, enche a cara de cachaça, a mulher do vizinho passa com a calçola de fora, ele vai lá e come. Daqui a pouco o outro sabe que comeu, vai lá, briga, dá na cara, puxa a faca e é aquela confusão. As brigas que tem aqui são essas. Teve um tempo que rolou maconha e não sei o quê e graças a Deus já fechou o bar. E agora não sei se vai continuar na Vila ou não, mas não é morador daqui. São pessoas que chegaram depois.</p>
<p style="text-align:justify;">E aqui tinha uma coisa muito interessante, que aqui todo mundo era “Joaquim de Célia”, não sei quem de não sei quem. Coisa de interior. E hoje já nem está tanto, por conta de muitos proprietários terem vendido a casa, muita gente se separou. Essa primeira que eu estava falando, que me deu a filha para batizar, eu corria atrás dela aqui, eu dava nela. Era uma velha já com 12 anos e ainda chupava chupeta. Eu ficava quieto, mas quando ela chegava, eu pegava ela assim&#8230; Menina, ela corria feito doida e eu atrás dela e eu pegava a chupeta:<br />
- Agora, vá pegar lá na minha casa!</p>
<p style="text-align:justify;">E ela, chorando, ia para casa para poder fazer queixa para a mãe que eu tinha tirado a chupeta dela.<br />
- Manda ela vim pegar! Uma moça, uma moça! Ah, você toma vergonha.</p>
<p style="text-align:justify;">Tanto que até hoje ela tem um dentão, culpa da chupeta. Sempre tive uma relação muito legal com todos, com a vizinhança e comigo mesmo era um negócio interessante. Logo no início eu morava aqui sozinho e morar aqui sozinho num lugar como esse, de baixada, e que freqüenta outras pessoas&#8230; Aí uma vez veio um povo para jogar aqui, um povo de Nordeste de Amaralina. Aquele povo com cara de “brown”, sabe? Oxente, uns quatro ou cinco&#8230; Aí, daqui a pouco, o telefone toca:<br />
- Seu Anselmo, está tudo bem aí?</p>
<p style="text-align:justify;">Eu falei:<br />
- Está.<br />
- Não, é que eu vi um pessoal entrando aí.<br />
- Não, pode ficar tranqüila, é gente conhecida.</p>
<p style="text-align:justify;">Alguém sempre fica de olho. É uma faca de dois gumes. É forma de você monitorar a vida do outro, mas é uma forma de você ajudar.</p>
<p style="text-align:justify;">O mal da Vila é a bebida. E agora que estão introduzindo alguma coisa de maconha, mas não sei se chega a ter alguém tão maconheiro a esse ponto. Eu tenho medo é que através dela venham outras coisas. Porque a maconha em si&#8230; O cara acende o cigarro de maconha dele eu viro para lá, não quero nem saber. Agora depois da maconha vem o crack, a cocaína e atrás disso vem coisa de traficante cheios de energias pesadas que transformam o lugar e a população.</p>
<p style="text-align:justify;">São mais caras, mas o pessoal começa a roubar bolsa da mãe, a vender tudo dentro de casa. Vender panela, vender geladeira. A droga faz coisas horríveis com uma pessoa. Eu estava falando com um amigo ontem. Ele mora em uma casa de dois andares. Mora ele, a mãe dele e o irmão, na parte de baixo da casa. Na parte de cima, o irmão da mãe, a mulher e dois filhos pequenos. Aí, quando foi um dia, ele ligou para cá e eu  fui lá, pensei que tinha acontecido alguma coisa. Quando chego lá, foi o menino, no celular. Ligou para cá a cobrar, o pequeno. Quando foi ontem, ele me contando que os meninos são tão magrinhos, tão pequenininhos, que eles passam pela grade da porta, da janela, abrem e entram na casa da avó. Já roubou R$ 50 do tio que estava na carteira, já roubou tênis do outro. Chegou um dia, pediu ao outro se podia emprestar farinha de trigo. Aí perguntou:<br />
- Para que você quer farinha.</p>
<p style="text-align:justify;">Não tinha ninguém lá. A mãe tinha saído, para que ele queria farinha de trigo?<br />
- Ah, porque minha mãe ligou e disse para pedir para quando ela chegar fazer um bolo.<br />
- Não vou dar não. Quando ela chegar, ela fala comigo.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí saiu para trabalhar. Quando chegou de noite, a mãe dele viu a cozinha toda suja de farinha de trigo. Quando foram ver, eram eles. Entraram, abriram o armário, pegaram a farinha de trigo e levaram. Você acredita? Então é assim que começa. Eu falei:<br />
- Você falou com o pai deles?.<br />
- Ah, falei. Falei umas três vezes e não deu certo&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">O que ele fizeram? Botaram um ferro na janela, dificultaram o acesso dos meninos. Mas se eles acharem que aquele acesso está difícil, vai em outro! E aí é que cria, e isso é que eu tenho medo!</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PUXÃO DE ORELHA</strong><br />
Eu tive uma educação em relação a isso muito rígida. Eu me lembro uma vez, eu estava na escola pública, aí, no caminho da escola, tinha um armarinho. No lugar onde tinha essa escola, tinha muita enchente e nesse armarinho teve uma enchente e o estoque que ficou embaixo ficou todo cheio de água, ficou praticamente perdido. Então o rapaz botou um cesto com ofertas de linha e tal, tudo manchado. Cada um pegou e eu pum! Peguei logo o meu, é claro. Botei no bolso sem pagar. Quando eu cheguei na minha casa, eu tirei a blusa  e o carretel de linha caiu. Minha mãe:<br />
- Ué, você está tomando aula de corte e costura?</p>
<p style="text-align:justify;">Menina, até hoje, quando eu me lembro, a sensação volta. É um negócio impressionante. Quando eu vi o negócio caindo:<br />
- Putz, grila, agora que lascou!</p>
<p style="text-align:justify;">Aí eu disse:<br />
- Ah, não, mãe, um amigo que me deu.<br />
- Que amigo?<br />
- Ah, não&#8230;<br />
- Vamos lá, vem cá.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu sei que ela me encostou na parede de um jeito que eu contei que estava lá e eu passei e peguei. Ela me pegou pela orelha e foi me levando até lá com o carretel de linha na mão. Quando chegou lá:<br />
Aqui, moço.<br />
- Fala o que você veio fazer!</p>
<p style="text-align:justify;">Aí eu:<br />
- Eu vim entregar o carretel.<br />
- Levanta!</p>
<p style="text-align:justify;">E tinha que falar olhando para a cara do homem. Não era assim de cabeça baixa não. Menina, se o chão abrisse e eu entrasse para mim era mais fácil. Aí o moço:<br />
- Não, pode deixar, a gente viu, é porque é criança.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí, minha mãe falou assim:<br />
- Não, é de criança que começa. Hoje é um carretel de linha, amanhã ele está com uma arma levando seu dinheiro.</p>
<p style="text-align:justify;">Nunca me esqueci! Podia cair o que fosse, que eu passava e não pegava. Eu passava, mas o que? Ave Maria! E hoje eu não vejo isso. Entendeu?</p>
<p style="text-align:justify;">Aqui eu ainda sou desse jeito. Aqui, se os meninos fizeram alguma coisa, tem gente que fala em casa:<br />
- Olha, eu vou falar com Seu Anselmo, hein.</p>
<p style="text-align:justify;">Porque se eu ver, eu pego. Se chegar perto de mim e eu souber que está fazendo alguma coisa de errado. Eu pego, dou tapa. Se a mãe gosta, se a mãe não gostar eu não quero nem saber. E aí elas mesmo no fim acabam gostando. Porque se falar com Seu Anselmo, todo mundo murcha a bola.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>CERCADO DE CIDADÃOS</strong><br />
Essa situação a gente criou convivendo. Por isso que eu digo que a vivência aqui é uma vivência legal. Eles mereciam mais oportunidade, mereciam mais chance, mereciam ter uma rua saneada, são trabalhadores. Infelizmente, de um modo geral a gente vive num país onde, quem constrói&#8230;  Isso já é uma coisa bem histórica. É o caso clássico do pedreiro e do arquiteto. Quem constrói é o pedreiro e quem leva a fama é o arquiteto. Não desmerecendo o arquiteto, mas a gente sabe que esse povo é sofrido, que dá um duro danado. Que sai de manhã para trabalhar e leva esse país nas costas e que não tem uma condição de vida melhor. Por isso a minha preocupação. Não é paternalismo não. Eu acho que, se eu não fizer direito o que eu acho que é o meu papel hoje, amanhã, ao invés de eu estar cercado de cidadãos, eu vou estar cercado de marginais. Então, é meu papel enquanto cidadão tentar ajudar o outro. Enquanto sacerdote é ajudar mais ainda. Para mim, quanto mais eu me doar em relação ao outro, eu acho que mais benefícios eu tenho. Comigo mesmo, com a minha espiritualidade, com meu crescimento pessoal. Com o crescimento da casa, das pessoas que freqüentam a casa. Eu acho que isso que é importante.</p>
<p style="text-align:justify;">Entrevista realizada em novembro de 2007</p>
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		<title>Lourenço Cerqueira</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Jul 2008 19:18:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Soteropolitanos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Lourenço Cerqueira]]></category>
		<category><![CDATA[comerciante]]></category>
		<category><![CDATA[Estrada Velha do Aeroporto]]></category>
		<category><![CDATA[Vila Dois de Julho]]></category>

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O meu nome é Lourenço, Lourenço Ramos de Cerqueira. Nasci na Fazenda Queimada, na cidade de Antônio Cardoso. Com meus 18 anos vim para Salvador. Trabalhei de cobrador. consegui um dinheirinho, botei uma venda no interior, na roça, onde meu pai tinha venda, onde fui criado, praticamente. Eu tomava conta em adolescente. Eu estudava e [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com&blog=1555239&post=58&subd=soteropolitanosdaestradavelha&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/lourenco.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-59" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/lourenco.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">O meu nome é Lourenço, Lourenço Ramos de Cerqueira. Nasci na Fazenda Queimada, na cidade de Antônio Cardoso. Com meus 18 anos vim para Salvador. Trabalhei de cobrador. consegui um dinheirinho, botei uma venda no interior, na roça, onde meu pai tinha venda, onde fui criado, praticamente. Eu tomava conta em adolescente. Eu estudava e tomava conta da venda do meu pai. Vim para Salvador com 18 anos, arrumei um dinheiro, voltei, e passei mais seis anos com essa venda no interior.<span id="more-58"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Com 29 anos eu me casei e fui para São Paulo. Passei cinco anos em São Paulo, me dei muito bem em São Paulo. Trabalhei em metalúrgica, trabalhei em fábrica de tecidos, trabalhei em fábrica de veneno, Bayer do Brasil, por sinal Baygon, uma firma que muito me marcou, me ajudou muito. Depois eu vim embora para Salvador. Com o dinheirinho que eu trouxe de São Paulo, comprei um terreno aqui na Vila Dois de Julho, fiz minha casa, passei a morar. Depois trabalhei no CIA, nessa mesma firma, Bayer. Consegui um dinheiro, comprei aqui na Heidi Carneiro, que eu morava lá embaixo na outra rua, Rua Fé em Deus. Comprei aqui e mudei para aqui. Botei uma bodega e mudei para aqui, aonde eu estou hoje. Fiz minha casa em cima, e tenho minha quitanda embaixo e vivo minha vida. Tem 17 anos que eu tenho essa quitanda. Eu tenho 60 anos. Tenho uma filha, a mulher e meu netinho. Quatro pessoas na minha casa. Eu trabalho aqui, minha esposa trabalha, faz reforma de roupas e tal. Trabalha também para me ajudar. E nós vivemos uma vida razoável. Minha filha também trabalha. É uma vida razoável.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PRIMEIROS TEMPOS</strong><br />
Aqui começou como uma vila pequena. Trabalhamos aqui para fazer a igreja, associações, carregando água na cabeça, sem água, sem luz. Batalhamos e chegamos numa vila que hoje é importante, pequena, o pessoal é humilde e não tem muita bandidagem. A gente consegue controlar, está em controle do pessoal mais velho aqui ainda. Os meninozinhos que têm mau costume ainda respeitam a gente.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando eu cheguei aqui, todas as ruas não tinham asfalto, não tinha nada. Tinha mais ou menos umas 10 a 20 casas. Tinha poucos moradores. A gente apanhava água numa fonte que tinha lá embaixo. Era uma mina, uma fonte que a gente fez. Ali a gente pegava água para beber, para lavar roupa, para tomar banho. Pegamos muita água dessa fonte para fazer associações. Fazer a igreja. Tudo foi água que nos pegamos na cabeça para trazer para aqui.</p>
<p style="text-align:justify;">Não tinha luz. Era luz de aladin, candeeiro, vela. E disso para cá foi aumentando. Teve um vereador amigo da gente, o saudoso Ednildes Espírito Santo, que foi o vereador que contribuiu com a gente, com essa partezinha de asfalto que nós temos hoje aí. Esse asfalto foi o ex-vereador Edinildes Espírito Santo.<br />
Depois disso, não tivemos mais nada feito aqui nesse loteamento. Os governos nunca olharam para o lado daqui. Sempre vem governo, tem alguns nas épocas das eleições, e não voltam mais.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>SEM ESCOLA</strong><br />
A única coisa que aqui precisa muito, muito mesmo é uma escola. As crianças da gente estudam em Nova Brasília, Estrada Velha do Aeroporto. Por sinal tem muitas crianças aqui que já foram atropeladas na Estrada Velha, andando para as escolas. E a gente vive correndo atrás de uma escola nessa vila. Tem escola aí particular. Por sinal, para meu neto, eu pago R$ 30 de carro, ou é R$ 35, para ir para a escola e voltar de carro. Porque ele estuda lá no km 6, no Vila Mar, na Escola Maria Elisa. Então, aqui o que nós precisamos muito mesmo é de uma escola. É arrumar rua, é rede de esgoto, nós não temos nada aqui feito pelos governos. Os governos não fazem nada por aqui. Tudo o que a gente tem aqui foi quase feito por nós mesmos. A não ser Edinildes Espírito Santo, que fez alguma coisa pela gente, quando era vivo.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/oral.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-62" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/oral.jpg?w=300&#038;h=400" alt="" width="300" height="400" /></a><br />
<strong><br />
DIA DOIS DE JULHO</strong><br />
A melhor coisa que a gente tem aqui é a festa de aniversário do bairro, dia dois de julho. Foi uma festa que a gente fez muito bonita. Veio muita gente de todos os cantos, de toda Salvador. Nós fizemos uma festa aqui com uma vereadora que chamou a atenção do bairro, foi muito bonita, tinha mais de duas mil pessoas. Encheu essa vila aqui de gente. Dos últimos tempos para cá, a gente não está podendo mais fazer esse tipo de festa. Está tendo muita bagunça. O pessoal está com muito medo de fazer a festa, muita agressão. Mas no dia em que eu for presidente desse bairro aqui, eu vou continuar fazendo essa festa, porque foi a melhor coisa que teve aqui nessa área, foi essa festa do aniversário do bairro Dois de Julho.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>ESPORTE</strong><br />
A gente já fez aqui vários campeonatos de baralho, buraco. Campeonato de dominó a gente faz direto, todos os anos. E temos o campo de futebol ali, que por sinal está até disputando campeonato esse ano. Muitos times de todos os cantos da Bahia vêm disputar campeonato aqui no nosso campo. Temos um time aqui que está disputando campeonato também.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>VIZINHOS</strong><br />
Todo mundo se conhece, todo mundo se trata bem. Temos os nossos amigos velhos aqui, os primeiros amigos que moraram aqui. E aí as pessoas que vão chegando vão se unindo a gente. É tudo legal, tudo bem, aqui não tem negócio de problema de briga de vizinho. Não existe isso. Todos aqui somos amigos, somos irmãos. Agora assim, pessoas, cachaças, essas coisas a gente releva, é uma coisa que se passa, uma confusãozinha de briga de cachaça. Essas coisas a gente deixa para lá.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>AVANÇOS</strong><br />
Quando nós chegamos aqui não tinha nada. Hoje já melhorou, já tem mercado. Chegou o desenvolvimento. No bairro tem muitos apartamentos, conjuntos. Melhorou muito. Chegou asfalto na Rua Mocambo. A Rua Mocambo era bastante ruim para a gente andar, feia. Hoje em dia está tudo asfaltado, com rede de esgoto, vários conjuntos. Melhorou bastante aqui também onde a gente mora. As casas aqui eram falhadas, não tinha quase casa nenhuma. Já fechou hoje, tem muita casa. Muitas casas boas. Melhorou muito, melhorou bastante depois que eu cheguei aqui. Só o que está faltando mesmo é os governos olharem um pouco pela nossa comunidade. Porque não olham, não fazem nada. Não tem um prédio escolar, não tem posto médico, não tem um posto policial.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>SEGURANÇA</strong><br />
Sempre que a gente chama a polícia para qualquer coisa aqui, a polícia está por perto. Eles chegam, procuram resolver. Os pequenos casos que nós temos aqui, a polícia procura resolver. Aqui não tem muito caso. Aqui, graças a Deus, está bem dominado pela gente. As coisas ruins aqui acontecem muito pouco. A polícia vem aqui, mas não consegue encontrar muita coisa. Morte, tiro, facada, essas coisas não existem aqui. Muito pouco. Existe assim, nos bairros ao lado. Aqui dentro da Vila mesmo é muito calmo, direitinho, muito bom, o pessoal é muito calmo. Mas já aconteceu: um rapaz aqui foi morto a facadas por dois marginais, e marcou muito. Mataram o rapaz dormindo, bêbado, então marcou muito. Eu só me lembro mesmo desse caso, não aconteceram outras coisas desse jeito.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/lourenco2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-61" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/lourenco2.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>ASSOCIAÇÃO</strong><br />
Essa associação foi fundada por nós, por sinal eu fui secretário. Tinha Moisés, que era o presidente. A gente trabalhou muito, correu atrás. É toda registrada, tem toda a documentação legalizada, tudo ajeitado por nós. Hoje eu me afastei porque não posso trabalhar com a associação. Tenho o meu comércio, não posso trabalhar mais com a associação. Perdi muito tempo com reuniões, para correr atrás dos órgãos do governo, eu não tenho mais tempo para isso. Mas a gente correu atrás e temos uma associação que, hoje, aqui nessa área, é uma das melhores.</p>
<p style="text-align:justify;">Entrevista realizada em novembro de 2007</p>
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		<title>Nilzete Argolo Costa</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jun 2008 17:10:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Soteropolitanos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Nilzete Costa]]></category>
		<category><![CDATA[Estrada Velha do Aeroporto]]></category>
		<category><![CDATA[morador]]></category>
		<category><![CDATA[Vila Dois de Julho]]></category>

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O meu nome é Nilzete Argolo Costa. Eu sou de 1943. Vai fazer 47 anos que eu tô aqui.  Eu estava moderna, com os primeiros filhos ainda. As duas gêmeas que eu tenho, as mais velhas, e o mais velho, que vai fazer 47 anos. Trouxe ele com 4 meses para cá. Eu mais [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=soteropolitanosdaestradavelha.wordpress.com&blog=1555239&post=53&subd=soteropolitanosdaestradavelha&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/vila.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-57" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/vila.jpg?w=320&#038;h=240" alt="Foto de Evana Marmo" width="320" height="240" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">O meu nome é Nilzete Argolo Costa. Eu sou de 1943. Vai fazer 47 anos que eu tô aqui.  Eu estava moderna, com os primeiros filhos ainda. As duas gêmeas que eu tenho, as mais velhas, e o mais velho, que vai fazer 47 anos. Trouxe ele com 4 meses para cá. Eu mais meu marido: Reinaldo José dos Santos. Filhos, agora eu tenho sete, mas eu tive 13. Os netos? 28. Tem dois pra nascer. Eu tenho um bocado de bisneto. Essas casinhas aqui todas são dos meus filhos. <span id="more-53"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Meu marido não comprou esse lote. Ele trabalhava com uma pessoa lá em Matatu. Aí, a pessoa, Dr. Sales, deu esse terreno para ele tomar conta. Ele morreu e eu fiquei. Eu sou daqui de Salvador mesmo, meu marido era de Itaberaba. Eu vim do Nordeste de Amaralina para aqui com meus filhos. Criei todos aqui, tranquilo. Eu gostava porque era mais mato. Meu marido saía para trabalhar e eu ficava aqui com eles, lutando a vida. Vendi muito na Feira de São Joaquim, vendia muita folha para ajudar meu marido a sobreviver. Folha de mato. Lavava muita roupa de ganho. Aí em cima todo mundo em conhece porque eu lavava muita roupa para sobreviver com os meninos e com ele, meu marido. Ele era pedreiro, trabalho de pedreiro e eu procurava ajudar ele.</p>
<p style="text-align:justify;">Filhos, hoje eu só tenho sete filhos. Tem uma lá no Rio de Janeiro. Tem uma em São Paulo. Tem três que moram aqui dentro desse trajeto. Tem uma que tá trabalhando. A minha filha mais nova é essa, que é do outro casal, tem 27. Arranjei um casamentozinho, mas já é falecido também. O nome do meu último marido era Nivaldo Costa. Ele era pintor. Ele não morou aqui diretamemte. Ele me dava atenção e tudo, mas não morava aqui diretamente. Morar comigo mesmo, quem morou foi o pai das meninas, desde quando comecei a vida, comecei com ele. O pai dos meus meninos.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>COMEÇO</strong><br />
Aqui era uma fazenda de mato. Ali mesmo na frente era mato. Lá para baixo era mato. A gente só ouvia a zoada do carro passar. Aí para cima não tinha casa, não tinha nada. Só tinha essa casinha minha aqui. Nessa época eu morava lá embaixo. Descia aqui pelos matos. E outra casinha lá em baixo, perto do rio, perto da finada Maria. Não tinha movimento não. Aí, depois, o dono da Etecla comprou esse terreno aí. Etecla é uma firma. Comprou esse terreno e hoje em dia tem essas casas, está fazendo esses prédios. Era Dr. Vicente, o irmão de Fernando Santana.</p>
<p style="text-align:justify;">Para pegar água, descia para uma fonte lá embaixo. E aqui também tinha outra fonte que era uma ladeira horrível. Pegava lá embaixo. Porque aqui não tinha água encanada, não tinha energia. Água encanada começou quando construíram esses prédio aí. Começou dos prédios e daí foi aumentando. E a energia começou também quando chegaram esses prédios. Até no Dois de Julho não tinha energia. Tem pouco tempo. Eu estou aqui tem uns 47 anos. Isso tem uns 10 a 12 anos.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/descampado.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-56" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/descampado.jpg?w=400&#038;h=300" alt="" width="400" height="300" /></a><br />
<strong><br />
VIZINHOS</strong><br />
Dona Alba não morava aqui. Dona Alba morava em Campinas. A minha filha trabalhava com ela. Tinha Dr. Rubens, que era da Souza Cruz, mais abaixo tinha Santa Rita, onde agora é prédio. Tinha outra chácara para cá, Sítio Mangabeira, aí chegava Alba. Ela estava construindo a casa dela ainda. Aí veio o Sítio Verde, veio o Sítio Novo, de Glorinha, veio o outro de Dona Angela, aí veio chegando gente. Jacó, ali do lado. Aquela casa sempre foi de Jacó. Era do pai dele. Depois o  pai morreu e ele ficou com a casa. Aí depois veio o pessoal ali de Seu Mascarenhas, de junto do Sítio Verde. Depois tinha outro para cá. Depois tinha Seu Muniz que criava uns gados ali em cima. E aquela parte de lá que hoje em dia está tudo cheio de casa, era mato, era mangabeira. Era fazenda, mas não tinha dono especificado. Tinha os mato, os pés de mangaba&#8230; os pés das frutas, mas não tinha ninguém.</p>
<p style="text-align:justify;">Aqui conheço todo mundo, acompanhei a chegada de todo mundo. Dona Alba mesmo, eu conheci Dona Alba há muitos anos. Eu já trabalhei pra ela. Trabalhei a primeira vez por cinco anos. Depois trabalhei mais dois. Minha tia, que é falecida, trabalhou de cozinha com ela uns dez anos. Minhas filhas já trabalharam com ela. Dona Alba conhece meus filhos e minhas filhas. Boa vizinha ela.</p>
<p style="text-align:justify;">Conheço aqui todo mundo. Glorinha também conheço, ali do Sítio Novo. Depois de mim veio chegando o pessoal do loteamento. Chegou depois de mim, do Dois de Julho. Essa moça que mora aqui nessa casa aqui, evangélica. E muitas e muitas pessoas chegou depois de mim.  As bibocas que tem aí, no Dois de Julho, Lourenço, Cristóvão, chegaram muito depois de mim. Se for contar, é muita gente.</p>
<p style="text-align:justify;">Aqui é tudo vizinho mesmo, não vou para a casa de nenhum, mas todos me dão atenção. O que é bom. Eu tenho problema de pressão. Se acontecer de me contrariar, a pressão sobe logo. Aí as meninas chamam a Samu, me levam. Aí a casa enche. A bondade é essa.  “Dona Nilzete tá sentindo isso”. A casa enche.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu me dou com todo mundo.<br />
- Dona Nilzete.<br />
- Oi.<br />
- Nunca mais eu lhe vi.<br />
- Eu tô aqui mesmo.</p>
<p style="text-align:justify;">O pessoal do loteamento, a maior parte eu conheço. A não ser esses novos, que estão chegando agora. Mas a maior parte eu conheço, tudo menino que eu vi crescer. Menino, menina, que hoje está tudo mãe de família.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong><br />
MOCAMBO E DOIS DE JULHO</strong><br />
A fazenda Mocambo já vem desde o início, que era de Dr. Jorge, que morava lá em cima. Então tinha Sítio Mocambo. Aí botaram aqui o nome Fazenda Mocambo. E hoje em dia é Rua Mocambo. Aí veio o pessoal invadindo, outros comprando, outros fazendo casa e reuniu essas casaradas todas que tem por aí.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando nós viemos para aqui, não tinha o loteamento Dois de Julho, só tinha duas pessoas que moravam: Davi e a finada Joana. Aí, Deus ajudou e construíram. Aqui não é Dois de Julho. Essa parte aqui faz parte do Mocambo. Porque esse parte aqui, quando o patrão do meu marido comprou, comprou na mão de Dr. Jorge. O Dois de Julho já veio depois. Não faz parte com o Dois de Julho, não.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/vila2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-54" src="http://soteropolitanosdaestradavelha.files.wordpress.com/2008/07/vila2.jpg?w=300&#038;h=400" alt="" width="300" height="400" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;"><strong>TRANSPORTE</strong><br />
Naquele tempo, não era como agora. Agora está mais evoluído. Eu ficava aqui. O meu marido ia para a cidade trabalhar e eu procurava ajudar. Não tinha transporte. Saltava lá no Sete de Abril, no Cajueiro, ou então pegava Pau da Lima e vinha andando aqui por dentro. E tinha o ônibus de Portão. Era o que passava aqui sempre. A gente queria sair de manhã cedo, ir numa feira&#8230; Quando eu ia vender com as colegas, pegava Portão. Quando ele buzinava de lá, a gente via daqui, subia e ficava no ponto esperando. Aqui não tinha Nova Brasília, não tinha esses ônibus que tem agora não. Nova Brasília veio muito depois. Já tinha a Estrada Velha, toda acabada, mas já tinha, não era assim como é hoje em dia não.</p>
<p style="text-align:justify;">Hoje o transporte está bom, mas em um ponto não está, porque só tem Lapa e Pituba. Às vezes a pessoa quer dar um pulinho mais rápido na rua e não tem transporte. Que ir ali na Baixa dos Sapateiro, não tem transporte, tem que pegar dois. Na Sete Portas, não pode, tem que pegar dois. Aqui só rodam duas linhas: Pituba e Lapa, que vai pelo Comércio.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>SAÚDE</strong><br />
Posto de saúde? Só lá em Nova Brasília, ou então aqui no Marback, no Imbuí. Ou então chama o Samu. Mas aqui perto mesmo não tem. Precisa de posto e de farmácia também.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>CRESCIMENTO</strong><br />
O crescimento foi uma coisa boa, porque era mato, o caminho era estreitinho, deu mais liberdade a gente. Não tinha esse caminho aí, abriram essa pista muito depois. Aí para baixo era barro. Mas em um ponto, por causa da marginalidade, é que está piorando. Quanto mais o bairro cresce, a gente fica sem tranquilidade. Lá para o Dois de Julho é meio agitado, mas aqui, graças a Deus, é tranquilo.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>USO CAPEÃO</strong><br />
O filho de Seu Sales ainda é vivo, Sérgio. Ele sempre vem aqui: “Ah, Nilzete, vou ver se eu vendo”. Mas, ele não pode mais vender, porque tem um advogado tomando conta do terreno, já loteou lá em baixo tudo. Então ele diz: “É,  Nilzete&#8230;”. Então eu fico imaginando, se ele resolver amanhã ou depois qualquer coisa e eu sair daqui. Eu não vou arrumar um lugar mais calmo do que aqui. Sérgio é filho de Sales, ficou com a responsabilidade do terreno. Ele mora em Minas, mas sempre está vindo aqui me dá alerta. Mas só que meus meninos também estão andando para poder ver, porque pelo tempo que eu estou aqui eles não podem me tirar.</p>
<p style="text-align:justify;">De uso capeão, já tá cheio, porque é 10 anos. E ainda tem mais um bocado de ano em cima,  12 anos ou 13 em cima. Então de uso capeão o direito já me deu tudo. Quando meu marido faleceu, eu morava em uma casa de taipa, estava com os meninos pequenos ainda. Depois disso eu já tive uma casinha ali onde está aquele cimento, já tive outra mais lá para cima e depois fiz essa aqui. Mas sempre aqui.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>CELEBRAÇÕES</strong><br />
O que acontece aqui é, de vez em quando, essa folia do pessoal que tem barracas. É o que me distrai, por sinal até. Eu fico daqui da porta, tenho medo de confusão. Daqui da porta, boto a cadeira, fico de noite apreciando tudo, não gosto de barraca não.</p>
<p style="text-align:justify;">No meu aniversário eles sempre fazem uma surpresa para mim, e no fim de ano, que é festa de familiar. Principalmente no Natal, fazem um churrasquinho ali fora, perto da mangueira, compram a cervejinha, a gente fica ali brincando. Nossa brincadeira é aqui mesmo, todo domingo. Minha filha que trabalha lá no Trobogy, sobe sábado. Aí fica todo mundo reunido ali em baixo da mangueira. Ali a gente brinca, bota som para tocar, um distrai de um lado, um distrai de outro, pronto. A brincadeira é essa, aqui dentro mesmo.</p>
<p style="text-align:justify;">Entrevista realizada em novembro de 2007</p>
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